segunda-feira, 26 de julho de 2010

Maputa da vida!

Maputo acumula decepções. Hoje tive várias. A primeira delas foi chegar ao local onde funciona o Arquivo Histórico de Moçambique e ter a noticia de que as fontes primárias não se encontram ali, e sim em um depósito no campus da Universidade.

Isto não seria qualquer problema, se eu não tivesse ligado n vezes para o arquivo, enviado mensagens dizendo o que queria, enfim, tivesse tentando saber tudo antes da chegada, a fim de não perder tempo.

Cheguei ao Arquivo e disseram-me que não era ali. Sai do arquivo e peguei um catalogo e tentei ligar para os números indicados, mais de 10. Alguém atendeu em um deles, e qual não foi a surpresa, o mesmo do local onde tinha estado minutos antes. Uma senhora me diz que tenho de ir ao arquivo e falar com a Dona Tereza. Volto e não falo com a dona Tereza, a própria secretaria me dá as informações. Detalhe importante, a mesma secretaria que tomou as informações e me diz que tenho de ir lá pessoalmente conversar coma senhora Tereza.

Saio meio puta dali e tento chegar ao local indicado. Chego, depois de tomar um táxi, por sinal caro, andar mais de 2 km dentro do próprio campus da Universidade Eduardo Mondlane e chegar ao CAP.

Ali chegando, encontro uma senhora que me mostra onde é o barracão no qual funciona o arquivo.

Entro num barracão mesmo e falo com uma senhora que ia passando, porque não havia recepção. Falo o que quero e ela chama um senhor de nome Mondlane. Ao ouvir o nome, digo logo que ele é muito importante. Ele sorri. Digo-lhe o que quero, e ele me diz que eu tenho de falar com o chefe dele, afinal ele não era tão importante assim.

Um homem pequeno me aparece e me diz que tenho que apresentar uma autorização do diretor do arquivo para que eu possa ter acesso à documentação. Dito isso, me leva até um local onde esta pregado um papel na parede, que mostra as regras. Isto depois de eu mostrar tudo que tenho em mãos; desde a matrícula no doutorado em Lisboa, ao parecer da orientadora dizendo que preciso fazer tal pesquisa.

Pergunto onde devo tirar a autorização. Imagine a surpresa! Lá, onde tinha ido logo cedo e falado com a recepcionista da secretaria Tereza. Porra, será que ela não sabia que eu tinha de tirar tal autorização, que, aliás, acho de uma completa inutilidade? Mas que fazer: normas são para ser cumpridas.

Preparo-me para ir embora, mas o Sr Jaime me diz que vai permitir que eu comece a pesquisar, porque não era nem justo o que tinha acontecido, porque todos sabem lá na baixa que a autorização é necessária. Agradeço e começo a pesquisa completamente irritada.

A metade do dia estava perdida. Começo a ver fichas e alguns catálogos. Em principio uma decepção, porque não vejo documentos que interessem ao meu tema, embora interessem pelo que trazem de informação sobre o colonialismo em Moçambique.

Estou com fome, não vejo lugar para comer, para comprar qualquer coisa, sequer para beber água. Falo com o Sr. Mondlane que quero beber água, ele me traz uma garrafa de água, que acho salobra, mas bebo, enfim, que Deus me ajude! Traz também um copo e um prato. Dou risada, ele mesmo coloca o prato emborcado em cima do copo. Por um momento lembro-me da minha infância, não sei em que exato momento, mas vi a cena, embora o prato não estivesse naquele sentido, e sim com a parte de cima para cima, o fundo do prato é que encontrava a borda do copo.

O Sr. Mondlane é atencioso e traz os catálogos. Encontro algumas coisas, mas nada que resolva de imediato o meu problema, mas acho processos de indígenas contra patrões que remontam a 1909. Chego até a agradecer a Deus por aquilo, que é mínimo em relação ao que quero, mas já é um começo.

As três o Sr. Mondlane me diz que vai embora, não sem antes me dizer que daqui para frente não devo levar muitas coisas para o arquivo, porque tenho de deixar a mala (bolsa) na portaria, pois não posso entrar com nada nas dependências do arquivo.

Cinco horas da tarde e tenho que ir embora, é o que faço puta dentro das calças, porque no dia seguinte vou perder muito tempo para pedir a porra da autorização, mas fazer o que, to na dança, tenho de dançar conforme a música.

Saio do arquivo pelo lado contrário ao que entrei. O Campus da Universidade é imenso e eu não sei para que lado ir. Indicam-me a Avenida Mao Tse Tung, pelo nome acho que não vou me dar nada bem, não gosto de comunistas, socialistas, nada desta ideologia de comunhão que não existe. Saio numa rua que chama, pasmem! Rua de França: atravesso toda ela e saio numa avenida com o nome esquisito de Av. Kenneth Kaunda. Procuro a Mao Tse Tung e nada. Pergunto a alguém como vou para a Baixa e me dizem que tenho que tomar uma Chapa, uma espécie de Van que vai acumulada de cheiros de pessoas, que eu não vou entrar nunca, espero, enquanto aqui estiver. Na primeira fungada eu vomito neles todos e sou posta para fora do coletivo. Não vou querer isto.

Tomo um taxi e chego ao hotel. Surpresa! Alguém conseguiu abri r o cofre do quarto e me levar 50 euros e mais 1000 meticais. Desço e falo com a gerência, que me diz que o que pode fazer é averiguar quem fez a limpeza do quarto e saber o que ocorreu. Pronto: já sei que perdi a porra do dinheiro e pronto, ninguém vai fazer nada. Aviso apenas que se tornar acontecer não digo nada e vou direto a policia. Pense a porra!

Tudo isto me faz desabar, por mais que eu queira escrever coisas boas para que todos dêem risada, não posso: hoje não! Tô puta, e muito puta mesmo, ironicamente em Maputo, maculino sacana.

Detalhe importante. No café da manhã tive a ilusão de que tudo ia correr bem, até agradeci a Deus, porque, acreditem! Encontrei um professor da Universidade Federal da Bahia, o atual responsável pelo CEAO em Salvador, que conheci em Lisboa através da Doutora Isabel, que me diz que esta ali porque está a desenvolver um projeto de revitalização do arquivo. Pensei eu que isto poderia me ajudar, mas pelo visto, como sempre, foi apenas uma ilusão, porque eu tenho mesmo é que fazer tudo sozinha e sem a ajuda de ninguém.Normal!

Espero que amanhã seja um novo dia e que o homem da lavanderia não me acorde para perguntar se tenho roupa para lavar.

Desculpem.