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quarta-feira, 26 de março de 2014

Foi-se a chance

Saíra do cine Bahia, chovia muito e ela esperava que a chuva passasse para se dirigir ao ponto de ônibus ea voltar para casa.  Estava vestida de vermelho e preto, calça vermelha e uma blusa preta de manga comprida, que era de lã e, mesmo com a chuva, fazia um calor insuportável. Os longos cabelos estavam enfiados em uma boina creme, pois estava bem na moda o uso deste acessório devido à novela que passava na época, MINHA DOCE NAMORADA, com Regina Duarte, que abusou do estilo e fez moda perante a juventude.
Estava bonita, ela o sabia, mas como sempre, estava sozinha e não ficava olhando ao redor para quem estava ao seu lado. De repente alguém se aproxima. Um louro bonito com os olhos muito, mas muito azuis.  A pessoa era bonita sim e dava para ver que não era daquelas paragens.  "Boa Tarrrrde", diz o estranho com um sotaque bem carregado. Ela olha para a pessoa e toma um susto, o cidadão era efetivamente lindo, e a olhava nos olhos, fazendo-a ficar vermelha:- é teve um tempo que ela ficava assim quando alguém lhe olhava!   Boa tarde, respondeu. O cidadão tentava falar mais, entretanto não conseguia ser muito claro, o português não era nada bom; uma mistura de muitas línguas, espanhol, inglês, frances, sabe-se lá mais o que, o fato é que ela não entendia nada.  Com algum esforço entendeu que o rapaz queria pegar um ônibus para a Barra. Com mais esforço ainda, tentou dizer que ele podia pegar o ônibus ali mesmo, bem próximo ao cinema, o problema era a chuva.
Dada a resposta ela fica ali olhando os pingos da água caírem com muita força, e vendo a água correr perto do meio fio, levando a sujeira que encontrava deixando a rua limpa e o asfalto brilhando.
O homem não sai de perto dela e continuava a tentar conversar. A comunicação era muito difícil, mas era impossível não perceber o interesse que tinha despertado no rapaz, que lhe perguntou se ela ia para a Barra.  Não, vou para casa.  Respondeu isto achando que ele ia mesmo entender.
-“Onde mora vc.”? 
 -“longe da Barra”
- "Onde"?
- "Na Federação".
- “Near Barra”
- "No, distante".
- “Seu nome”
- "Dolores"
-“My name is  Bert”
- “Berto”
- "Yes, Bert; I `m German”
Porra, pensa ela, tira este homem daqui, eu não sei falar nada com ele, quanto pior, alemão.
O cara continuava tentando puxar uma conversa quase impossível. Ela sabia inglês da escola. My name is, My adress is, Goord morning, How are you, near, right,morning; nada além disto.
A chuva continuava caindo torrencialmente, o céu estava escuro, e, fora do abrigo proporcionado pelo teto da entrada do cinema, era impossível ficar, assim ela não tinha para onde correr, ou ficava ali tentando entender o que o rapaz queria, ou molhação.
- “Vc é very beautifull?
Este cara tá me xingando; entretanto percebeu que ele estava lhe fazendo um elogio, porque ele a olhava muito e balançava a cabeça.
- “Vc não parrece  ser brasileira”
-"Mas sou baiana sim".
 "Diferrente, muito diferrente and beautifull"
O papo, ainda que muitas vezes indecifrável, começava a lhe agradar. Ela nunca fora cortejada por um estrangeiro, estava com 17 anos, e o mais perto que tinha ficado de um estrangeiro era de seu pai e seus tios e primos ibéricos.
Estava se interessando pelo rapaz que era mesmo bonito. O olho era qualquer coisa
A chuva deu uma trégua e ela disse que ia pegar o ônibus, dando tchau com a mão, ele, então disse:  "Eu vai com vc".
Ela tomou um susto e disse: "não, não". Mas ele insistiu e quando ela entrou no ônibus ele também o fez.
Ela não sabia bem o que fazer, não queria que o cara soubesse onde ela morava, aquilo não fazia qualquer sentido: resultado: deixou que o ônibus passasse do ponto e foi sair no final de linha, no São Gonçalo.  Saiu do ônibus e tentou dizer ao rapaz que o pai dela não ia gostar de vê-la chegando a casa com um estranho.  Não sabe se ele entendeu, mas sabe que ele a pegou pela mão e desceram uma ladeira que dava no Rio Vermelho, e no largo ele lhe pagou uma bebida e ficaram naquela lenga lenga sem saber direito que fazer ou o que falar.
De repente o cara lhe pegou pelo pescoço e lhe deu um beijo. Ela tentou resistir, mas o beijo era gostoso e ela deixou que ele acontecesse, todavia, apressou-se em levantar e dizer que ia embora.
O cara, muito a contra gosto, teve que aceitar, mas disse que no dia seguinte, que seria um domingo, estaria ali a esperando às duas horas da tarde.
Ela não acreditou muito na história e assim que o rapaz pegou o ônibus para a Barra, ela pegou o seu busu para voltar para casa.
Dia seguinte, lá pelas 13h45min, estava no local, mas ficou bem de longe, já lá por perto da Igreja, quando o viu saindo de um carro, uma caminhonete cabine dupla, onde já havia algumas pessoas, de longe pareciam quatro pessoas.
Ela ficou assustada e não quis aparecer, ele desceu e a procurava olhando para todos os lados. Ela deu a volta pela igreja e saio por detrás dela como se estivesse chegando naquele momento. Estava com receio, mas muito curiosa. Assim que ele a viu correu em sua direção, pegou o seu rosto com as duas mãos e deu-lhe muitos beijos em todo o rosto procurando pela sua boca. Ela atônita recebia aqueles beijos atordoada, não estava acostumada a isto, mas o cara era delicado e fazia aquilo numa grande naturalidade, até continuo, depois de dar-lhe beijos molhados nos lábios, tomou sua mão e encaminhou-se para o carro, onde um casal e mais uma moça os aguardavam
Ela pode ver que se tratava de pessoas de posse, as mulheres estavam bem vestidas, embora sem qualquer afetação, mas todos estavam arrumados.  O mais desarrumado, na verdade, era o Bert, que estava de calças jeans, camiseta bege, tênis.  Foram feitas as apresentações e a moça apressou-se em dizer que já não estava agüentando mais a ansiedade do amigo, que desde as dez da manha falava que tinha de vir buscá-la, que não podiam atrasar.
Entraram no carro, ela meio receosa, mas o que fazer, já tava na chuva e tinha de se molhar. Uma das mulheres ficou no banco de trás com ela e o Bert e o casal vinha na frente. No caminho a mulher começou a falar do cidadão. Ele é alemão, esta aqui na nossa casa, porque meu irmão trabalha com ele lá na Alemanha e o trouxe para conhecer a Bahia. O casal da frente era o irmão dela e a esposa, e eles íam, agora, a um carur+u.
Ela não pode deixar de dar risada, então ela foi convidada por um alemão para ir a um carurú.
A mulher continuava a falar, e disse que o caruru seria no Curuzu na casa da sua empregada, ai dela se não fosse.
No caminho, enquanto a mulher não parava de falar, o Bert se encostava cada vez mais nela, lhe dava beijos no pescoço, lhe dava cheiros e parecia mesmo estar feliz por estar ali, naquele momento, na sua companhia .
Chegaram ao Curuzu, o carro teve de ficar na rua, e eles tiveram de descer numa avenida de casas em uma escadaria, e ela lembrou da sua própria casa, e pensou consigo mesmo: se este cara soubesse onde moro, será que ele tava assim tão cheio de amor para dar?
Bom o certo é que eles foram muito bem recebidos, o carurú da melhor qualidade, e para os patrões então, os pratos vinham à maneira, com bastante galinha vatapá, tudo que o que o baiano tem direito. A cerveja corria solta, e todos beberam bem. O Bert bebia, mas podia se notar que ele tava cauteloso, não comera muito, aliás, ele só comera a galinha e o arroz, e mais um pouco de vatapá, não deve ter gostado daquela mistura.
Lá pelas oito, e para ela já muito tarde, eles saíram dali para ir embora. Ela estava aflita porque o pessoal começou a falar em ir para outro lugar, o que ela nem imaginava, se não chegasse a casa antes das dez teria problemas na certa.
Disse isto à amiga do rapaz para que ela lhe informasse.  A esta altura todos já estavam dentro do carro e ela com medo de que não a fossem levar em casa, enquanto isto a mão do Bert ficava mais ousada, e já procuravam os seus peitos, as suas pernas, ela se fechava toda, não só pela situação, como pelo próprio pudor, mas ele a beijava tanto, lhe chupava os lábios, lhe segurava forte. Em dado momento a moça que estava junto a ela no carro disse no seu ouvido: "Deixe ele lhe pegar, não tenha medo, ele tá doido por você, desde ontem que não fala de outra coisa".  Este cara pode lhe levar embora daqui se você quiser e, lá na Alemanha, ele é cheio de dinheiro.
Ela parou, olhou bem para a cara da mulher que lhe dizia isto e lhe falou: "Quero é ir embora para casa, por favor, peça a seu irmão para me levar, ou então, me deixar em qualquer lugar que pego um ônibus".
Bert olhava aquela conversação sem entender bem o que se passava, mas não estava gostando da reação dela, que agora já não estava tão receptiva aos seus afagos mais ousados.
Viu a mulher falar com o irmão, que pegou outro caminho, e ela viu que realmente ela estava indo para a sua casa, já conhecia a estrada e ficou mais tranquila.
Quando chegaram ao Rio Vermelho eles ainda lhe chamaram para ir ter com eles na casa lá na Barra, mas ela disse não.  Bert insistiu para ficar com ela um pouco mais e depois iria de ônibus para casa, mas ela pediu que ele fosse, porque ela precisa ir embora mesmo, Já estava quase dando dez horas e o auê estaria armado em casa.
Ele se foi com a promessa de, no outro dia, as 05h00min da tarde estar ali, naquele mesmo lugar. Ela concordou, muito mais para se ver livre, de que para acertar aquele encontro, que ela sabia, não ia acontecer.
Despediram-se. O cara tava mesmo excitadíssimo, o jeans grosso não escondia isto, e o ultimo beijo e ele se foi para sempre.
No dia seguinte, tanto ele, quanto ela estavam lá, mas ela só foi mesmo para saber se ele iria, queria ter esta sensação de que era querida, mas não teve a coragem de aproximar-se. Viu quando ele, cabisbaixo, foi-se. 
Assim acabou a primeira chance que ela teve de “perder a virgindade” e de  ter uma affair mais sério com um estrangeiro e  ter a chance, que na época todos queriam, de sair do país.


domingo, 6 de maio de 2012

Propaganda Enganosa


Estava muito cansada; saíra da Faculdade de Direito onde estava pesquisando leis coloniais, um trabalho chato, desgastante, insípido para ela e para o seu nariz que odeia poeira. Saia dos arquivos completamente entupida, com dificuldade de respirar, nariz escorrendo e, muitas vezes, com dor de cabeça. Nesse dia resolveu não ir direto para casa, foi espairecer um pouco, mesmo com o peso das cópias de documentos que havia tirado na biblioteca.
Pegou o Metro na Cidade Universitária, saiu na estação do Marques de Pombal e desceu a Avenida da Liberdade, já eram quase 7 horas da noite, mas o dia, apesar de frio, ainda estava claro em Lisboa, veio descendo e procurando um espaço para comer, até àquela hora não havia comido nada. 
Praça do Comércio-Lisboa
Alcançou o Rossio e continuou em direção à Praça do Comércio. Nesse momento lembrou-se que ia haver a inauguração da árvore de natal da cidade de Lisboa, pensou que isso ia ser cedo e se dirigiu para o local, ficou embaixo das arcadas, do prédio secular de um dos muitos Ministérios que se abrigam no Terreiro do Paço. Estavam testando a iluminação e ela ainda viu algumas luzes da árvore formando renas, sinos, anjos, os símbolos do natal, em cores lindas, mas, de repente: tudo se apaga de vez. Uma pane no equipamento. Ainda bem que estava errada, porquanto não era o dia da inauguração, que ocorreria no dia seguinte.
Com a cabeça ainda doendo, desta vez já era mesmo por causa da fome, ela continuou andando. Pegou a rua que leva ao cais Sodré, tentou entrar em vários restaurantes, mas desistiu, estavam todos cheios de homens, ficou com vergonha, pois estava sozinha e sabia o que a sua entrada ia provocar. No Irish, então, um bar de irlandeses, pior ainda! Gringo para danar e ela seguiu, depois veio, a saber, qual era o motivo daquela invasão: O Benfica jogava com um time da Inglaterra.
Chegou até o Mercado da Ribeira pela parte dos fundos, e viu uns três homens saírem comentando que aquilo ali era um museu, que a pessoa menos velha ali já passava dos cinqüenta e muitos. Ouviu som de música e pensou em entrar, foi o que fez. Atravessou todo o mercado, que estava a fechar, e ainda tinha um forte cheiro de peixe e alcançou o hall de entrada onde ficam as escadas que dão acesso ao primeiro andar. O prédio do Mercado da Ribeira é lindo, visto pelo lado de fora chega a ser suntuoso, há uma cúpula maravilhosa. No hall de entrada há duas escadas bem largas e você pode subir por qualquer dos lados. Se subir pelo lado direito vai dar no espaço em que fica a loja de artesanato, livros e vinhos, e que vinhos! Do outro lado você dá no salão que tem um restaurante com comidas portuguesas, que não é típico, porque apesar de ser vir comida portuguesa, o faz no sistema "self service". No centro há um outro salão, e ali, naquele dia, havia uma festa, era dali que vinha o som. Chegou, olhou, mas não entrou, precisava comer alguma coisa mesmo.
Dirigiu-se, então, para a lanchonete que fica do lado direito e sentou-se ao balcão onde já estava uma senhora. Pediu uma água e um vinho do porto enquanto escolhia a sandie que ia comer, quando ouviu a senhora que estava ao seu lado dizer: "É muito grande, não vou conseguir comer sozinha!" Olhou para o lado e viu qual motivo do comentário. A sandie era mesmo enorme, nem mesmo a sua própria fome daria conta daquele pão imenso. Então, sem pensar muito, virou-se para a senhora e perguntou se queria dividir com ela que pagaria a metade. A senhora concordou e então começaram a conversar.
Ficou sabendo que aquela festa acontecia três ou quatro vezes na semana, eram bailes, segundo a senhora. As mulheres pagavam 2 euros para entrar e os homens pagavam 3. Que aos domingos o preço era maior. Que, normalmente, na quarta e quinta feiras, começava as 15 e acaba as 19 e, nos demais dias, começava as 16 e acabava as 20. Era uma sexta feira, portanto, naquele dia ainda podia ver alguma coisa, foi o que fez, acabou de comer a sandie no momento em que a música, que havia parado, recomeçou.
Levantou-se e pagou a entrada. Surpreendeu-se: Muitas cadeiras de plástico branco enfileiradas. Deveria ter umas vinte filas de cadeiras. Nas laterais da sala também, circundando quase toda ela, e em fila única, havia cadeiras encostadas á parede. No espaço entre as cadeiras enfileiradas e um palco, um bom espaço para dançar. No palco havia três homens cantando e tocando: órgão e violão, um deles só fazia mesmo cantar. Alguns casais dançavam. Ela então se sentou na última fila de cadeiras, aquela mais próxima da entrada. Na verdade só queria ver aquilo. Algumas pessoas já lhe haviam falado dos bailes da Ribeira, mas ela não sabia, não tinha noção mesmo do que era.
Colocou a sacola com os livros em uma cadeira e sentou-se na outra e começou a olhar bem para tudo. Era uma observadora naquele momento, queria entender tudo, ver tudo. E era efetivamente uma surpresa mesmo. Casais de senhores dançavam ali, dançavam muito e bem. Afinidades nos pés e no corpo, rodopiavam, faziam passos diferentes, de quem aprendeu a dançar mesmo, embora ela não gostasse daquele tipo de dança, que parece que tem os passos contados, programados, apreciava quem sabia trabalhá-los. Outras pessoas, tanto mulheres como homens, estavam sentados nas cadeiras laterais e nas das filas. Ficou observando tudo e entendeu que as senhoras ficavam sentadas nas cadeiras a espera que um daqueles senhores a tirassem para dançar. Os senhores, por sua vez, ficavam ali olhando, escolhendo quem seria a próxima parceira. Aquilo tudo lhe recordou os bailes da adolescência. Achou engraçado, hilariante até, porque estava vendo isto em pleno século XXI, numa cidade europeia e entre pessoas com idade avançada, como se diz hoje, a terceira ou quarta idade.
Ficou ali quieta admirando tudo aquilo. A música tornou a parar e ela pensou que tudo já estava acabado, viu alguns casais saindo e outros a se dirigirem para o fundo do palco. Permaneceu no mesmo lugar até que a música voltou a tocar, mas notou que o baile estava terminando mesmo, porque muitas pessoas estavam deixando o local.
Como percebeu que se ficasse olhando na direção dos homens podia ser chamada para dançar, e não sendo este o seu objetivo, estava de cabeça baixa, mas não o suficiente para não ver um senhor caminhando para o final da sala em direção à saída. Um homem alto, moreno, de bigodes, com um casaco preto até os joelhos. Viu, achou-o diferente, porque não tinha a idade dos demais que já haviam passado por ela e saído. Baixou a vista, mas foi tarde demais, o homem parou na sua frente e lhe chamou para dançar, ela recusou, dizendo que estava cheia de coisas, mostrando a sacola cheia de cópias e livros. Ele não fez por menos: Isto não é problema, tirou o casaco e colocou por cima das coisas, inclusive da sua bolsa e disse: Vamos! Ninguém vai bulir em nada. Relutou um pouco, mas foi dançar.
O cidadão dançava bem e ela percebendo, disse logo: Olhe, eu gosto de dançar, mas não sou nenhuma dançarina, ao que o homem respondeu: eu ensino-te. Estranhou a colocação do pronome, mas estava em Lisboa, era assim mesmo.
Procurava dar a distância regulamentar entre ela e o cidadão, mas este cada vez mais a puxava para junto do corpo. A cada puxada para frente ela colocava mais e mais a bunda para trás, por algum tempo foi uma guerra de vai e vem. Ela queria que o homem notasse que não queria qualquer avanço, qualquer intimidade.
O cidadão, puxando-a mais uma vez para si, disse-lhe que a primeira coisa que ela tinha de aprender era colocar os braços, que deveriam ficar em volta do seu pescoço. Ela sorriu e continuou como estava dançando, da forma tradicional, uma mão no ombro do parceiro e a outra entrelaçada com a dele e com os braços esticados á direita do corpo. Todavia, ele colocou os braços dela em volta do pescoço dele e continuou dançando, era realmente um bom dançarino e tinha uma pegada diferente, sua mão direita ficava no meio das costas dela e a mão esquerda na cintura, de maneira tal que o movimento era controlado exatamente naquele sitio.
Lisboa vista do Tejo
Gostando de dançar como gostava foi deixando aquele desconhecido lhe levar, dançou uns vinte minutos e de repente o cara pergunta: Quer namorar comigo? A pergunta lhe pegou de surpresa e ela, afastando-se do homem, começou a rir muito, nem conseguia dançar, estava parada no meio do salão numa crise de riso incontrolável.
A pessoa, também sorrindo, ficava tentando pegar outra vez o seu corpo, mas não dava, ela desandava a rir de novo. Quando ela conseguiu se refazer e recomeçar a dançar a sério, já permitiu que o homem se achegasse mais, já não evitou as tentativas de aproximação do corpo. De repente ela começa a sentir um volume esquisito na altura certa, ali onde todos vocês estão pensando. Afastou-se, queria ter uma noção melhor, mas não dava para ser tão indiscreta.
Desacostumada de tudo, pois só dançava com o ex-companheiro, que de há muito, dançando com ela, não tinha mais este tipo de excitação. Queria se aproximar para sentir mesmo a novidade antiga, mas, ao mesmo tempo, queria evitar qualquer contato, ou melhor, que o cidadão achasse que ela estava a gostar. Todavia o português era um sacana mesmo, e em um dado momento da música que estavam a dançar, que por incrível que pareça era uma musica do Bruno e Marroni, "Quer casar comigo", o cidadão fez um passo diferente e no refrão da música, que repete umas quatro vezes o quer "quer, quer, quer, quer casar comigo, ser mais que bons amigos"...: ele dava uma parada, colocava a sua perna quase no meio da dela e fazia um movimento que era como se fosse uma ida e vinda ritmada ao som da música, fazia isto tanto do lado direito quanto do lado es querdo dando uma pancadinha com o seu corpo no dela na região que vocês sabem qual. Aí é que ela se assustou! O mesmo volume que ela tinha sentido de um lado, agora, com este movimento, ela sentiu do outro lado. Pirou! O que aconteceu? Que homem é este? A imaginação foi lá para casa do cacete, isto mesmo, do cacete, porque ela tava querendo entender mesmo como é que a pessoa colocava o cacete daquela maneira, em que se podia sentir de um lado e de outro.
Ficou intrigada e, discretamente, permitia-se uma esfregadinha mais intensa do parceiro dançarino, embora tentando ser bem discreta. O volume de um lado era mais duro e maior que do outro lado. Entendeu menos ainda!
Terminal ônibus no Parque Eduardo VII
A música parou novamente e ele a convidou para beber alguma coisa. Seguiram até o bar que ficava atrás do palco. Tentou olhar direito o cidadão, mas o casaco grande, que ele já tinha vestido outra vez, porque as coisas dela já estavam mais próximas, em uma das cadeiras laterais que permitiam a vigilância constante, impedia qualquer constatação.
Pediu licença, pegou a bolsa e foi até o banheiro: Abriu a bolsa, pegou o tele móvel "celular" e ligou:
- Alô, tudo bem: Só quero saber de uma coisa, e rápido: Em que lado você bota o pau?
- A pergunta pegou o irmão de surpresa: O que? Onde eu boto o que?
- Ela responde tranquilamente: É isto mesmo! Responda rápido, de que lado você bota o pau?
- Ele, a rir muito, responde: Do lado esquerdo doida!
O Tejo e Lisboa 
È bom que se diga que a ligação foi de Portugal para o Brasil
Saiu da casa de banho e foi ter com o cidadão que estava a conversar com outras pessoas, aproximou-se e disse-lhe que iria embora, ele pediu para ela ficar mais um pouco, pois o baile já estava a acabar e que aquele era o último intervalo.
Concordou e foi dançar outra vez, até porque, agora, ela iria tirar tudo a limpo, saber mesmo onde estava se encostando. Recomeçaram a dança, e de novo, as tentativas de aproximação se sucederam. Ela deixava uma hora, outra não, no jogo safado da sedução que todos conhecem, estava a gostar daquilo, relembrava-lhe a sua adolescência, quando nos bailes, os rapazes, quando acabavam de dançar, se afastavam com a mão no bolso para disfarçar o indisfarçável. Deu o espaço suficiente para sentir toda a movimentação corporal do senhor. De novo sentiu volumes em todos os dois lados, o do lado direito mais rijo. Aí não entendeu nada mesmo, mas ficou ali, permitindo a aproximação, aquela intimidade que não era para acontecer, todavia ela estava gostando mesmo daquilo. Havia ali um começo de um jogo de sedução ao qual ela já tinha se desacostumado e, naquele momento, percebeu que nem tudo acabara com o fim da sua relação. As sensações se renovam, o desejo aparece, a vontade volta, enfim, se redescobre a vida e a vontade de vivê-la intensamente. Teve esta certeza mesmo, aquele ilustre desconhecido estava lhe devolvendo a vontade de estar com alguém, de ser feliz, de partilhar amor.

O fato é que dançou mais algumas músicas com o português bigodudo e, quando finalmente acabou o baile, quando ele parou de dançar e se afastou dela para ir embora, ela o viu colocar a mão no bolso direito e de lá tirar a chave do carro, que tinha um chaveiro de corda roliço, com mais ou menos uns 10 cm. Desatou a rir. Ria e ria mais e o cara a olhar para ela sem nada entender e a lhe perguntar o que houve? Não dava para dizer.
Cais do Sodré -Lisboa
Saiu dali e foi para casa, ria todo o tempo, e, no dia seguinte, resolveu voltar à Ribeira, afinal era sábado e tinha baile e poderia com sorte encontrar o português bigodudo. Não deu outra, ele estava lá, mesmo casaco e, parecia que estava a sua espera, pois estava bem na porta de entrada e, antecipando-se, pagou a sua entrada. Entrou e ele já lhe pegou pela mão e se dirigiram a pista de dança, não antes de colocar a bolsa dela numa das cadeiras. Começaram a dançar e ela não se conteve: ria tanto que chegava a soluçar de tanto rir. Para amenizar a situação encostou-se bem nele e colocou o rosto no seu pescoço, como se para evitar que os outros percebessem que ela estava rindo tanto, como se o balanço do corpo não denunciasse isto.
O cidadão lhe perguntava o que ela tava sentindo e ela disse que lhe falaria quando parassem de dançar. Curioso, pediu ele que parassem logo, ela assentiu e foram até o bar. O problema agora era dizer, contar a história, o motivo do riso.
Tomou coragem e disse: Não sei como você vai perceber isto, mas é melhor contar logo e tirar qualquer dúvida a respeito do motivo do meu riso:
-Você se lembra que ontem deixei você aqui no bar e fui até o banheiro?
-Ele diz que sim.
-Pois é, continua ela: Naquela hora eu fui perguntar a meu irmão em que posição ele colocava o pênis no dia a dia.
O homem, pego de surpresa,  olhou para ela com uma cara indescritível: O que? De que estás a falare?
-É isto mesmo que você ouviu. Perguntei a meu irmão isto porque você estava fazendo uma "propaganda enganosa".
-Ele, entendendo menos ainda: - Eu estava a fazere o que?
- Ela repete: Propaganda enganosa, porque você colocou a chave do carro no bolso direito da calça e ela faz um volume imenso; só que você também tinha um volume do outro lado, e eu fui perguntar para saber mesmo, dos dois lados, qual era a "propaganda enganosa".
Agora foi a vez de ele rir! Ria tanto que muitos dos seus amigos chegaram junto de si para saber qual o motivo de tanta alegria e ele, quase a chorar de tanto rir, dizia que foi a piada que ela contara sobre a "propaganda enganosa".