terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma visita quente


Estava, como sempre, sozinha em casa. Lia um livro deitada na rede e levantou-se para beber água. Quando chegou à cozinha, um susto daqueles: Um homem alto, quase 1,90, todo vestido de branco, roupas finas, parecia calça de linho tipo pijama e camisa de cambraia de linho, uma roupa solta e bem estilosa. Os cabelos grisalhos muito bem cortados, mais com muito estilo, caiam-lhe no rosto, uma sandália tipo pescador, aquelas usadas pelos apóstolos de Cristo lembram? Os olhos de um azul tão denso, que nem chegavam a ser bonitos, com um grande e assustador detalhe: não tinham pupilas. Tudo era azul.

Ela assustou-se e deu um grito. Ele lhe fez sinal com o dedo na boca para que ela se calasse, e foi entrando na cozinha, ela, dando de costas, terminou por se bater na geladeira, ficara ali, encurralada, e o homem se aproximando mais e mais.

Quase colado com ela ele parou e a olhou com aqueles olhos despupilados, horríveis

Ela balbuciou: - Quem é você? E o que quer na minha casa? Como você entrou aqui? Cadê o cachorro?

Ele deu risada e disse: - Minha querida, uma pergunta de cada vez. Não se apresse, porque temos muito a conversar. Já já você vai saber quem sou, o que quero, e por que estou aqui.

Falava manso e ela começou, apesar de tremendo e temendo, ficar um pouco menos assustada.

- Vamos, sente-se. Você estava lendo na rede, portanto, pode voltar para lá que eu fico ali conversando com você.

-Não quero! Você é um homem, eu estou na minha casa, sou casada e os vizinhos podem nos ver.

-Bobagem, os vizinhos não conseguem me ver, não se preocupe

-Como não podem lhe ver, ali é a varanda que dá para a rua, para o muro da casa ao lado, enfim, qualquer movimentação das pessoas e eles vêem o que se passa aqui em casa.

-Pois é! Um defeito que você tem de jogar para o alto. Não se preocupe com os que as pessoas acham ou dizem: Você não tem que dar satisfações a ninguém. Já tá bem grandinha para isto.

- Quem é você para me dizer estas coisas? Quem disse que dou satisfação da minha vida aos outros?

-Ora, você às vezes se passa como agora, não é uma mulher tão inteligente como pensa a ser. Você acabou de demonstrar que liga, e muito, para a opinião dos outros, mas isto não interessa agora e nem vem ao caso, vamos conversar. Se não quiser sentar na rede, sente em outro lugar, eu vou tá aqui mesmo, pois hoje você não me escapa.

Começou a se preocupar novamente: O que ele queria dizer com de hoje você não escapa. Quem era aquela porra Meu Deus?

Logo que teve este pensamento o homem vira-se para ela, e os olhos já não estavam azuis, pareciam duas bolas de fogo. – Para que você esta pensando nele? Neste momento sou eu e você e ele não vai se meter. Não pense e nem fale o nome dele enquanto eu estiver aqui.

- Ela não entendeu nada, não havia falado em nome de pessoa nenhuma. Assustou-se com aquele olhar de fogo e com as palavras ditas entre dentes e com muita raiva.

- Falar em nome de quem?Eu não disse nada!

-Não disse mais pensou, a sua voz já tinha voltado ao normal, e olhe que era uma voz quente, macia, gostosa de ouvir. – Esta pessoa não merece o seu pensamento nem qualquer suplica, porque não gosta de você. Olhe a sua vida como está. Você tem quase sessenta anos, está marcada pelo tempo, está só, não conta com ninguém, está sem dinheiro, tem dificuldades financeiras, continua ajudando muitos e sem nada receber em troca. Por que então pensar nele ou questionar alguma coisa com ele?

Cada hora que passava ela entendia menos aquela situação.

O homem, já agora bem sentado na varanda, olhava para ela sorridente e dizia- A sua casa é linda! Mas você vai perdê-la pela sua idiotice. Você é muita boba, deixa-se enganar facilmente, e por isso vai perder o que tem e ainda o que conseguir, porque as pessoas te usam e você vai permitindo. Falo de todos que passaram por sua vida. Não vou citar nomes porque você bem sabe do que estou falando. Você idiota, e o outro, a quem você chama, deixando que tudo isto aconteça com você, sem fazer porra nenhuma. Até quando você vai esperar que “ele” resolva os seus problemas?

- Quem é você? Por que esta a me dizer tudo isto? Como sabe tanto de mim?

-Eu te acompanho querida, aliás, acompanho todos. Tenho disputado por toda a minha vida um espaço com “aquele” a que você chama, ou melhor, todos chamam. Tenho boas chances com alguns, com outros perco, mas não desisto, neste aspecto, sou como você, que toma tanta cacetada, mas não desiste desta mania idiota de ser “boazinha”. Para que ser boazinha? Para ter reconhecimento de todos? Para ser apontada como exemplo? Para que todos digam que você é uma pessoa com um grande coração? Idiotice mesmo, você deixou a vida passar preocupando-se com os outros. Deixou se endividar para saldar compromissos alheios. Você, para compensar uns de perdas irrecuperáveis, transformou pessoas de sua intimidade em verdadeiros parasitas. Você bem sabe do que estou falando, não vou citar nomes para que você não fique, com esta sua sensibilidade exagerada, melindrada, aliás, coisa que você adora. Ficar melindrada. É mais uma satisfação para os outros? Ou é algum tipo de jogo que você joga para enganar as pessoas? Ou é uma coisa atávica?

-Eu, enganar as pessoas?

-Sim minha querida! Você engana bem as pessoas, porque você não queria ser nada disto. Você bem queria ser uma pessoa completamente fria, insensível, egoísta, materialista, arrogante, prepotente, vingativa, aliás, como deveria, até mesmo pela profissão que escolheu e é por isso que estou aqui, para te ajudar a conseguir todas estas qualidades que lhe faltam.

-Qualidades! Você esta me propondo ajudar-me a ser um “não ser”?

-Lá vem você com idiotices! Não se cansa? Com tanta porrada que a vida já lhe deu, que aquele “outro” permitiu que você tomasse, e ainda vem me falar em “não ser”? Olhe á sua volta, tirando as pessoas que não tem mesmo para onde ir por completa falta de tudo, olhe bem as outras a quem você ajudou e que estão se dando bem: O que eles fazem por você? Nada. Quantas vezes você precisou de algum favor que envolvesse dinheiro, não que você não pudesse pagar, mas sim porque no momento você não estava presente. Quem te ajudou? Salvo uns poucos, muitos poucos, aqueles que têm nomes de Apóstolos, e um santo que não é tão santo assim, ninguém lhe dá nada. Se pudessem, até lhe tiravam mais.

-Não lhe dou o direito de falar assim das pessoas que me rodeiam!

-Quem está lhe pedindo autorização para nada. Eu posso dizer tudo, também acompanho a vida deles e sei os pensamentos: Alguns chegam até a dizer, “Vamos pedir a doutora porque ela tem.” Ela pode. Já viu o salário dela? Não é só isto “otária”, há uma multidão atrás destas pessoas que pensam da mesma maneira. Você é uma sacana que não faz o que poderia fazer, porque não se preocupa com os seus.

-Como é. Você tá louco, aliás, saia da minha casa, ninguém te autorizou a entrar e, muito menos, me dizer tanta merda.

-Merda o que? Você sabe que é verdade. Você tem ao seu redor muitas pessoas que, também como você, se julgam boas; boas da maneira que eles acham que é ser bom, ou seja: tudo para mim e para os meus, e se possível tirar um pouco do outro vou fazê-lo, porque o outro pode. Quantas pessoas já lhe traíram? Quer que eu enumere? Eu sei de tudo, seja de traição de homem, de amigos, de conhecidos, vizinhos. Eu to te dizendo, eu sei de tudo e vejo tudo, ganho algumas batalhas contra “aquele”, mas você já notou que posso sair mesmo vencedor em muitos casos, mui principalmente com pessoas que lhe rodeiam. Você não sabe, nunca soube escolher bem amigos, conhecidos, companheiros. Deixou que muitas pessoas entrassem na sua vida para te magoarem muito. Deixou que tanta coisa acontecesse com você que até eu, que adoro uma sacanagem, uma miséria, erros, falsidades, estou saindo em sua defesa. Cansei de ver você explorada, infeliz, sacaneada, traída. Acho mesmo que você não merece. Por isso vim te ajudar. Se seguir os meus conselhos vais ter uma vida maravilhosa. As pessoas vão te dar o merecido valor.

-Não quero sua ajuda, não sei quem você é, mas parece que você é aparentado com o “Satanás”!

-Kakakakakakakakakakaka! Até que enfim hein! Pensei que você nunca ia matar a charada! Sou eu mesmo querida! Viu que posso estar em muitos lugares e influenciando todas as pessoas? Viu como é fácil me infiltrar na vida deles. Você não, você eu tive que vim e me apresentar a você da maneira que você gosta, para que me desse ouvidos. Você sempre me tirou de letra do seu espaço, até mesmo quando dava algumas decisões medíocres. Vibrei quando você, tão boazinha, tão humaninha, teve a coragem de dizer que aquele povo que virou churrasco não tinha quaisquer direitos, pelos menos na sua área. Vibrei, mas depois me aborreci seriamente com você, porque, afinal, você tinha razão, não estava fazendo qualquer sacanagem, eles é que queriam fazer. Vibrei quando você falou do velho surdo, mas, olhando de novo tudo o que fez, fiquei, mais uma vez frustrado, porque você tinha razão, aquele era um velho chato e inconveniente, o que eu achava ótimo, pois, agia de acordo com os meus padrões. Você não me dava motivos de orgulho, não se apresentava como uma boa filha, uma merda. Mas,mesmo assim, mesmo com tantas futucadas, você não se fazia revelar como eu queria, me criando todo o tipo de dificuldades.

-Tá maluco? Saia daqui, não quero mais ouvir você falar, não quero mesmo.

- Não to maluco nada. Deixe eu te lembrar mais coisas, para que você perceba bem o quanto foi idiota.

-Não quero ouvir mais nada, me deixa em paz? Já que você quer me ajudar, o melhor a fazer é sair daqui.

-Nem pensar querida. Se eu sair daqui agora o muito que você vai fazer, idiotamente como sempre, é ficar chorando ai pelos cantos maldizendo a sua “sorte”. Não, vou ficar aqui e lhe dizer mais coisas. Tenha certeza que para o seu próprio bem. Já lhe disse, cansei de ver você só tomando na cabeça, nem eu, Diabo, agüento ver isto mais. Quer saber: você, toda “boazinha”, deu, ou melhor, deixou que pessoas entrassem na sua casa. Sabe o que elas fizeram? Trouxeram-me para dentro dela, e eu fiquei aqui, não sai mais, gostei do ambiente. Enquanto eles estiveram nela, isto aqui era mesmo o meu espaço, um inferno. Todos querendo tirar de um só, todos explorando o outro, todos querendo tirar vantagens. Enterraram coisas, plantaram coisas, e depois, você, de bobeira, entra nela, de peito aberto, sem quaisquer precauções. O que aconteceu? Quer que eu fale? Quando foi que a sua vida começou a mudar literalmente em relação ao “amor”? Pense um pouco? O outro que andava com você, mais esperto, mais íntimo meu, não gostava dos desafetos, mas...

-Vá à porra, me deixa em paz!

-Oh querida, este seu palavreado não lhe ajuda em nada, é apenas criticado pelas pessoas, nada mais, você que dá tanto valor a opinião alheia, devia parar com isto, dar-lhes menos um motivo para falarem de você. Ninguém acha engraçado, lhe fazem criticas. Pensa que isto e coisa minha? Qual nada, com você eu não tenho chance mesmo. Isto é apenas mais uma das suas idiotices, talvez para parecer o que não é, como se você precisasse de alguma coisa para ser notada, respeitada, etc. Você não precisa de nada, você “é” porque nasceu já sendo, não precisou ser fabricada, não se esqueça disto. Você nunca será um “não ser”, porque você realmente “É”. Até as pessoas que não gostam de você, não se engane, não porque, infelizmente, você fez nada para lhes tirar alguma coisa, ou alguma sacanagem, mas porque você “E” o que eles jamais serão. Eles sabem disto e, por isso mesmo, não gostam e tem os sentimentos que eu gostaria que você tivesse para fazer parte da minha turma: Inveja, mesquinhez, miserabilidade, ciúme.

-Acho bom você parar, to ficando muito cansada desta sua conversa.

-Mais uma só. Quando você viu seu”amado” com uma pessoa no fusca: lembra disto? Olhe que isto tem muito tempo. Você andou até o meio da rua. Eu atrás de você vibrando, ela vai fazer uma merda, vai quebrar o carro, vai bater no cara, enfim, fazer tudo que uma pessoa normal, que nem precisava estar de mim acompanhada faria. O que você fez e me aborreceu bastante: Voltou e ficou em pé, parecendo um poste, olhando aquilo tudo, chorando, bem verdade, mas quieta. Depois ficou orgulhosa a dizer que quem saiu foi ele. Porra nenhuma, ele fez o que quis fazer: te humilhou, te sacaneou, e você quieta, sem reação e eu, mais uma vez, vencido. Você tinha de ter arrebentado tudo. Pelo menos ia sair no jornal.

-Por favor, vá embora. Não quero mais esta conversa, já chega o que passei, não vou sofrer duas vezes.

-Sofrer! Pois é: eu é que não agüento mais ver você se martirizar, sofrer, se acabar. Gosto de pessoas bonitas, “gostosas”, pelo menos que assim se acham, mas você me decepciona a todo o momento, pois não adianta ser “boazinha” por dentro, esta marmelada que ensinam: “que as pessoas são feias por fora e bonitas por dentro”. Não é assim, e você bem sabe disto, o que interessa é o que aparece, e você não esta se cuidando. Seja fútil: vá para as academias pela manhã, pela tarde e, se possível, à noite. Vista roupas caras, as pessoas gostam de marcas, lhe dão o valor pelo que você usa, vá à restaurantes finos, freqüente as barracas de praia da moda, faça uma semana de spar, mas comente com todos isto, não se esqueça de falar muito sobre isto, compre óculos da Prada, Armani, Kalvin Klein. Vá morar em um flat, tenha carro bonito, se possível com um motorista a sua disposição, faça cruzeiros. Porra de estudar mais, estudar para que? De que adianta um título de doutor se você não tem nem com quem partilhar esta emoção? Para que este saber se as pessoas, nem sabem o que você sabe e nem querem saber por que não interessa falar “de pretos”. Larga esta porra toda. Vá se endividar mais, agora, com você, para que ao menos, depois da morte, quando você for encontrar comigo, justifique a sua chegada lá pelas minhas bandas. Deixe dívidas para que, aqueles que lhe tiraram tudo, inclusive a sua dignidade, paguem por elas e não tenham direito a nada do que você conseguiu com o seu suor, que infelizmente, não foi resultado da minha companhia quentinha. Faça tudo o que lhe der na telha. Seja cruel, diga às pessoas o que você gostaria que elas ouvissem. Deixe de dar dinheiro a familiares, eles que se virem; você já fez demais. Fico puto com todas estas boas ações suas, boas ações que me afastam de você, mas não me deixam tão distante que não perceba o mal que isto sempre lhe fez. Olhe! agora quem cansou fui eu. Você parece não querer entender que eu, somente eu, posso te ajudar. Veja se agora, depois de mais de meio século pedindo ajuda “àquele”, você pode me dar uma chance. Tenho certeza que você vai ser feliz, porque eu posso lhe dar isto, Você merece!

Desapareu. E ela ficou na sua rede a pensar. O que foi isto? Um sonho? Minha consciência? Será mesmo que vale a pena, ao menos, repensar tudo isto?

O cachorro chegou junto dela, estava todo arrepiado. Da porta da cozinha ele, agora já com a sua veste peculiar, gargalhava. Te fisguei! Agora você é minha, não ha mais como separar-nos e, descaradamente, mostrando todo o corpo nu, disse: Voltarei á noite, pode me esperar, queira você ou não,vou mesmo lhe ensinar o que é ser feliz.