quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tudo na mesma



Sai do arquivo as 12:00hs, porque era sábado dia que funciona até este horário, e resolvi que iria andando porque queria conhecer a Av. Júlio Nyerere. Sai da Rua da França, onde fica o portão do Campus da Universidade Eduardo Mondlane, onde está o barracão do arquivo, e segui pela Avenida Kenneth Kaunda. Rapaz, que surpresa!

Esta Avenida, do lado direito de quem vem da Vladimir Lenine é o bicho. É uma avenida de duas pistas largas, separadas por um canteiro no meio. Começou a aparecer muitas casas boas, mas muito boas mesmo, casas enormes, com dois ou mais andares, bem arquitetadas, parecia que eu tinha saído do Maputo, que até então conhecia.

A Avenida está limpa, não há lixo acumulado, nem tampouco contentores abarrotados de lixo derramando a podridão pela rua. Continuo a andar, vejo muitos seguranças, como sempre, alguns estão dormindo, outros coçando o pé, só alguns poucos estão realmente fazendo o seu serviço corretamente. Todos estão fardados, as fardas são das cores mais diversas, sinal de que existem muitas empresas de “segurança sonolenta” por estas bandas, todos mostram na cintura, pendurada no cinto, um par de algemas; deve ser para facilitar o trabalho de quem rouba, pois além de surpreender o segurança dormindo, ainda tem o privilégio de algemá-lo com a sua própria algema.

A grande maioria dos seguranças é raquítica. Acho que se aparecer um negão, ou um menino mais forte, eles se mijam todo e botam para correr, mas vá lá: tem segurança. A quantidade, entretanto, naquele espaço me chama atenção e eu começo a olhar mais atenciosamente para as casas. Descubro a razão: Ali estão casas onde funcionam embaixadas e casas de moradores abastados e dos próprios cônsules e embaixadores.

As Embaixadas se sucedem: Bélgica, Brasil, Espanha, as duas últimas unidas e separadas apenas pela cerca eletrificada. O Atlântico foi completamente engolido pelo Indico. Muitas outras instituições: tudo gradeados. São fortalezas, parecem prisões fortificadas, tudo esta fechado, de movimento só os seguranças, isto quando não estão em estado letárgico.

Uma estrangeira, acho eu, porque loura de olhos claros, roupa bem diferente da que se costuma ver aqui, sai de uma garagem com o carro e sai do carro para fechar a garagem, claro que o carro é um jeep último modelo, lindo por sinal! Entra no carro e se pica.

Continuo a andar e mais fortalezas aparecem de todos os dois lados da rua. Certamente para demonstrar que quem está dentro não quer sair dali e que quem esta fora deve ai permanecer: não são bem vindos. Fico imaginando se será assim em dias de expediente.

Começo a ver o mar, aliás, já disse isto: aqui é melhor ver o mar do alto, ou então de alguma esplanada, porque ai não se vê a pobreza e nem a sujeira.

Continuo a descida olhando o mar. Chego a uma espécie de rotunda, porque aquilo não é porra de nada, e vejo uma indicação para a Sommerschield (não está escrito errado não). Resolvo ir por ali, porque já sabia que este local é na praia e que era o lugar chique da cidade, até tentei alugar um flat, que eles assim chamam um apartamento independente que fica não sei se do lado ou nos fundos de uma das casas, por 100 dólares dia, mas não consegui porque já estava ocupado.

Atravesso a Avenida Julio Nyerere com muita dificuldade. Como sempre, não me acostumo mesmo com a porra da mão inglesa. Desço uma ladeira: muitas construções novas, muitos condomínios de luxo. Continuo a descer e, de repente chego, exatamente, a um local onde há um restaurante, que fica na praia, chamado Nossa Casa, onde tinha visto muitos panos pendurados e muito artesanato na rua, e onde estava pensando em ir para comprar umas calças típicas.

Compro uma calça. De início custava 550 meticais, chorei tanto e fui embora que o homem foi atrás de mim e a calça saiu por 300 meticais, embora ainda muito cara, mas a calça era linda, quero dizer,o estampado. Deixe dizer que a calça custou menos de sete euros e meio, aproximadamente 16,00 reais. Estou pensando seriamente em comprar aqui panos e levar para o Brasil para fazer calças ou saias, penso que vou ganhar dinheiro, porque realmente as estampas são lindas e diferentes.

Atravesso para o outro lado da rua, o lado da praia, e sigo pela calçada, se é que se pode chamar isto de calçada. Ha pedaços que a maré levou e tem buracos com avisos de “não passar”, outros são as pedras que estão quebradas, enfim, tudo esburacado e termina ficando perigoso, porque um passo em falso e a cara vai para o chão mesmo.

Vejo muitas pessoas mais adiante e estranho porque estão todos muito vestidos, homens de terno, mulheres bem arrumadas à maneira Moçambicana, claro. Algumas pessoas estão literalmente na praia, num cais que avança para o mar.

Vou me aproximando mais: Surpresa! Tem duas noivas ali, elas e seus convivas e as damas de honra. Acho que as próprias damas recomendam mal a honra da casadoura, porque duas delas, que estão vestidas com roupa de cor vinho, as outras duas estão de azul, cheia de babados, estão descalças e dançam mexendo bem a bunda. É uma dança esquisita, não vejo qualquer sensualidade em dançar com as pernas abertas, como elas fazem, chega a ser feio, quanto pior porque elas estavam de vestido curto.

Uma das noivas está muito longe, já bem perto da água, a outra está ainda na areia e, para fazer pose para a foto, atira-se no pescoço do noivo e dobra as pernas. Uma foto cinematográfica. Hilariante!

São 13.30 e eu não entendo o horário do casamento, mas acho que eles herdaram isto dos portugueses, porque em Lisboa também os casamentos são realizados de dia, deve ser para que o noivo não seja enganado a respeito da beleza da noiva, principalmente aqui, em que se pode correr o risco de só ver a noiva no dia do casamento.

Acho engraçada a estória, mas não consigo explicação para o fato de noivas e convidados estarem ali, penso que deve ser alguma tradição.

Ouço um senhor falar para outros, que já estão reunindo o pessoal para ir embora e aí noto que tem muitos carros no local, inclusive vans.

Sigo em frente. Sinto-me, outra vez, roubada, porque compro duas calças por 500 meticais, e olhe que começou com o cara pedindo 350 por cada uma.

Compro as calças e vou andando em direção ao centro, que está muito longe, mas eu não tenho outro jeito, pois não vou tomar a chapa e não tenho crédito no telemóvel para chamar um taxi.

Vejo muitos carros juntos seguindo um primeiro que está todo enfeitado. Olho rápido; é mais uma noiva, que vai em direção ao mesmo local onde estavam as duas outras.

Mais carros e mais noivas, passaram umas três ou quatro, todas com o seu séquito.

De repente vejo batedores, muitas motos. Um dos motoqueiros grita para mim uma piada que não consegui entender, graças a Deus, por isto olho para o lado e que surpresa! Os batedores estão abrindo caminho para uma limusine branca, que esta toda enfeitada, indicando que ali vão os noivos. Quase não acredito no que vejo uma limusine, mas para meu espanto, a primeira vinha seguida de mais quatro, uma delas vermelha e as outras pretas. Todas com vidros escuros que não permitiam ver nada lá dentro. Não pensem que eu estou brincando, eram limusines mesmo, aqui em Maputo. Não bastasse a limusine, um séquito de carros seguiam o cortejo, muitos jeeps e carros importados lindos: parece que alguém da nata estava se casando.

Fiquei mesmo estupefata! Numa cidade pobre e suja como Maputo, uma cidade cujo governo se diz socialista, vide os nomes das ruas que já indicam a ideologia que os senhores representantes do Governo querem afirmar – Vladimir Lenine; Mao TSE Tung, Ho Chi Mim; Guerra Popular; Karl Max: Engels, Amilcar Cabral, Salvador Allende e muitos outros ,o regime que se quis implantar em Moçambique com Samora Machel em 1975 e a FRELIMO(partido marxista-leninista). O homem passou na Presidência 11 anos, só deixou o cargo por força da própria natureza, faleceu 1986, o que não impediu que a FRELIMO continuasse no poder, embora, hoje exista um outro partido, que lhe faz oposição, a RENAMO- Resistência Nacional de Moçambique). Não percebo, entretanto, como isto funciona aqui em Moçambique, sei sim que em todo e qualquer governo, seja ele socialista, comunista, democrático, ditador, há os que mandam e os que obedecem. Há a burguesia, tão combatida pelos dois primeiros regimes, e a pobreza.

O nome das ruas nada significa, os símbolos colocados na bandeira Moçambicana também não, aliás, os homenageados com os nomes das ruas, certamente devem estar muito aborrecidos com esta homenagem, que nada os dignificam, muito pelo contrário, demonstram que as suas doutrinas foram por demais mal interpretadas, que a mais valia aqui é ser rico, rico mesmo, sem que os pobres possam jamais sair do estado de pobreza em que se encontram. Aliás, um escritor moçambicano, ROCHA, 2006:82-83

“Apesar da orientação ideológica socialista e tal como anteriormente o movimento frentista, o PF continuou a ser uma força heterogênea, com sensibilidades diversas, integrando marxistas e liberais, militares, intelectuais e tecnocratas, muitos deles vendo no Partido uma forma de aceder a lugares e benefícios diversos”[...] As conseqüências desta opção marxista pela FRELIMO, embora se possa reconhecer o seu carácter estatista e modernista, não se fizeram esperar, tanto interna como externamente. A ala marxista era efectivamente hegemônica, mas os ideais socialistas não eram partilhados por parte significativa dos membros do Partido. Por isso a adesão à postura socialista não foi consensual, e alguns críticos tiveram de deixar o Partido, indo alguns dos mais inconformados formar bases de grupos oposicionistas diversos, alguns dos quais vieram a integrar o movimento rebelde que mais tarde se constituiu na Resistência Nacional de Moçambique(RENAMO)” (grifo nosso)

Portanto os pobres vão continuar a revirar o lixo para comer, a vender frutas e verduras nas ruas, sem quaisquer condições de higiene, a vender coisas usadas nas ruas, a roubar as pessoas, enfim, que eles se lenhem para que os ricos, cada vez mais ricos, continuem andando de Limusine, acentuando a diferença, que foi tão combatida na época colonial em relação aos europeus. Mudam os nomes e até mesmo a cor dos dirigentes, o que não muda, exatamente, é a divisão de classe aqui tão bem visível, sendo que o proletariado daqui, não existe, pois o proletariado tem de estar organizado para alcançar os seus objetivos, o que, possivelmente, ainda vai demorar muito, se é que um dia isto ainda possa acontecer. Enquanto isto, Maputo fica mostrando os seus contrastes e Moçambique continua recebendo fundos humanitários para combate a AIDS, para preservação dos animais (elefantes, onças, girafas, macacos, hipopótamos, cobras e muitos outros) e o povo continua a morrer de fome nas ruas, sem emprego, sem assistência, sem dignidade, mas os resorts em Inhaca, nas praias de Inhambane, em Pemba e em tantos outros sitos do país continuam recebendo turistas que saem daqui encantados com as belezas naturais, sem qualquer preocupação com a população, que de uma maneira ou de outra, ainda continua à disposição dos que se julgam superiores.