quarta-feira, 26 de março de 2014

Foi-se a chance

Saíra do cine Bahia, chovia muito e ela esperava que a chuva passasse para se dirigir ao ponto de ônibus ea voltar para casa.  Estava vestida de vermelho e preto, calça vermelha e uma blusa preta de manga comprida, que era de lã e, mesmo com a chuva, fazia um calor insuportável. Os longos cabelos estavam enfiados em uma boina creme, pois estava bem na moda o uso deste acessório devido à novela que passava na época, MINHA DOCE NAMORADA, com Regina Duarte, que abusou do estilo e fez moda perante a juventude.
Estava bonita, ela o sabia, mas como sempre, estava sozinha e não ficava olhando ao redor para quem estava ao seu lado. De repente alguém se aproxima. Um louro bonito com os olhos muito, mas muito azuis.  A pessoa era bonita sim e dava para ver que não era daquelas paragens.  "Boa Tarrrrde", diz o estranho com um sotaque bem carregado. Ela olha para a pessoa e toma um susto, o cidadão era efetivamente lindo, e a olhava nos olhos, fazendo-a ficar vermelha:- é teve um tempo que ela ficava assim quando alguém lhe olhava!   Boa tarde, respondeu. O cidadão tentava falar mais, entretanto não conseguia ser muito claro, o português não era nada bom; uma mistura de muitas línguas, espanhol, inglês, frances, sabe-se lá mais o que, o fato é que ela não entendia nada.  Com algum esforço entendeu que o rapaz queria pegar um ônibus para a Barra. Com mais esforço ainda, tentou dizer que ele podia pegar o ônibus ali mesmo, bem próximo ao cinema, o problema era a chuva.
Dada a resposta ela fica ali olhando os pingos da água caírem com muita força, e vendo a água correr perto do meio fio, levando a sujeira que encontrava deixando a rua limpa e o asfalto brilhando.
O homem não sai de perto dela e continuava a tentar conversar. A comunicação era muito difícil, mas era impossível não perceber o interesse que tinha despertado no rapaz, que lhe perguntou se ela ia para a Barra.  Não, vou para casa.  Respondeu isto achando que ele ia mesmo entender.
-“Onde mora vc.”? 
 -“longe da Barra”
- "Onde"?
- "Na Federação".
- “Near Barra”
- "No, distante".
- “Seu nome”
- "Dolores"
-“My name is  Bert”
- “Berto”
- "Yes, Bert; I `m German”
Porra, pensa ela, tira este homem daqui, eu não sei falar nada com ele, quanto pior, alemão.
O cara continuava tentando puxar uma conversa quase impossível. Ela sabia inglês da escola. My name is, My adress is, Goord morning, How are you, near, right,morning; nada além disto.
A chuva continuava caindo torrencialmente, o céu estava escuro, e, fora do abrigo proporcionado pelo teto da entrada do cinema, era impossível ficar, assim ela não tinha para onde correr, ou ficava ali tentando entender o que o rapaz queria, ou molhação.
- “Vc é very beautifull?
Este cara tá me xingando; entretanto percebeu que ele estava lhe fazendo um elogio, porque ele a olhava muito e balançava a cabeça.
- “Vc não parrece  ser brasileira”
-"Mas sou baiana sim".
 "Diferrente, muito diferrente and beautifull"
O papo, ainda que muitas vezes indecifrável, começava a lhe agradar. Ela nunca fora cortejada por um estrangeiro, estava com 17 anos, e o mais perto que tinha ficado de um estrangeiro era de seu pai e seus tios e primos ibéricos.
Estava se interessando pelo rapaz que era mesmo bonito. O olho era qualquer coisa
A chuva deu uma trégua e ela disse que ia pegar o ônibus, dando tchau com a mão, ele, então disse:  "Eu vai com vc".
Ela tomou um susto e disse: "não, não". Mas ele insistiu e quando ela entrou no ônibus ele também o fez.
Ela não sabia bem o que fazer, não queria que o cara soubesse onde ela morava, aquilo não fazia qualquer sentido: resultado: deixou que o ônibus passasse do ponto e foi sair no final de linha, no São Gonçalo.  Saiu do ônibus e tentou dizer ao rapaz que o pai dela não ia gostar de vê-la chegando a casa com um estranho.  Não sabe se ele entendeu, mas sabe que ele a pegou pela mão e desceram uma ladeira que dava no Rio Vermelho, e no largo ele lhe pagou uma bebida e ficaram naquela lenga lenga sem saber direito que fazer ou o que falar.
De repente o cara lhe pegou pelo pescoço e lhe deu um beijo. Ela tentou resistir, mas o beijo era gostoso e ela deixou que ele acontecesse, todavia, apressou-se em levantar e dizer que ia embora.
O cara, muito a contra gosto, teve que aceitar, mas disse que no dia seguinte, que seria um domingo, estaria ali a esperando às duas horas da tarde.
Ela não acreditou muito na história e assim que o rapaz pegou o ônibus para a Barra, ela pegou o seu busu para voltar para casa.
Dia seguinte, lá pelas 13h45min, estava no local, mas ficou bem de longe, já lá por perto da Igreja, quando o viu saindo de um carro, uma caminhonete cabine dupla, onde já havia algumas pessoas, de longe pareciam quatro pessoas.
Ela ficou assustada e não quis aparecer, ele desceu e a procurava olhando para todos os lados. Ela deu a volta pela igreja e saio por detrás dela como se estivesse chegando naquele momento. Estava com receio, mas muito curiosa. Assim que ele a viu correu em sua direção, pegou o seu rosto com as duas mãos e deu-lhe muitos beijos em todo o rosto procurando pela sua boca. Ela atônita recebia aqueles beijos atordoada, não estava acostumada a isto, mas o cara era delicado e fazia aquilo numa grande naturalidade, até continuo, depois de dar-lhe beijos molhados nos lábios, tomou sua mão e encaminhou-se para o carro, onde um casal e mais uma moça os aguardavam
Ela pode ver que se tratava de pessoas de posse, as mulheres estavam bem vestidas, embora sem qualquer afetação, mas todos estavam arrumados.  O mais desarrumado, na verdade, era o Bert, que estava de calças jeans, camiseta bege, tênis.  Foram feitas as apresentações e a moça apressou-se em dizer que já não estava agüentando mais a ansiedade do amigo, que desde as dez da manha falava que tinha de vir buscá-la, que não podiam atrasar.
Entraram no carro, ela meio receosa, mas o que fazer, já tava na chuva e tinha de se molhar. Uma das mulheres ficou no banco de trás com ela e o Bert e o casal vinha na frente. No caminho a mulher começou a falar do cidadão. Ele é alemão, esta aqui na nossa casa, porque meu irmão trabalha com ele lá na Alemanha e o trouxe para conhecer a Bahia. O casal da frente era o irmão dela e a esposa, e eles íam, agora, a um carur+u.
Ela não pode deixar de dar risada, então ela foi convidada por um alemão para ir a um carurú.
A mulher continuava a falar, e disse que o caruru seria no Curuzu na casa da sua empregada, ai dela se não fosse.
No caminho, enquanto a mulher não parava de falar, o Bert se encostava cada vez mais nela, lhe dava beijos no pescoço, lhe dava cheiros e parecia mesmo estar feliz por estar ali, naquele momento, na sua companhia .
Chegaram ao Curuzu, o carro teve de ficar na rua, e eles tiveram de descer numa avenida de casas em uma escadaria, e ela lembrou da sua própria casa, e pensou consigo mesmo: se este cara soubesse onde moro, será que ele tava assim tão cheio de amor para dar?
Bom o certo é que eles foram muito bem recebidos, o carurú da melhor qualidade, e para os patrões então, os pratos vinham à maneira, com bastante galinha vatapá, tudo que o que o baiano tem direito. A cerveja corria solta, e todos beberam bem. O Bert bebia, mas podia se notar que ele tava cauteloso, não comera muito, aliás, ele só comera a galinha e o arroz, e mais um pouco de vatapá, não deve ter gostado daquela mistura.
Lá pelas oito, e para ela já muito tarde, eles saíram dali para ir embora. Ela estava aflita porque o pessoal começou a falar em ir para outro lugar, o que ela nem imaginava, se não chegasse a casa antes das dez teria problemas na certa.
Disse isto à amiga do rapaz para que ela lhe informasse.  A esta altura todos já estavam dentro do carro e ela com medo de que não a fossem levar em casa, enquanto isto a mão do Bert ficava mais ousada, e já procuravam os seus peitos, as suas pernas, ela se fechava toda, não só pela situação, como pelo próprio pudor, mas ele a beijava tanto, lhe chupava os lábios, lhe segurava forte. Em dado momento a moça que estava junto a ela no carro disse no seu ouvido: "Deixe ele lhe pegar, não tenha medo, ele tá doido por você, desde ontem que não fala de outra coisa".  Este cara pode lhe levar embora daqui se você quiser e, lá na Alemanha, ele é cheio de dinheiro.
Ela parou, olhou bem para a cara da mulher que lhe dizia isto e lhe falou: "Quero é ir embora para casa, por favor, peça a seu irmão para me levar, ou então, me deixar em qualquer lugar que pego um ônibus".
Bert olhava aquela conversação sem entender bem o que se passava, mas não estava gostando da reação dela, que agora já não estava tão receptiva aos seus afagos mais ousados.
Viu a mulher falar com o irmão, que pegou outro caminho, e ela viu que realmente ela estava indo para a sua casa, já conhecia a estrada e ficou mais tranquila.
Quando chegaram ao Rio Vermelho eles ainda lhe chamaram para ir ter com eles na casa lá na Barra, mas ela disse não.  Bert insistiu para ficar com ela um pouco mais e depois iria de ônibus para casa, mas ela pediu que ele fosse, porque ela precisa ir embora mesmo, Já estava quase dando dez horas e o auê estaria armado em casa.
Ele se foi com a promessa de, no outro dia, as 05h00min da tarde estar ali, naquele mesmo lugar. Ela concordou, muito mais para se ver livre, de que para acertar aquele encontro, que ela sabia, não ia acontecer.
Despediram-se. O cara tava mesmo excitadíssimo, o jeans grosso não escondia isto, e o ultimo beijo e ele se foi para sempre.
No dia seguinte, tanto ele, quanto ela estavam lá, mas ela só foi mesmo para saber se ele iria, queria ter esta sensação de que era querida, mas não teve a coragem de aproximar-se. Viu quando ele, cabisbaixo, foi-se. 
Assim acabou a primeira chance que ela teve de “perder a virgindade” e de  ter uma affair mais sério com um estrangeiro e  ter a chance, que na época todos queriam, de sair do país.