sábado, 7 de agosto de 2010

Tá com a vista boa? Então enxergue direito...

Está nostálgica. Deve ser porque passou em frente a um bar na Rua do Hotel onde está hospedada, e ouviu uma música do tempo “corno” aí no Brasil. Do tempo em que ela ouvia rádio com um dos irmãos segurando a antena para que a mãe pudesse ouvir a novela, “Jerônimo o Herói do Sertão”, salvo engano; se não esta era “O Direito de Nascer”. Não interessa o nome da novela, o que interessa é o rádio e as músicas que nele tocavam: O ébrio com Vicente Celestino; Senhor da Floresta com Augusto Calheiros; Unforgatable com Nat King Cole, Boêmia com Nelson Gonçalves, Anísio Silva e tantos outros que não vai mesmo lembrar os nomes. As quatro ou cinco da tarde o rádio tinha um concorrente, que era o serviço de alto falante da Cidade, que como já disse uma vez, uma das bocas ficava, exatamente, no poste em frente à sua residência.

Pois, neste alto falante aprendeu uma música, que, salvo engano, era cantada por Adelino Moreira, que, se vocês não sabem, era português do Porto, e compôs muitas músicas para Nelson Gonçalves, talvez por Anísio Silva, este é mais provável, porque a música era da dupla que sabia fazer música de dor de cotovelo, Euvaldo Gouveia e Jair Amorim. Vocês devem ter visto o especial sobre a Dalva de Oliveira e viram como as coisas de corno eram cantadas em versos pelos corneados. Depois disto a música já teve inúmeras regravações, inclusive, por Gal Costa: Olhem que primor de dor de corno: “Alguém me disse que tu andas novamente, de novo amor, nova paixão, todo contente. Conheço bem tuas promessas, outras ouvi iguais a estas. Este teu jeito de enganar, conheço bem. Pouco me importa que te beijem tantas vezes, e que tu mudes de paixão todos os meses, mas se vai beijar como eu bem sei, fazer sonhar como sonhei, mas sem ter nunca amor igual ao que te dei.”

Viu Bem! Corno é assim. Sabe que o ex parceiro tem outro (a), mas faz uma música desta, como se para ter mesmo um consolo. Então lá se quer saber se alguém beija melhor do que ela? Se alguém sonha os sonhos que ela sonhou melhor? Quer nada! Embora hoje ela não se preocupe com os beijos e a boca tantas vezes beijada, mas sim com a vista, a visão dos outros, daqueles que dão ou deram um “corno”, ou mais, em alguém.

Fica a pensar. Se o corneante dava corno com a visão turva, vendo as coisas um pouco deformadas, imagine agora vendo todos os detalhes. Aí é que vai cornear mais, porque vai ficar procurando sempre melhorar o que tem, embora todos nós saibamos que as aparências enganam, e como enganam. Ninguém traz na cara o que lhe vai ao interior. Alguns, muito poucos, teem o privilégio de, com os olhos, entregarem todo o seu “eu”. São pessoas sensíveis e que não sabem enganar. Os olhos falam mais de que a sua voz. Não é necessário que essas pessoas digam nada a respeito de si em alguns momentos da vida, porque os olhos já dizem tudo. Pessoas que não podem e nem sabem mentir, tem um detector de mentiras dentro de si próprias, por isso não podem enganar nem a si e nem a ninguém.

Sabe ela que ninguém tá entendendo nada desta estória de visão, mas “a quem interessar possa” vai entender, e muito: talvez seja muito tarde para poder ver as coisas com mais clareza, sem a névoa que tomou conta dos seus olhos e do seu interior. Quem deixou de ser visto por causa dos maus olhos, por força da visão turva, primeiro sintoma da catarata, pode não mais estar disponível para ser olhado com a visão restabelecida e, mesmo com o saudosismo das canções, mesmo querendo voltar o tempo, mesmo lembrando do que deveria tá morto e enterrado pode, agora, sofrer da vista e ter a visão turva, já não podendo mais falar com os olhos o que lhe vai na alma e nem enxergar os sinais de quem, agora, é portador de uma excelente visão, ao menos de um dos olhos.

Certamente, um reparo da visão enevoada não mudará a maneira de olhar da pessoa: Claro que não!Uma simples operação na vista não faz com que ela seja retrato da alma, apenas melhora a visão de fora, o interior de cada um continua como sempre, porquanto poucos, muitos poucos, mas poucos mesmo, conseguem, mesmo com problemas de vista acarretados pela idade, refletir com os olhos tudo que se passa no seu interior, da felicidade à mágoa, do ódio ao amor, da tristeza à esperança, mesmo que seja a de “corno” ao cantar ou, ao menos, cantarolar os versos da música cantada por Adelino Moreira,digo Anisio Silva, como esclarecido por um leitor, a quem se agradece, inclusive a dica para mais um texto, porque nada como se falar da "sede"  social dos bairros periíericos..