segunda-feira, 5 de maio de 2014

Para quem tem um "ex amor"

Como de costume, acordou cedo e, como ainda estava escuro, foi espreitar as novidades do final de semana no face e se deparou com uma mensagem de um colega, na qual havia um anexo, que era um vídeo com Martinho da Vila, cantando “ex amor”. Fez um comentário: “eu me possuo e é na sua intenção” é preciso muita coragem para isto, ou coisa parecida.
Realmente, ela acha que é preciso mesmo coragem para, sem subterfúgios, dizer que a pessoa que lhe foi tão cara um dia, ainda continua fazendo parte do seu sonho, do seu devaneio, das suas dores e angústias, como também das horas dos prazeres buscados, construídos com as recordações dos grandes e bons momentos vividos.
A letra da música é linda, sensacionalmente real, vida de dois que se desmoronou, desgastada pelo tempo, pela transformação do amor em dor, como ele bem sabe dizer poeticamente e, como tal, aliviando a dor de transformar tudo em dor mesmo. Entretanto, ainda que tenha sido assim, que infelizmente já não dê mais, fica toda uma história, que por mais que se tente esquecer, sobrevive, às vezes, como ele mesmo diz, até no próprio corpo, quando, buscando pelas memórias, ele reage como se vivendo estivesse os momentos quentes em que o coração acelera, a respiração fica ofegante, em que se têm espasmos de prazer.
Ah sim Martinho, como se concorda com você! E como se deve ter pena daqueles que não são capazes de, como você, dizer isto a alguém, daqueles que continuam com o orgulho de um dia ter sorrido quando acabou mesmo com o coração dilacerado.  Não é pessoa adepta de cultivar a dor, sem dúvida alguma: acha que nenhum ser humano merece fazer isto consigo próprio, mas também não pode concordar que, por um orgulho idiota, bobo, próprio dos covardes, se deixe de dizer a outrem o quanto ele representou, ou ainda representa na sua vida. Fraqueza! Diriam alguns: os imbecis que não têm sentimentos grandiosos, apenas mesquinhos, para consigo e para com outros.
É calada, bem sabe; é estranha, arredia, também o sabe. Pode passar séculos sem ver ou falar com uma pessoa, tenha sido ela muito ou pouco importante na sua vida, mas o seu coração continua acelerando, quando recorda dos momentos lindos, vividos com grande ternura, com grande emoção, enfim, com um grande amor pelos que passaram pela sua vida, e nela deixaram marcas indeléveis.
Certamente, e concorda mais ainda, com o letrista afortunado, que quando se transforma tudo em dor, o melhor mesmo é cada um ir para o seu lado, mas é necessário que o outro saiba, perfeitamente, que não foi fácil, que as angústias povoaram por muito tempo sua vida. Não interessa quanto o tempo tenha passado, não interessa se se está, ou não, com outro alguém, porque quando a saudade bate forte no peito, há que se entender que, embora distantes e irremediavelmente separados, as coisas não acabaram como deveriam, pois restaram lembranças tamanhas que somente elas são capazes de nos fazer vibrar. Não há, pois, nada de errado em dizer o que se sente ou o que um dia se escondeu a uma pessoa, não é necessário citar nomes, porque as partes interessadas vão saber do que se fala, sem que ninguém, fora do elo de dois, participe disto.
Martinho canta, ela escreve, alguém pinta, outro faz comida, enfim, em cada criação dos que querem falar do seu amor, ou do seu ex amor, não tão ex amor assim, está presente a cumplicidade que uniu e desuniu, há momentos íntimos tão grandes, momentos só partilhados entre os dois, que nenhum envolvido atual vai perceber, porque, pensa ela, cada dois tem um “nosso” impenetrável exclusivo, que, mesmo os amigos mais íntimos, não sabem ou percebem. É na cumplicidade do amor, que se faz uma música com uma letra tão linda como é esta: EX AMOR
Para tantos quantos  tenham um “ex amor”, que tenha sido assim tão forte como o descrito na letra,  diz: não tenham medo, vergonha de dizer o quanto ele foi importante e o quanto ele se faz presente na sua vida, e o quanto você “se possui” na sua intenção.   

“Ex-amor
Gostaria que tu soubesse
O quanto que eu sofri
Ao ter que me afastar de ti
Não chorei
Como um louco eu até sorri
Mas no fundo só eu sei
Das angústias que senti
Sempre sonhamos
Com o mais eterno amor
Infelizmente
Eu lamento mas não deu
Nos desgastamos
Transformando tudo em dor
Mas mesmo assim
Eu acredito que valeu
Quando a saudade bate forte
É envolvente
Eu me possuo
E é na tua intenção
Com a minha cuca
Naqueles momentos quentes
Em que se acelerava meu coração”