domingo, 1 de junho de 2014

Não quebre coisas coisas - Faça sexo

O dia malmente amanhecera e ela já estava com um terrível mau humor. Aliás, este mau humor, nos últimos meses, anos até, era uma freqüência.  Ela mesma notava e todos que a circundavam. Fosse onde quer que fosse, estivesse com quem estivesse, o seu semblante demonstrava a sua insatisfação com o momento que estava vivendo.
Apesar de mal humorada ela tinha de sobreviver, fazer as coisas normais e, principalmente, manter a sua casa limpa, porquanto ela abominava a sujeira, mas tudo estava sendo um grande sacrifício para si, o que antes era um grande prazer, agora passava a ser uma obrigação cruel, quanto pior, quando se sentia cobrada por todos que chegavam à sua casa; imagine que até o ex- marido se arvorava em fazer comentários da poeira, da mancha em algum móvel, da desarrumação dos CDS.
O fato é que, com bom ou mau humor tinha de levantar, como em todos os outros dias, não podia passar a sua vida deitada em frente à televisão, esperando que o dia e a noite passasse e chegasse um novo dia sem mudanças, sem perspectivas, sem nada.
Levantou-se e, para piorar o seu humor, pisou no controle da televisão que, com um ruído seco, partiu-se.  Chegou à exasperação por dois motivos; o primeiro com a quebra do controle e o segundo a constatação de que estava muito pesada mesmo, do contrário, o controle agüentaria a pisada sem maiores problemas.
Olha o aparador à sua frente e vê as imagens de Santo Antonio e Nossa Senhora de Fátima, chega mais próximo das duas e pede que eles lhe ajudem a ter um dia bom.  Ao se aproximar em demasia do aparador dá um encontrão no mesmo e a imagem de Nossa Senhora balança, e se não fosse o seu rápido reflexo em alcançá-la, era mais um motivo para o mau humor aumentar, afinal a imagem fora trazida de Fátima e ela sabia que tão cedo voltaria lá para comprar outra.
Pensa consigo: - “Vou acender uma vela e colocar um incenso para ver se espanto as coisas más”, e é o que faz, mas a vela não acende facilmente, gastou quase cinco palitos de fósforos em tentativas vans.  Pega a vela, liga o fogão, e a acende na chama, faz o mesmo com o incenso. Volta à sala e coloca os dois nos seus devidos lugares.  Reza um Pai Nosso, uma Ave Maria, chama por Ogum, Depois vai ao banheiro para as primeiras necessidades e higiene do dia. Abre a torneira e fica esperando pela água que não sai.  Xinga! Merda hoje efetivamente não é o dia.
Sai do banheiro e vai pegar um copo de água no filtro, pega o copo e coloca embaixo da torneira, a água flui fortemente e de repente o copo transborda molhando o chão.  “Puta que pariu! Vai mesmo ser um péssimo dia”.
Volta ao banheiro e acaba o que começou, depois vai até a bomba para encher um balde da água do poço, sua salvação nessas emergências.  Liga a bomba e ouve um ruído estranho, a água flui um pouco e, de repente, com um som esquisito da bomba, a água para de correr. “carraio, será que hoje tudo resolveu me sacanear”?
Puta dentro das calças, ou melhor, da camisola, leva o balde para o banheiro joga metade no vaso e com o restante começa um banho de gato, lavando as partes intimas.
Tenta não pensar nesses embaraços, não quer associá-los a nada, mas é inevitável não o fazer, afinal tudo esta começando errado, aliás, continuando uma rotina que ela não gosta. Há muito que está tensa, nervosa, sua carne treme ao menor aborrecimento. Tem horas que pensa que está enfartando, tal a sua ansiedade e angustia. O peito insiste em demonstrar que não está satisfeito com a sua rotina, com a sua falta de prazer, com a sua circulação lenta, que só acelera por aborrecimentos.
Mede a pressão, 15X9. “Vou mesmo ter uma zorra a qualquer hora”, pensa e se arrepende de ter medido a pressão.  Ela já sabia qual seria o provável resultado, a sua vida não dá chances ao corpo de equilibrar-se. Esta sempre tensa, sempre mal humorada, triste, apreensiva. Nada consegue lhe agradar.
Tenta, para dissipar os maus pensamentos e os maus agouros, acessar a internet para ler alguma coisa boa, alguma mensagem que melhore o seu mau humor. Pois não é que a porra da internet nao funciona, não consegue conectar-se de maneira alguma. A esta altura o sangue já está todo concentrado na sua face, ela tem vontade de quebrar o aparelho (modem), o próprio notebook, mas controla-se e não o faz.  Desliga o computador e vai calçar o tênis, resolve andar, ainda que o tempo esteja muito nublado.  Calça o tênis novo que comprou para substituir o velho “mizuno”, que está lhe abandonando. Já colou a sola verde umas três vezes, ele não mais resiste mesmo.   Sai portão afora e logo nos primeiros duzentos metros sabe o que lhe espera com o tênis novo, caminha mais um pouco, mas tem de parar, os dois calcanhares ardem, informam o que ela não queria saber. Ela volta, mas não tira o tênis, idiotamente, não quer ficar descalça. Resultado: duas bolhas imensas nos pés.  Olha a vermelhidão indignada, então compra um porra de um tênis de R$699,00 e este quer lhe acabar os pés. Merda total.
Agora as coisas ainda estão piores. Duas bolhas enormes, um ardor insuportável e ela olhando aquela zorra sem saber mesmo o que vai fazer.
Vai fazer um suco de maracujá para tentar acalmar-se, ainda eram sete da manhã e tanta coisa ruim já tinha acontecido: o controle da televisão, a santa, a vela e o incenso, a falta de água, a performance da bomba, o chão m olhado, as bolhas nos pés. O que mais viria?. Resposta automática, assim que pega o maracujá ele lhe cai das mãos, pega-o embaixo da geladeira para onde ele tinha rolado. Lava-o com a água do filtro, não depois de, mais uma vez, se aborrecer com a falta da água na torneira, havia esquecido-se disto.
Vai cortar o maracujá e quase corta o próprio dedo. “Não é possível uma zorra desta, o que esta acontecendo”? Insiste no suco, devia ter desistido logo quando a fruta caiu e rolou para debaixo da geladeira. Coloca a polpa no liquidificador, água e, quando liga o bicho um desastre: esquecera de colocar a tampa e o caldo amarelo com pintinhas pretas toma conta de toda a pia; o que ficou dentro do liquidificador é jogado fora quase que com o copo do aparelho.
Agora sim é que o negócio vai pegar, como vai limpar aquela sujeira toda sem água? Tenta secar com a toalha de papel, mas ali tem que entrar água, caso contrário, daqui a pouco as formigas vão fazer uma festa. Resolve pedir um balde de água na vizinha, que com boa vontade lhe passa o balde pelo muro: Acreditem se quiserem: metade da água cai em cima dela quando ela tenta pegar o balde do outro lado do muro.  O palavrão sai com toda a sua força. A vizinha pede o balde outra vez, diz que enche de novo, mas ela está para lá de irritada e agradecendo-lhe, diz que mais tarde, caso a água não chegue mesmo, pede outro.
Limpa da melhor maneira possível a sujeira, enquanto faz isto o telefone toca, ela vai atender sem bem olhar o número que chama, e aí o mau humor tende a aumentar, é uma empresa que liga nos horários menos indicados, procurando alguém que não reside na sua casa, ela desta vez, manda quem está falando “tomar no...”, desliga o aparelho com raiva, resultado, parte um pedaço do desgraçado.
Tremendo de raiva tenta se acalmar: bebe água; toma a zorra dos remédios da pressão; do colesterol, e outros naturais, para o fígado e para elevar a taxa do estrógeno. Neste momento a ficha cai: EUREKA!  Ela lembra que há muito, mas há muito tempo mesmo, não faz sexo, e entende que todo este mau humor, esta ansiedade, esta angústia, enfim, oitenta por cento dos seus problemas é isto: FALTA DE SEXO.  Sim este é o problema; mas como solucioná-lo? Vai procurar sexo com quem? Ela não tem parceiros, e acreditem, nem mesmo amigos que possam fazer uma caridade. Ela não tem ninguém. Pela sua cabeça passam mil conjecturas: “Vou comprar um vibrador; vou alugar um garoto de programa; vou arrumar um namorado, aliás, tenho de fazer isto logo antes que arrebente toda a casa”, porque é o que vai acontecer, uma vez que as suas mãos parecem não agüentar nada, o seu equilíbrio é péssimo, não consegue sequer fazer os exercícios que exigem equilíbrio na Yoga, uma merda total. Pensa em cenouras, pepinos, coisas roliças, mas vem a preocupação de parar num hospital como aconteceu, é o que dizem, com um ator de telenovelas da globo, há algum tempo atrás.
Tenta afastar tais pensamentos, mas o seu corpo não deixa, ele está pedindo sexo, mostrando o que a falta dele faz. Ela não tem outra saída, tem de procurar algo que, ao menos, diminuía esta carência, e com a contribuição da net, que agora funcionou mesmo, acessa um site pornô e, vendo cenas calientes, deixa que o seu corpo reaja. E ele reage bem, e ela retira um pouco do peso, mas não está satisfeita, porque ela precisa mesmo é de ser acariciada, mordida, penetrada, sentir-se preenchida, ter algo convexo no seu côncavo, que vibra só em pensar na possibilidade de isto realizar-se a qualquer momento. É o que espera.