sexta-feira, 11 de abril de 2014

Do resto sei eu

O dia amanheceu, acordou muito cedo. Chovia do lado de fora, ouvia o som da chuva  caindo no chão. Começou a pensar o que faria durante o dia: levantaria, tomaria uma “Douche” quentinha, arrumaria o quarto, daria uma lida em algumas páginas de um livro qualquer, aliás, o que não faltava no espaço era livro para ler. Depois tomaria um  suco  mudaria a roupa e  iria, como sempre, dar um passeio na Baixa. Não tinha nada para fazer na faculdade hoje, portanto, o melhor seria mesmo um passeio  no Chiado, esperando as horas passarem para  comer, lá no seu David (Merendinha do Arco), o cozido à portuguesa, afinal, era quinta feira.
Depois do cozido, e após algumas bagaceiras(aguardante portuguesa), sairia 
andando pelas ruas de Lisboa. Talvez fosse para o lado de Alfama, quem sabe iria ao Bairro Alto, Santa Catarina, Estrela, tinha ainda a opção de seguir andando até o Cais do Sodré e de lá, dependendo do tempo, pegar um comboio e ir até Cascais olhar o mar. Sim, faria isto mesmo.
Espreguiçando-se, tentando  esticar ao máximo o corpo que amanhecera bem encolhido, deve ter tido algum sonho que a fez tremer, ou então havia feito frio à noite, o certo é que  amanheceu toda encolhidinha.
A chuva engrossara, o ruído era mais forte agora,  mas ela continuava no firme próposito de fazer  o que planejara, mas sair da cama com  aquela  zoadinha da chuva e o aconhego do quarto estava dificl. Olha o relogio e levanta de sobressalto: 11 horas da manhã! Metade dos seus planos  por água à baixo, agora teria de se apressar, porque a camioneta  a (7) passaria as 11:30 e se perdesse esta teria de pegar a (13) e quase uma hora para chegar no centro de Lisboa.  
Levantou-se de um salto, resultado: quase quebra a cara, porque dormira no chão da sala, literalmente no chão, deve ter pego no sono vendo algum programa de televisão e  pronto, a noite inteira no chão, em cima, apenas de uma toalha, portanto o  corpo se apresentava dolorido pela dureza do chão. O pescoço doia porque  dormira  com as almofadas, ao invés do travesseiro.
Que droga! Brada ela, notando que  todos os seus planos anteriores estavam em um sonho, que  como todo sonho, se desfez. Quase chora ao ver a realidade que a esperava  naquele dia, igual a tantos outros, com apenas uma diferença, estava um dia mais velha e não gostava nada disto, a velhice chegara, inevitavelmente, mas não estava fácil aceitar as rugas, as limitações, as taxas altas a cada exame.
Decidiu, entretanto, que daria asas a sua imaginação e continuaria, acordada, o sonho  que tivera com a sua amada Lisboa, e pôs-se a recordar de pessoas, lugares, cheiros, gostos. Colocou o disco da Carminho e ouviu “Bom dia amor, dizem as rosas da janela ao ver o sol nascer”. A música lhe alegrou, lembrou mesmo dos bons dias que dava ao tempo, sim ao tempo, ao acordar e abrir o store do quarto da casa onde vivia em Carnaxide e olhar, ao longe, mas completamente identificável o Tejo, ja se esvaindo  no oceano. De sua janela via o marco divisório de onde um termina e o outro começa. Tejo e Oceano Atlântico, águas que marcaram, por longos oito anos, a sua vida. O Tejo dono da sua intimidade, conselheiro amigo sempre atento e disposto a ajudar e dissipar as suas dúvidas, aflições, tristezas. O Atlântico povoando os seus sonhos, estabelecendo ligações, não deixando que as suas origens fossem esquecidas. Ela era de lá, de onde o olho não podia alcançar, sim, de lá do outro lado do Atlântico, e mais uma vez Carminho lhe faz recordar de tantos momentos bons passados ali, numa solidão que ela gostava de ter e sentir, solidão que só dividia, exatamente, com o Tejo e com o Atlântico.  “O Sal das minhas lágrimas de amor criou o mar  que existe entre nos dois para nos unir e separar[...] [..] meu bem sempre  que ouvires um lamento crescer desolador na voz do vento,sou eu em solidão  pensando em ti, chorando todo o tempo que perdi[..]”  A música é linda, a história de amor envolvente, e a saudade era a dela, embora em ordem invertida e  o ocenao marcando a separação. Sim, a música da Carminho vai tomando conta de  si, entrando pelos poros e ela se vê à frente do Tejo, bem ali onde ele caminha mais rápido para encontrar o seu amigo que o levará para outras paragens, onde ele se mistura  com outras águas para encontrar o o mundo, conhecer lugares, revigorar terras, presenciar amores, consolar desamores e dissabores. Lágrimas  salgadas  correm pelo seu rosto, ela não está triste, está  apenas saudosa, mas sabe, perfeitamente, que esta saudade jamais terá cura, pois sempre, sempre mesmo, ainda que alguns digam que nunca se deve dizer nunca e nem sempre, ela sentirá. O Tejo lhe faz muita falta, e não só ele,  Lisboa  com as suas peculiaridades, tantos as boas quantos as ruins.  Viveu uma liberdade naquela cidade que sabe jamais retornará.
Limpa o rosto e  continua lembrando de detalhes: Zara, Rua Augusta, Chiado, Fenac, El Corte inglês. Ajuda, Belém, Algés, Carnaxide, Queluz. Sintra, Paço Darcos, Caxias, Carcavelos, Oeiras, Estoril, Cascais.Mercado da Ribeira, tantos lugares, tantas sensações, tantas descobertas.  Como era bom  sentir o trem ir parando  no final da linha em  Cascais, onde ela ja chegava feliz  pelo que vinha vendo desde o Cais do Sodre, de onde o comboio partia com destino a esta elegante e charmosa vila. Lembra da Vera a lhe dizer que a Zara lhe devia contratar como garota propaganda
 Carminho lhe traz de volta à Lisboa, “ Lisboa se amas o Tejo, como não amas ninguém, perdoa num longo beijo os caprichos que ele tem, faço isto ao meu amor, quando aparece zangado[...) tu também és rapariga, tu também es cantadeira, vale mais uma cantiga,cantada à sua maneira”.  Gosta da alusão que a letra faz  quando  diz que o Tejo de dia veste o pijama do sol.  Se vê sentada  no paredão  do Cais Sodré,  sozinha no meio de tantos, olhando  o Tejo e o outro lado dele, Cacilhas. O  seu olhar se perde e com ele todas as dores do dia, do tempo, da vida. Sim, o Tejo era assim para ela, uma mirada, e o brilho do seu olhar retornava, e com ele a esperança do dia seguinte melhor com grandes e  agradáveis surpresas.
“Porque  reclamas de mim se sou assim como tu és. Barco perdido no mar que anda a bailar com as marés, tu ja sabias que tinha um queixume do mesmo ciíume que sempre embalei, tu ja sabias que amavas deverás,também quem tu eras confesso não sei. Não sei quem és nem quero saber, errei talvez, mas que hei-de eu fazer?A tal paixão que jamais findará,-- Pura ilusão! --Ninguém sabe onde está! Dos dois, diz  lá o que mais sofreu! Diz lá que o resto sei eu! P'ra que me queixo eu também Do teu desdém que me queimou. Se é eu queixar-me afinal dum temporal que já passou? Tu nem calculas as mágoas expressas e a quantas promessas calámos a voz!Tu nem calculas as bocas que riam e quantas podiam queixar-se de nós! Não sei  quem és nem quero saber, errei talvez, mas que hei-de eu fazer? A tal paixão que jamais findará,-- Pura ilusão! --Ninguém sabe onde está! Dos dois, diz  lá o que mais sofreu! Diz, que o resto sei eu.”
Pois é, vai ficar por aqui,  porque  a saudade é mesmo imensa e, no mais, como na múscia, do resto sabe ela.