quarta-feira, 11 de junho de 2014

Sou brasileiro com muito orgulho e muito amor

O nome do bar é “cool”. Pronuncie bem o “l” final, deixe-o vibrar entre a língua e o céu da boca. Não se pode fazer bico, pois, se o fizer o bar vira um sanitário público.

O certo é que estávamos ali, chegamos cedo para pegar uma boa mesa para assistir o jogo. Como o bar é o primeiro de uma série de 30 a 40 seguidos, observávamos carreatas de pessoas passando em frente ao bar, a predominância do “verde e amarelo” era notável. Todos queriam mostrar nas vestes o que lhes ia ao coração, o orgulho imenso de ser “brasileiro”.

Os modelos variavam. Desde a famosa camisa oficial da seleção brasileira de football, com emblema da CBF e tudo, que era delicadamente beijada por um patriota, às tiras verdes e amarelas formando um bustiê para não cobrir nada, ou melhor, deixar entrever o patriotismo nacionalista, literalmente, no peito. As tiras nem cobriam e nem sustentavam tanto amor patriótico transbordando por todos os lados.
A cantora que animava os torcedores antes do jogo começar, durante o intervalo, e no seu final, também vestia verde e amarelo, acho que se pode chamar aquela roupa de um collant de tiras estilizado, ao melhor estilo “brasileiro”, que deixava mostrar as curvas e voltas de uma brasileira pequenina do Espírito Santo, mas com uma voz do tamanho do Brasil.

Adiante, um pouco mais na frente do bar, pais que orgulhosamente mostravam os seus herdeiros, bebês verdes e amarelos, o símbolo da nação protegendo um deles do vento, uma proteção aos seus jovens filhos, o outro, trazia uma faixa na cabeça com o nome e cores do Brasil. Os pais, devidamente paramentados, não deixavam quaisquer dúvidas de suas origens.
Uma bandeira imensa passa, todos gritam. Vendedores estão parados na frente do bar, de um lado o cachecol de Portugal, do outro, camisas, bandeiras, chapéus do Brasil.

Uma vuvusela potente soa: o jogo esta prestes a começar. Todos estão sentados, a banda já não toca, também eles querem ver o jogo. Hino Nacional Brasileiro, alguns, na verdade uma mesa com umas 30 pessoas, levantam-se e, mão no peito, cantam o Hino Nacional Brasileiro. O jogo começa, todos nervosos, na verdade queríamos mesmo ganhar. Muitas cervejas, muitas “porras” e “putas que pariu”. Um jogador cai: “Juiz safado” tá roubando Portugal. Um comentário de um lusitano: “É isto aí, somos pequeninos”. Ainda bem que são eles que dizem. O jogo continua, não gosto do que vejo, mas estou calada, não queria melindrar ninguém, bem sei eu como torço em épocas de copa do mundo.

Intervalo. Mais música. O jogo tá empatado: não temos ainda preocupações, afinal estávamos classificados, mas o que queríamos mesmo era ganhar, aliás, as duas partes envolvidas, tanto Portugal como o Brasil, embora classificados para a fase seguinte, queriam ganhar um do outro. O primeiro para, como diria um critico de meu trabalho, “dar uma alfinetada nos brasileiros”, tentar voltar a tempos idos em que mandavam no Brasil, o segundo porque sempre quer vencer e mostrar que já não é mais obediente, já não aceita ordens, é o melhor do mundo, ao menos em football.

O jogo recomeça, estamos todos ansiosos, Portugal volta melhor, Cristiano Ronaldo aparece mais no jogo, já se fala mais nele, consegue algumas passagens por Lúcio, mas nós confiamos no nosso capitão. As queixas continuam de ambos os lados. Ninguém tem coragem de levantar do lugar para pegar uma cerveja, nem os garçons se atrevem a passar na frente de algum torcedor. A hegemonia é mesmo brasileira. Há portugueses, uns mais patriotas de que outros, vestem as camisas da seleção, mas são poucos naquele espaço. Muito poucos mesmo. O jogo, á essa altura, se arrasta, não acaba; o empate permanece. Um susto no finalzinho do jogo, nada que o nosso goleiro não possa enfrentar, mesmo todo amarrado como a televisão mostra, ele não deixa a bola entrar. Toma a pancada e se refaz.

Acaba o jogo, aí é que o negócio pegou mesmo. Até mesmo as árvores que circundam o espaço onde ficam as esplanadas sorriem com o seu verde-amarelo natural. Olhem bem, não é uma foto montagem e nem nenhuma fotografia encomendada. Percebam o colorido natural destas árvores? Não temos culpa, a própria natureza nos prefere e demonstra isto com a sua coloração,olhem que esta coloração ja se apresenta desde o jogo anterior.

A Banda recomeça a tocar. A cantora pequenina de voz potente canta o hino nacional brasileiro. Erra a letra, mas a moçada em baixo do ínfimo palco ajuda: ela se refaz e canta corretamente toda a letra. O samba toma conta de todo o espaço. As pessoas voltam a passar, desta feita, no sentido inverso. Parece brincadeira, mas o verde e amarelo tomou conta de todos os espaços mesmo, mas, ainda assim, há lugar para todos; a lusofonia faz a união: portugueses, angolanos, moçambicanos, cabo verdianos, poucos, bem verdade, mas ali estão, unidos, juntos, valorizando a língua e alegria. Todavia, não só lusófonos se fazem presentes, muitas outras nacionalidades se achegam, a mistura demonstra a força da música e do football.

O jogo Brasil e Portugal mal termina no campo, começa um outro em um outro campo: o da sedução. Elas se deixam encantar pelo brasileiro todo colorido, com o Brasil pintado no corpo. O português com a camisa 17 dança com a brasileira. Uma mulher bonita dá um beijo no portuga apaixonado.

 Uma moça linda chama atenção, pela sua altura e beleza, pela capa de super mulher(uma bandeira do Brasil) e pelo olhar que lança para alguém que esta na parte de cima do bar e quer lhe jogar uma camisa.

Enfim, o 0X0 já não importa mais. Acabou. Vamos ao próximo. Agora é a vera mesmo: Brasil X Chile e Portugal X Espanha. Ibéricos contra ibéricos, americanos do sul contra americanos do sul. Seria mais justo?

O certo é que vi o jogo Brasil e Portugal em Lisboa, no Parque das Nações, com a nítida impressão de que estava em casa, no meu país. Depois deste jogo acho que o dono do bar deveria mudar o nome do estabelecimento para “Hot”, pois, o que se fez presente ali, do início ao fim do jogo e, ainda, depois dele, foi a quentura do brasileiro, o nosso calor humano, a nossa alegria de povo que esquece o sofrimento em momentos como esses, talvez só de quatro e quatro anos, o povo que mostra e ensina ao mundo o que é ser “BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO E MUITO AMOR”.