sábado, 17 de julho de 2010

Madrinha X 3

Nasceu em setembro, segunda filha de um casal transatlântico: pai espanhol de Galícia, mãe baiana de Cachoeira.

O primeiro filho deles fora uma mulher, bem vinda, claro, como todos os primeiros filhos. O pai queria um homem, como todos os pais, mas veio uma mulher e, como primeiro filho, esperado, curtido, desejado, ficou tudo bem. Deram-lhe o nome da avó paterna, uma espanhola que viu os seus filhos deixarem a terra, um a um, a fugir de uma guerra civil, que acabava com a juventude masculina da Espanha.

Três anos depois, uma nova gravidez. Aí sim, imperdoável, tinha de ser um rapaz, para receber o nome do pai, ser macho, tornar o genitor orgulhoso.

Àquela época o sexo do bebê era mesmo uma surpresa, ficava por conta, tão somente, das adivinhações e das crendices. Se a barriga era pontuda, era homem, se a barriga era arrendondada, seria mulher. Se a mulher, durante a gravidez, tivesse muita azia, o bêbê seria cabeludo. Muitos outros “ses” davam a indicação do sexo da criatura que estava sendo formada.

Nove meses de espera e incertezas. As roupas, se para homens, azuis; se para mulheres, rosa. Na dúvida, branco e verde resolviam, quem sabe nascia um bissexual.

O certo é que, num dia de setembro, após três idas diferentes ao hospital espanhol, que ainda existe e fica num dos mais aprazíveis lugares de Salvador, na Barra, entre o Porto e o Farol, numa localização espetacular e uma visão dos deuses, nasce o segundo filho do casal.

Ansiedade dos pais! Qual o sexo do bebê? Á enfermeira anuncia: É UMA MENINA!

Que decepção para o genitor, que nem mesmo tinha se preocupado com o nome que iria dar ao rebento se mulher fosse, porque o desejo do filho homem era tamanho e a perpertualidade de um nome espanhol horroso, talvez único em toda a Espanha e no Brasil, neste último então é que seria mesmo único, pois ninguém normal teria a idéia de colocar aquele nome em uma criança, que não se preocupara com isso.

Nasceu a criatura em um parto difícil, pois veio de bunda. Por isso, talvez, a sua estrela tenha apagado naquele momento. Pense aí: alguém nascer já de bunda para o mundo. Pois, desde ali, já se fizera notar e indicar que seria um pouco diferente dos demais.

Bom, feliz ou infelizmente, a criatura nasceu sadia, mas tinha de ser registrada para passar a existir oficialmente, e aí? Qual seria o nome daquele troço que ali estava frustrando os sonhos dos pais de terem um filho homem?

A mãe, porque a primeira filha tinha o nome da avó paterna, decidiu colocar, agora, o nome da sua própria mãe. Felizmente que o pai não concordou, porque com aquele nome, se já a consideram “uma mulher de verdade”, aí é que seria mesmo, de fato e de direito. A música popular por Ataulfo Alves que o diga, pior ainda a versão do pessoal do sambão da faculdade de direito: Ficaria sendo a mulher de verdade, a que não fazia exigência, a que seria a subserviente, e que sempre estaria disposta a agradar o seu homem em todos os sentidos.

O genitor não concordou, não queria esse nome, sugeriu outro; um bem espanhol e que também a faria única e iluminada: O nome seria “LUZ”, mas não uma luz qualquer, a luz seria “DIVINA”. Pense aí gente: Uma pessoa ser chamada de “LUZ DIVINA”.

Genitora não concorda. Não se chega a um bom termo.

A notícia do nascimento já havia se espalhado e a madrinha já estava arranjada, mas isto era independente do rebento ser homem ou mulher, tinha sido escolhida há muito. Seria uma tia-mãe do genitor, aquela que o trouxe da Espanha e com quem ele e os irmãos conviveram durante muito tempo. Uma espanhola galega, pequenina, que vivia para o lar e para o seu marido e sobrinhos, e sobrinhos netos, mas que não saia de casa para nada.

As visitas começaram a chegar, e a discussão pelo nome não acabava. De repente chega uma prima do genitor, uma que tinha um nome de uma pedra preciosa de muito valor e que já era madrinha da primeira filha do casal. Uma mulher forte, grande, bonita. A discussão acaba: escolheram o nome da criaturinha, seria aquele, o nome daquela prima. Uma pedra verde. A prima, feliz, fica emocionada, o seu nome naquele ser pequenino, que atenção dos pais. Descobriu que era importante para eles e fica muita agradecida pelo gesto dos primos, sente-se meio protetora da criança, uma madrinha, talvez.

Dia do batizado. Igreja da Conceição da Praia. La estava a criança, já oficialmente registrada com o seu belo nome de uma pedra preciosa, aliás, preciosissíma.

A madrinha escolhida, por não sair de casa, mandou a sua representante, uma tia solteirona que pensava ser a poderosa, aliás, faleceu querendo controlar a vida de todos, o que fez, inclusive com os padrinhos do rebento, eles que o digam e que a perdoem onde estiverem.

A representante tomou ares de titular, carregou a menina durante a cerimônia e fez a sua representação da melhor maneira possível. Resultado desta representação solene: Ela tomou ares de madrinha mesmo e se comportou como tal, ali e alhures e por todo o tempo, durante e depois.

Assim, aquela pedra preciosa, que já nascera de bunda, e, portanto, já marcara a sua diferença, passa a ter três madrinhas: A oficial que, por não sair de casa, era de direito, mas não de fato; a representante, que era de fato, mas não de direito, e uma que nem era de fato e nem de direito, mas se elegeu como tal por causa do nome que colocaram na criança, sua xará.

Esta particularidade lhe gerou, no seio familiar, muitas brigas e invejas, todos os primos tinham inveja dela, porque ela ganhava presente, nas datas em que estes eram obrigatórios, de três madrinhas: Páscoa, Natal, aniversário, tudo sempre multiplicado por três.

Talvez por isso, tenha crescido com tanta responsabilidade, tudo na sua vida multiplicado por três. A única coisa que ainda não foi multiplicado por três, isto em termos de entrada, porque em termos de saída o multiplicador conseguiu crescer muito mais, foi o dinheiro. Ah! Também uma outra coisa ainda não se multiplicou por três: Os maridos! Mas ela ainda tem tempo de colocar isto em ordem...