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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Palavras que não disse; cartas que não enviei

Marta Medeiros tem um livro cujo título, acho eu, é “ Tudo o que queria te dizer”, eu também queria fazer um livro assim. Queria dizer a muitos coisas que acumulei durante o longo trajeto da vida da qual eles fizeram parte, uns mais ativos que outros, uns incomodando mais que outros, uns sendo amados mais que outros.

Queria, por exemplo, dizer a um amigo, que ele é muito egoísta, que às vezes fica muito chato e que é melhor não estar com ele quando bebe demais e fica muito inconveniente, mas também agradeceria o muito que ele me amou, o muito que ele me deu, o muito de força, de admiração, de incentivo que, com certeza, ajudou a me transformar e ser o que sou.

Queria dizer a outro, que não gosto da maneira que ele despreza as pessoas burras. Das criticas que ele faz às pessoas menos privilegiadas, o seu brilhantismo não lhe dá o direito de desdenhar delas, às vezes até humilhar, já fiquei muito constrangida em muitos momentos exatamente por não concordar com isto.

Para alguém que foi mais íntimo, gostaria de dizer como foi bom tudo acabar tão cedo, não gostaria de estar hoje ao lado de uma pessoa que se apresenta como hoje é. Não gosto do pedantismo, da superioridade, da falta de “amor” para com os seus próprios, aqueles que saíram dele.

Sim, eu mandaria cartas para muitas pessoas, muitas delas iriam se surpreender ao receber as minhas missivas; algumas, pela própria surpresa de receber qualquer “escrito” partindo de mim, que também não sou a melhor criatura do mundo; tenho vários defeitos e deixo-os livres, para quem quiser perceber que eles existem e me acompanham; até tento sufocá-los em determinados momentos, mas eles estão enraizados e sempre falam mais alto, já perdi o controle sobre eles e, assim, eles se apresentam nas horas que lhes apetece.

Uns se surpreenderiam porque eu iria lhes falar do amor que sinto por eles: muitas espécies de amor; amor de irmão, amor de amigo, amor de filha, amor de mãe, amor de avó, amor de cunhada, amor de mulher, este último seria responsável pelo envio de muitas cartas, mas o destinatário seria um só; único, uma mesma pessoa recebendo cartas de amor o tempo todo, pois hoje acho que quem ama tem de dizer muitas vezes isto ao outro. Antes eu até achava que era desnecessário dizer isto ao outro, mas hoje acho que é de extrema importância que a pessoa saiba mesmo que é amada, que é importante, que faz falta, que é querida. E isto vale para todos os tipos de relação. Não avaliamos o quanto de importância tem para o outro a certeza de ser amado.

Queria dizer a algumas mulheres que passaram pela minha vida que, mesmo aquelas que me fizeram muito mal, toda elas me ensinaram alguma coisa, inclusive que não se deve, em termos de mulher, menosprezar o feio, porque homens não estão preocupados com o feio, quando o “sexo” fala mais alto e apenas uma perna para um lado e uma perna para o outro resolve o problema, fica tudo igual. Ah! A estas que apenas abrem as pernas, mas fecham a cabeça, eu queria mesmo mandar cartas bem cretinas, dizendo coisas idiotas, porque só assim elas iriam entender o que elas realmente foram na vida daqueles que nos eram caros. Aliás, essas coisas idiotas e imbecis que podemos dizer quando somos feridos é tão bom, faz um bem danado, porque despejamos nos outros coisas recalcadas nossas, culpas nossas que queremos dar a eles. Mesmo um alivio temporário seria ótimo, porque ainda que não nos livrasse das culpas, mas momentaneamente, nos faria muito bem, tanto ao corpo quanto à alma: as tensões se dissipariam e, com certeza, ficaríamos melhores.

Aos chefes, aqueles que tive na época do “trabalho forçado”, queria dizer muitas coisas: ao meu chefe, o do meu primeiro emprego queria escrever uma carta não para ele, mas com a certeza que ele teria acesso à mesma: e sim para a companheira dele, aquela pessoa que me sacanaeava tanto, que fazia escândalos dentro da empresa, porque achava que eu tinha um caso com o “bandido” do marido dela. Ah como gostaria de ter dito àquela mulher que uma mulher, tão bonita quanto ela, não devia se preocupar com uma menina a recém saída da adolescência, ou ainda nela, que por acaso ainda era virgem e queria continuar sendo, não sendo aquele “marido” grosseiro”, mal educado, ignorante, que iria despertar nela qualquer vontade de ter um caso, ser a “outra” de uma relação qualquer. Diria a ela que ela devia, ela sim, afastar-se daquele homem, por ser ela uma mulher interessantíssima, embora mal educada, escandalosa, mas se bem trabalhada poderia se transformar em uma “lady” até. Também lhe daria parabéns, porque soube, tempos depois, que ela deixou o senhor gerente das águas por uma gerência mais sólida e mais nova, a de um amigo do “casal”.

Escreveria também para certo “Cavalo Branco” para dizer-lhe que ele não era tão branco assim, que ele procurasse o seu lugar de “velho” e me deixasse em paz, porque eu tinha mesmo mais o que fazer do que ficar a mercê de um cavalo qualquer, que somente queria galopar, mostrar as suas qualidades, se é que tinha: de “garanhão”. Adoraria dizer que nada do que fizesse, nada do que me desse, nada enfim, faria com que eu deixasse, sequer, aquela boca roçar a minha face, aquelas mãos pegarem nos meus cabelos. Ah como eu queria ter escrito isto, e ainda deveria mandar a carta para o endereço residencial dele, para que a família soubesse que o cavalo era escuro, opaco, tenebroso, nunca deveria ser tratado como um “alazão”.

Mandaria uma carta especial para uma colega de ginásio, para dizer-lhe o quanto ela era ridícula, com toda aquela pose de merda que tinha, apenas e exclusivamente porque era filha de um advogado e aos 15, ou dezesseis anos, era “namorada” do filho de alguém abastado. Ah como eu queria ter mandado esta carta! Assinaria mil vezes, em nome de tantos quantos essa, hoje quase anciã, mas ainda pedante, humilhou. Felizmente encontrei esta cidadã em um grande momento da minha estória, em que a posição estava realmente invertida, não em relação à parte econômica, jamais alcançaria isto no particular, mas em relação ao status diferenciado, que muitos quiseram e ainda querem ter, mas o intelecto não permitiu a muitos, mas eu consegui. Posso garantir para vocês que a surpresa da moça foi uma cena que jamais esquecerei, mais que isto: o resultado da constatação de que se tratava de mim foi hilário. O que talvez antes tenha sido uma “vergonha”, agora era motivo de orgulho, quase um “orgasmo”: “Ela foi minha colega no ginásio” dizia a senhora pelos corredores. É, grande merda diria eu! Dispenso a lembrança de um fato tão desagradável: ter sido colega de uma pessoa igual a ela; ter vivenciado um pouco da minha adolescência com alguém tão “desagradável”.

E por aí vai. Escreveria longas cartas de amor, ridículas, como diria Fernando Pessoa, a tantos quantos pensei ter amado ao longo da minha vida, felizmente, como o poeta, não me lamentaria por não escrever “cartas de amor ridículas”.

Ao meu primeiro amor, aquele de quando eu tinha 14 anos, escreveria para que ele soubesse de todas as emoções que ele me fez sentir. Diria do medo que eu tinha quando ele se aproximava de mim, diria a ele porque eu não deixava que ele se encostasse tanto, não era porque eu não gostasse, era só medo meu querido, apenas medo; me colocaram tantas coisas na cabeça que àquela época eu achava que poderia engravidar até pelos ouvidos: imaginem só! Diria a ele como era grande a minha emoção quando eu o via descendo as escadas que davam acesso a minha casa, meu coração cantava, acho que ficava contando os degraus um a um, acho que para o tempo passar mais rápido, e olhe que a escada não era tão grande assim- Diria a ele da minha raiva quando ele chegava á minha casa e, ao invés de ficar comigo, ia brincar com a minha irmã caçula, que tinha apenas 5 ou 6 anos, já não lembro. Se escrevesse hoje, que ele já não mais esta aqui conosco, diria que tenho um grande arrependimento de não ter cedido, ele merecia, eu merecia,queríamos, mas não conseguimos, o meu medo foi maior e cheguei aos 18 anos (com ele, embora ambos tivéssemos outras parcerias) sem que nada tivesse acontecido, Que raiva! Que desperdício.

A um tio meu escreveria agradecendo os bons e grandes momentos que passei em sua casa, uma casa humilde, mas imensa de amor e de respeito pelo ser humano, onde sempre fui mimada e bem tratada e que me proporcionou muitas coisas agradáveis.

Queria escrever para o Papa, dizer da minha revolta com a instituição que ele chefia; falaria tão mal da Igreja, dos padres, das freiras, dos internatos - fábrica de revoltados- discutiria suas verdades. Diria da minha vontade de invadir o Vaticano e me instalar lá com tantos pobres quanto pudesse, a fim de que os senhores deuses do “Olimpo vaticanal” ficassem melindrados com a invasão, e chegassem um pouco mais perto da pobreza como ela é, da fome, da miséria, que somente a lembrança do nome de Deus não acaba. Não se educa almas com fome. Queria ver a reação, que deveria ser filmada pelos jornalistas, que seriam convocados exatamente para este fim, para mostrar que, como em qualquer lugar comum em que pessoas se sentissem ameaçadas, seria usada a violência para retirar aquelas almas menores, sem direitos, sem amor, “sem vergonhas". Ousados, que ousaram entrar no templo sagrado dos inatingíveis, dos mentirosos, dos cretinos, que usam a palavra, o que é pior, a de Deus, para fazer com que as pessoas aceitem toda a situação como sendo uma purificação. Vá à porra! Onde já se viu fome ser purificação? Não me lembro de ter visto no Evangelho Jesus ter passado fome, aliás,o mestre era mestre em multiplicar coisas, desde pão, peixe, e, o melhor: VINHO, gosto muito desta parte! Nem deixaria que ele respondesse e argumentasse das missões, do evangelho levado até àqueles por “bons samaritanos”, que não tiveram cacife para entrar no “templo sagrado” e tem que fazer penitências para a purificação. Evidentemente que reconheceria algumas exceções, toda regra tem ao menos uma, mas não perdoaria a maioria e lhe diria em letras garrafais, NÃO QUERO FAZER PARTE DOS BEM AVENTURADOS, pois não quero ter de sacrificar a minha vida, sofrer, passar privações, para assim ser considerado, para participar de um reino de falsidades. Não quero entrar no céu, pois se para lá for e encontrar o senhor, me refiro a ele mesmo, o chefe da Igreja, não iria me sentir bem dividindo um espaço que se diz “puro” com alguém que chefiou uma instituição falida(valores éticos e morais) e mentirosa, que acoberta padres pedófilos, que se mantém com dinheiro que foi tirado dos fiéis, que perdoou grandes e imensos pecados por conta dos valores pagos pelos grandes e ricos pecadores, que chefiou uma Inquisição que perseguia pobres coitados, cuja cúpula vive nababescamente, com direito a guarda de uma “guarda” de “pagens” suíços, ridículos por sinal, em pleno século XXI ver rapazes bonitos ridiculamente paramentados, fazendo a segurança dos que não deviam precisar de qualquer guarda, porque deveriam estar guiados e guardados por Deus.

É!Escreveria, ainda, para muitas e muitas pessoas; algumas realmente para dizer do meu amor, do meu respeito e agradecimento por elas terem passado pela minha vida, ajudando a moldar um espírito que, com certeza, ainda está em formação, porque cada momento a vida traz uma transformação. Quando acordamos a cada dia já não somos os mesmos do dia anterior, ao menos teremos a certeza de que um dia a mais se passou. A outras para dizer do mal que elas me fizeram, e porque eles deveriam melhorar como pessoas.

Mas, infelizmente, não posso escrever para todos, até porque alguns, com certeza, ficariam melindrados com a verdade que estas cartas poderiam conter; verdades que, quando ditas, parecem para aqueles que são alvo delas, mentiras enormes, porque as pessoas não se conhecem, ou então, se julgam acima do bem e do mal e achem que favores devem ser retribuídos a todos os momentos, como se fossemos obrigados a passar a vida toda agradecendo alguma coisa que foi feita para nós, ou por nós.

Às pessoas que impõem as suas presenças e de outrens que lhes acompanham sem perceberem que não se pode infiltrar pessoas outras em um relacionamento que é só de dois. Diria que não somos obrigados a gostar dos companheiros, das pessoas que lhes circundam. Lhes diria que precisam entender que tem limites, que não é porque gostamos delas que somos obrigados a aceitar pessoas e coisas que não nos fazem bem. Também diria a alguns que eles não são e nunca serão os donos da verdade, que cada um pode escolher a sua própria, acreditar nela e ir em frente, sem ter que receber critica de A, B ou C.

Escreveria, também, para dizer a alguns que metam-se com a sua vida e deixem que os outros vivam em paz, se limitem a ouvir, quando procurados, porque não tem coisa pior de que a indagação constante de curiosos sobre coisas de sua vida, uma curiosidade, que em alguns casos, é mórbida, cruel. Não se quer saber para ajudar, e sim para criticar, para divulgar, enfim, para se ter motivos para falar da vida de alguém, talvez para valorizar a sua própria. Com alguns seria mesmo cruel, exatamente na medida em que eles foram para comigo e para com as pessoas de quem gostei, ou gosto.

Mas, infelizmente, não escrevi tais cartas, se em algum momento, que foram vários, registrei acontecimentos, rascunhei bilhetes e cartas não os enviei e perdi a chance de ser verdadeira, de colocar para fora sentimentos que continuo guardando comigo, por falta de coragem, por vergonha, por “educação”, enfim, por mil e um motivos.

O correio está em greve, mas isto é passageiro; o que não é passageiro é a certeza de que se perdeu grandes chances de melhor se mostrar para as pessoas, de dizer a elas do seu amor, do seu querer, o que inclui reconhecer defeitos e aceitá-los, para que o amor flua sem restrições e para que você seja, e faça alguém, FELIZ.



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tudo na mesma



Sai do arquivo as 12:00hs, porque era sábado dia que funciona até este horário, e resolvi que iria andando porque queria conhecer a Av. Júlio Nyerere. Sai da Rua da França, onde fica o portão do Campus da Universidade Eduardo Mondlane, onde está o barracão do arquivo, e segui pela Avenida Kenneth Kaunda. Rapaz, que surpresa!

Esta Avenida, do lado direito de quem vem da Vladimir Lenine é o bicho. É uma avenida de duas pistas largas, separadas por um canteiro no meio. Começou a aparecer muitas casas boas, mas muito boas mesmo, casas enormes, com dois ou mais andares, bem arquitetadas, parecia que eu tinha saído do Maputo, que até então conhecia.

A Avenida está limpa, não há lixo acumulado, nem tampouco contentores abarrotados de lixo derramando a podridão pela rua. Continuo a andar, vejo muitos seguranças, como sempre, alguns estão dormindo, outros coçando o pé, só alguns poucos estão realmente fazendo o seu serviço corretamente. Todos estão fardados, as fardas são das cores mais diversas, sinal de que existem muitas empresas de “segurança sonolenta” por estas bandas, todos mostram na cintura, pendurada no cinto, um par de algemas; deve ser para facilitar o trabalho de quem rouba, pois além de surpreender o segurança dormindo, ainda tem o privilégio de algemá-lo com a sua própria algema.

A grande maioria dos seguranças é raquítica. Acho que se aparecer um negão, ou um menino mais forte, eles se mijam todo e botam para correr, mas vá lá: tem segurança. A quantidade, entretanto, naquele espaço me chama atenção e eu começo a olhar mais atenciosamente para as casas. Descubro a razão: Ali estão casas onde funcionam embaixadas e casas de moradores abastados e dos próprios cônsules e embaixadores.

As Embaixadas se sucedem: Bélgica, Brasil, Espanha, as duas últimas unidas e separadas apenas pela cerca eletrificada. O Atlântico foi completamente engolido pelo Indico. Muitas outras instituições: tudo gradeados. São fortalezas, parecem prisões fortificadas, tudo esta fechado, de movimento só os seguranças, isto quando não estão em estado letárgico.

Uma estrangeira, acho eu, porque loura de olhos claros, roupa bem diferente da que se costuma ver aqui, sai de uma garagem com o carro e sai do carro para fechar a garagem, claro que o carro é um jeep último modelo, lindo por sinal! Entra no carro e se pica.

Continuo a andar e mais fortalezas aparecem de todos os dois lados da rua. Certamente para demonstrar que quem está dentro não quer sair dali e que quem esta fora deve ai permanecer: não são bem vindos. Fico imaginando se será assim em dias de expediente.

Começo a ver o mar, aliás, já disse isto: aqui é melhor ver o mar do alto, ou então de alguma esplanada, porque ai não se vê a pobreza e nem a sujeira.

Continuo a descida olhando o mar. Chego a uma espécie de rotunda, porque aquilo não é porra de nada, e vejo uma indicação para a Sommerschield (não está escrito errado não). Resolvo ir por ali, porque já sabia que este local é na praia e que era o lugar chique da cidade, até tentei alugar um flat, que eles assim chamam um apartamento independente que fica não sei se do lado ou nos fundos de uma das casas, por 100 dólares dia, mas não consegui porque já estava ocupado.

Atravesso a Avenida Julio Nyerere com muita dificuldade. Como sempre, não me acostumo mesmo com a porra da mão inglesa. Desço uma ladeira: muitas construções novas, muitos condomínios de luxo. Continuo a descer e, de repente chego, exatamente, a um local onde há um restaurante, que fica na praia, chamado Nossa Casa, onde tinha visto muitos panos pendurados e muito artesanato na rua, e onde estava pensando em ir para comprar umas calças típicas.

Compro uma calça. De início custava 550 meticais, chorei tanto e fui embora que o homem foi atrás de mim e a calça saiu por 300 meticais, embora ainda muito cara, mas a calça era linda, quero dizer,o estampado. Deixe dizer que a calça custou menos de sete euros e meio, aproximadamente 16,00 reais. Estou pensando seriamente em comprar aqui panos e levar para o Brasil para fazer calças ou saias, penso que vou ganhar dinheiro, porque realmente as estampas são lindas e diferentes.

Atravesso para o outro lado da rua, o lado da praia, e sigo pela calçada, se é que se pode chamar isto de calçada. Ha pedaços que a maré levou e tem buracos com avisos de “não passar”, outros são as pedras que estão quebradas, enfim, tudo esburacado e termina ficando perigoso, porque um passo em falso e a cara vai para o chão mesmo.

Vejo muitas pessoas mais adiante e estranho porque estão todos muito vestidos, homens de terno, mulheres bem arrumadas à maneira Moçambicana, claro. Algumas pessoas estão literalmente na praia, num cais que avança para o mar.

Vou me aproximando mais: Surpresa! Tem duas noivas ali, elas e seus convivas e as damas de honra. Acho que as próprias damas recomendam mal a honra da casadoura, porque duas delas, que estão vestidas com roupa de cor vinho, as outras duas estão de azul, cheia de babados, estão descalças e dançam mexendo bem a bunda. É uma dança esquisita, não vejo qualquer sensualidade em dançar com as pernas abertas, como elas fazem, chega a ser feio, quanto pior porque elas estavam de vestido curto.

Uma das noivas está muito longe, já bem perto da água, a outra está ainda na areia e, para fazer pose para a foto, atira-se no pescoço do noivo e dobra as pernas. Uma foto cinematográfica. Hilariante!

São 13.30 e eu não entendo o horário do casamento, mas acho que eles herdaram isto dos portugueses, porque em Lisboa também os casamentos são realizados de dia, deve ser para que o noivo não seja enganado a respeito da beleza da noiva, principalmente aqui, em que se pode correr o risco de só ver a noiva no dia do casamento.

Acho engraçada a estória, mas não consigo explicação para o fato de noivas e convidados estarem ali, penso que deve ser alguma tradição.

Ouço um senhor falar para outros, que já estão reunindo o pessoal para ir embora e aí noto que tem muitos carros no local, inclusive vans.

Sigo em frente. Sinto-me, outra vez, roubada, porque compro duas calças por 500 meticais, e olhe que começou com o cara pedindo 350 por cada uma.

Compro as calças e vou andando em direção ao centro, que está muito longe, mas eu não tenho outro jeito, pois não vou tomar a chapa e não tenho crédito no telemóvel para chamar um taxi.

Vejo muitos carros juntos seguindo um primeiro que está todo enfeitado. Olho rápido; é mais uma noiva, que vai em direção ao mesmo local onde estavam as duas outras.

Mais carros e mais noivas, passaram umas três ou quatro, todas com o seu séquito.

De repente vejo batedores, muitas motos. Um dos motoqueiros grita para mim uma piada que não consegui entender, graças a Deus, por isto olho para o lado e que surpresa! Os batedores estão abrindo caminho para uma limusine branca, que esta toda enfeitada, indicando que ali vão os noivos. Quase não acredito no que vejo uma limusine, mas para meu espanto, a primeira vinha seguida de mais quatro, uma delas vermelha e as outras pretas. Todas com vidros escuros que não permitiam ver nada lá dentro. Não pensem que eu estou brincando, eram limusines mesmo, aqui em Maputo. Não bastasse a limusine, um séquito de carros seguiam o cortejo, muitos jeeps e carros importados lindos: parece que alguém da nata estava se casando.

Fiquei mesmo estupefata! Numa cidade pobre e suja como Maputo, uma cidade cujo governo se diz socialista, vide os nomes das ruas que já indicam a ideologia que os senhores representantes do Governo querem afirmar – Vladimir Lenine; Mao TSE Tung, Ho Chi Mim; Guerra Popular; Karl Max: Engels, Amilcar Cabral, Salvador Allende e muitos outros ,o regime que se quis implantar em Moçambique com Samora Machel em 1975 e a FRELIMO(partido marxista-leninista). O homem passou na Presidência 11 anos, só deixou o cargo por força da própria natureza, faleceu 1986, o que não impediu que a FRELIMO continuasse no poder, embora, hoje exista um outro partido, que lhe faz oposição, a RENAMO- Resistência Nacional de Moçambique). Não percebo, entretanto, como isto funciona aqui em Moçambique, sei sim que em todo e qualquer governo, seja ele socialista, comunista, democrático, ditador, há os que mandam e os que obedecem. Há a burguesia, tão combatida pelos dois primeiros regimes, e a pobreza.

O nome das ruas nada significa, os símbolos colocados na bandeira Moçambicana também não, aliás, os homenageados com os nomes das ruas, certamente devem estar muito aborrecidos com esta homenagem, que nada os dignificam, muito pelo contrário, demonstram que as suas doutrinas foram por demais mal interpretadas, que a mais valia aqui é ser rico, rico mesmo, sem que os pobres possam jamais sair do estado de pobreza em que se encontram. Aliás, um escritor moçambicano, ROCHA, 2006:82-83

“Apesar da orientação ideológica socialista e tal como anteriormente o movimento frentista, o PF continuou a ser uma força heterogênea, com sensibilidades diversas, integrando marxistas e liberais, militares, intelectuais e tecnocratas, muitos deles vendo no Partido uma forma de aceder a lugares e benefícios diversos”[...] As conseqüências desta opção marxista pela FRELIMO, embora se possa reconhecer o seu carácter estatista e modernista, não se fizeram esperar, tanto interna como externamente. A ala marxista era efectivamente hegemônica, mas os ideais socialistas não eram partilhados por parte significativa dos membros do Partido. Por isso a adesão à postura socialista não foi consensual, e alguns críticos tiveram de deixar o Partido, indo alguns dos mais inconformados formar bases de grupos oposicionistas diversos, alguns dos quais vieram a integrar o movimento rebelde que mais tarde se constituiu na Resistência Nacional de Moçambique(RENAMO)” (grifo nosso)

Portanto os pobres vão continuar a revirar o lixo para comer, a vender frutas e verduras nas ruas, sem quaisquer condições de higiene, a vender coisas usadas nas ruas, a roubar as pessoas, enfim, que eles se lenhem para que os ricos, cada vez mais ricos, continuem andando de Limusine, acentuando a diferença, que foi tão combatida na época colonial em relação aos europeus. Mudam os nomes e até mesmo a cor dos dirigentes, o que não muda, exatamente, é a divisão de classe aqui tão bem visível, sendo que o proletariado daqui, não existe, pois o proletariado tem de estar organizado para alcançar os seus objetivos, o que, possivelmente, ainda vai demorar muito, se é que um dia isto ainda possa acontecer. Enquanto isto, Maputo fica mostrando os seus contrastes e Moçambique continua recebendo fundos humanitários para combate a AIDS, para preservação dos animais (elefantes, onças, girafas, macacos, hipopótamos, cobras e muitos outros) e o povo continua a morrer de fome nas ruas, sem emprego, sem assistência, sem dignidade, mas os resorts em Inhaca, nas praias de Inhambane, em Pemba e em tantos outros sitos do país continuam recebendo turistas que saem daqui encantados com as belezas naturais, sem qualquer preocupação com a população, que de uma maneira ou de outra, ainda continua à disposição dos que se julgam superiores.