quinta-feira, 29 de julho de 2010

Amigas inseparáveis! Será?

Eram três amigas quase inseparáveis, tinha uma quarta, que era apenas uma abelhuda, nada mais que isto.

Chamavam-se Lu, Tina e Geo. Duas delas, Lu e Gel, eram esquisitas, ficavam estranhas com a roupa de anarruga que tinham de vestir. Lu vestia a verde, Gel a azul ou rosa. É que a cor fazia diferença entre os graus escolares e idades. As mais velhas e que já estavam no curso pedagógico vestiam azul; as que estavam no ginásio vestiam verde. Era alguma coisa assim.

A roupa era um robe até o joelho, que tinha um cinto do mesmo padrão. Era este cinto que dava um jeitinho melhor no corpo de quem já tinha ele melhor mesmo, do contrário fazia parecer que a pessoa era um saco amarrado pela cintura.

Tina ficava bem com esta roupa, o mesmo acontecendo quando estava com a farda da escola, blusa branca e saia de machos azuis, sapato vulcabras colegial e meias. Era do tipo que qualquer coisa lhe caia bem. As outras duas, coitadas, pareciam não se adaptar a roupa alguma, não nasceram para vestir saias ou vestidos. Lu era uma mulher feia, morena cara de cavalo enorme, cabelos bem pretos e cheios, o que bem aumentava o tamanho do rosto, porque tinha um corte para lá de esquisito. Os olhos eram bem negros. Era mais ou menos alta e andava meio curvada e tinha as pernas meio tortas, aliás, andando, fazia questão de acentuar isto.

Geo era uma espécie de loura. Cortava o cabelo bem curtinho, mas curtinho mesmo. Usava óculos e tinha os olhos mais para o claro. Tinha estatura média, talvez um pouco maior que Lu. Também ficava muito estranha usando saia, pois tinha as pernas tortas, não tinha bunda e andava, também, com uma curvatura nos ombros.

Tina não! Tina era mesmo uma mulher para homem algum botar defeito. Pernas grossas, coxas duras e grossas. Não era magra, mas nada tinha de gorda. Tinha cintura fina, braços roliços. Um rosto bonito de mulher, não era de bonequinha. O cabelo era no ombro e tinha uma tonalidade castanha claro, já chegando para o mel. Os olhos eram verdes. Era mesmo uma beleza de fêmea, e ela bem sabia disto.

Andavam sempre as três. A abelhuda achava estranho, pois as duas outras faziam tudo que a Tina queria, era como se fosse um jogo, quem me der mais me leva.

E era um tal de ir buscar café quentinho, leite, trocar pão com outra pessoa porque ela gostava de pão mais queimado, fazer os deveres de casa, neste particular Geo levava a vantagem, pois já era quase uma professora.

A vida ia indo sempre assim. A abelhuda, porque era muito jovem mesmo, achava aquilo tudo estranho, mas não questionava muito nada, até porque, como a diferença de idade entre ela e as três era imensa, ninguém lhe daria qualquer satisfação, fosse ela boa ou ruim, satisfatória ou não. Elas lhe toleravam ali porque gostavam dela e também porque, depois a abelhuda percebeu, era muito conveniente ter quatro pessoas e não só as três de sempre, dava menos nas vistas.

Um dia estavam as três numa mesa tomando café. Havia uma coisa qualquer no ar, que a abelhuda não percebia o que era, mas sabia que algo estava acontecendo. Foi para a mesa delas, mas a Geo pediu que ela saísse porque elas estavam conversando uma coisa séria. Saiu de perto, mas ficou na espreita, afinal era uma abelhuda e tinha de agir como convinha a uma.

As três discutiam. A Geo falava, a Lu retrucava, a Tina dizia algo sem se alterar. As outras duas estavam bem alteradas, pareciam que queriam se comer. Saia faísca para todos os lados. Tina, de vez em quando, fazia sinal para elas falarem mais baixo, mas a discussão ganhava mais calor a cada momento. Tanto Lu quanto Geo tinham as xícaras de café em frente a si. Em um dado momento Geo pega a xícara e atiça com café e tudo na cara de Lu. O café estava quente e quase faz um estrago daqueles na cara da outra, que também, ato continuo, jogou a sua xícara na Geo. O mangue se formou. Tina estava transtornada e gritava para elas pararem, as duas estavam se pegando, quando as freiras, e olhe que foram bem umas cinco, se aproximaram correndo tentando tirar uma de cima da outra. Um verdadeiro carnaval. Todas as internas pararam o café para assistir a cena. As irmãs quiseram tirá-las do local, mas era impossível, todas queriam ver aquilo e também era preciso acabar com aquela briga que podia terminar em tragédia, e elas preferiram se ocupar disto.

O jardineiro é chamado, ali era necessária a força de um homem para controlar os outros dois, que agora mostravam mesmo toda sua força masculina, de macho que lutava pela sua fêmea.

Resultado: Lu expulsa, Geo, porque estava mesmo formando-se em professora, terminou o curso externa, e Tina, a causadora de tudo, mas que não tinha brigado nem nada, não tinha feito absolutamente nada, isto é, que as irmãs tivessem percebido, isto em relação ás vias de fato, porque as freiras sabiam perfeitamente que ela era o pivot daquilo tudo, ela era o troféu que estava sendo disputado pelas outras duas, sairia da escola no final do ano, após o término do ano letivo.

Para a abelhuda não sobrou nada, a não ser, anos depois, entender o que tinha se passado naquele dia. Quando entendeu tudo percebeu o risco que correu andando com as três na sua inocência, que não era vista como tal, por tantos quantos sabiam do caso entre as três internas.

É mesmo assim. O internato tem dessas. As paredes dos internatos têm muitos segredos, muitos deles nunca serão divulgados, mas há sempre um “Boca do Inferno” atento, e um dia, quem sabe...!