quarta-feira, 28 de julho de 2010

Resenha da vida alheia


Estavam num restaurante de nome ESCORPIÃO na Feira Popular de Maputo. O nome do restaurante já não recomenda bem, pois lembrem que escorpião, além de ser venenoso, mata com o rabo, aliás, era o que parecia não faltar naquela mulher.

O homem nem sequer olhava para ela. Olhava para tudo, para a televisão, para quem passava, para frente, para o lado contrário, mas nunca para o lado direito onde ela estava.

Ela era uma negra, parecia usar peruca, o que é bem normal em Moçambique, era feia e tinha uma testa enorme. A peruca estava colocada quase no meio da cabeça, fazendo com que a testa parecesse maior. As unhas enormes, “a La Du Carmo”, com esmalte bem vermelho, um contraste da porra com a cor da sua pele. Usava um casaco preto, que não dava para ver a roupa que estava vestindo. Não dava para saber do corpo porque estava sentada, mas parecia ser gorda, e a calcular pela aparência e por tudo já visto em Maputo, devia ter uma bunda característica da maioria das mulheres daqui, enorme e cheia de culote e celulite.

O homem era magro e parecia ter um corpo másculo e bem feito, entretanto não dá para garantir, porque não levantou.

Ela usava uma aliança na mão esquerda, que realçava ainda mais, tanto a cor própria quanto as das unhas à “La Du Carmo”.

Estava há umas quatro mesas da deles e tentava captar a conversa pelos lábios da mulher.

Ela falava de uma maneira que, pela intuição feminina que temos, nós as mulheres, parecia querer saber algo do senhor, uma resposta, uma justificativa para alguma coisa que fazia parte da relação deles.

O olhar dela era incisivo! Ela não desviava o olhar da face do homem enquanto falava, mas o cidadão nem mesmo levantava a cabeça.

Por um momento a leitura dos lábios dá a impressão que ela diz:

- Quero uma explicação, sei que nos damos bem na cama!

Portanto, não era este o motivo do problema para ela, e ela queria saber qual. Parecia estar tentando se segurar, controlar a situação sem perder a classe.

As mãos se juntam e batem na mesa em um gesto nervoso.

O homem nem se abala, quando muito sorri cinicamente, é o que parece, pois não da para ver todo o seu rosto de onde estava.

A mulher continua a falar, a gesticular, a olhar para ele fixamente.

Ele na mesma postura

De novo, um novo gesto e as pontas dos dedos agora batem repetidas vezes na mesa, era como se a mulher quisesse acompanhar com os dedos o seu raciocínio verbalizado.

Os dedos fazem um desenho na mesma, não é um desenho premeditado, é apenas um caminho para ela poder aliviar a tensão, é como se os dedos e a forma que eles desenhavam lhe ajudassem a dizer o que lhe ia na alma naquele momento.

A comida chega. Agora o homem se mexe porque vai comer, nada além disso. A mulher continua a falar. Questiona-o; o seu rosto é uma interrogação só. Pergunta e quer resposta, olha-o, como sempre, fixamente.

O sacana, olha já o julgamento feminino, não tá nem aí, continua a comer na dele.

Ela dá um sorriso irônico, como se quisesse dizer que não acredita em nada que ele possa dizer.

Os olhos abrem-se mais e ela fala com alguma ironia mesmo. Não dá para perceber o que. A mulher quase não mastiga, porque não para de falar um minuto sequer, é sempre falando, argumentando. Nem mesmo se o cara quisesse dizer alguma coisa poderia, ela não dava tempo.

A conta chegou, tem de ser paga, mas não se quer perder nenhum lance. Fica-se e, num guardanapo, começa-se a descrever a cena.

Não há mais dúvidas: Tá pagando a conta e vê o cara mostrar o visor do telefone para a mulher. Ela coloca um pouco a cabeça para trás para olhar o tele móvel: Quem é? Não se vê e nem se ouve a resposta, mas o cara faz um gesto com a mão, como se quisesse indicar que era a mesma pessoa que tinha ligado antes. Ela olha o visor outra vez e não diz nada. Apenas sorri ironicamente balançando a cabeça. Era como se disse em boa gíria “não tô comendo nada disso”.

A expressão dela muda, a fala fica mais incisiva, o olhar procura o dele incessantemente, mas o cara não se arrisca, sabe perfeitamente que o seu olhar pode demonstrar a realidade cruel que ela, apesar de tudo, de tantos questionamentos não queria saber, ou melhor, ter a certeza.

O rosto contrai-se, agora expressa aborrecimento, entretanto, ela não para de comer.

Tinha mesmo que ir embora, precisava sair dali; não só porque já pagara a conta, como também, porque o homem que está sentado na mesa junta à dela, começa a chupar os dentes, e isto, nem mesmo a resenha da vida dos outros, levar-lhe-ia a suportar.

Levanta-se e pensa: vou passar bem junto a mesa deles para ver se capto alguma coisa. Neste momento o homem faz um gesto e vê-se a aliança na mão esquerda, aliás, impossível não ver, o dourado faz mesmo contraste com a pele negra e aparece muito, aliado ao fato de que a grossura dela jamais deixaria que ela passasse despercebida. No entanto, parece que de nada adiantou, ou adianta, tanto brilho: as outras não se importam com isso, tampouco ele, com certeza.

Passa pela mesa deles, mas não ouve nada, ela parece ser uma pessoa educada, fala baixo, mas não dá para ter dúvidas: ali estava uma relação a terminar, e a terminar como muitas outras, por causa de alguma outra, MÁ-PUTA.