quarta-feira, 11 de junho de 2014

Sou brasileiro com muito orgulho e muito amor

O nome do bar é “cool”. Pronuncie bem o “l” final, deixe-o vibrar entre a língua e o céu da boca. Não se pode fazer bico, pois, se o fizer o bar vira um sanitário público.

O certo é que estávamos ali, chegamos cedo para pegar uma boa mesa para assistir o jogo. Como o bar é o primeiro de uma série de 30 a 40 seguidos, observávamos carreatas de pessoas passando em frente ao bar, a predominância do “verde e amarelo” era notável. Todos queriam mostrar nas vestes o que lhes ia ao coração, o orgulho imenso de ser “brasileiro”.

Os modelos variavam. Desde a famosa camisa oficial da seleção brasileira de football, com emblema da CBF e tudo, que era delicadamente beijada por um patriota, às tiras verdes e amarelas formando um bustiê para não cobrir nada, ou melhor, deixar entrever o patriotismo nacionalista, literalmente, no peito. As tiras nem cobriam e nem sustentavam tanto amor patriótico transbordando por todos os lados.
A cantora que animava os torcedores antes do jogo começar, durante o intervalo, e no seu final, também vestia verde e amarelo, acho que se pode chamar aquela roupa de um collant de tiras estilizado, ao melhor estilo “brasileiro”, que deixava mostrar as curvas e voltas de uma brasileira pequenina do Espírito Santo, mas com uma voz do tamanho do Brasil.

Adiante, um pouco mais na frente do bar, pais que orgulhosamente mostravam os seus herdeiros, bebês verdes e amarelos, o símbolo da nação protegendo um deles do vento, uma proteção aos seus jovens filhos, o outro, trazia uma faixa na cabeça com o nome e cores do Brasil. Os pais, devidamente paramentados, não deixavam quaisquer dúvidas de suas origens.
Uma bandeira imensa passa, todos gritam. Vendedores estão parados na frente do bar, de um lado o cachecol de Portugal, do outro, camisas, bandeiras, chapéus do Brasil.

Uma vuvusela potente soa: o jogo esta prestes a começar. Todos estão sentados, a banda já não toca, também eles querem ver o jogo. Hino Nacional Brasileiro, alguns, na verdade uma mesa com umas 30 pessoas, levantam-se e, mão no peito, cantam o Hino Nacional Brasileiro. O jogo começa, todos nervosos, na verdade queríamos mesmo ganhar. Muitas cervejas, muitas “porras” e “putas que pariu”. Um jogador cai: “Juiz safado” tá roubando Portugal. Um comentário de um lusitano: “É isto aí, somos pequeninos”. Ainda bem que são eles que dizem. O jogo continua, não gosto do que vejo, mas estou calada, não queria melindrar ninguém, bem sei eu como torço em épocas de copa do mundo.

Intervalo. Mais música. O jogo tá empatado: não temos ainda preocupações, afinal estávamos classificados, mas o que queríamos mesmo era ganhar, aliás, as duas partes envolvidas, tanto Portugal como o Brasil, embora classificados para a fase seguinte, queriam ganhar um do outro. O primeiro para, como diria um critico de meu trabalho, “dar uma alfinetada nos brasileiros”, tentar voltar a tempos idos em que mandavam no Brasil, o segundo porque sempre quer vencer e mostrar que já não é mais obediente, já não aceita ordens, é o melhor do mundo, ao menos em football.

O jogo recomeça, estamos todos ansiosos, Portugal volta melhor, Cristiano Ronaldo aparece mais no jogo, já se fala mais nele, consegue algumas passagens por Lúcio, mas nós confiamos no nosso capitão. As queixas continuam de ambos os lados. Ninguém tem coragem de levantar do lugar para pegar uma cerveja, nem os garçons se atrevem a passar na frente de algum torcedor. A hegemonia é mesmo brasileira. Há portugueses, uns mais patriotas de que outros, vestem as camisas da seleção, mas são poucos naquele espaço. Muito poucos mesmo. O jogo, á essa altura, se arrasta, não acaba; o empate permanece. Um susto no finalzinho do jogo, nada que o nosso goleiro não possa enfrentar, mesmo todo amarrado como a televisão mostra, ele não deixa a bola entrar. Toma a pancada e se refaz.

Acaba o jogo, aí é que o negócio pegou mesmo. Até mesmo as árvores que circundam o espaço onde ficam as esplanadas sorriem com o seu verde-amarelo natural. Olhem bem, não é uma foto montagem e nem nenhuma fotografia encomendada. Percebam o colorido natural destas árvores? Não temos culpa, a própria natureza nos prefere e demonstra isto com a sua coloração,olhem que esta coloração ja se apresenta desde o jogo anterior.

A Banda recomeça a tocar. A cantora pequenina de voz potente canta o hino nacional brasileiro. Erra a letra, mas a moçada em baixo do ínfimo palco ajuda: ela se refaz e canta corretamente toda a letra. O samba toma conta de todo o espaço. As pessoas voltam a passar, desta feita, no sentido inverso. Parece brincadeira, mas o verde e amarelo tomou conta de todos os espaços mesmo, mas, ainda assim, há lugar para todos; a lusofonia faz a união: portugueses, angolanos, moçambicanos, cabo verdianos, poucos, bem verdade, mas ali estão, unidos, juntos, valorizando a língua e alegria. Todavia, não só lusófonos se fazem presentes, muitas outras nacionalidades se achegam, a mistura demonstra a força da música e do football.

O jogo Brasil e Portugal mal termina no campo, começa um outro em um outro campo: o da sedução. Elas se deixam encantar pelo brasileiro todo colorido, com o Brasil pintado no corpo. O português com a camisa 17 dança com a brasileira. Uma mulher bonita dá um beijo no portuga apaixonado.

 Uma moça linda chama atenção, pela sua altura e beleza, pela capa de super mulher(uma bandeira do Brasil) e pelo olhar que lança para alguém que esta na parte de cima do bar e quer lhe jogar uma camisa.

Enfim, o 0X0 já não importa mais. Acabou. Vamos ao próximo. Agora é a vera mesmo: Brasil X Chile e Portugal X Espanha. Ibéricos contra ibéricos, americanos do sul contra americanos do sul. Seria mais justo?

O certo é que vi o jogo Brasil e Portugal em Lisboa, no Parque das Nações, com a nítida impressão de que estava em casa, no meu país. Depois deste jogo acho que o dono do bar deveria mudar o nome do estabelecimento para “Hot”, pois, o que se fez presente ali, do início ao fim do jogo e, ainda, depois dele, foi a quentura do brasileiro, o nosso calor humano, a nossa alegria de povo que esquece o sofrimento em momentos como esses, talvez só de quatro e quatro anos, o povo que mostra e ensina ao mundo o que é ser “BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO E MUITO AMOR”.




segunda-feira, 9 de junho de 2014

Para quem gosta de carne - Malassada


Desde muito pequena gosto de carne, e, principalmente, da malassada, ou malassado, que era feita por minha avó Antonieta e por minha mãe.
Todos nós lá em casa somos carnívoros, de pai a neto, ou melhor, de fio a pavio, só deixamos de comer carne quando o dinheiro não dava nem para o ovo de galinha, quiçá para alcatra, filé especial ou filet mignon, carnes recomendadas para a malassada, que, como o nome sugere é uma carne muito mal passada, mas que fica saborosa. Por gostar tanto e achar que todos devem degustá-la, digo a maneira como eu faço e que todos, sem exceção, que já a provaram, adoram
Detalhe: é uma comida rápida e combina bem com arroz, batatas ou macarrão, mas um caldo desta maravilha por cima do feijão nosso de cada dia é imperdível. Ah! Também é excelente para os preguiçosos que não gostam de ficar na cozinha.
Carne - Filé mignon, filé especial (contra filé) ou alcatra (prefiro os dois primeiros)
Molho – Tomate, pimentão, cebola e alho.
Tempero – pimenta do reino, sal e extrato de tomate.
Limpe a carne tirando todas as nervuras. O tamanho é você quem decide. Se for contra filé e estiver muito largo, corte no meio no sentido vertical.  Passe na carne o sal e a pimenta, depois que tiver passado os dois, lambuze a carne com o extrato de tomate (pouco, pois é somente para ajudar a carne a ficar dourada). Se estiver sem pressa deixe um pouco no tempero, caso contrário pode passar à segunda fase de imediato.
Coloque uma panela, ou se preferir, uma frigideira no fogo (eu faço na caçarola para não sujar o fogão), deixe esquentar bem, muito mesmo, coloque um fio de azeite de oliva, eu boto bem pouquinho, deixe esquentar bem o azeite, quando estiver bem quente coloque a carne, deixe dourar de todos os lados. Para ela ficar bem dourada, enquanto estiver dourando, levante a carne e deixe a panela secar e fazer aquela crosta marrom no fundo, recoloque a carne esfregando-a no fundo da panela, para que ela pegue toda aquela cor, vá fazendo isto até que todos os lados estejam da mesma tonalidade.
O levantar a carne e deixar a panela ficar com o fundo marrom é fundamental, porque a carne fica dourada e evita que ela passe do ponto, pois a malassada é mal assada mesmo, tem de ficar dourada por fora e vermelha por dentro.
Pronta a carne coloque-a em algum recipiente e passe a fazer o molho: bote na panela o pimentão, a cebola o alho e o tomate cortados em rodelas (com o vc preferir). Coloque um pouco, mas muito pouco mesmo, de água para ajudar no cozimento dos temperos, uma colher de extrato de tomate, se quiser e perceber que o resíduo que ficou na panela não é suficiente para dar gosto ao caldo, coloque um caldo de carne, mais um pouco de sal e pimenta, deixe amolecer bem, o caldo fica com uma cor de ferrugem.
Na hora de servir,coloque a carne em um recipiente que dê para ela ser cortada em fatias, que devem ser finas, a fim que o sabor da carne seja realmente percebido, jogue o molho por cima juntamente com o caldo que saiu da carne enquanto ela estava esperando o molho ficar pronto. 

Acompanhe com macarrão a alho e óleo e manjericão (se não souber fazer me pergunte que eu digo como é; com arroz, purê de batatas, enfim, o acompanhamento é você quem decide. Mas se preferir o macarrão, faça este, porque outro molho vai mascarar o sabor da malassada que é a vedete da festa.

Bom apetite.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Devoradora de cartões

Foi até a costureira para fazer uma barra de uma calça que havia comprado na Zara, que até tinha este serviço, entretanto, demorava em demasia para entregar.  Para sua surpresa, a dona do estabelecimento era uma brasileira, que, salvo engano, era do Pará. Entregou a calça, pagou, como sempre por estes serviços, antecipadamente, e depois de cinco dias, o que também achava um absurdo, foi buscá-la.
Neste dia a senhora estava mais desafogada, e, ao que parecia, gostava muito de conversar, porque, com a curiosidade adquirida ao longo dos anos em que estava em Portugal, lhe fez muitas perguntas; algumas normais, tipo de onde você é no Brasil, tá fazendo que aqui, se era casada, enfim. A mulher não era feia, também não era nenhuma miss, mas era arrumada; pequenina, um corpo bem feito, um rosto ainda sem rugas. As roupas, Ah as roupas! Não adequadas nem para a idade, nem para o local, nem para profissão, mas já estava acostumada a isto. Ela própria chamava atenção pelas suas roupas, não que fossem parecidas com a da costureira e com a de muitas brasileiras que viviam naquelas paragens (Lisboa e adjacências), mas porque eram coloridas, saias longas, vestidos longos, calças pantalonas, enfim, vestia-se diferentemente das portuguesas e chamava bem atenção por isto, mas não vestia roupas inadequadas à sua idade e nem, tampouco, as usadas pelas “periguetes!
Suas roupas eram elogiadas pelos portugueses, tanto mulheres quanto homens.  Chegou mesmo a ouvir de um senhor que trabalhava no AHU que ele achava interessante a maneira dela vestir-se, também presenteou uma funcionaria da secretaria da faculdade com uma pantalona estampada, vez que a mulher falou tanto da beleza do traje que, no dia seguinte, colocou a calça em uma sacola e lha entregou. A funcionária, entre surpresa e maravilhada com o presente, lhe agradecia, o que lhe valeu um reconhecimento que muito lhe ajudou quando necessário. Também deu vestidos e sapatos levados do Brasil, que foram muito cobiçados pelas amigas da senhora  da casa onde morava.  
Bom, mas não foi para falar das suas roupas que começou este texto, e sim para contar uma história real, que, com muita freqüência, acontece em Portugal, com mulheres que aparentam ter uma melhor condição financeira de que as demais e que se deparam com portugueses cafajestes – O golpe da máquina que “engole cartão”.
Na terceira ou quarta vez que esteve com a costureira do Pará ela começou a falar de portugueses homens, especialmente daqueles com os quais teve relacionamentos e sai com uma desta: segundo ela, conheceu um Martinho, um homem com aparente cinqüenta e poucos anos, em uma discoteca em Lisboa, ficou com ele naquela noite e marcaram para encontrar-se no final de semana, pois o homem, segundo informações dele próprio, trabalhava muito e só tinha tempo de sair nos finais de semana; ela, por sua vez, também não tinha uma vida fácil e não estranhou nada.   No encontro da discoteca o Martinho fora muito gentil e atencioso e lhe pagara uns dois drinks.
Ansiosa, aguardava o final de semana, porque efetivamente o rapaz, segundo ela, era interessante e ela estava há muito tempo sozinha, pois acabara um “caso” que teve com um outro portuga.  No final de semana, arrumou-s toda, pegou o carro e foi encontrar-se com o cidadão, que marcou o encontro em Belém, antecipando que eles iam almoçar na cervejaria  Portugália.
Não que a Portugália seja o melhor restaurante de Lisboa, mas não é um restaurante dos mais acessíveis, por exemplo: brasileiros que trabalham com serviços domésticos, em cafeterias, mercados, ou que trabalhem com os famosos recibos verdes não têm dinheiro sobrando e lá não vão, tampouco portugueses que não tenham um salário razoável.  Ela já se empolgou com isto, porque como dizia: já estava cansada de bancar tudo sozinha, inclusive para amigas que, sem a mesma sorte que ela, não ganhavam para nada, quanto pior, para freqüentar restaurantes.
Uns beijinhos trocados no local marcado, e eles marcham para o restaurante. Ela pediu um bife, que é a especialidade da casa, ele também o fez. Ele tomou vinho e ela cerveja. Conversaram sobre banalidades e sobre a vida de ambos, afinal estavam se conhecendo, embora ela tenha estranhado muito o fato dele sempre querer saber se ela tinha outras rendas, se tinha bens no Brasil, se dividia a renda da casa com alguém, se o negócio era só dela, no entanto, atribuiu o questionário à curiosidade portuguesa mesmo.
Lá se vem à conta, que não foi das mais baratas, pelo menos para ela: oitenta euros. A conta foi entregue a ele, evidentemente, e ele deixou ali em cima da mesa, parecia estar esperando algo, mas ela não ligou muito, passada uns 20 minutos ele tira a carteira do bolso e faz uma expressão terrível:  ela olha para ele entre angustiada, parecia que o homem estava se sentindo mal. “ O que aconteceu, você está pálido, está com uma expressão estranha”? E ele, entre  nervoso e envergonhado diz: “O cartão não está  na carteira e eu só tenho parte do dinheiro da conta”.Ela, evidentemente, não iria passar vexame e, tirando o seu próprio cartão da bolsa, e para que ele não ficasse sem dinheiro algum na mão, pagou a conta toda. Não o fez satisfeita, mas o fez.
Saíram do restaurante e ele ainda queria dar umas voltas, mas ela ficou chateada com a história do dinheiro e disse que ia para casa, até porque tinha algumas encomendas para entregar no dia seguinte; segunda feira. Despediram-se com a promessa de que ele iria, na terça,  no atelier, para  lhe dar o dinheiro
Bem verdade que isto realmente aconteceu. Na terça ele estava lá e lhe deu metade do dinheiro da conta. Ela com vergonha  recebeu sem nada dizer,  mas não ficou nem um pouco satisfeita, embora tenha entendido que a metade da conta era de sua responsabilidade, esta foi a mensagem.
Passados alguns dias o  Martinho lhe liga outra vez,  convidando-a para um “baile” lá pelas bandas de Santa Iria, ela já conhecia  o local, era bom mesmo, música ao vivo, portugueses dançando, local familiar.  E lá se vai ela na sexta feira toda arrumada, perfumada e  com algum  dinheiro na bolsa. Como sempre, fora no seu carro e se encontraram na entrada da casa de festas.
Neste dia a conta foi pequena e ele fez questão de pagar toda, uns 20 euros já contando com a entrada, que tem de ser paga. Como ia trabalhar no sábado, ela tomou pouca cerveja, e ele também. Lá pelas duas da manhã  despediram-se e ela  voltou para casa sozinha.
Os dias se passaram e o Martinho telefona, muito aflito, numa quinta feira ao final da tarde. Pede que ela vá encontrá-lo em tal lugar as sete com urgência, ela fecha o atelier e nem passa em casa, pois se fosse lá chegaria atrasada. Marcaram, mais uma vez, em Belém, na frente do Centro Cultural. Ela fez o caminho mais rápido, foi por Algés e estacionou o carro na primeira vaga que achou, fazendo restante do caminho, uns duzentos metros, quase correndo e se perguntando o que teria acontecido para o cara tá tão nervoso.
Visualizou a figura de longe: ele caminhava de um lado para outro, com as mãos nos bolsos do casaco. Era efetivamente um homem bonito, cabelos prateados, uma boa estatura, bem arrumado. Dizia ele que era trabalhava com vendas. Aproxima-se e ele lhe dá um forte abraço e lhe diz que precisa de um grande favor dela. Ela o olha e pergunta-lhe:  “o que aconteceu”? E ele, com a voz trêmula, diz:  “fui tirar um dinheiro naquela máquina  e ela prendeu o meu cartão e estou sem nenhum dinheiro na mão e preciso fazer um pagamento  ainda hoje”.  Ela toma um susto e pergunta: “você  já tentou falar com o Banco?”. Ele diz que não tem condição devido ao horário, que no dia seguinte vai resolver o assunto. E ela, ainda bem surpresa, incrédula e assustada pergunta-lhe  quanto precisa, e ele, cinicamente, lhe diz, que precisa de uns trezentos e cinqüenta  euros. Ela diz que não tem,  e ele, quase chorando, pergunta quanto ela pode dispor naquele momento, pois era mesmo uma emergência:  ele tinha de fazer, senão o pagamento total, mas uma parte dele,  à pessoa a quem tinha prometido e que já estava chegando para receber o dinheiro. E ela, idiotamente, diz que tem duzentos euros  na sua bolsa,  dinheiro que iria depositar no banco no dia seguinte, porque tinha pagamentos a fazer. Ele lhe diz que na manhã seguinte lhe levaria, sem falta, o dinheiro, e ela, com cara de idiota, tira da bolsa, tomando cuidado para que o seu cartão do “multibanco” não fosse visualizado por ele, o dinheiro e lhe dá os duzentos euros. Ele lhe agradece muito, lhe dá muitos beijos, e sai em disparada, dizendo que na manhã seguinte, assim que conseguisse resolver o problema do cartão no Banco, iria ter com ela, lá ao atelier para lhe devolver o dinheiro aproveitando para almoçarem juntos.
Ela vai embora com a sensação de que fora enganada, que caíra, idiotamente, num conto.  Na manhã seguinte espera o cidadão. A manhã passa, o dia passa, outro dia, a semana, e ele nada, nem mesmo o telefone atende.  Ela pensa em dar uma queixa, mas como dar queixa: então ela ia numa esquadra dizer que conheceu um cara chamado Martinho e que este, depois da terceira ou quarta vez que saíram, lhe aplicou o golpe da máquina engolidora de cartão!  Não, não ia fazer isto; os policiais iam dar risada da sua cara, quanto pior, não iam acreditar na estória. Então uma brasileira ia ter dinheiro para dar a algum português! Qual o que?
Ficou meio cabreira com a estória da mulher, não levou muito a sério a questão, mas ficou atenta, porque nada é impossível de acontecer, ainda mais quando existe uma porção de desocupados em Lisboa e muitos a procura de alguém que lhes dê boa vida.
Passados alguns dias desse episódio, ouvia uma portuguesa, na televisão, a contar uma estória bem parecida com a que a brasileira tinha contado, e recentemente, uma reportagem, também na televisão portuguesa, falava do assunto alertando as senhoras para este tipo de golpe.  O cara se aproxima, começa a assediar a mulher, convida-lhe algumas vezes, e quando esta já está envolvida, aplica o golpe do cartão. Portanto, um aviso: onde quer que você esteja, fique atenta, não caia no golpe da “máquina devoradora de cartão”
         


domingo, 1 de junho de 2014

Não quebre coisas coisas - Faça sexo

O dia malmente amanhecera e ela já estava com um terrível mau humor. Aliás, este mau humor, nos últimos meses, anos até, era uma freqüência.  Ela mesma notava e todos que a circundavam. Fosse onde quer que fosse, estivesse com quem estivesse, o seu semblante demonstrava a sua insatisfação com o momento que estava vivendo.
Apesar de mal humorada ela tinha de sobreviver, fazer as coisas normais e, principalmente, manter a sua casa limpa, porquanto ela abominava a sujeira, mas tudo estava sendo um grande sacrifício para si, o que antes era um grande prazer, agora passava a ser uma obrigação cruel, quanto pior, quando se sentia cobrada por todos que chegavam à sua casa; imagine que até o ex- marido se arvorava em fazer comentários da poeira, da mancha em algum móvel, da desarrumação dos CDS.
O fato é que, com bom ou mau humor tinha de levantar, como em todos os outros dias, não podia passar a sua vida deitada em frente à televisão, esperando que o dia e a noite passasse e chegasse um novo dia sem mudanças, sem perspectivas, sem nada.
Levantou-se e, para piorar o seu humor, pisou no controle da televisão que, com um ruído seco, partiu-se.  Chegou à exasperação por dois motivos; o primeiro com a quebra do controle e o segundo a constatação de que estava muito pesada mesmo, do contrário, o controle agüentaria a pisada sem maiores problemas.
Olha o aparador à sua frente e vê as imagens de Santo Antonio e Nossa Senhora de Fátima, chega mais próximo das duas e pede que eles lhe ajudem a ter um dia bom.  Ao se aproximar em demasia do aparador dá um encontrão no mesmo e a imagem de Nossa Senhora balança, e se não fosse o seu rápido reflexo em alcançá-la, era mais um motivo para o mau humor aumentar, afinal a imagem fora trazida de Fátima e ela sabia que tão cedo voltaria lá para comprar outra.
Pensa consigo: - “Vou acender uma vela e colocar um incenso para ver se espanto as coisas más”, e é o que faz, mas a vela não acende facilmente, gastou quase cinco palitos de fósforos em tentativas vans.  Pega a vela, liga o fogão, e a acende na chama, faz o mesmo com o incenso. Volta à sala e coloca os dois nos seus devidos lugares.  Reza um Pai Nosso, uma Ave Maria, chama por Ogum, Depois vai ao banheiro para as primeiras necessidades e higiene do dia. Abre a torneira e fica esperando pela água que não sai.  Xinga! Merda hoje efetivamente não é o dia.
Sai do banheiro e vai pegar um copo de água no filtro, pega o copo e coloca embaixo da torneira, a água flui fortemente e de repente o copo transborda molhando o chão.  “Puta que pariu! Vai mesmo ser um péssimo dia”.
Volta ao banheiro e acaba o que começou, depois vai até a bomba para encher um balde da água do poço, sua salvação nessas emergências.  Liga a bomba e ouve um ruído estranho, a água flui um pouco e, de repente, com um som esquisito da bomba, a água para de correr. “carraio, será que hoje tudo resolveu me sacanear”?
Puta dentro das calças, ou melhor, da camisola, leva o balde para o banheiro joga metade no vaso e com o restante começa um banho de gato, lavando as partes intimas.
Tenta não pensar nesses embaraços, não quer associá-los a nada, mas é inevitável não o fazer, afinal tudo esta começando errado, aliás, continuando uma rotina que ela não gosta. Há muito que está tensa, nervosa, sua carne treme ao menor aborrecimento. Tem horas que pensa que está enfartando, tal a sua ansiedade e angustia. O peito insiste em demonstrar que não está satisfeito com a sua rotina, com a sua falta de prazer, com a sua circulação lenta, que só acelera por aborrecimentos.
Mede a pressão, 15X9. “Vou mesmo ter uma zorra a qualquer hora”, pensa e se arrepende de ter medido a pressão.  Ela já sabia qual seria o provável resultado, a sua vida não dá chances ao corpo de equilibrar-se. Esta sempre tensa, sempre mal humorada, triste, apreensiva. Nada consegue lhe agradar.
Tenta, para dissipar os maus pensamentos e os maus agouros, acessar a internet para ler alguma coisa boa, alguma mensagem que melhore o seu mau humor. Pois não é que a porra da internet nao funciona, não consegue conectar-se de maneira alguma. A esta altura o sangue já está todo concentrado na sua face, ela tem vontade de quebrar o aparelho (modem), o próprio notebook, mas controla-se e não o faz.  Desliga o computador e vai calçar o tênis, resolve andar, ainda que o tempo esteja muito nublado.  Calça o tênis novo que comprou para substituir o velho “mizuno”, que está lhe abandonando. Já colou a sola verde umas três vezes, ele não mais resiste mesmo.   Sai portão afora e logo nos primeiros duzentos metros sabe o que lhe espera com o tênis novo, caminha mais um pouco, mas tem de parar, os dois calcanhares ardem, informam o que ela não queria saber. Ela volta, mas não tira o tênis, idiotamente, não quer ficar descalça. Resultado: duas bolhas imensas nos pés.  Olha a vermelhidão indignada, então compra um porra de um tênis de R$699,00 e este quer lhe acabar os pés. Merda total.
Agora as coisas ainda estão piores. Duas bolhas enormes, um ardor insuportável e ela olhando aquela zorra sem saber mesmo o que vai fazer.
Vai fazer um suco de maracujá para tentar acalmar-se, ainda eram sete da manhã e tanta coisa ruim já tinha acontecido: o controle da televisão, a santa, a vela e o incenso, a falta de água, a performance da bomba, o chão m olhado, as bolhas nos pés. O que mais viria?. Resposta automática, assim que pega o maracujá ele lhe cai das mãos, pega-o embaixo da geladeira para onde ele tinha rolado. Lava-o com a água do filtro, não depois de, mais uma vez, se aborrecer com a falta da água na torneira, havia esquecido-se disto.
Vai cortar o maracujá e quase corta o próprio dedo. “Não é possível uma zorra desta, o que esta acontecendo”? Insiste no suco, devia ter desistido logo quando a fruta caiu e rolou para debaixo da geladeira. Coloca a polpa no liquidificador, água e, quando liga o bicho um desastre: esquecera de colocar a tampa e o caldo amarelo com pintinhas pretas toma conta de toda a pia; o que ficou dentro do liquidificador é jogado fora quase que com o copo do aparelho.
Agora sim é que o negócio vai pegar, como vai limpar aquela sujeira toda sem água? Tenta secar com a toalha de papel, mas ali tem que entrar água, caso contrário, daqui a pouco as formigas vão fazer uma festa. Resolve pedir um balde de água na vizinha, que com boa vontade lhe passa o balde pelo muro: Acreditem se quiserem: metade da água cai em cima dela quando ela tenta pegar o balde do outro lado do muro.  O palavrão sai com toda a sua força. A vizinha pede o balde outra vez, diz que enche de novo, mas ela está para lá de irritada e agradecendo-lhe, diz que mais tarde, caso a água não chegue mesmo, pede outro.
Limpa da melhor maneira possível a sujeira, enquanto faz isto o telefone toca, ela vai atender sem bem olhar o número que chama, e aí o mau humor tende a aumentar, é uma empresa que liga nos horários menos indicados, procurando alguém que não reside na sua casa, ela desta vez, manda quem está falando “tomar no...”, desliga o aparelho com raiva, resultado, parte um pedaço do desgraçado.
Tremendo de raiva tenta se acalmar: bebe água; toma a zorra dos remédios da pressão; do colesterol, e outros naturais, para o fígado e para elevar a taxa do estrógeno. Neste momento a ficha cai: EUREKA!  Ela lembra que há muito, mas há muito tempo mesmo, não faz sexo, e entende que todo este mau humor, esta ansiedade, esta angústia, enfim, oitenta por cento dos seus problemas é isto: FALTA DE SEXO.  Sim este é o problema; mas como solucioná-lo? Vai procurar sexo com quem? Ela não tem parceiros, e acreditem, nem mesmo amigos que possam fazer uma caridade. Ela não tem ninguém. Pela sua cabeça passam mil conjecturas: “Vou comprar um vibrador; vou alugar um garoto de programa; vou arrumar um namorado, aliás, tenho de fazer isto logo antes que arrebente toda a casa”, porque é o que vai acontecer, uma vez que as suas mãos parecem não agüentar nada, o seu equilíbrio é péssimo, não consegue sequer fazer os exercícios que exigem equilíbrio na Yoga, uma merda total. Pensa em cenouras, pepinos, coisas roliças, mas vem a preocupação de parar num hospital como aconteceu, é o que dizem, com um ator de telenovelas da globo, há algum tempo atrás.
Tenta afastar tais pensamentos, mas o seu corpo não deixa, ele está pedindo sexo, mostrando o que a falta dele faz. Ela não tem outra saída, tem de procurar algo que, ao menos, diminuía esta carência, e com a contribuição da net, que agora funcionou mesmo, acessa um site pornô e, vendo cenas calientes, deixa que o seu corpo reaja. E ele reage bem, e ela retira um pouco do peso, mas não está satisfeita, porque ela precisa mesmo é de ser acariciada, mordida, penetrada, sentir-se preenchida, ter algo convexo no seu côncavo, que vibra só em pensar na possibilidade de isto realizar-se a qualquer momento. É o que espera.   


sábado, 31 de maio de 2014

Sexo é Vida

Há uma propaganda  na televisão, ou alguma chamada para um programa, não sei bem,  em que Marilia Gabriela  está lendo um livro e faz algum comentário a respeito da vida sexual de um casal, em que a mulher  fala que não está tendo relações sexuais com o marido. No  principio  ela fala normalmente, mas, de imediato,  quando ela acrescenta, isto faz sete meses! A  cara dela muda.
Realmente, a cara da mulher tem de mudar, ela tem de demonstrar mesmo a sua indignação.  Então um marido  deixa de ter relações sexuais com a eposa, ou melhor deixa de cumprir uma das obrigações do casamento, que, é uma das causas de divórcio “litigioso”, de acordo com o codigo civil brasileiro, até mesmo de anulção de casamento, e  a esposa vai estar satisfeita? Claro que não: e ela  há que demonstrar a sua insatisfação e isto deveria ser feito publicamente, como a autora do livro que está sendo lido pela apresentadora o fez.
Lógico que, quando se publica uma intimidade desta,  o divulgador deve  estar  preparado para a reação que virá, não só do ex marido, que nesta altura já o é,  se não pelo fato  da divulgação, mas por ser  mesmo “corno”, porque não há quem de sã consciência,  a não ser em caso de doença,  que não procure outro parceiro para satisfaser as exigências do corpo.
Fico imaginando como seria, ou é, a vida  de alguém  que tenha um relacionamento com outro, digo relacionamento marital, e não tenha sexo. Como será o dia desta mulher ou deste homem?
No caso da mulher, penso que ela já  sai da cama mal humorada, querendo bater no sacana que esteve do seu lado por toda a noite, e que, pela manhã só tem como única reação,  ao acordar,  a de levantar e ir ao banheiro, mais nada;  nem bom dia o miserável deve dar, até porque, a resposta ao bom dia seria um desagradável  entre dentes “mau dia”. Sim, porque alguém que passa sete meses sem  sentir o minimo prazer sexual,  só pode desejar ao parceiro um mau dia, porque é assim que´começa o dela, péssimo.
Café da amnhã para um fdp deste, nem pensar, se quiser faça sua merda e tome.  Nada, não se faz nada, nenhum sinal de aquiescência com o que está contencendo.
Bom, vocês poderiam perguntar, por que não se conversa sobre isto? Eu responderia: porque quando se fala sobrte o assunto, ou o cidadão desconversa, ou diz que a pessoa está criando coisas onde não existe. Porra! Ouvir uma resposta desta é um pouco fodinha.  Então a pessoa tá criando coisas onde não existe? Francamente!  Se pudesse ela criar coisa onde não existe, assim com esta facilidade, lá ia  ela  se queixar do e  para  o miserável? Claro que não! Ela estaria bem, porque existiria uma coisa  preenchendo a existente dela, que estaria feliz e saciada e, portanto, corpo e espirito estavam bem.  
Uma mulher que não tem sexo é triste, tende a depressão,  está murcha, não tem luminosidade, sua aprência é horrível. Aliás, até  mesmo  quem não convive com ela  é capaz de detectar a sua tristeza, a sua frustação, a sua insatisfação, que aparece até em fotografia, pois outro dia ouvi alguém, ao olhar uma foto de uma senhora que conheço e  sei um pouco da vida, dizer que o seu semblante estava triste. Sim, dizia eu para mim mesma, tem de estar triste, ela não está satisfeita, ela não tem sexo há muito tempo, ao menos é o que diz. O seu parceiro  lhe  deixa completamente só,  prefere estar com os amigos. Já cheguei a pensar que ele tem algum caso com um deles, pois não é possivel que alguém deixe uma mulher daquela para estar com A,B,ou C e, quando com ela esteja, não a procure.
Bom, o fato é que há consequências para a abstinência sexual, quanto pior, quando não é provocada por sí próprio e sim por outrem.
Agora vejamos bem, se esta minha amiga resolvesse dar uma saidinha, assim sem qualquer pretensão, e encontrasse alguém que lhe fizesse chegar às estrelas, porque é bem assim,  quando se está muito tempo  sem sexo, quando ele acontece com alguém que a gente, ao menos, simpatiza,  se vê mesmo estrelas, se não estrelas grandes, pontos luminosos aprecem mesmo. É um momento  único e maravilhoso, melhor ainda, quando se consegue ver o tesão do outro, o desejo estampado nos olhos, demonstrado nos gestos, a força da pegada, da sugada, enfim, quando se faz sexo com todos os elementos necessários a tal.
Pois é, aí a pessoa chega junto daquele outro que tanto desprezo demonstra, aquele que nem sequer  se aproxima, aquele que dorme ao seu lado, sem  permnitir qualquer toque, nem mesmo  uma alisada, nada enfim, e  ele/ela nota o olho brilhante, os movimentos leves, um remoçar, um desejo de que o outro dia chegue mais rápido, e fica,  ou sem entender, ou então começa a perceber  que está sendo “chifrado”; não traído, isto não, porque ninguém trai aquele que não lhe quer, aquele/a que não te liga, aquele que não lhe toca.
Mesmo que pessoa não te diga nada,  mesmo que você saiba que tudo foi notado, mas que a pessoa não toma nenhuma atitude,  seja por medo, seja porque é ruim mesmo, seja porque está com algum problema que não consegue resolver,  não deixe de provocar um pouco e faça com que  ouça  Sandra de Sá.” Por que voce me deixa tão solta, e se eu me interessar por alguém,  to me sentindo muito sozinha. Quanto a gente ama, claro que a gente cuida, diz que me ama só que é da boca para fora, ou você me ama[...] onde está você agora.”
Não espere sete meses, como fez a autora do livro, resolva o problema logo na primeira semana, caso contrário,  isto também vira uma rotina, uma normalidade, e você vai ficar infeliz pelo resto da sua vida.Lembre-se sempre: SEXO É VIDA.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Para quem tem um "ex amor"

Como de costume, acordou cedo e, como ainda estava escuro, foi espreitar as novidades do final de semana no face e se deparou com uma mensagem de um colega, na qual havia um anexo, que era um vídeo com Martinho da Vila, cantando “ex amor”. Fez um comentário: “eu me possuo e é na sua intenção” é preciso muita coragem para isto, ou coisa parecida.
Realmente, ela acha que é preciso mesmo coragem para, sem subterfúgios, dizer que a pessoa que lhe foi tão cara um dia, ainda continua fazendo parte do seu sonho, do seu devaneio, das suas dores e angústias, como também das horas dos prazeres buscados, construídos com as recordações dos grandes e bons momentos vividos.
A letra da música é linda, sensacionalmente real, vida de dois que se desmoronou, desgastada pelo tempo, pela transformação do amor em dor, como ele bem sabe dizer poeticamente e, como tal, aliviando a dor de transformar tudo em dor mesmo. Entretanto, ainda que tenha sido assim, que infelizmente já não dê mais, fica toda uma história, que por mais que se tente esquecer, sobrevive, às vezes, como ele mesmo diz, até no próprio corpo, quando, buscando pelas memórias, ele reage como se vivendo estivesse os momentos quentes em que o coração acelera, a respiração fica ofegante, em que se têm espasmos de prazer.
Ah sim Martinho, como se concorda com você! E como se deve ter pena daqueles que não são capazes de, como você, dizer isto a alguém, daqueles que continuam com o orgulho de um dia ter sorrido quando acabou mesmo com o coração dilacerado.  Não é pessoa adepta de cultivar a dor, sem dúvida alguma: acha que nenhum ser humano merece fazer isto consigo próprio, mas também não pode concordar que, por um orgulho idiota, bobo, próprio dos covardes, se deixe de dizer a outrem o quanto ele representou, ou ainda representa na sua vida. Fraqueza! Diriam alguns: os imbecis que não têm sentimentos grandiosos, apenas mesquinhos, para consigo e para com outros.
É calada, bem sabe; é estranha, arredia, também o sabe. Pode passar séculos sem ver ou falar com uma pessoa, tenha sido ela muito ou pouco importante na sua vida, mas o seu coração continua acelerando, quando recorda dos momentos lindos, vividos com grande ternura, com grande emoção, enfim, com um grande amor pelos que passaram pela sua vida, e nela deixaram marcas indeléveis.
Certamente, e concorda mais ainda, com o letrista afortunado, que quando se transforma tudo em dor, o melhor mesmo é cada um ir para o seu lado, mas é necessário que o outro saiba, perfeitamente, que não foi fácil, que as angústias povoaram por muito tempo sua vida. Não interessa quanto o tempo tenha passado, não interessa se se está, ou não, com outro alguém, porque quando a saudade bate forte no peito, há que se entender que, embora distantes e irremediavelmente separados, as coisas não acabaram como deveriam, pois restaram lembranças tamanhas que somente elas são capazes de nos fazer vibrar. Não há, pois, nada de errado em dizer o que se sente ou o que um dia se escondeu a uma pessoa, não é necessário citar nomes, porque as partes interessadas vão saber do que se fala, sem que ninguém, fora do elo de dois, participe disto.
Martinho canta, ela escreve, alguém pinta, outro faz comida, enfim, em cada criação dos que querem falar do seu amor, ou do seu ex amor, não tão ex amor assim, está presente a cumplicidade que uniu e desuniu, há momentos íntimos tão grandes, momentos só partilhados entre os dois, que nenhum envolvido atual vai perceber, porque, pensa ela, cada dois tem um “nosso” impenetrável exclusivo, que, mesmo os amigos mais íntimos, não sabem ou percebem. É na cumplicidade do amor, que se faz uma música com uma letra tão linda como é esta: EX AMOR
Para tantos quantos  tenham um “ex amor”, que tenha sido assim tão forte como o descrito na letra,  diz: não tenham medo, vergonha de dizer o quanto ele foi importante e o quanto ele se faz presente na sua vida, e o quanto você “se possui” na sua intenção.   

“Ex-amor
Gostaria que tu soubesse
O quanto que eu sofri
Ao ter que me afastar de ti
Não chorei
Como um louco eu até sorri
Mas no fundo só eu sei
Das angústias que senti
Sempre sonhamos
Com o mais eterno amor
Infelizmente
Eu lamento mas não deu
Nos desgastamos
Transformando tudo em dor
Mas mesmo assim
Eu acredito que valeu
Quando a saudade bate forte
É envolvente
Eu me possuo
E é na tua intenção
Com a minha cuca
Naqueles momentos quentes
Em que se acelerava meu coração”

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Do resto sei eu

O dia amanheceu, acordou muito cedo. Chovia do lado de fora, ouvia o som da chuva  caindo no chão. Começou a pensar o que faria durante o dia: levantaria, tomaria uma “Douche” quentinha, arrumaria o quarto, daria uma lida em algumas páginas de um livro qualquer, aliás, o que não faltava no espaço era livro para ler. Depois tomaria um  suco  mudaria a roupa e  iria, como sempre, dar um passeio na Baixa. Não tinha nada para fazer na faculdade hoje, portanto, o melhor seria mesmo um passeio  no Chiado, esperando as horas passarem para  comer, lá no seu David (Merendinha do Arco), o cozido à portuguesa, afinal, era quinta feira.
Depois do cozido, e após algumas bagaceiras(aguardante portuguesa), sairia 
andando pelas ruas de Lisboa. Talvez fosse para o lado de Alfama, quem sabe iria ao Bairro Alto, Santa Catarina, Estrela, tinha ainda a opção de seguir andando até o Cais do Sodré e de lá, dependendo do tempo, pegar um comboio e ir até Cascais olhar o mar. Sim, faria isto mesmo.
Espreguiçando-se, tentando  esticar ao máximo o corpo que amanhecera bem encolhido, deve ter tido algum sonho que a fez tremer, ou então havia feito frio à noite, o certo é que  amanheceu toda encolhidinha.
A chuva engrossara, o ruído era mais forte agora,  mas ela continuava no firme próposito de fazer  o que planejara, mas sair da cama com  aquela  zoadinha da chuva e o aconhego do quarto estava dificl. Olha o relogio e levanta de sobressalto: 11 horas da manhã! Metade dos seus planos  por água à baixo, agora teria de se apressar, porque a camioneta  a (7) passaria as 11:30 e se perdesse esta teria de pegar a (13) e quase uma hora para chegar no centro de Lisboa.  
Levantou-se de um salto, resultado: quase quebra a cara, porque dormira no chão da sala, literalmente no chão, deve ter pego no sono vendo algum programa de televisão e  pronto, a noite inteira no chão, em cima, apenas de uma toalha, portanto o  corpo se apresentava dolorido pela dureza do chão. O pescoço doia porque  dormira  com as almofadas, ao invés do travesseiro.
Que droga! Brada ela, notando que  todos os seus planos anteriores estavam em um sonho, que  como todo sonho, se desfez. Quase chora ao ver a realidade que a esperava  naquele dia, igual a tantos outros, com apenas uma diferença, estava um dia mais velha e não gostava nada disto, a velhice chegara, inevitavelmente, mas não estava fácil aceitar as rugas, as limitações, as taxas altas a cada exame.
Decidiu, entretanto, que daria asas a sua imaginação e continuaria, acordada, o sonho  que tivera com a sua amada Lisboa, e pôs-se a recordar de pessoas, lugares, cheiros, gostos. Colocou o disco da Carminho e ouviu “Bom dia amor, dizem as rosas da janela ao ver o sol nascer”. A música lhe alegrou, lembrou mesmo dos bons dias que dava ao tempo, sim ao tempo, ao acordar e abrir o store do quarto da casa onde vivia em Carnaxide e olhar, ao longe, mas completamente identificável o Tejo, ja se esvaindo  no oceano. De sua janela via o marco divisório de onde um termina e o outro começa. Tejo e Oceano Atlântico, águas que marcaram, por longos oito anos, a sua vida. O Tejo dono da sua intimidade, conselheiro amigo sempre atento e disposto a ajudar e dissipar as suas dúvidas, aflições, tristezas. O Atlântico povoando os seus sonhos, estabelecendo ligações, não deixando que as suas origens fossem esquecidas. Ela era de lá, de onde o olho não podia alcançar, sim, de lá do outro lado do Atlântico, e mais uma vez Carminho lhe faz recordar de tantos momentos bons passados ali, numa solidão que ela gostava de ter e sentir, solidão que só dividia, exatamente, com o Tejo e com o Atlântico.  “O Sal das minhas lágrimas de amor criou o mar  que existe entre nos dois para nos unir e separar[...] [..] meu bem sempre  que ouvires um lamento crescer desolador na voz do vento,sou eu em solidão  pensando em ti, chorando todo o tempo que perdi[..]”  A música é linda, a história de amor envolvente, e a saudade era a dela, embora em ordem invertida e  o ocenao marcando a separação. Sim, a música da Carminho vai tomando conta de  si, entrando pelos poros e ela se vê à frente do Tejo, bem ali onde ele caminha mais rápido para encontrar o seu amigo que o levará para outras paragens, onde ele se mistura  com outras águas para encontrar o o mundo, conhecer lugares, revigorar terras, presenciar amores, consolar desamores e dissabores. Lágrimas  salgadas  correm pelo seu rosto, ela não está triste, está  apenas saudosa, mas sabe, perfeitamente, que esta saudade jamais terá cura, pois sempre, sempre mesmo, ainda que alguns digam que nunca se deve dizer nunca e nem sempre, ela sentirá. O Tejo lhe faz muita falta, e não só ele,  Lisboa  com as suas peculiaridades, tantos as boas quantos as ruins.  Viveu uma liberdade naquela cidade que sabe jamais retornará.
Limpa o rosto e  continua lembrando de detalhes: Zara, Rua Augusta, Chiado, Fenac, El Corte inglês. Ajuda, Belém, Algés, Carnaxide, Queluz. Sintra, Paço Darcos, Caxias, Carcavelos, Oeiras, Estoril, Cascais.Mercado da Ribeira, tantos lugares, tantas sensações, tantas descobertas.  Como era bom  sentir o trem ir parando  no final da linha em  Cascais, onde ela ja chegava feliz  pelo que vinha vendo desde o Cais do Sodre, de onde o comboio partia com destino a esta elegante e charmosa vila. Lembra da Vera a lhe dizer que a Zara lhe devia contratar como garota propaganda
 Carminho lhe traz de volta à Lisboa, “ Lisboa se amas o Tejo, como não amas ninguém, perdoa num longo beijo os caprichos que ele tem, faço isto ao meu amor, quando aparece zangado[...) tu também és rapariga, tu também es cantadeira, vale mais uma cantiga,cantada à sua maneira”.  Gosta da alusão que a letra faz  quando  diz que o Tejo de dia veste o pijama do sol.  Se vê sentada  no paredão  do Cais Sodré,  sozinha no meio de tantos, olhando  o Tejo e o outro lado dele, Cacilhas. O  seu olhar se perde e com ele todas as dores do dia, do tempo, da vida. Sim, o Tejo era assim para ela, uma mirada, e o brilho do seu olhar retornava, e com ele a esperança do dia seguinte melhor com grandes e  agradáveis surpresas.
“Porque  reclamas de mim se sou assim como tu és. Barco perdido no mar que anda a bailar com as marés, tu ja sabias que tinha um queixume do mesmo ciíume que sempre embalei, tu ja sabias que amavas deverás,também quem tu eras confesso não sei. Não sei quem és nem quero saber, errei talvez, mas que hei-de eu fazer?A tal paixão que jamais findará,-- Pura ilusão! --Ninguém sabe onde está! Dos dois, diz  lá o que mais sofreu! Diz lá que o resto sei eu! P'ra que me queixo eu também Do teu desdém que me queimou. Se é eu queixar-me afinal dum temporal que já passou? Tu nem calculas as mágoas expressas e a quantas promessas calámos a voz!Tu nem calculas as bocas que riam e quantas podiam queixar-se de nós! Não sei  quem és nem quero saber, errei talvez, mas que hei-de eu fazer? A tal paixão que jamais findará,-- Pura ilusão! --Ninguém sabe onde está! Dos dois, diz  lá o que mais sofreu! Diz, que o resto sei eu.”
Pois é, vai ficar por aqui,  porque  a saudade é mesmo imensa e, no mais, como na múscia, do resto sabe ela.    


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Querido amigo

Praça do Comércio-Lisboa
Já lá se vão quase seis meses que não nos vemos, estou para lá de saudosa, no entanto, já estou fazendo planos de te ver. Logo logo estarei aí com você, e espero que você tenha se guardado um pouco e possa deixar que eu te faça companhia em alguns passeios que quero fazer com você e junto a você. 
Restaurante Farol
Bom, em principio, para que você não fique muito cansado, e fique olhando o seu Tejo amado, que tal um almoço no Restaurante Farol, lá em Cacilhas? Lembra daquele prato de peixe que você tanto aprecia? Eu como o salmão, o polvo, a lula e você come o restante dos outros peixes. Se preferir, a gente come bacalhau a farol, não tem problema nenhum. Ah! Você não quer atravessar o Tejo? Quer ficar por este lado mesmo? Bem então vamos abrir um pouco mão do Tejo e vamos, ou no Seu David (Merendinha do Arco), no Zé da Mouraria, ou ainda, no Baleal, na Rua da Madalena, sei que você vai adorar, como sempre, é a sua vida, é a sua terra, é a sua comida, enfim, é você.
Sim, mas quando chegar, não quero somente sair de dia, quero andar pela noite, sentir frio, o arrepio na pele, mas quero estar junto com você, que é um notívago, eu já sei disto, quem não é, na verdade, sou eu, mas só para te ver junto à sua companheira, que vai estar radiante, toda linda e toda iluminada, ainda com os resquícios do natal, faço qualquer negócio. Podemos ir às Docas, tomar uns drinks no Irish, dançar em alguma discoteca, se preferir uma coisa mais calma, que tal irmos naquele bar-restaurante-boite que inauguraram ali pertinho do Tejo, antes de chegar a Santos?  Se você preferir podemos ir ao Pagode Chinês, ou ficar de bobeira em qualquer dos restaurantes da Porta de Santo Antão, a gente segura só o frio.
Olhe amigo, eu já tô ficando nervosa, contando os momentos, os dias, enfim.
Cascais
Baía de Cascais
Mas se prepare, quero uma maratona mesmo: No dia seguinte, vou poder lhe dispensar um pouco, caso você não queira me acompanhar na viagem de comboio, o que acho difícil, quando chego aí ficamos inseparáveis, porque vou a Cascais de qualquer maneira, mesmo você me dizendo que tá chovendo e fazendo frio. Não me importo: o que quero é ver a Baía de Cascais toda aberta para mim, tempo nublado ou não, posso ficar dentro de algum restaurante olhando a chuva cair através dos vidros, quem sabe vejo alguém, como já aconteceu, mais louco de que eu, nadando naquelas águas? O certo é que vou, passarei em todos os cantos onde costumo passar, até porque, com certeza, terei de ir ao Banco do Brasil tirar dinheiro, e aí aproveito para tomar um vinho se tiver muito frio, caso contrário, tomo um mojito ali sentadinha olhando tantos que, como eu, não se amedontram com o mau tempo.
Vou subir as escadinhas e vou olhar aquela arcada maravilhosa, as escadinhas limpas que levam até aquela praça da Igreja, vou subindo devagarzinho, olhando cada reentrância, porque nunca se pode perder a oportunidade de ver a Baía de Cascais em quadradinhos pequeninos, para depois juntá-los todos e ver tudo se transformar no infinito, que é como ela vai se apresentar quando chegarmos lá no topo e alcançarmos o forte.
Quero te dizer, que se não estiver chovendo muito, porque se tiver com pouca chuva, eu desço mesmo, vou descer aquela ladeira maravilhosa, aquela que tem as palmeiras na lateral e vou ver se desencanto aquele restaurante que fica em frente ao mar; parece brincadeira, tem 7 anos que programo esta visita, desta vez não passa, vou de qualquer maneira.
Pois é, mas vai ficar tarde, e tenho de voltar, mas o dia seguinte é domingo e aí eu vou fazer o que gosto que é andar pelo parque das nações: primeiro vou ao shopping Vasco da Gama, claro que me aborrecerei um pouco, porque vou ver coisas lindas e não vou poder comprar, mas não deixarei de passar por dentro do shopping de maneira alguma. Irei cedo, isto é, lá pelas 12:00 que é para dar tempo de, antes de almoçar no Sr Peixe, dar umas voltas por ali. Tomara que o Cuba Libre tenha reaberto, se isto tiver acontecido tudo vai estar perfeito, do contrário, darei um jeito; lugar para tomar mojito é que não falta.
Depois disso, claro, tenho de voltar à vida normal, o que é muito difícil para mim, porque ter a sua companhia nunca é uma normalidade, é sempre uma coisa excepcional, pois você tem muitas surpresas, a cada hora que você decide se mostrar para mim eu fico mais e mais encantada. Bem, mas dentro da normalidade tenho de ir à faculdade. Quanta saudade! Você pode não acreditar, mas o que sinto falta daquela biblioteca da Faculdade de Direito, você não crê? Agora então, que decidi que vou bisbilhotar Angola e a Justiça ali aplicada, vou ter que passar muito tempo lá, o que adoro. Depois, vou me perder em alguns dos corredores da Faculdade de Letras, outro dia fiquei com uma neura danada achando que não ia conseguir  achar o caminho da saída, já nem sei se volto àquele mesmo lugar, onde tinha o centro de estudos africanos, esconderam tanto o bichinho que quase ninguém o encontrava e se o encontrasse, também não achava o caminho de volta, só cheguei lá porque fui com uma funcionaria.
Depois, quando me cansar, o que não é muito provável, vou aportar na Sociedade de Geografia, para muitos mergulhos na Angola colonial, ah se vou! Este negócio de ser doutora é muito interessante, a gente nunca se satisfaz com o que já fez, quer sempre mais.
Mesmo na normalidade, não vou deixar de descer o parque Eduardo VI, ou VII, não sei bem, também não interessa, nem tampouco a Avenida da Liberdade, sem me cansar de apreciar a nossa bela estação do Rossio, onde vou tomar o trem para Sintra, pois, estou também com saudades daquele lugar.
Marina de Figueira da Foz
Se o dinheiro aparecer, ou melhor, se sobrar algum, juro a você que vou a Guimarães, Bragança e Chaves, deveria ter feito isto quando fui até Viana, mas nunca é tarde. Se não puder, eu vou, mesmo com o tempo feio, retornar à Figueira da Foz, Aveiro porque quero ir até Ilhavo, de preferência no festival do bacalhau, Espinho, e tantos outros lugares, quem sabe, se ficar aí até a Páscoa possa repetir o passeio pelo D`ouro, e desta vez possa  arrumar um “parceiro” daqueles, espero, entretanto, não provar tanto vinho para não correr o risco de  cantar, outra vez, com algum casal de espanhol mais louco de que eu, La luna Y el Toro dentro do comboio, machucando os ouvidos da aristocracia portuguesa.
Lisboa - Tejo
É meu amigo, quanta coisa tenho para contar de você e eu, quanta cumplicidade, quanto companheirismo. Sei que você esta cheio de dificuldades, atolado em dívidas, tratando mal os seus para tentar sair do buraco que este negócio da “união” lhe colocou, bem como outros  parceiros que dela fazem parte, (os mais pobres claro), mas nada disto me faz deixar de gostar de você, de acreditar que você vai sair desta da melhor maneira possível, e vai se mostrar, como sempre foi, lindo e formoso para tantos quantos possam chegar até você, para você se amostrar, começando por  mostrar  a sua querida e enamorada esposa, aquela que realmente abre os braços para quem vem do outro lado do Atlântico, e da qual você tem um grande ciúme, mas não se preocupe que ninguém vai  fazer mal à tão linda criatura, a gente só quer admirá-la, amá-la, ver o seu rival, o Tejo, este sim, poderoso, mas você que também  o acolhe, é maior de que este sentimento mesquinho de rivalidade, de ciúme, porque você é grande e sempre vai sê-lo, ainda que muitos digam o contrário.
Até breve.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A gostosona da Academia

Como de costume ás terças e quintas feiras acordou mais cedo; era dia de ginástica. Seguindo a moda academia, vestiu a calça colada no corpo, o bustiê e uma camisa, também colada ao corpo, mais apertada. Hoje não iria de macacão colado, iria assim, era um novo modelito, ainda não conhecido pelos colegas de academia.  Ela se sabia uma mulher interessante. Sem ser alta, mas com uma boa altura, com o corpo bem delineado. Tinha um orgulho da porra da bunda dura que, torneada, era muito bem valorizada pelas calças coladas no corpo. A bunda, especificamente ela, era o que chamava atenção mesmo, tanto de homem, quanto de mulheres; as mulheres com inveja, os homens com tesão. Tinha malandro que fazia questão de ficar bem atrás dela, assim a oportunidade de “comer com os olhos” era bem maior. Sim, porque ela era casada e, em princípio, os colegas só poderiam comê-la com os olhos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O vaso de murano

De onde está pode ver o vaso azul que comprou em Veneza. É um pequeno murano, uma miniatura daquele que povoou os seus sonhos desde os sete anos. Sim, é verdade, na casa de um seu tio rico tinha alguns vasos de murano: azuis, verdes, um colossal salmão. Os vasos ficaram para sempre em seu subconsciente.  Aliás, aquela casa tinha coisas que ela lembra até hoje e por elas  podia avaliar a fartura, riqueza da época áurea em que seus tios viveram. Havia quadros de famosos, Mulatas de Di Cavalcanti,  um enorme na sala com uma índia  que não se lembra de quem era, e muitos outros. Na lateral, subindo a escada havia um quadro lindo, mas era uma paisagem.  Dentro do gabinete mais um também com indígenas, salvo engano,o fundo do quadro era rosa. O gabinete! Ficava encantada com aquele canto da casa que não era muito freqüentado pela criançada; vivia trancado, afinal aquele era o lugar dos negócios e as crianças não podiam entrar. A escada de mármore, que conduzia ao andar dos quartos, era linda, o mármore branquinho era areado, quase que diariamente, pelas empregadas da casa. Recorda-se que era areado com pasta cristal, aquela rosinha.  Acabada a escada alcançava-se um hall onde se podia ver  cinco portas. Quatro quartos e o banheiro. Quatro quartos!  Aquilo era o máximo, quatro quartos e um somente para costura. Acreditem se quiserem: as famílias abastadas tinham costureiras particulares à sua disposição. Do lado esquerdo, após o quarto da costura, ficava o quarto das duas filhas do casal.  Chic! Muito chic mesmo.  Camas, guarda roupa, penteadeira, cômoda, tudo igual, era o máximo da arrumação. As colchas completavam o cenário e elas combinavam com as cortinas. A penteadeira tinha duas abas que podiam ser deslocadas para permitir que os utentes visualizassem as costas, os cabelos. A porta de frente era o banheiro, o qual mais parecia uma outra casa de tão grande que era, possivelmente hoje seria o tamanho de um loft, kitinete, quarto sala, sabe-se lá.  Do lado direito da escada mais duas portas, o do quarto dos meninos e a do casal.
O quarto do casal era uma coisa à parte mesmo.  Era enorme, tinha uma espécie de ante sala com poltronas, uma mesinha e, logo após grandes guarda roupas que tomavam as paredes de todos os dois lados, num outro vão ficava a cama de casal. Nunca tinha visto uma cama de casal daquele tamanho, era enorme mesmo. Ficava solta naquele vão enorme, mas era tão grande que não se notava que ela reinava sozinha ali. No lado esquerdo uma porta e aí a grande vedete, o banheiro. Imaginem vocês, há 52 ou 53 anos atrás ela viu a primeira suíte da sua vida, suíte com direito a banheira e tudo mais, a louça decorada era o máximo, havia flores azuis na pia, no vaso, na banheira, Ela ficava encantada com tudo aquilo. A cama, que algumas vezes ajudou sua mãe a arrumar, estava sempre impecável, guarnecida com colchas floridas e travesseiros e um rolo enorme, que fazia com que os travesseiros fossem colocados quase em posição vertical, o que dava um toque de elegância à cama. Uma porta lateral abria-se para a varanda que dava para a rua onde a casa estava localizada.
No andar térreo somente uma sala imensa, que abrigava a sala de visitas, então assim chamada, e a sala de jantar, onde uma imponente mesa com doze cadeiras e tampo de vidro trabalhado adornavam o ambiente. No centro daquela mesa, uma fruteira de cristal toda rebuscada e de três andares, que estavam sempre com frutas lindas e frescas.  No enorme móvel, que ficava na parede que fazia divisória com a cozinha, um relógio de pé insistia em marcar o tempo, parecia sempre estar disposto a dizer que tudo aquilo tinha um tempo certo, era preciso cuidado.
Um móvel menor, mais alto, era um bar, ali tinha muitas bebidas sempre. Eram duas portas mais altas de que a do móvel grande, porque este tinha gavetas e o bar não. Mais adiante, a cristaleira onde eram colocados os cristais, e olhe que eram muitos e lindos. Ela ficava extasiada  frente àquilo tudo.
Plantas ornamentais eram espalhadas pela casa, na subida da escada, em um pequeno pedestal de mármore, havia um feto, enorme e verde, lindo. À noite ele saia dali para tomar o ar e o sereno no jardim, ao amanhecer, antes mesmo dos donos da casa descerem, ele já estava no seu lugar de costume.
A cozinha era gigantesca.  Toda cheia de armários, tudo combinado: fogão no lugar certo, duas geladeiras nos seus lugares, duas pias.  Ela ficava olhando aquilo tudo com um misto de curiosidade, espanto, inveja. Na sua casa não tinha nada disto, muito pelo contrário, na sua casa se lavava pratos em bacias, o banho era em bacias imensas para que a água fosse aproveitada para o proximo banhista ou para jogar no sanitário. Depois da cozinha varandas, varandas imensas, uma espécie de copa avarandada onde outra mesa, com muitos lugares, servia para as refeições intimas  da família.
Pela manhã a mesa estava sempre arrumada: frutas, pão, aipim, inhame, batata doce, mingau de aveia, cuscuz, leite, café, banana da terra cozida, jámon, queijos, ovos dentre outras coisas.  Era realmente farta aquela casa. A dona da casa descia de roupão, ela não fazia nada, portanto, quando o “patrão” saísse ela voltaria para os aposentos, talvez para dormir ou  encontrar a roupa adequada para o evento do dia: eles tinham muitos compromissos. O “patrão”  foi diretor de hospital, presidente da associação comercial, presidente de clube recreativo e muitas outras coisas. Ela o acompanhava nessas ocasiões.
A varanda de entrada tinha cadeiras e poltronas de madeiras, ela sempre gostou daquelas poltronas, eram largas e fundas e quem era pequeno, como ela, ficava com as pernas balançando no ar e toda recostada no fundo da cadeira, era uma grande dificuldade para sair. No jardim, muito bem cuidado, plantas variadas, roseiras, samambais, palmeiras,  bananeira de jardim. Na parte lateral da casa a continuação do jardim lhavia a um viveiro de pássaros, era uma gaiola gigante, com muitas aves lindas: periquitos de cores várias, e outros pássaros que não lembra o nome.  O papagaio ficava em uma gaiola solitária na varanda perto da cozinha, de onde via tudo e falava tudo que conseguisse captar. Havia, também, um áquario com peixinhos coloridos, que fazia uma espécie de fosso embaixo do local onde onde estava colocada a enorme gaiola, como se fosse para dificultar os passários de saírem, como se isto fosse possível.
Havia um subsolo, sim havia. Ali era a área de serviço e o dormitório dos empregados. Um vão enorme com camas colocadas uma ao lado da outra. Sempre que descia ali via as camas rigorosamente arrumadas, tudo no seu devido lugar. Se a patroa não se dignava a descer ali, a sua governanta não deixava a peteca cair. Mais abaixo, uma pequena roça, uma horta e mais dependências de empregado, agora dos homens.
Tudo perfeito e deslumbrante para ela, que se encantava como carro que havia na casa, um só não, lembra que havia dois. Um era um automóvel lindo, lembra que o carro era verde, tinha uma frente ampla, mas não tinha fundo comprido, era batido no fundo, por dentro o painel era todo de madeira, com aquela marcha que ficava na lateral do volante imenso. O Outro carro era uma espécie de caminhonete, mas toda fechada e parecia que tudo era de madeira. Nesse último carro, porque era maior, fez alguns passeios.
Sim, lembra destes detalhes todos; outros existiram, mas o tempo passou e ela esqueceu, no entanto, um deles ela jamais esquecerá, tanto que, quando foi a Veneza  comprou uma miniatura  do belo vaso de murano que ficava na sala em cima de um dos móveis. Queria o verde, não havia, isto é, não no preço que poderia comprar e do tamanho que poderia  levar, mas sim o azul, que a fez lembrar de tantos detalhes, retornando a um tempo em que  os ricos achavam que sempre o seriam, que ostentavam sua riqueza como se ela fosse perene, em que se gastava sem se pensar no amanhã, em que muitas mulheres  apenas se preocupavam em achar um bom partido para continuarem com a vida que tinham dentro da casa dos pais. O tempo passou, as condições mudaram; os muranos se foram, as telas desapareceram, o mármore das escadas, se ainda existe, é pisado por outrem . O patrão morreu, a patroa resiste, já viu os seus dois filhos homens falecerem, vive com uma das filhas, que não encontrou nenhum bom partido, ambas solitárias sofrendo as suas dores interiores e, possivelmente, lembrando de um tempo que não voltará jamais, o tempo que aquele relógio de pé insistia em mostrar, mas que ninguém da casa prestou atenção.  

quarta-feira, 26 de março de 2014

Foi-se a chance

Saíra do cine Bahia, chovia muito e ela esperava que a chuva passasse para se dirigir ao ponto de ônibus ea voltar para casa.  Estava vestida de vermelho e preto, calça vermelha e uma blusa preta de manga comprida, que era de lã e, mesmo com a chuva, fazia um calor insuportável. Os longos cabelos estavam enfiados em uma boina creme, pois estava bem na moda o uso deste acessório devido à novela que passava na época, MINHA DOCE NAMORADA, com Regina Duarte, que abusou do estilo e fez moda perante a juventude.
Estava bonita, ela o sabia, mas como sempre, estava sozinha e não ficava olhando ao redor para quem estava ao seu lado. De repente alguém se aproxima. Um louro bonito com os olhos muito, mas muito azuis.  A pessoa era bonita sim e dava para ver que não era daquelas paragens.  "Boa Tarrrrde", diz o estranho com um sotaque bem carregado. Ela olha para a pessoa e toma um susto, o cidadão era efetivamente lindo, e a olhava nos olhos, fazendo-a ficar vermelha:- é teve um tempo que ela ficava assim quando alguém lhe olhava!   Boa tarde, respondeu. O cidadão tentava falar mais, entretanto não conseguia ser muito claro, o português não era nada bom; uma mistura de muitas línguas, espanhol, inglês, frances, sabe-se lá mais o que, o fato é que ela não entendia nada.  Com algum esforço entendeu que o rapaz queria pegar um ônibus para a Barra. Com mais esforço ainda, tentou dizer que ele podia pegar o ônibus ali mesmo, bem próximo ao cinema, o problema era a chuva.
Dada a resposta ela fica ali olhando os pingos da água caírem com muita força, e vendo a água correr perto do meio fio, levando a sujeira que encontrava deixando a rua limpa e o asfalto brilhando.
O homem não sai de perto dela e continuava a tentar conversar. A comunicação era muito difícil, mas era impossível não perceber o interesse que tinha despertado no rapaz, que lhe perguntou se ela ia para a Barra.  Não, vou para casa.  Respondeu isto achando que ele ia mesmo entender.
-“Onde mora vc.”? 
 -“longe da Barra”
- "Onde"?
- "Na Federação".
- “Near Barra”
- "No, distante".
- “Seu nome”
- "Dolores"
-“My name is  Bert”
- “Berto”
- "Yes, Bert; I `m German”
Porra, pensa ela, tira este homem daqui, eu não sei falar nada com ele, quanto pior, alemão.
O cara continuava tentando puxar uma conversa quase impossível. Ela sabia inglês da escola. My name is, My adress is, Goord morning, How are you, near, right,morning; nada além disto.
A chuva continuava caindo torrencialmente, o céu estava escuro, e, fora do abrigo proporcionado pelo teto da entrada do cinema, era impossível ficar, assim ela não tinha para onde correr, ou ficava ali tentando entender o que o rapaz queria, ou molhação.
- “Vc é very beautifull?
Este cara tá me xingando; entretanto percebeu que ele estava lhe fazendo um elogio, porque ele a olhava muito e balançava a cabeça.
- “Vc não parrece  ser brasileira”
-"Mas sou baiana sim".
 "Diferrente, muito diferrente and beautifull"
O papo, ainda que muitas vezes indecifrável, começava a lhe agradar. Ela nunca fora cortejada por um estrangeiro, estava com 17 anos, e o mais perto que tinha ficado de um estrangeiro era de seu pai e seus tios e primos ibéricos.
Estava se interessando pelo rapaz que era mesmo bonito. O olho era qualquer coisa
A chuva deu uma trégua e ela disse que ia pegar o ônibus, dando tchau com a mão, ele, então disse:  "Eu vai com vc".
Ela tomou um susto e disse: "não, não". Mas ele insistiu e quando ela entrou no ônibus ele também o fez.
Ela não sabia bem o que fazer, não queria que o cara soubesse onde ela morava, aquilo não fazia qualquer sentido: resultado: deixou que o ônibus passasse do ponto e foi sair no final de linha, no São Gonçalo.  Saiu do ônibus e tentou dizer ao rapaz que o pai dela não ia gostar de vê-la chegando a casa com um estranho.  Não sabe se ele entendeu, mas sabe que ele a pegou pela mão e desceram uma ladeira que dava no Rio Vermelho, e no largo ele lhe pagou uma bebida e ficaram naquela lenga lenga sem saber direito que fazer ou o que falar.
De repente o cara lhe pegou pelo pescoço e lhe deu um beijo. Ela tentou resistir, mas o beijo era gostoso e ela deixou que ele acontecesse, todavia, apressou-se em levantar e dizer que ia embora.
O cara, muito a contra gosto, teve que aceitar, mas disse que no dia seguinte, que seria um domingo, estaria ali a esperando às duas horas da tarde.
Ela não acreditou muito na história e assim que o rapaz pegou o ônibus para a Barra, ela pegou o seu busu para voltar para casa.
Dia seguinte, lá pelas 13h45min, estava no local, mas ficou bem de longe, já lá por perto da Igreja, quando o viu saindo de um carro, uma caminhonete cabine dupla, onde já havia algumas pessoas, de longe pareciam quatro pessoas.
Ela ficou assustada e não quis aparecer, ele desceu e a procurava olhando para todos os lados. Ela deu a volta pela igreja e saio por detrás dela como se estivesse chegando naquele momento. Estava com receio, mas muito curiosa. Assim que ele a viu correu em sua direção, pegou o seu rosto com as duas mãos e deu-lhe muitos beijos em todo o rosto procurando pela sua boca. Ela atônita recebia aqueles beijos atordoada, não estava acostumada a isto, mas o cara era delicado e fazia aquilo numa grande naturalidade, até continuo, depois de dar-lhe beijos molhados nos lábios, tomou sua mão e encaminhou-se para o carro, onde um casal e mais uma moça os aguardavam
Ela pode ver que se tratava de pessoas de posse, as mulheres estavam bem vestidas, embora sem qualquer afetação, mas todos estavam arrumados.  O mais desarrumado, na verdade, era o Bert, que estava de calças jeans, camiseta bege, tênis.  Foram feitas as apresentações e a moça apressou-se em dizer que já não estava agüentando mais a ansiedade do amigo, que desde as dez da manha falava que tinha de vir buscá-la, que não podiam atrasar.
Entraram no carro, ela meio receosa, mas o que fazer, já tava na chuva e tinha de se molhar. Uma das mulheres ficou no banco de trás com ela e o Bert e o casal vinha na frente. No caminho a mulher começou a falar do cidadão. Ele é alemão, esta aqui na nossa casa, porque meu irmão trabalha com ele lá na Alemanha e o trouxe para conhecer a Bahia. O casal da frente era o irmão dela e a esposa, e eles íam, agora, a um carur+u.
Ela não pode deixar de dar risada, então ela foi convidada por um alemão para ir a um carurú.
A mulher continuava a falar, e disse que o caruru seria no Curuzu na casa da sua empregada, ai dela se não fosse.
No caminho, enquanto a mulher não parava de falar, o Bert se encostava cada vez mais nela, lhe dava beijos no pescoço, lhe dava cheiros e parecia mesmo estar feliz por estar ali, naquele momento, na sua companhia .
Chegaram ao Curuzu, o carro teve de ficar na rua, e eles tiveram de descer numa avenida de casas em uma escadaria, e ela lembrou da sua própria casa, e pensou consigo mesmo: se este cara soubesse onde moro, será que ele tava assim tão cheio de amor para dar?
Bom o certo é que eles foram muito bem recebidos, o carurú da melhor qualidade, e para os patrões então, os pratos vinham à maneira, com bastante galinha vatapá, tudo que o que o baiano tem direito. A cerveja corria solta, e todos beberam bem. O Bert bebia, mas podia se notar que ele tava cauteloso, não comera muito, aliás, ele só comera a galinha e o arroz, e mais um pouco de vatapá, não deve ter gostado daquela mistura.
Lá pelas oito, e para ela já muito tarde, eles saíram dali para ir embora. Ela estava aflita porque o pessoal começou a falar em ir para outro lugar, o que ela nem imaginava, se não chegasse a casa antes das dez teria problemas na certa.
Disse isto à amiga do rapaz para que ela lhe informasse.  A esta altura todos já estavam dentro do carro e ela com medo de que não a fossem levar em casa, enquanto isto a mão do Bert ficava mais ousada, e já procuravam os seus peitos, as suas pernas, ela se fechava toda, não só pela situação, como pelo próprio pudor, mas ele a beijava tanto, lhe chupava os lábios, lhe segurava forte. Em dado momento a moça que estava junto a ela no carro disse no seu ouvido: "Deixe ele lhe pegar, não tenha medo, ele tá doido por você, desde ontem que não fala de outra coisa".  Este cara pode lhe levar embora daqui se você quiser e, lá na Alemanha, ele é cheio de dinheiro.
Ela parou, olhou bem para a cara da mulher que lhe dizia isto e lhe falou: "Quero é ir embora para casa, por favor, peça a seu irmão para me levar, ou então, me deixar em qualquer lugar que pego um ônibus".
Bert olhava aquela conversação sem entender bem o que se passava, mas não estava gostando da reação dela, que agora já não estava tão receptiva aos seus afagos mais ousados.
Viu a mulher falar com o irmão, que pegou outro caminho, e ela viu que realmente ela estava indo para a sua casa, já conhecia a estrada e ficou mais tranquila.
Quando chegaram ao Rio Vermelho eles ainda lhe chamaram para ir ter com eles na casa lá na Barra, mas ela disse não.  Bert insistiu para ficar com ela um pouco mais e depois iria de ônibus para casa, mas ela pediu que ele fosse, porque ela precisa ir embora mesmo, Já estava quase dando dez horas e o auê estaria armado em casa.
Ele se foi com a promessa de, no outro dia, as 05h00min da tarde estar ali, naquele mesmo lugar. Ela concordou, muito mais para se ver livre, de que para acertar aquele encontro, que ela sabia, não ia acontecer.
Despediram-se. O cara tava mesmo excitadíssimo, o jeans grosso não escondia isto, e o ultimo beijo e ele se foi para sempre.
No dia seguinte, tanto ele, quanto ela estavam lá, mas ela só foi mesmo para saber se ele iria, queria ter esta sensação de que era querida, mas não teve a coragem de aproximar-se. Viu quando ele, cabisbaixo, foi-se. 
Assim acabou a primeira chance que ela teve de “perder a virgindade” e de  ter uma affair mais sério com um estrangeiro e  ter a chance, que na época todos queriam, de sair do país.