terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os taxistas de Maputo

Bom, em principio tenho que dizer que andar em Maputo, para mim, é uma aventura. Todos os dias eu renovo a esperança de que vou viver muito, pois, é assim que penso depois que consigo atravessar, e chegar viva do outro lado, as ruas.

Maputo é uma cidade que tem grandes avenidas, a grande maioria delas socialistas nos nomes: Mao Tse Tung; Ho Chi Min; Karl Marx, Engels, Guerra Popular, Eduardo Mondlane, dentre muitas outras, mas completamente dissociais, quando se trata da travessia do proletariado, mortais em potencial
.

Não fosse eu brasileira, teria a mesma dificuldade em Maputo, exatamente porque nessas imensas avenidas, há muito poucas sinaleiras: semáforos para alguns; faróis para outros. Bom! Estou falando daquele sinal que diz para o pedestre ou para os carros pararem, ou seguirem. Não só não existem os sinais ao longo destas avenidas, ou melhor, em um bom trecho delas, como não tem faixas de pedestres, tampouco passarelas. Para mim, e não só para mim, porquanto vejo a dificuldade dos que se arriscam tanto quanto eu: é uma aventura atravessar, às cinco da tarde, a Kenneth Kaunda, na altura da Rua da França, para chegar ao outro lado e alcançar a Avenida Vladimir Lenine ou qualquer outra avenida ou rua, que atravesse a 24 de julho.

Eu sei que tenho uma dificuldade maior que os da terra: é que não estou acostumada a estar em lugares em que se conduz do lado contrário, quero dizer: o volante dos carros está exatamente do lado do carona no Brasil. Pensem bem: quero atravessar avenidas imensas, largas, com pistas duplas, olhando, exatamente, para o lado contrário de onde os carros vêm. Se quero atravessar o lado da pista da direta, olho exatamente para o lado esquerdo e, vice-versa, resultado: um perigo, porque o carro vem exatamente do outro lado. O negócio para mim é tão complicado que, quando vou tomar um taxi, o pobre coitado do motorista, querendo ser cavalheiro, vem abrir a porta do lado esquerdo, enquanto eu vou me encaminhando para o lado contrário, sempre.

Bom, mas o que quero falar é dos taxistas de Maputo. Primeiro; tenho que dizer que a grande maioria dos taxis não tem qualquer indicação de que é um “taxi”, ou seja, não tem aquela placa luminosa em cima do carro, resultado: é um serviço de adivinhação! Segundo; não ha tabelas de preços, os valores são dados pelo motorista sem obedecer a quaisquer critérios; Terceiro; o melhor de tudo é você, quando entrar algum taxi e gostar da condução e da aparência do motorista, pedir logo um cartão e fazê-lo de taxista particular. Ele vai ficar muito satisfeito e vai lhe dar o telefone celular para que você o chame em qualquer momento que necessário.

Pois é, como tinha de estar todos os dias pela manhã, às nove horas, no Arquivo Histórico de Moçambique, cuja parte documental está funcionando no campus da Eduardo Mondlane, tinha eu que pegar taxis todas as manhãs. Foi exatamente por isso que conheci alguns taxistas, uns que quiseram me tirar dinheiro, mas outros que me queriam levar mesmo e me agradar, não pelo fato de ser mulher, mas pelo fato de ser uma estrangeira e que lhes estava garantido, pelo menos, no dia, uma corrida. Conheci assim: O Santos, o Tony, o Francisco, o Machel. Excluí muitos outros: alguns porque os carros estavam tão velhos que, quando entrei em um deles, um que sempre ficava na porta do hotel, perguntei ao senhor que o conduzia se o veículo saia mesmo do lugar. O senhor não gostou muito, e eu não gostei do preço que ele cobrou, pois, enquanto todos os demais me cobraram 150 meticais pelo mesmo trajeto, este senhor, cujo carro deveria estar recolhido, não devendo ser permitida a sua circulação por ser um atentado à vida dele, dos passageiros e dos pedestres, me cobrou, por todo o “conforto” e “segurança” que me proporcionou 200 meticais. Foi eliminado. Mais os outros, que pessoas agradáveis, que vontade de agradar e de ser simpático! Cada um com a sua característica: O Tony conversava comigo sobre os restaurantes e sobre lugares em que eu podia dançar, me divertir, etc., Um dia ele não pode ir me buscar, no dia em que fui ao Mercado do Peixe, mas me mandou uma outra pessoa. Um exemplo de profissional. Acredite que o homenzinho estava de paletó e gravata. O carro parecia que tinha saído de algum posto naquela hora. Eu elogiei a indumentária e ele me disse que só trabalhava assim, pois ele achava que os clientes mereciam todo o respeito. Vá lá que eu também acho, mas andar de paletó e gravata dirigindo um taxi em Maputo, sem ar condicionado, é muito demais. Mas fazer o que?

O Santos, um mestiço filho de português e uma moçambicana, falava inglês com sotaque latino, o que eu achava engraçadíssimo, pois me lembrava de “Dom Juan de Marco” quando John Deep falava aquele inglês carregado de sotaque latino com O Marlon Brando, que acho que fazia um papel de médico(psicólogo) alguma coisa assim, não sou boa nisto, vejo o filme e esqueço. Não que ele falasse inglês comigo, mas eu ouvia quando ele atendia o tele móvel e falava com os seus clientes, “I, m comming: I am near you, in five minutes I arrive”. Eu ria por dois motivos, pelo inglês com sotaque e pela mentira, sabendo inclusive que era vítima dela também, quando ele estava com outro cliente e eu o chamava. Nesse dia especifico, de onde estávamos até o local de onde o cliente estrangeiro estava ligando, nem em meia hora ele chegaria lá. Todavia, a gente perdoava o Santos pela sua boa vontade. Ele tinha uma pena de mim quando ia me buscar no arquivo e me perguntava se tudo tinha corrido bem, e eu dizia: as minhas cópias não ficaram prontas, que eu estava preocupada porque elas poderiam não ficar prontas até o dia de eu ir embora, enfim, quando eu desabafava a respeito dos problemas que encontrei em relação ao Arquivo e as cópias dos documentos. Eu, que não gostava nem um pouco do tratamento que a grande maioria das pessoas dá nas ruas de Maputo, chamando você de “mãe”, “mãezinha”, achava até bonito quando ele dizia: “Oh mãe, eu posso fazer alguma coisa? Posso ajudar a senhora? Quer que eu tire as cópias, eu conheço muitas copiadoras”. Achava graça da oferta e da ingenuidade, e tinha de explicar que era impossível, pois os documentos não podiam sair do arquivo.

O Machel me deu o cartão e ficou impressionado ao saber o que eu fazia em Maputo, pois quando me levou para a faculdade quis saber se eu ensinava na Universidade, eu disse que não, que eu era uma estudante, e aí tive de contar toda a estória. Ele ficou impressionado e todas as vezes que lhe liguei me perguntava com muito interesse como andavam os trabalhos.

O Francisco eu conheci um dia de extremo cansaço, em que tive de voltar do Arquivo de taxi: estava mesmo tão cansada que não aguentava fazer o caminho de volta a pé, como era de costume, não só por questão de economia, quanto porque era nesta hora que eu fazia a caminhada diária. Do campus até a Rua do Hotel eu caminhava, sem parar e em ritmo forte, de 45 a 50 minutos. Pois no dia em que peguei o taxi do Francsico, ele me perguntou se eu era brasileira, lógico que isto só poderia ser um começo de conversa, porque o meu português é inconfundível. Disse-lhe que sim e ele me perguntou de onde, eu respondi: da terra da Ivete Sangalo, exatamente porque no rádio do carro estava tocando uma música dela. Pronto, eu dei a senha para a abertura da conversa: Ele me falou da influência do Brasil em Moçambique, disse-me que as novelas estão modificando a maneira de ser do jovem moçambicano, ao menos aqui em Maputo. Que os jovens se vestem como os jovens brasileiros, ouvem as músicas brasileiras, que todos ouvem as músicas sertanejas, enfim, falou-me de muitos cantores brasileiros que ele conhecia, etc. Como estávamos vindo pela Vladimir Lenine e passamos em frente a um local onde tem muitas pessoas vendendo legumes, folhas, frutas, etc., perguntei-lhe se ali era um mercado e ele me disse que era o Mercado Janete. Eu respondi que coisa engraçada, eu queria tanto saber onde era este mercado e já passei na frente dele tantas vezes. Ele então me informou que ali era o lugar adequado para comprar frutas e verduras, tudo muito bom fresco e saudável. Eu lhe disse que não poderia comprar tanta coisa porque estava no hotel e não tinha como fazer nada, aliás, eu estava com uma saudade danada de comer mandioca (aimpim na Bahia) cozida, mas não tinha encontrado nenhum lugar que servisse isto, e que eu achava que aqui eu iria encontrar em qualquer lugar. Ele me disse que não tinha em restaurantes. Perguntei-lhe algumas coisas sobre a comida africana e, quando cheguei ao hotel ele me pediu para me dar o meu telefone que ele ia procura saber dos amigos onde eu poderia comer alguma coisa com mandioca, expliquei-lhe que não era a folha, porque aqui, há realmente uma comida que acho que o nome é “mapira”, que é feita com a folha, é como se fosse uma maniçoba na Bahia e no Pará. Pronto, dei o tel. e sai e até esqueci disto. Pois não é que ele me mandou uma mensagem me dizendo que um amigo dele sabia de um restaurante que servia comida africana e que, caso eu quisesse, a empregada da casa dele poderia fazer também. Pense aí? Não é muito gentileza de uma pessoa? Não é uma cordialidade; dessas que você não vai esquecer nunca?

Pois é. Se um dia for a Maputo pegue, sem susto, um taxi, mas olhe bem a cara do condutor. Aconselho a perguntar antes o preço da corrida. Depois de pegar alguns taxis, escolha um motorista para ficar como se fosse “um seu particular”. Tenho certeza que não vai se arrepender, melhor que se arriscar nas “chapas” e nas “motos”.