sábado, 15 de outubro de 2011

Das vantagens de ser amante

Ele, ou ela, tem um amante; para os mais velhos, ser amante era uma vergonha, ter alguém na família que era amante, era tragédia, mui principalmente se você fosse mulher. É porque homem podia ter quantas amantes quisesse, mas uma mulher ter um amante; ah aí a coisa pegava! Aliás, ainda pega. Uma filha solteira que era amante de alguém era tida como “prostituta”. Enfim, era muito desagradável ser “amante” De padre então: confusão geral.
A palavra vem do latim amante, quer dizer desde a sua origem ela é igual, não sofreu qualquer corruptela: o seu significado foi perenizado, amante é amante e pronto, é aquele que ama sempre, repare que a palavra parece gerundiar. Ser amante é estar amando sempre, é uma qualidade e um estado de espírito. O substantivo e o adjetivo se confundem, e na sua grande maioria, apesar de ser um substantivo comum aos dois gêneros - a palavra ou a situação é tão boa que é comum de dois - se fosse uma coisa ruim seria atribuída ao sexo masculino ou ao feminino individualmente, como se fosse possível ser “amante” individualmente, sempre foi mais comum atribuir tal qualidade à mulher. A condição de ser, ou estar, amante é a existência de um outro; há que se interagir, e como! para se garantir esta adjetivação. A palavra é sonora e perfeita – AMANTE- ia ficar para lá de feio se ela tivesse gênero, imagine um homem dizer que tinha uma “amanta”; coisa mais feia! Parece que se fala de um animal irracional.
Mas não quero falar aqui do amante como um ser que ama, mas daquele qualificativo que é atribuído àqueles que têm relações fora da própria relação, aquela que se não abençoada por Deus- o sagrado matrimonio - é pela lei dos homens: - contrato -.  Quero, pois, falar da relação que é considerada ilícita.
Ilícita! A palavra é muito forte. Por que ilícita? Onde está a ilicitude no fato de ser amante? Que crime foi cometido? Não é uma ilicitude penal, não é uma ilicitude civil, nem sequer temos mais o adultério tipificado como crime e nem como causa de separação judicial (ou será que ainda temos? será que somos tão retrógados que ainda admitimos isto como causa de divórcio?). Não sei e nem quero saber, estou afastada do código civil, aliás, queria me afastar de todos os códigos. O ilícito, na verdade, está dentro do campo da moralidade. O individuo que tem uma relação estável com outro fica condicionado à só, e exclusivamente, ter esta única pessoa para ter as relações outras: sexual, familiar, obrigacionais, etc. Se passa a ter outro relacionamento com alguém, de cunho amoroso, ele (a) infringe as leis morais, aquela moral mentirosa incutida em nós desde que nascemos praticamente. É pernicioso ter “amante”- Um homem ou uma mulher tem de ser fiel ao seu parceiro para o resto da vida, não pode ser um amante, tem de ser o companheiro, o marido, a mulher, ou a esposa do homem: enfim, vocês caem de saber das obrigações dos cônjuges, que têm obrigação moral de respeitar o outro e amá-lo por toda a vida. Bom, veja só que contrassenso, (acordo ortográfico) se tenho de amar outro para o resto da vida, a minha condição, pois, é de amante – o ser que está sempre amando.
Bem mais o que quero mesmo falar é do amante, aquele que pratica a ilicitude de amar quem “pertence” a outrem, aquela de quem  uma música cantada por Betânia – EU SOU A OUTRA- fala: “Ele é casado, eu sou a outra na vida dele, que vive qual uma brasa, por lhe faltar tudo em casa, ele é casado, eu sou a outra que o mundo difama, que a vida ingrata maltrata [...]Quem me condena como se condena uma mulher perdida, só me vêem na vida dele, mas não o  vêem na minha vida...”
Todavia, não e bem assim como a letra da música: há vantagens quando se é amante: primeiramente você vai ser um substantivo assexuado, pois comum de dois gêneros é assim: não tem sexo definido, tanto pode ser um homem como uma mulher, a palavra vai ser igual. Depois você vai ser, ao mesmo tempo, um substantivo, que pode ser até mesmo próprio, e um adjetivo, porque você vai virar uma qualidade, que é a de ser amante: “Olhe ali, lá vai o (a) amante de fulano(a) de tal”!  Viu que você já passou de substantivo para adjetivo? Depois, se você for mulher, nunca será alcunhada de “patroa”; “dona encrenca”; “policia” dentre tantos outros desqualificativos para lá de desagradáveis com os quais as esposas dos amantes são nominadas. Também você nunca vai estar ocupada (o) para nada enquanto estiver ao lado do “amante”, porque ele (a) tem um tempo todo disponível para o outro quando estão juntos. Você estará sempre cheiroso (a), bonito (a), bem vestido (a) procurando agradar o outro. No caso do amante ser uma mulher, aí sim é que as vantagens são inúmeras: você além de sempre estar bonita, limpa, cheirosa, porque você vai sempre saber a hora que o parceiro vai estar com você, porque ele trabalha com as disponibilidades de horário, você nunca será pega de surpresa; você nunca estará fedendo a comida, desarrumada, suada, cheirando a detergentes, porque sua profissão é “amante”, não dona de casa, esposa, mulher, patroa, enfim, você não tem estas obrigações que aquelas que deveriam ser amadas para todo o sempre - Amem - têm.
Possivelmente, você não terá uma casa, a não ser que você tenha um amante bem rico e que queira a exclusividade. Exclusividade, eis outra palavra importante numa relação entre “amantes”; o amante não tem obrigação de ter exclusividade, até porque a própria relação entre amantes já afastou o exclusivismo, pois sempre haverá outro na relação, o parceiro (a) do amante, aquele que a moral dos homens reconhece como legitimo (a). Bom se não existe a obrigação da “fidelidade”, então você pode ser amante de muitos a um só tempo, bastando, apenas, manter a exclusividade momentânea quando se está a dois.
Outra grande e imensa vantagem para os (as) amantes: Você vai conhecer lugares maravilhosos, escondidos, românticos, lugares que jamais serão conhecidos pela esposa (o), sabem por quê? Porque você não pode ser visto pelo grande publico, então o (a) “amante” vai procurar sempre lugares que ele (a) não freqüenta com a família; vai fazer viagens com você, vai lhe mostrar coisas que conhece, vai lhe dar presentes, vai lhe proporcionar muitas coisas, que jamais serão vividas em companhia do seu parceiro (a) licito.
No sexo: Ah no sexo! “Aí é que é bom: o (a) amante” vai querer se superar mesmo, vai fazer com você tudo o que ele não faz com a “patroa” ou com “patrão”, pois com eles, em muitos casos, há o receio de que o outro ache que é imoralidade fazer isto ou aquilo. Com o(a) amante a liberdade é total, não há impedimentos, não há falta de respeito, não há tabus, tudo pode ser feito sem melindres, e então a coisa pega fogo, e acho mesmo que aí é que está a grande  vantagem do(da)amante.
Se você quer a exclusividade, acaba todo este clima, porque a rotina vai tomar conta da sua vida e você vai deixar de ser “amante” para virar, exatamente, o parceiro de quem o outro está querendo escapulir, ao menos por algumas horas. Aí você vai começar a questionar: Por que ele (a) não está comigo agora? Por que não pode dormir aqui?  Porque não podemos nos encontrar aos finais de semana? É porque tem isto: amante que se preza só tem final de semana com o objeto do seu amor, se estiver viajando a negócios; como se negócios fossem feitos aos finais de semana, mas o parceiro legal acredita, até acha que o (a) pobre coitado (a) trabalha demais, se sacrifica pela causa da família; Otários (as)!  Se você começa a querer tudo isto, a relação vai terminar, porque você vai querer ir para a cozinha para fazer a comidinha que o outro gosta, e aí, por mais perfume que coloque, o cheiro da comida vai estar em você, se for fritura então, ela vai impregnar os seus cabelos e você vai ficar fedendo, e então a pessoa vai achar que e tudo igual à sua própria casa, daquilo que ele (a) quer se livrar, ao menos, momentaneamente. Se você for esperto (a) jamais deixe que do relacionamento surgir algum imprevisto; to falando de filhos. Neste tipo de relação eles acabam com tudo, criam problemas sérios, seja com você e o (a) seu amante, seja com a sua própria família, com os filhos outros que por acaso você tenha, enfim, você se desestrutura todo. Se você for mulher então, o seu “casamento” com certeza estará acabado, e não só ele, a sua relação com o “amante” também: um porque não quer, e o outro também porque não quer: um porque não quer dar o atestado de “corno”, e o outro porque não quer quaisquer amarras com você, e vai ficar puto porque você deixou isto acontecer, como se ele não tivesse qualquer participação na estória, a culpa é sua, você é que foi irresponsável. Enfim, você acabou de desgraçar a sua vida toda. Se você tiver filhos da sua relação estável, a coisa ainda piora mais; porque eles vão lhe ver como realmente você é vista pela sociedade; como uma “vagabunda”.
Assim, aconselho a quem tiver uma relação extraconjugal, que apenas seja “amante”, não ultrapasse a fronteira entre o substantivo e o adjetivo. Não queira ser sujeito, se for, seja oculto, discreto. Não conjugue verbos que não possam virar ações efetivas, não tenha pretensões, apenas ame, é para isto que você existe; afinal você é um “amante”, você tem uma qualidade que inerente ao seu atual estágio, que é o de dar e receber amor, sem cobranças, sem compromissos, apenas seja, e faça alguém, feliz nos momentos em que a vida lhe proporcionar as oportunidades para que você possa exercitar esta sua qualidade, que você adquiriu com esforços próprios. AMANTE.             

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Palavras que não disse; cartas que não enviei

Marta Medeiros tem um livro cujo título, acho eu, é “ Tudo o que queria te dizer”, eu também queria fazer um livro assim. Queria dizer a muitos coisas que acumulei durante o longo trajeto da vida da qual eles fizeram parte, uns mais ativos que outros, uns incomodando mais que outros, uns sendo amados mais que outros.

Queria, por exemplo, dizer a um amigo, que ele é muito egoísta, que às vezes fica muito chato e que é melhor não estar com ele quando bebe demais e fica muito inconveniente, mas também agradeceria o muito que ele me amou, o muito que ele me deu, o muito de força, de admiração, de incentivo que, com certeza, ajudou a me transformar e ser o que sou.

Queria dizer a outro, que não gosto da maneira que ele despreza as pessoas burras. Das criticas que ele faz às pessoas menos privilegiadas, o seu brilhantismo não lhe dá o direito de desdenhar delas, às vezes até humilhar, já fiquei muito constrangida em muitos momentos exatamente por não concordar com isto.

Para alguém que foi mais íntimo, gostaria de dizer como foi bom tudo acabar tão cedo, não gostaria de estar hoje ao lado de uma pessoa que se apresenta como hoje é. Não gosto do pedantismo, da superioridade, da falta de “amor” para com os seus próprios, aqueles que saíram dele.

Sim, eu mandaria cartas para muitas pessoas, muitas delas iriam se surpreender ao receber as minhas missivas; algumas, pela própria surpresa de receber qualquer “escrito” partindo de mim, que também não sou a melhor criatura do mundo; tenho vários defeitos e deixo-os livres, para quem quiser perceber que eles existem e me acompanham; até tento sufocá-los em determinados momentos, mas eles estão enraizados e sempre falam mais alto, já perdi o controle sobre eles e, assim, eles se apresentam nas horas que lhes apetece.

Uns se surpreenderiam porque eu iria lhes falar do amor que sinto por eles: muitas espécies de amor; amor de irmão, amor de amigo, amor de filha, amor de mãe, amor de avó, amor de cunhada, amor de mulher, este último seria responsável pelo envio de muitas cartas, mas o destinatário seria um só; único, uma mesma pessoa recebendo cartas de amor o tempo todo, pois hoje acho que quem ama tem de dizer muitas vezes isto ao outro. Antes eu até achava que era desnecessário dizer isto ao outro, mas hoje acho que é de extrema importância que a pessoa saiba mesmo que é amada, que é importante, que faz falta, que é querida. E isto vale para todos os tipos de relação. Não avaliamos o quanto de importância tem para o outro a certeza de ser amado.

Queria dizer a algumas mulheres que passaram pela minha vida que, mesmo aquelas que me fizeram muito mal, toda elas me ensinaram alguma coisa, inclusive que não se deve, em termos de mulher, menosprezar o feio, porque homens não estão preocupados com o feio, quando o “sexo” fala mais alto e apenas uma perna para um lado e uma perna para o outro resolve o problema, fica tudo igual. Ah! A estas que apenas abrem as pernas, mas fecham a cabeça, eu queria mesmo mandar cartas bem cretinas, dizendo coisas idiotas, porque só assim elas iriam entender o que elas realmente foram na vida daqueles que nos eram caros. Aliás, essas coisas idiotas e imbecis que podemos dizer quando somos feridos é tão bom, faz um bem danado, porque despejamos nos outros coisas recalcadas nossas, culpas nossas que queremos dar a eles. Mesmo um alivio temporário seria ótimo, porque ainda que não nos livrasse das culpas, mas momentaneamente, nos faria muito bem, tanto ao corpo quanto à alma: as tensões se dissipariam e, com certeza, ficaríamos melhores.

Aos chefes, aqueles que tive na época do “trabalho forçado”, queria dizer muitas coisas: ao meu chefe, o do meu primeiro emprego queria escrever uma carta não para ele, mas com a certeza que ele teria acesso à mesma: e sim para a companheira dele, aquela pessoa que me sacanaeava tanto, que fazia escândalos dentro da empresa, porque achava que eu tinha um caso com o “bandido” do marido dela. Ah como gostaria de ter dito àquela mulher que uma mulher, tão bonita quanto ela, não devia se preocupar com uma menina a recém saída da adolescência, ou ainda nela, que por acaso ainda era virgem e queria continuar sendo, não sendo aquele “marido” grosseiro”, mal educado, ignorante, que iria despertar nela qualquer vontade de ter um caso, ser a “outra” de uma relação qualquer. Diria a ela que ela devia, ela sim, afastar-se daquele homem, por ser ela uma mulher interessantíssima, embora mal educada, escandalosa, mas se bem trabalhada poderia se transformar em uma “lady” até. Também lhe daria parabéns, porque soube, tempos depois, que ela deixou o senhor gerente das águas por uma gerência mais sólida e mais nova, a de um amigo do “casal”.

Escreveria também para certo “Cavalo Branco” para dizer-lhe que ele não era tão branco assim, que ele procurasse o seu lugar de “velho” e me deixasse em paz, porque eu tinha mesmo mais o que fazer do que ficar a mercê de um cavalo qualquer, que somente queria galopar, mostrar as suas qualidades, se é que tinha: de “garanhão”. Adoraria dizer que nada do que fizesse, nada do que me desse, nada enfim, faria com que eu deixasse, sequer, aquela boca roçar a minha face, aquelas mãos pegarem nos meus cabelos. Ah como eu queria ter escrito isto, e ainda deveria mandar a carta para o endereço residencial dele, para que a família soubesse que o cavalo era escuro, opaco, tenebroso, nunca deveria ser tratado como um “alazão”.

Mandaria uma carta especial para uma colega de ginásio, para dizer-lhe o quanto ela era ridícula, com toda aquela pose de merda que tinha, apenas e exclusivamente porque era filha de um advogado e aos 15, ou dezesseis anos, era “namorada” do filho de alguém abastado. Ah como eu queria ter mandado esta carta! Assinaria mil vezes, em nome de tantos quantos essa, hoje quase anciã, mas ainda pedante, humilhou. Felizmente encontrei esta cidadã em um grande momento da minha estória, em que a posição estava realmente invertida, não em relação à parte econômica, jamais alcançaria isto no particular, mas em relação ao status diferenciado, que muitos quiseram e ainda querem ter, mas o intelecto não permitiu a muitos, mas eu consegui. Posso garantir para vocês que a surpresa da moça foi uma cena que jamais esquecerei, mais que isto: o resultado da constatação de que se tratava de mim foi hilário. O que talvez antes tenha sido uma “vergonha”, agora era motivo de orgulho, quase um “orgasmo”: “Ela foi minha colega no ginásio” dizia a senhora pelos corredores. É, grande merda diria eu! Dispenso a lembrança de um fato tão desagradável: ter sido colega de uma pessoa igual a ela; ter vivenciado um pouco da minha adolescência com alguém tão “desagradável”.

E por aí vai. Escreveria longas cartas de amor, ridículas, como diria Fernando Pessoa, a tantos quantos pensei ter amado ao longo da minha vida, felizmente, como o poeta, não me lamentaria por não escrever “cartas de amor ridículas”.

Ao meu primeiro amor, aquele de quando eu tinha 14 anos, escreveria para que ele soubesse de todas as emoções que ele me fez sentir. Diria do medo que eu tinha quando ele se aproximava de mim, diria a ele porque eu não deixava que ele se encostasse tanto, não era porque eu não gostasse, era só medo meu querido, apenas medo; me colocaram tantas coisas na cabeça que àquela época eu achava que poderia engravidar até pelos ouvidos: imaginem só! Diria a ele como era grande a minha emoção quando eu o via descendo as escadas que davam acesso a minha casa, meu coração cantava, acho que ficava contando os degraus um a um, acho que para o tempo passar mais rápido, e olhe que a escada não era tão grande assim- Diria a ele da minha raiva quando ele chegava á minha casa e, ao invés de ficar comigo, ia brincar com a minha irmã caçula, que tinha apenas 5 ou 6 anos, já não lembro. Se escrevesse hoje, que ele já não mais esta aqui conosco, diria que tenho um grande arrependimento de não ter cedido, ele merecia, eu merecia,queríamos, mas não conseguimos, o meu medo foi maior e cheguei aos 18 anos (com ele, embora ambos tivéssemos outras parcerias) sem que nada tivesse acontecido, Que raiva! Que desperdício.

A um tio meu escreveria agradecendo os bons e grandes momentos que passei em sua casa, uma casa humilde, mas imensa de amor e de respeito pelo ser humano, onde sempre fui mimada e bem tratada e que me proporcionou muitas coisas agradáveis.

Queria escrever para o Papa, dizer da minha revolta com a instituição que ele chefia; falaria tão mal da Igreja, dos padres, das freiras, dos internatos - fábrica de revoltados- discutiria suas verdades. Diria da minha vontade de invadir o Vaticano e me instalar lá com tantos pobres quanto pudesse, a fim de que os senhores deuses do “Olimpo vaticanal” ficassem melindrados com a invasão, e chegassem um pouco mais perto da pobreza como ela é, da fome, da miséria, que somente a lembrança do nome de Deus não acaba. Não se educa almas com fome. Queria ver a reação, que deveria ser filmada pelos jornalistas, que seriam convocados exatamente para este fim, para mostrar que, como em qualquer lugar comum em que pessoas se sentissem ameaçadas, seria usada a violência para retirar aquelas almas menores, sem direitos, sem amor, “sem vergonhas". Ousados, que ousaram entrar no templo sagrado dos inatingíveis, dos mentirosos, dos cretinos, que usam a palavra, o que é pior, a de Deus, para fazer com que as pessoas aceitem toda a situação como sendo uma purificação. Vá à porra! Onde já se viu fome ser purificação? Não me lembro de ter visto no Evangelho Jesus ter passado fome, aliás,o mestre era mestre em multiplicar coisas, desde pão, peixe, e, o melhor: VINHO, gosto muito desta parte! Nem deixaria que ele respondesse e argumentasse das missões, do evangelho levado até àqueles por “bons samaritanos”, que não tiveram cacife para entrar no “templo sagrado” e tem que fazer penitências para a purificação. Evidentemente que reconheceria algumas exceções, toda regra tem ao menos uma, mas não perdoaria a maioria e lhe diria em letras garrafais, NÃO QUERO FAZER PARTE DOS BEM AVENTURADOS, pois não quero ter de sacrificar a minha vida, sofrer, passar privações, para assim ser considerado, para participar de um reino de falsidades. Não quero entrar no céu, pois se para lá for e encontrar o senhor, me refiro a ele mesmo, o chefe da Igreja, não iria me sentir bem dividindo um espaço que se diz “puro” com alguém que chefiou uma instituição falida(valores éticos e morais) e mentirosa, que acoberta padres pedófilos, que se mantém com dinheiro que foi tirado dos fiéis, que perdoou grandes e imensos pecados por conta dos valores pagos pelos grandes e ricos pecadores, que chefiou uma Inquisição que perseguia pobres coitados, cuja cúpula vive nababescamente, com direito a guarda de uma “guarda” de “pagens” suíços, ridículos por sinal, em pleno século XXI ver rapazes bonitos ridiculamente paramentados, fazendo a segurança dos que não deviam precisar de qualquer guarda, porque deveriam estar guiados e guardados por Deus.

É!Escreveria, ainda, para muitas e muitas pessoas; algumas realmente para dizer do meu amor, do meu respeito e agradecimento por elas terem passado pela minha vida, ajudando a moldar um espírito que, com certeza, ainda está em formação, porque cada momento a vida traz uma transformação. Quando acordamos a cada dia já não somos os mesmos do dia anterior, ao menos teremos a certeza de que um dia a mais se passou. A outras para dizer do mal que elas me fizeram, e porque eles deveriam melhorar como pessoas.

Mas, infelizmente, não posso escrever para todos, até porque alguns, com certeza, ficariam melindrados com a verdade que estas cartas poderiam conter; verdades que, quando ditas, parecem para aqueles que são alvo delas, mentiras enormes, porque as pessoas não se conhecem, ou então, se julgam acima do bem e do mal e achem que favores devem ser retribuídos a todos os momentos, como se fossemos obrigados a passar a vida toda agradecendo alguma coisa que foi feita para nós, ou por nós.

Às pessoas que impõem as suas presenças e de outrens que lhes acompanham sem perceberem que não se pode infiltrar pessoas outras em um relacionamento que é só de dois. Diria que não somos obrigados a gostar dos companheiros, das pessoas que lhes circundam. Lhes diria que precisam entender que tem limites, que não é porque gostamos delas que somos obrigados a aceitar pessoas e coisas que não nos fazem bem. Também diria a alguns que eles não são e nunca serão os donos da verdade, que cada um pode escolher a sua própria, acreditar nela e ir em frente, sem ter que receber critica de A, B ou C.

Escreveria, também, para dizer a alguns que metam-se com a sua vida e deixem que os outros vivam em paz, se limitem a ouvir, quando procurados, porque não tem coisa pior de que a indagação constante de curiosos sobre coisas de sua vida, uma curiosidade, que em alguns casos, é mórbida, cruel. Não se quer saber para ajudar, e sim para criticar, para divulgar, enfim, para se ter motivos para falar da vida de alguém, talvez para valorizar a sua própria. Com alguns seria mesmo cruel, exatamente na medida em que eles foram para comigo e para com as pessoas de quem gostei, ou gosto.

Mas, infelizmente, não escrevi tais cartas, se em algum momento, que foram vários, registrei acontecimentos, rascunhei bilhetes e cartas não os enviei e perdi a chance de ser verdadeira, de colocar para fora sentimentos que continuo guardando comigo, por falta de coragem, por vergonha, por “educação”, enfim, por mil e um motivos.

O correio está em greve, mas isto é passageiro; o que não é passageiro é a certeza de que se perdeu grandes chances de melhor se mostrar para as pessoas, de dizer a elas do seu amor, do seu querer, o que inclui reconhecer defeitos e aceitá-los, para que o amor flua sem restrições e para que você seja, e faça alguém, FELIZ.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Agradando a si próprio

Acabo de ler uma crônica de Marta Medeiros; por acaso entrei  num site e  vi a crônica que não tem título, mas ela não precisa de título, por si só se basta e cada qual que dê e o seu titulo.
Achei muito interessante, porque a autora descreve um acontecimento corriqueiro, que acontece com muitos de nós, que, em algum momento, por força de um “amor”,  lógico que um falso amor, a gente se esquece de si próprio e passa a fazer tudo o que o outro gosta, ou melhor: o que pensamos que o outro gosta.
A estória contada fala de uma mulher que teve um relacionamento, que teve o seu termo final através de um e-mail, numa mensagem lacônica:  “não dá mais”.  Daí em diante ela passa a fazer mil e uma coisas para chamar atenção do seu ex parceiro, que, para ela,  ainda continuava como parceiro, achando que aquilo era mais uma rusga de namorados.
Para tanto, passou a fazer ginástica, passando a ser a mulher mais malhada da região, passou fome para emagrecer e ter o corpo da moda, barriga chapada, pernas musculosas, bunda dura, braços torneados.  Não contente com isto, e porque o espírito não estava  tranquilo, passou a fazer Yoga, meditação, ler  muitos livros de auto ajuda. Ficou craque neste tipo de discussão. 
Como nada conseguiu, fez uma viagem para a Europa, onde passou trinta dias acostumando-se com o estar ela e ela, sem mais ninguém, diz que curtiu esta solidão forçada, aprendendo e apreendendo.
Fez tudo isto, e o “cara” nem aí. Acordava todos os dias a pensar o que poderia fazer para chamar a atenção daquele que era o seu amor, procurava saber  dos amigos o que ele estava curtindo  naquele momento, diz que fez promessas para Santo Antônio, e tudo o mais que lhe fizesse ser a preferida dele, mas não obteve qualquer êxito, até que um dia acordou feliz e satisfeita, olhou-se no espelho e viu o quanto era linda, e o quanto se bastava, sem a presença, agora fastidiosa  daquele que, naquele momento, nem sequer lembrava o nome, a quem queria agradar para se valorizar e se reafirmar como mulher.
É isto mesmo! Quantas vezes nos esquecemos de nós mesmos para agradar  o "Outro", aquele que pensamos que amamos, que valorizamos, que queremos ter conosco, sem nos aperceber que, cada vez que queremos mostrar ao outro o que  pensamos que ele quer ver, pode ser exatamente que ele esteja vendo o que ele não quer ver.  E nós, como ficamos quando fazemos apenas  o que  pensamos que agrada ao outro? Não temos vida própria, não nos gostamos da maneira que somos, fingimos o que não somos para agradar A. B ou C. Por que fazemos isto? Que  coisa mais boba é esquecer a nossa identidade para assumir a de outrem, uma identidade que não agrada nem a nós próprios e nem a quem a queremos demonstrar! Que tipo de  relacionamento é este que temos para com nós mesmo, que faz que esqueçamos de nós para  nos dar ao outro de uma maneira para lá de imbecil?
Não estamos com outro porque ele nos quer  desta ou daquela maneira, não temos que nos adaptar ao que as pessoas querem para nos sentirmos amadas. Primeiramente temos que nos amar da maneira que realmente somos. Podemos, bem verdade, modificar alguma coisa que  achamos que esta errada, ou que, mesmo sem estar errado, pode melhorar, mas  temos de fazer isto porque vai nos fazer sentir bem, por que nós fizemos a opção, é um ato completamente voluntário, que parte de nós mesmos.
Por exemplo: Quando resolvemos fazer uma plástica, seja ela corporal, facial,  a droga que for, temos que fazer isto porque  não estamos nos sentido bem, não porque alguém  nos olhou e nos achou envelhecida, como se não fosse uma coisa normal envelhecer. Se alguém não lhe quer porque você envelheceu, é porque realmente nunca lhe mereceu, porque o passar dos anos lhe dá uma outra beleza, a invisivel, a que se manifesta apenas nas suas ações, no seu interior, aquela que só é visível para as pessoas que tem sensibilidade, respeito, companheirismo.
Prestem atenção: não sou contra a plástica, de maneira alguma, vou fazer todas que tiver direito,  mas  definitivamente, não será para agradar ninguém Vou fazê-lo por mim, pois não gosto de ver as rugas que tenho  nos cantos dos olhos. Não gosto de olhar  meus seios caídos, quero-os  empinados e mostrando a sua áureola rosa; quero que a minha boca seja como era antes, mais delineada, enfim, quero  me agradar, me olhar no espelho e me sentir bonita.
Se tudo isto agradar a alguém, otimo, caso contrário, eu estarei satisfeita e é o que interessa. Se não fizer a plástica, vou continuar me olhando no espelho e vendo todos os defeitos causados pelo tempo, defeitos que demonstram o quanto vivi, o quanto  sofri,  o quanto amei, o quanto fui amada, o que fiz, enfim,vou me ver como eu, com tudo o que adquiri ao longo do tempo, que somente pode ser partilhado com quem merece, com quem  vê tudo isto com os mesmos olhos que me vejo;  os olhos do amor.  



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A África repartida - Convenção de Berlim (1885)

Como alguns já sabem, fiz o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia- UFBA e o curso de História na Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Claro que antes disto,  como é óbvio, percorri todo o processo academico; no meu tempo, primário, (com quinto ano e admissão para o ginásio), ginásio, colegial. Até a quarta série de ginásio estudei em colégios administrados por freiras, à época considerados os melhores centros educacionais, principalmente para as mulheres; havia alguns que nem mesmo meninos eram admitidos, mas isto não vem ao caso agora, o certo é que eram tidos como bons, e eu na verdade não duvido disto. Estudei no São Raimundo, no Salette e na Medalha Milagrosa, nos dois primeiros, em regime de internato, no último  como uma aluna externa.
As matérias estudadas, como em todos os bons colégios, eram: História, Geografia, Ciências, Matemática, Português,  Educação Religiosa; depois de algum tempo apareceu uma nova matéria que era EMC, educação moral e cívica, que hoje, quando nela penso,  me parece uma espécie de lavagem cerebral para jovens (à época). O país atravessava a sua crise (ditadura militar) e era necessário que  os jovens aprendessem a respeitar  o poder da maneira que ele foi estabelecido em 1964. Tínhamos de ter, em nós despertado, o sentido  mais literal do que era o sentimento nacionalista e patriótico. Eu era mesmo muito jovem e não me lembro de muitas coisas, a não ser de ter descido, um dia, a ladeira da praça correndo com o meu pai desesperado, porque  do pico da ladeira, soldados armados estavam atirando. Era a tal da revolução, como me diziam.  Bom, mas isto também não vem ao caso no momento, mas agradeço de alguma maneira  este período, porque nele, erradamente ou não, aprendi o que é ser brasileiro; não com tanto orgulho e amor como quando falamos em football, mas com o orgulho do nacionalismo que teria de ser incutido em cada um de nós. Deveríamos honrar a pátria e, como na letra do hino nacional, que embora não tenha sido escrito na época da ditadura, era como se fosse, defendê-la com unhas e dentes dos tiranos quer queriam implantar a anarquia neste grande e imenso florão da América. Ah, além destas materias eu ainda tinha uma muito especial, “prendas domésticas”, mais tarde  “trabalhos manuais”: é mole ou quer mais?
Mas o que quero não é falar nem de Brasil, nem de ditadura, nem mesmo  do que aqui aconteceu por força  do regime, mas do programa dos cursos de história e geografia.
Até onde a minha memória alcança, quando estudávamos História, o que bem me lembro em se falando no continente africano, é do Egito, e não muita coisa. Estudei as cheias do Nilo, de como as enchentes deixavam as terras férteis que eram cultivadas.  Lembro-me das  pirâmides, do nome de alguns dos grandes faraós, Hamsés, Tutakamón, mas acho que foi só. Além disto, e ainda do que me recordo, aprendi que a África  foi um grande fornecedor de escravos para o Brasil, a África como um todo; era como se ela fosse apenas um grande e imenso país, sem divisões, sem Estados; apenas a África, com os seus negros, com a sua selvageria, com os seus leões, elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes, e os macacos, muitos, mas muito deles, e das mais variadas espécies, entretanto, na ficção, havia um em especial, ou melhor,uma, que ficou internacionalmente conhecida, a Chita, a macaca de Tarzan, que pasmem: era muito mais inteligente de que os negros que apareciam nos filmes do menino que cresceu na selva.  Os imperialistas colonizadores preferiram uma macaca junto ao menino, de que colocar um ser humano "negro" ajudando um “branco”  a sobreviver na selva. Certamente, e era mesmo o que era propagado, se  o menino fosse encontrado pelos gentios africanos não sobreviveria, o seu fim teria sido uma panela. Aliás, era assim que os africanos,(negros) no contexto geral, eram caracterizados, lembro-me que em revistas de repercussão nacional, havia sempre uma "charge" com um caldeirão enorme, com  nativos(negros) vestidos de tangas de palhas desfiadas, com um osso enfiado no cabelo, no nariz, um beiço enorme, com lanças nas mãos, a fogueira acesa e os brancos dentro, cozinhando. A antropofagia era vulgarizada para que “os brancos” tivessem todas as restrições aos negros e, por isso mesmo, encontrassem motivos suficientes para, se não exterminá-los, escravizá-los, domá-los.
Em geografia, também até onde alcança a memória, eu lembro que aprendia as capitais dos paises da Europa, não todos, é claro, os mais importantes.: Espanha-Madri; Portugal-Lisboa; França-Paris; Inglaterra-Londres; Itália-Roma; Alemanha Oriental-Berlim,Alemanha Ocidental-Bonn; Holanda-Amsterdã, Grecia-Atenas; Suiça-Berna; Suécia-Estocolmo, e por aí vai, alguns já não me lembro, aliás, o mapa europeu mudou tanto, os países se multiplicaram com a separação das repúblicas soviéticas, que  tudo esta muito diferente do  mapa anterior, aquele em que estudei, da África, ao que me lembro, tratávamos da pobreza, da seca, da fome, da savana,dos grandes desertos, falar do povo, nem pensar, etnias? O que era isto? 
Todavia o que era da África? Que países existiam no continente africano, além do Egito com a sua capital Cairo em que ingleses se estabeleceram? Acho que falávamos dos árabes sim, mas quando eles entravam na estória ou na ficção, eram  os homens que usavam  roupas longas, com panos na cabeça, diferentes dos indianos que usavam turbantes e tinham o rio Gangis, que era o rio sagrado, andavam nos desertos com caravanas e camelos, e paravam em oásis, alguma alusão remota às invasões da Europa e alguns outros mínimos detalhes.Na ficção havia o Ali Babá e os 40, ou eram 50? ladrões. Evidente que estou mesmo sintetizando muito, pois não me lembro de tudo o que estudei no primário, ginásio e colegial, aliás,  não to me lembrando de um passado mais remoto, imagine  de coisas de 45, 50 anos atrás.
O fato é que quero dizer que nunca ouvi falar da Convenção de Berlim, nem mesmo quando, pasmem! fiz a lincenciatura em História, aliás, não me lembro de ter tido nenhuma matéria especifica sobre a História da África. Só ouvi falar da Convenção de Berlim quando, em 2005 passei a fazer o Mestrado em História da África na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Alguns podem pensar que é um exagero da minha parte, mas não é não, eu estou falando sério, e aí é que está o grande problema: é que, ainda hoje, não se ouve falar, em sala de aula, nos cursos de história, da Convenção de Berlim.
Por que falar da Convenção de Berlim? Porque este acontecimento modificou toda a história e geografia africanas, foi o marco de uma mudança radical  na vida dos africanos e da Europa, que dividiu o continente africano entre eles, como se pudessem tornar-se donos da vida, da história, do patrimônio do outro, impunimente. A divisão estabelecida pela Convenção de Berlim não obedeceu a qualquer príncipio, seja ético, moral, geográfico, apenas foram atendidos os interesses econômicos das nações imperialistas. Nações africanas foram divididas, povos foram separados, tradições foram afetadas, exterminadas em alguns casos, tudo feito com base em nome de uma obra civilizacional, sem que os africanos participassem desta divisão. Bem verdade que as ocupações e os conflitos pela posse dos territórios já eram  rotina, o que a Convenção fez, na realidade, foi ratificar o que já existia e tentar resolver os conflitos existentes, além de fixar critérios para a ocupação do litoral.  Com a Convenção de Berlim consolidou-se na África as nações europeias civilizadoras, que tinham como a mais nobre das missões civilizar aqueles povos atrasados, selvagens,  missão a que deram o nome de civilizacional, que consistia em um “ dever das raças superiores para com as raças inferiores” BOKOLO,2007:305).
Maputo - Oceano Indico
antiga Lourenço Marques
Através dela eles transformariam africanos em fantoches, em párias, sem pátria, sem direitos, sem identidades, mas com muitas obrigações. Com a Convenção de Berlim, trataram a África como se ela fosse uma grande homogeneidade cultural (se éque assim se pode dizer, porque com certeza  os colonizadores não achavam que nada que fosse de origem africana pudesse ser considerado como cultura), que poderia ser dividida sem que isto afetasse a vida dos seus nativos, que não tiveram respeitados os seus espaços, as suas línguas, as suas etnias, as suas culturas, enfim, desestruturaram as estruturas tradicionais estabelecerem  sistemas outros, exógenos, que eram considerados politicamente corretos e civilizados (eugênicos), mas inadaptáveis aos costumes locais.
A finalidade real da Convenção, entretanto, era a regularização do comércio na bacia do Congo e de outros rios, e fixação dos parametros de ocupação da África, que doravante tinham de ser cumpridos pelas nações envolvidas a fim de que estas pudessem continuar como “proprietárias” da África, porquanto a sanção, em caso de não observação das  regras, poderia culminar com a perda da própria possessão.
Agora, exigia-se que o continente fosse efetivamente ocupado, já não se podia apenas colocar  bandeiras marcando espaços, vender armas em troca de terras, criar feitorias, enviar reconhecedores de terrenos, missionários. A África tinha de ser ocupada ordenadamente, e não só, os nativos também deveriam ser trazidos para o mundo da civilização, afinal, antes da década de 80 os europeus “tinham começado a perceber ou a imaginar a importância da aposta africana e a pôr o dedo numa série de engrenagens cuja rotação haveria bruscamente de se acelerar nas duas últimas décadas do século XIX” (BOKOLO, 2007:300).
A Conferência iniciou-se em Novembro de 1884 dela participando  (Alemanha, Bélgica, Espanha, Estados Unidos(vejam bem) França, Inglaterra, Paises Baixos, Portugal, Turquia, Itália, Imperio Otomano. Quem convocou esta reunião foi a a Alemanha (Bismark) e ela teve lugar em Berlim, entre  1884 e 1885.
Após a Conferência a corrida para África intensificou-se, apareceu o que passou a chamar-se zona de influência. Muitos tratados foram realizados, somente entre Portugal e Inglaterra foram firmados  30 deles, com a finalidade de delimitar áreas, fixar fronteiras.  Acordos foram assinados com os chefes indígenas, porque a participação deles na ocupação pacifica dos territórios era fundamental. Muitos termos de vassalagem foram firmados entre Portugal e os  chefes  indígenas da África Portuguesa, em que sempre constava que os dois, o rei de Portugal e o chefe eram aliados no caso de ser necessário colocar algum intruso para fora do território. Isto entretanto, não impediu que um grande chefe indígena,o Gugunhana tivesse contatos com os ingleses, de quem recebia favores e que teve mesmo de ser vencido, preso, retirado de Moçambique.
Estação ferroviária de Maputo
Moçambique - obra dos portugueses
Pois bem, para finalizar, a partir da Conferência de Berlim restou consolidado o dever  das potências plenipotenciárias  de promover o melhoramento das condições materiais dos indigenas. Cada uma delas utilizou os métodos  próprios para alcançar  o objetivo, que diga-se de passagem, não foi alcançado até que os paises africanos conseguissem as suas respectivas independências. Em Portugal criou-se uma identidade para os “negros”, eles passaram a ter o status de indígenas, e como tal, teriam uma legislação própria, regulando às suas vidas diferentemente das dos portugueses. Os indígenas, a partir de uma determinada idade, 14 anos, tinham a obrigação moral de trabalhar, se não fizessem por bem, isto é, voluntariamente, a isto eram obrigados, através de um carinhoso método de coação,a que eles denominaram de “trabalho compelido”, que caso não observado, sujeitava o indigena à prisão, que por sua vez era convertida em trabalho forçado, enfim, uma escravidão com este apelido carinhoso, que foi legalizada e utilizada durante muito tempo com a justificativa de que somente pelo trabalho é que os “indígenas” alcançariam a civilização.
Pois é, um acontecimento de tamanha importância mundial, não poderia deixar de ser estudado nos cursos de história, não se pode, como eu, ouvir falar da Conferência de Berlim, apenas e tão somente quando se alcança uma pós-graduação em História da África. A importância do continente africano não pode ser esquecida desta maneira, mui principalmente por nós, brasileiros. É preciso um novo programa para os cursos de história, é necessário que a África seja introduzida na sala de aula desde o primário. Explicar a atual África, os seus conflitos intestinos, passa, também, pela explicação do que foi a colonização naquele continente, como  os colonizadores dividiram os povos, desrespeitando culturas, etnias, histórias, vidas. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dez mil visitações

No ano passado, no mês de abril especificamente e com a ajuda da Vera, eu criei o blog. Sempre quis escrever, contar coisas, agradáveis ou não, mas falar da vida, das  minhas experiências, das minhas dores, mágoas, se possível com muita ironia, fazendo com que  tantas coisas tristes pudessem se tornar motivo de risos para alguns e para mim mesmo. A par disto, também queria falar de história e de direito. Neófita, não procurei um nome chamativo para o  blog, um nome que chamasse atenção, e coloquei o meu próprio nome, sem saber que o Esmeralda Martinez era mais vulgar do que o que eu pensava, pois só nos Estados Unidos, acho eu, existem para mais de 300 Esmeraldas Martinez, uma lástima, muitas xarás; tenho uma xará que é travesti e que também tem um blog, pensem aí? É evidente que todas as Esmeraldas Martinez têm origem espanhola: são mexicanos, argentinas,  chilenas, venezuelanas, e espanholas mesmo. Fui muito pretensiosa pensando que só existia uma Esmeralda Martinez
Bom, mas não estou aqui para falar do nome do blog, e sim do próprio blog e da sua existência até o presente momento.
Pois não é que hoje, dia 28 de setembro, após um ano e cinco meses da existência ele alcançou a marca de dez mil visitações! Claro que estou surpresa e ao mesmo tempo entusiasmada. Nunca achei que o blog seria, sequer, visitado, quanto mais dez mil vezes.
Não pensem que eu visito o blog para que a estatistica  aumente, pois  eu  não teria tempo de ficar acessando-o a todo instante somente para fazer número, é visitação mesmo e de terceiro.
Durante todo este tempo eu publiquei 124 posts e um deles, imaginem voces, foi acessado  1600 vezes, não sei se o texto foi lido, mas  ao menos foi aberto.  É o “Eisbein mit sauerkraft”. Eu, pessoalmente, acho a estória muito interessante, (qualquer semelhança  com fatos reais é uma mera coincidência), entretanto, penso que existem textos melhores que ele, mas vai-se fazer o que? Acredito que toda esta visitação seja, efetivamente, pelo título do texto. Penso que  os motores de busca  me favorecem quando nome do prato alemão é colocado para pesquisa, só pode ser isto.
O segundo texto mais visitado é o “Triste Constatação”, um texto mais sério, tratando de problemas atuais,  tais como o racismo, discriminação, África. O número de vistitações não chega sequer à 50% do primeiro colocado, mas mesmo assim fico muito feliz, porque  se ao menos um visitante leu o texto inteiro eu ja me dou por satisfeita, porque  consegui levar a alguém uma critica, um alerta do que ainda acontece no mundo em relação  aos negros e aos emigrantes em geral, negros ou não.  Depois deste segue-se, com uma diferença gritante, Arembepe I e II e  outros mais, não me lembro da estatistica toda. Há textos bons e textos menos bons, mas um escritor, se é que assim posso me considerar, é assim mesmo, o seu estado de espirito influe no que escreve e as vezes compromete o texto. Fiz textos cientifícos:  tais como: “O Lobolo” “Madeirada”, “ Leis para o Ultramar”, “O Arquivo Histórico de Moçambique”, dentre outros. Contei a minha vida em alguns episódios, falei de amigos, de viagens, ajudei, tenho certeza,  que alguns  coinhecessem melhor Portugal, este país maravilhoso que terminei por conhecer bem e que me dá uma satisfação enorme de dele poder falar com a intimidade que o faço. Falar do Tejo, do Alentejo, do Norte de Portugal é mesmo sensacional e espero ter feito com que alguém  tenha seguido algumas das sugestões que dei em cada texto que escrevi sobre este país, aliás  onde tenho muitos visitantes, na estatistica do blog Portugal esta em segundo lugar em numero de acessos, claro que o primeiro é o Brasil
As visitações partem de muitos lugares do mundo, fico encabulada, pois ja tive leitor até na Croácia, passando pelo Japão México, Estados Unidos, Canadá,  Chile, Angola, Moçambique, Italia, Espanha, Portugal, Grécia, dentre outros e, naturalmente, o Brasil, que concentra o meu maior público, como não poderia deixar de ser. Evidente que não tenho a pretensão de que todas as visitações signifiquem uma leitura do texto, mas sinto-me importante, nunca pensei que iria alcançar esta marca, que tem mesmo de ser comemorada.
Quando completei  a centésima postagem, também fiz texto comemorativo,: “Os dois zeros positivos da direita”. Agora, que são quatro zeros positivos  à direita, tenho mesmo motivo para estar feliz e agradecida a tantos quantos visitaram o blog, seja apenas por ter nele caído por mero acaso, seja por  curiosidade de saber quem é mais esta Esmeralda Martinez, seja por ser mesmo um seguidor e gostar dos textos. Agora, com este marco de 10.000 posso me arriscar a publicar um livro com as melhores postagens, certamente as mais divertidas, porque o que quero com elas é mostrar a vida, fazer com que as pessoas possam rir de algumas situações, que apesar de tristes, são contadas de uma maneira tal, que  fazem as pessoas  sorrirem, que é o que mais desejo, pois sei o que o riso  pode fazer para o nosso espirito, principalmente nos dias em que achamos que a vida esta contra nós, que o universo esta conspirando contrariamente ao que queremos. Fazer gozação das nossas próprias mazelas, da nossa própria vida, é uma maneira inteligente de bem viver.
Obrigada a todos e sorriam sempre, o riso não só exercita os músculos da face, como faz bem á alma. Há dois textos que acho que todas as pessoas deveriam ler para dar boas risadas: “Propaganda Enganosa” e “Aprenda como não pagar dívidas”, ambos hilários. Quando puderem, e se já não o fizeram, leiam.
Um grande abraço a todos e, mais uma vez: OBRIGADA. 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Dia de São Cosme e Damião

Hoje é o dia 27 de setembro. Na Bahia, e não só aqui, festeja-se os santos meninos- São Cosme e Damião. É assim mesmo, apesar de dois, parece que são um só, pois nunca ouvi ninguém falar de São Cosme e São Damião assim separando os “saos”.
Dizem, os que contam a história dos gêmeos, que eles são originários da Arábia, estudaram medicina na Síria, e praticavam o oficio gratuitamente, foram acusados de feitiçaria e, por isso mesmo, foram assassinados.
No candomblé eles são os filhos gêmeos de Xangó e Iansã, são os Ibejés, e tem mais cinco irmãos: Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi, este último, pelo nome, parece ser o mais árabe de todos.
Minha mãe, sempre ofereceu um caruru neste dia 27 de setembro, acho que, por isso mesmo, pela fé que tinha nos dois santos meninos, ela pariu um dos meus irmãos neste dia e, talvez por isso, o menino nasceu de 7 meses, de parto natural, feito em casa, por uma parteira gorda e bem velhinha, que disse ter sido enganada pelos meninos santos, porque ela tinha certeza que não era aquele dia do meu irmão nascer. Lembro-me de minha mãe contar este caso às amigas:
-" Ela disse que, ou os meninos queriam lhe pregar uma peça, ou então era o último parto que ela estaria fazendo."
Não sei se foi o último parto que ela fez, mas sei que logo depois, soubemos que ela, efetivamente, faleceu.
Bom, o certo é quem meu irmão nasceu de sete meses, em casa, na cidade baixa, na Rua da Imperatriz no dia 27 de setembro de ano que já não me lembro, recebendo nome de Cosme Antônio. O Cosme, por motivos óbvios, o Antônio em homenagem ao meu avô materno, que se chamava Antonio Regis Filho, para mim era o “meu príncipe porque nasceu louro e com os olhos bem claros e, logicamente, eu associei isto aos contos de fadas em que os príncipes eram sempre brancos, louros e de olhos claros, como se não pudesse existir príncipes negros, mulatos, ou amarelos.
Se o caruru lá de casa era oferecido antes do nascimento do Cosme, depois deste evento, aí sim, minha mãe nunca mais deixou de fazê-lo, até que as forças não mais respeitaram as suas crenças ou quando não tínhamos mesmo qualquer dinheiro, ainda assim, minha mãe distribuía balas de mel entre as crianças.
preparação
Sempre achei interessante esta estória de São Cosme e São Damião, que são os dois primeiros irmãos, de uma família de sete meninos. Minha mãe sempre fez o caruru com todo o tradicionalismo recomendado:
Acordava-se muito cedo, muita gente em casa cortando quiabos que ia aumentado de quantidade com o passar dos anos, já vi caruru lá em casa de mais de 1.500 quiabos; quiabos para danar e lenhar os meus dedos de criança.  Efetivamente era uma festa mesmo, as minhas tias, irmãs da minha mãe, todas lá, era dia de pernoite e todos trabalhavam muito, sem qualquer sombra de cansaço. Tudo era satisfação. Antes das ajudantes começarem, a pessoa que estava dando o caruru, a minha mãe no caso, tinha de cortar sete quiabos fazendo os seus pedidos aos santos meninos; depois disto eram escolhidos sete quiabos inteiros que assim iam ser cozidos e só depois disto é que as ajudantes podiam começar os trabalhos. No caruru de São Cosme os quiabos são cortados em quadradinhos pequeninos. Os sete quiabos inteiros são colocados junto aos quiabos cortados e, segunda a tradição, quem tem um quiabo inteiro no prato, tem de dar um caruru.
Antes de contar os quiabos, lembro-me que minha mãe se vestia toda de branco, arrumava a mesa dos santos, em que o lugar principal pertencia aos meninos: velas pequeninas e coloridas eram acesas em pratinhos brancos em numero de sete, estas “candeias” como ela falava, tinham de ficar acesas durante todo o dia, e às vezes, durante sete dias seguidos. A rua era “despachada” era assim que se dizia; afastando os maus olhados e os espíritos indesejados; água e sal grosso jogados de frente, nas laterais e por cima da cabeça. Eu olhava aquilo tudo sem entender direito, somente com o decorrer dos anos é que fui perceber, não na sua plenitude, alguma coisa de todo aquele ritual.
caruru

Minha mãe era incansável nestes dias, aliás, sempre o foi, nesses e nos outros; ficava feliz sempre, fazia tudo praticamente sozinha, porque a não ser a ajuda com o corte dos quiabos, tudo mais era feito por ela. Tratava 30 a 40 quilos de galinha sozinha, passava a noite fazendo este trabalho. Uma bacia grande em sua frente com os pedaços de galinha, tudo cortado no “muque”, ainda não se comprava galinha em pedaços, as bichinhas eram compradas inteiras, vivas ainda, e eram “assassinadas” lá em casa mesmo. A executora delas era minha mãe ou alguma tia corajosa. Após violentamente assassinadas, eram depenadas em um caldeirão enorme com água fervente, onde os bichos eram enfiados para facilitar a retirada das penas, depois deste processo, vinha o momento do destrinchamento. Sempre achei uma perÍcia alguém encontrar as articulações das bichinhas e tudo ser cortado no lugar certo. Eu, até hoje, não consigo encontrar o lugar certo do corte, talvez por isso tenha preferido direito à medicina.
O pior momento era ver a minha mãe colocar as bichinhas no chão, segurar os pés da ave com os dela, ou seja, imobilizar a bicha, e depois dar o corte fatal no pescoço. Não gostava nem um pouco dessa parte, mas, se tínhamos de comer a galinha de xinxim, não havia outra possibilidade. Se dependesse de mim, até hoje ninguém comia galinha, porque eu jamais saberia fazer isto. A minha falta de técnica e de coragem faria tudo virar uma lástima. Minha mãe sempre dizia que não podia se ter pena do animal e nem cortar no lugar errado, isto era fatal, porque a bicha, às vezes, meio morta e meio viva, ainda conseguia se libertar e sair tentando fugir pela casa, uma baboseira só, já aconteceu lá em casa em algumas oportunidades, ver a galinha, já sem cabeça ainda dando alguns passos pela casa e melando tudo de sangue, um horror!
galinha de xinxin
O ritual da galinha acabava e os pedacinhos eram cortados quase que milimetricamente, afinal, todos tinham de ter um pedaço da carne no prato, e isto significava cortes precisos de tamanhos minúsculos. O peito de uma delas era sempre cozido inteiro, porque este era o que seria colocado no prato dos santos, que eram três pratinhos de barro, complementados com as três jarrinhas coloridas cheias de mel, e as “balas” também de mel.
O caruru de minha mãe era completo, tinha de rapadura cortada em quadradinhos mínimos a vatapá: tudo enfim: inhame, banana da terra frita, coco, acaçá, acarajé, abará, cana de açúcar, abóbora, pipoca, o caruru, feijão fradinho, feijão preto, arroz, milho branco, farofia de mel e a de dendê, batata doce. Comida para dar, vender e emprestar.
O camarão seco, principal ingrediente do caruru já estava guardado e pronto para ser utilizado; era a primeira coisa que entrava em casa para o caruru, ele precisa ser descascado com antecedência, minhas mãos ficavam fedorentas e as pontas dos dedos sujas e machucadas, quando não furadas, mas eu gostava daquela tremenda confusão que se armava nos dias que antecediam a festa dos meninos.
ultimo caruru em Arembepe
Lá em casa todos participavam, seja ajudando, seja comendo, a grande maioria estava nesta ultima opção. Meu pai, pense ai! Um espanhol legitimo adorava estas farras, ele também entrava no jogo e, por algum tempo, respeitou os ritos, imagine que passava o dia sem beber, ficava de roupa branca, era incensado e ainda ajudava a levar a comida do santos: é que depois do terceiro dia que essa comida estava no altar aos pés dos santos, tinha de ser retirada colocada num matinho verde: a comida só poderia ser “baixada” em lugar com esta característica.
O certo é que o caruru durante muitos anos foi esperado lá em casa. Na hora de servir, depois de feito o prato dos meninos santos, a comida tinha de ser servida a sete meninos homens, só podia ser homens, eu não entendia a discriminação, mas fazer o que? Isto era feito em um grande agdá que era colocado no centro de um pano branco estendido no chão e as crianças, que eram chamadas na rua, sentavam ali ao redor daquele prato cheio de comida e tinham de comer de mão.  Todos ficavam olhando aquilo, uma meleira da porra achando muita graça, tinha meninos que, parecendo possuídos, melavam uns aos outros, passando a comida na cara, nas roupas, enfim, era uma porcariada que divertia as pessoas.
Minha mãe sempre cantava uma cantiga relacionada aos santos meninos:
“São Cosme mandou fazer,
Uma camisinha azul,
No dia da festa dele,
São Cosme quer caruru”
Ou então:
“Cosme Damião
Oh cadê Dau
Cosme Damião onde esta o Alabá!”
Dentre outras que não me lembro
Em seguida a este ritual com os meninos, os pratos para o público começavam a sair. Antigamente não se podia negar entrada a qualquer pessoa, quem dava caruru o fazia para o povo, quem passasse na rua e quisesse entrar tinha de ser servido. Lembro-me que, quando mais velha, com uns quinze anos, cheguei a comer caruru em quatro casas diferentes no mesmo dia, não sei como não morria; gulodice só, pois ninguém agüenta uma zorra desta, mas era mesmo bom e o folclore da coisa melhor ainda.
Em dado momento lá em casa minha mãe “recebia” o santo. Era muito engraçado mesmo: ela começava a agir como se fosse uma criança muito sapeca, adorava melar os outros de mel e falava de uma maneira que a gente não entendia muito direito. Todos ficavam ao redor dela que ficava sempre esfregando as mãos uma na outra, pulava, sorria, puxava o cabelo de um, beliscava outro, dava uma risada entre dentes, dizia coisas engraçadas. As pessoas ficavam perguntando coisas, lembro-me que um dia ela virou para mim e disse que eu ia ter problemas porque eu tinha uma indaca muito grande. “indaca” segundo me informaram, não sei se realmente o significado era este mesmo, era “língua”. O engraçado é que não sou de falar da vida dos outros, mas se pensar que digo muitas coisas aos outros que alguns têm pudores de dizer, aí sim, tenho a “indaca” grande. Também soube que a minha “virgindade” seria perdida, imaginem só, perdida! O que seria feito por um homem muito mais velho que eu: pois não é que este vaticínio deu certo, a diferença foi mesmo o dobro da minha idade à época, olhe que já faz anos para danar.
Eu era um alvo danado destes meninos, sempre estavam dizendo coisas a meu respeito, algumas boas, outras más, devia ter ficado mais atenta e prestado mais atenção aos vaticínios.
convidados do ultimo caruru
Hoje já não se faz caruru na minha casa, de vez em quando, ainda peço alguma coisa aos santos meninos, eles estão ficando velhos, acho eu, porque andam meio surdos, pois peço e eles não atendem os meus pedidos, quando o fazem demoram muito, mas, mesmo assim, demorando ou não, pago as promessas; às vezes o faço antecipadamente, acho que talvez por isso, porque apesar de velhos eles continuam marotos e devem estar esperando o pós caruru.
Vatapá
Bom, eles sabem o que pedi: se acontecer, com certeza dou outro caruru, com tudo que eles tem direito, mas vou fazer um pedido público aos meninos velhos travessos. Onde o irmão “Cosme” estiver, faça-o feliz, diga-lhes que nos temos somente saudades, mas das coisas boas, e que já o perdoamos há muito. Que ele siga em paz, sem mágoas, sem revoltas, porque o queremos muito, e que ele continue  sendo o nosso super herói –“ He man” forte como um touro, mas com a inocência dos meninos marotos que inspiraram o seu nome composto como ele era: abençoado como deveria ser.
candeias
meus gêmeos
Meninos, to esperando e agradecendo pelos meninos antigos e recentes, os mais novos  Cosme Damião da nossa família:  Matheus Cosme e Pedro Damião,(alusão feita por Tininho) que sabiamente anteciparam o nascimento em cinco dias, pensando em driblar  os meninos santos, sem qualquer sucesso entretanto, porque os meninos estão atentos e acompanhando estes novos representantes do dia 27 de setembro -  dia de SÃO COSME e DAMIÃO, os santos meninos, protetores dos gêmeos e dos irmãos e de quem mais queira acreditar neles.
Ah, para a edição nova, a familia aumentou, temos mais duas meninas, Giulia e Aghata, duas  ibejés que prometem traquinagens, e que devem ser  abençoadas por vocês queridos meninos santos.
Renovo ainda o pedido de bençãos para o meu irmão, onde quer que ele esteja. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O ventilador de teto


Anda na rua, hoje por necessidade, o que outrora era feito para manutenção do fisico. Já não vai mais para a orla, anda dentro do próprio condomínio onde vive, vai caminhando e sabe que os passos vão numa só direção. Não consegue ser mais forte de que esta vontade de passar pela frente da casa do “ex amor”, que mora no mesmo condomínio.
Não sabe por que vai sempre nesta direção.Já não têm mais nada; nada mesmo. Nem mesmo o “rebento” daquela relação finda  foi suficiente para que um mínimo dialogo pudesse ser mantido. Não entende muito bem a causa disto, mas é assim e pronto, o que vai fazer? Aceitar, não adianta insistir, conhece muito bem aquele que outrora foi o seu grande companheiro, o seu amor, o homem  por quem um dia esteve apaixonada e que parecia um grande e enorme “urso” desajeitado, mas, amorosamente, apaixonado.
Sim, aquele homem apaixonado era uma maravilha, até mesmo o seu grande egoismo  era esquecido em alguns momentos, mas o “desapaixonamento”  reativou, e muito, esta sua grande caracteristica.
Bom, mas ela vai andando pela calçada do outro lado da rua e olha para cima.  Sabe que ele esta em casa, o que lhe dá esta certeza é o ventilador de teto funcionanado. Ele não gosta de ar condicionado, não se sente bem, e, mesmo  podendo ter  toda uma casa climatizada, prefere o seu   ventilador de teto.
Pensa: “Que será que ele esta fazendo agora: Estará lendo o jornal?  Estará com a xícara de café na mão?  Será que já escovou os dentes? Estará fumando um cigarro?  Ou está simplesmente olhando para cima e tendo as suas grandes ideias, as suas grandes sacadas, arquitentando  acusações ou defesas, lembrando  de algum processo procurando falhas apresentadas? Que será que faz ele agora? Lembra-se do tempo em que viviam juntos em que ele acordava e  descia para a varanda para ler todos os jornais do dia, saber dos acontecimentos, dos comentários, ver se havia alguma manchete falando dele e do seu trabalho, ou de qualquer coisa que  interessasse.
De onde passa não o pode ver, salvo se ele estiver  na janela ou na varanda, ou ainda na cobertura, fora disto  nada, somente o ventilador de teto acusa a presença dele no quarto.
Um  pensamento continua martelando: como pode  não ter mesmo condição de, ao menos, falar com ele ao telefone? Não há clima, não entende, não consegue realmente perceber como um homem tão brilhante pode ter  pensamentos mesquinhos, pode se deixar levar por emoções tão bobas?
Os mundos agora são diversos, ja não pode discutir mais  com ele  quem  esta com a razão: Jung? Freud? Já não podem falar mais de Foucault, Sartre, Simone de Bouvoir e tantos outros, nem mesmo  Kierkegaard. Já não pode fazê-lo ri das suas velhas estórias de menina de interior, dos ditos populares que tanto lhe divertiam; já não lhe pode fazer mimos culinários, deixá-lo com água na boca e de água na boca. Não pode, sequer, dizer que não gosta de alguns amigos, que  tem restrições a alguns parentes, gozar a cara das  pessoas conhecidas, criticar alguns, falar do defeito de outrem. Enfim, sua vida foi desatrelada da dele, não restou nada, a não ser olhar aquele ventilador de teto, tão distante, tão indiferente, fazendo o mesmo movimento rotineiro de todos os dias, mas que é, hoje, o único elo de ligação entre o seu presente e o seu passado, entre ela e aquele homem com quem viveu um belo e grandioso amor, que foi levado pelo vento, um vento poderoso e natural, diferente daquele  que o ventilador de teto produz.
O ventilador de teto serve para refrescá-lo. Para ela, entretanto, serve para denunciar a sua presença em casa, e para confirmar que êle ainda tem um amigo fiel:  o seu ventilador de teto.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Transportando vida


Quase dois meses após a chegada, as malas ainda estão por desfazer. Parece que querem ficar prontas para a próxima partida, não gostam de ficar paradas, gostam do movimento  dos aeroportos, adoram ser jogadas nas bagageiras dos aviões, dos autocarros, dos trens. Se ficam ali no canto do quarto  começam a envelhecer, empoeirar-se, sentem faltam do manuseio das mãos dos carregadores, mesmo sabendo que são maltratadas, que são jogadas de um lado para outro como se não carregassem a vida de alguém, as suas lembranças, sonhos e realizações.

sábado, 17 de setembro de 2011

Dias opacos

São quatro e trinta da manhã. O dia vem surgindo lento, parece não querer sair da letargia que a noite lhe proporciona. Não quer despertar do seu sono tranquilo, ele dorme mais de oito horas, talvez, por isso mesmo, esteja ele hoje muito cansado, e, portanto  demorando mais para trazer a sua luz.

O sol não aparece. A noite trouxe a chuva e deixou as suas marcas: está escuro, nuvens  densas impedem que o dia venha com toda a sua força para esquentar o que ela esfriou.

A chuva continua a cair e a impedir que o dia acorde como deve de ser.

Tudo isto parece ratificar o seu estado de espírito; o universo parece querer lhe  mostrar o que lhe vai na alma, a dor que lhe invade o peito. Parece que os seus dias são sempre sombrios, não se aquecem. Também, como iria aquecê-los?  Para que o dia amanheça e o sol apareça e esquente a terra é necessario  que as nuvens  se afastem, que não tenha chuva, enfim que os obstáculos sejam afastados a fim de que os seus raios cheguem  esplendorosos, quentes, iluminando tudo, definindo as cores. Ela,entretanto, não consegue remover os obstáculos: os seus dias continuam sendo sombrios, mórbidos, sem luz.  Olha para os lados; paredes brancas parecem querer lhe dizer algo, algo que ela não entende, afinal paredes não falam, talvez escutem, todavia,  falar não falam.

O dia continua lutando para afastar os obstáculos, para eliminar os elementos  que  querem lhe deixar opaco; ela, ao contrário do dia, não tem forças para isto, parece ter se acostumado a viver  atrás de nuvens que lhe condicionaram a luminosidade. 

Não é feliz, bem sabe que não o é; a sua felicidade depende da felicidade de outrens. Ela jamais será feliz enquanto  outras pessoas, a quem quer bem, não o sejam. Ela bem que tenta mostrar um pouco de  brilho, para  tentar, não sabe se o faz, enganar as pessoas, a fim de que com ela não se preocupem e tentem encontrar os seus rumos, sem que a sua vida possa interferir em nada. Não quer dividir os seus problemas, as suas preocupações, as suas angústias e frustrações, sabe que se assim fizer, poderá impedir que alguém brilhe, que o sol apareça para aquela pessoa todos os dias, e ela sabe que não tem o direito de impedir isto.


Segue o seu caminho sozinha, um caminho que para muitos é de brilho, de vitórias, de conquistas e mais conquistas, mas ela sabe o quanto padece  para demonstrar um brilho que ela, seguramente, não tem, porque o universo conspirou contra si e lhe fez  assim, dissimulada, sem poder se mostrar como realmente é no seu interior.

Se para o público ela brilha e é forte, para si ela é opaca e frágil. É exigente consigo própria e,talvez, por isso mesmo, não consiga, ou pensa que não consegue, afastar os obstáculos para poder sair desta névoa que lhe consome  os dias, as noites, a sua própria existência.

Ah se eles soubessem dos seus  reais sentimentos, das suas reais intenções, dos seus medos! Não,mas eles nao podem saber, ninguém  vai penetrar neste mundo opaco interior que é o seu, ela não quer e nem tem o direito de fazer pessoas infelizes. Ela quer o brilho  para todos, quer  ver as pessoas felizes, quer que todos estejam e sejam iluminados; possivelmente tem algumas restrições em relação a alguns que ajudaram a sua vida á perder a cor, a ser sempre cinza,mas, ainda assim, quer que também estes brilhem, se recuperem.

Um dia, talvez, alguém  possa realmente notar o que lhe vai na alma, pode ser que alguém que tenha recebido muita energia e luz do sol, seja capaz de lhe retirar da neblina em que se encontra, alguém que lhe ensine que os dias  podem ser  frios,  mas eles não são motivos para fazer alguém se tornar tão opaco; alguém que possa lhe tirar desta angústia, desta solidão acentuada em que vive, preocupando-se em não demonstrar para quem ama tudo o que vai na alma, apenas e simplesmente porque os quer felizes, e por entender que não tem o direito de os fazer sofrer.

Sim, um dia quem sabe! Ela poderá realmente mostrar todo o seu brilho, não este que as pessoas pensam que ela tem, mas aquele que ela realmente terá, quando todas as as névoas forem afastadas, não só as da sua própria vida, mas da vida das pessoas a quem ama e que quer ver bem.

Retira força de si própria, remoe a  sua  própria vida para ver se consegue, ao menos, um lampejo que seja, para, como se fosse um feixe de luz entrando por uma fresta da janela da alma, lhe dizer que tudo é possivel, que ela poderá encontrar este alguém ou algo, que lhe possa ajudar a colorir os seus  cinzentos dias, e que ela possa sentir toda a quentura do sol, lhe dando vida, energia, lhe fazendo “viçosa” e feliz.

Que este dia chegue logo! O tempo está passando muito rápido e, qualquer dia, ela nem mesmo conseguirá  ver a beleza que é um dia de muito sol, o que, ainda, lhe reconforta a alma, pois, nestes dias, tem a tênue esperança de que tudo, de um momento para o outro, como num passe de mágica, possa mudar e permitir que ela se mostre sem qualquer máscara, sendo apenas ELA.




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma obra em casa


Era só uma pintura dos muros do lado de fora da casa
Precisamos de:
2 latas de tinta;
40 lixas: 20 de 80 e 20de 120;
Uma lata de massa corrida;
Uma lata de massa acrílica.
- Sim doutora só isso.
- E a mão- de- obra?
O homem fica calado, faz conta mentalmente, depois de alguns minutos de dedos para lá, fala consigo próprio, movimentos de cabeça, olhares ao derredor:
- Vou botar quatro homens aqui dentro. Cada homem custa R$ 70,00 dia.
A mulher faz a conta, quatro homens a 70,00 por dia; terá de desembolsar 280,00 dia.
- Em quantos dias o senhor acaba o trabalho?
- Em quatro dias?
- Não, não meu senhor, isto tá muito caro, então vou pintar a parte exterior da casa e vou pagar R$ 1.120,00?   
 - É mesmo doutora, tá muito caro. Quanto a senhora paga?
- Não vou dar preço no seu trabalho, mas não posso concordar com este valor.
De novo o homem para, pensa, faz contas, olha mais uma vez o que terá de fazer.
- 850,00 e não se fala mais nisto.
Acerto acertado e o dia do começo dos trabalhos era o seguinte, quarta feira, com a promessa de que e em quatro dias tudo ficaria pronto.
Os trabalhadores chegam no dia seguinte: Um menino, que de tão pequeno foi apelidado de “pingo de gente”, um outro, que tinha certamente problemas chamado “Seu Jorge”, e um outro, que se achava o sabichão, de nome Ricardo. O quarto não apareceu, ao menos na quarta feira.
Os trabalhos começam e um primeiro aborrecimento: os trabalhadores são para lá de desorganizados, começam a fazer um trabalho aqui, depois mudam para acolá, esquecem o que estavam fazendo. Ela a tudo presencia, ainda calada, mas já com a vontade de “bater num deles”
A madeira do telhado é toda lixada, o pobre do “pingo de gente”, por ser menor e mais leve,  é quem fica com a pior parte do trabalho. Ele tem de subir nos andaimes e lixar toda a madeira. O trabalho é feito no primeiro dia, não sem muito aborrecimento em razão da desorganização. Se o verniz cair no chão, tem de ser imediatamente removido para não grudar. Tudo isto se  fala na teoria e todos concordam, mas o resultado pratico é uma merda,  o chão  é manchado de  verniz.
Aborrecida, ajuda na limpeza do chão, latas de solvente são gastas com a operação. Os operários não têm pena.
Enquanto  o “pingo de gente” e o “Seu Jorge”  fazem o serviço de verniz, dois bodosos e lesos; são capazes de ficar olhando para você e enquanto isto  o recipiente  vira, cai no chão, o pincel pinga, enfim, uma baboseira, o Ricardo  arma o andaime do lado de fora e começa a pintar os muros.
Na sexta feira, já se nota que o serviço não vai ser entregue  no dia combinado e, talvez por isso, e também pelo madeira do telhado da varanda ter ficado tão bonito, um novo acerto é feito, mesmo correndo o risco de  esganar um dos operários, eles são lerdos, não tem qualquer  compaixão pelo material, desorganizados, sujos  e mal educados.
Um novo acerto é feito, a casa merecia um tratamento rejuvenescedor total. Seria toda pintada, inclusive com a escada raspada e envernizada, tudo no valor total de R$ 1.500,00.  Lisa de material: Duas latas de tinta, massa acrílica, mais lixas, muito mais lixas mesmo. Uma profusão delas.
Vai comprar o material, queria uma tinta linda, brilhosa, que deixasse a casa  luminosa. 
- Quero tinta para interior.
Foi fazer a compra com o irmão, um sujeito que tem a mão muito segura: - Você vai comprar esta por que? Esta daqui faz o mesmo efeito, e é uma tinta muito boa.
- Não  rapaz, quero uma tinta boa mesmo.
Compra as tintas recomendadas pelo irmão, mas sabe que vai utilizá-la do lado de fora, porque dentro ela vai usar a que quer mesmo, 250,00 a lata.
 Leva o material pedido.
- Doutora, a tinta está errada, eu pedi branco neve e esta é branco gelo.
- Puta que pariu, que droga, e agora? Você já abriu a lata, não vai poder trocar.
Procura a nota fiscal e pede a cunhada para ir até a loja, chega lá e explica o que aconteceu, claro que houve um começo de stress, porque a “mocinha”   diz que  não ia trocar sem a nota fiscal.
Um rapaz que esta dentro do balcão diz que isto não é problema porque a nota fiscal fica arquivada na memória do computador, pede o nome  do comprador e  verifica a nota, onde esta descriminada a compra efetivada: lixas 120, lixas 80, massa corrida, verniz, e duas latas de tinta  branco neve... Erro da loja que fez a entrega errada, erro do comprador que não observou no momento em que a tinta foi colocada carro: uma era areia e a outra  bege, nenhuma delas branca, seja neve ou gelo. Eles trocam uma das latas, a outra, que foi aberta também seria trocada, mas o  “mestre”  se antecipou e fez a troca, não se sabe como. Aproveita que foi com a cunhada e compra a tinta de R$250,00a lata, para pintar o interior, no que realmente acertou, porque a sala ficou mesmo muito bonita, ganhou uma luminosidade sensacional.
Tudo comprado, volta  para casa. Material pedido todo entregue, a obra continua.
Os quartos estão precisando de retoque  de uma nata de cimento, a parede rachou:  fazem uma massa leve e  aplicam-na, sujam os quartos todo.  Ela, atenta, manda limpar. A  limpeza não fica boa, ela espera que o serviço ali acabe e, à noite, sozinha,  limpa tudo, passa não sei quantas vezes o pano, e agradece ter trazido de Portugal aquela ferramenta que todas as casas devia, ter: o esfregão de micro fibra. Os quartos dormem mais ou menos arrumados.
Dia seguinte, processo de lixagem  dos lugares retocados. Uma poeirada danada. Depois uma camada de massa corrida. Secada a massa, nova lixada, sujeira pura, a casa fica coberta de poeira branca, ela tosse, o nariz  coça, a boca esta seca. 
Para que diabo inventou isto? Sabe que é necessário, mas já esta mesmo muito estressada. Não gosta de gente, quanto pior desconhecidos, porcos, que falam alto.
Bom, mas já tinha começado e ali não podia mais parar, no ponto em que as coisas estavam só indo pra frente, não ha mais como retroceder.
Tem de ir até a rua, e quando volta os “pseudo pintores” já fizeram estrago: derramaram verniz no chão de cerâmica ocre; não cobriram o chão e há muitas marcas de tinta branca na sala. Olha desesperada para aquilo,  manda que limpem imediatamente. Eles pedem mais panos. Ela já pegou todos os panos disponíveis, mas não o suficiente para os pintores, que simplesmente, deixam os panos ficarem grudados, sujos, resultando que no dia seguinte não servem para nada.
- Onde esta o solvente? Tem de jogar aqui onde o verniz caiu.
- Acabou.
-Acabou? Vocês estão bebendo solvente, já lá se foram duas latas.
- Acabou sim.
Sai e vai comprar outra lata de solvente, traz a lata e manda que limpem o chão onde o verniz caiu.  Serviço que foi feito, embora muito mal feito, o chão fica grudando, e ela tem de terminar o serviço lavando o local com sabão.
Está chegando no seu limite.  Armam o andaime  na parte de cima, quem continua responsável pela raspagem das madeiras e o envernizamento dela é o “pingo de gente” que  descendo as escadas da casa, com uma escada de metal numa mão, e o recipiente de verniz na outra, deixa este ultimo cair: mais prejuízo, mas sujeira, mais grudação, mais aborrecimento, mais raiva, mais esforço físico para limpar tudo.  A parede branca em baixo da escada está toda respingada de verniz, resultado: trabalho na hora de raspar para aplicar a tinta branca.
O dia acaba, o serviço não anda, parece estar estacionado.
Ricardo acaba a sala, que se mais bem pintada teria ficado muito mais linda.
Necessita-se de um eletricista para  mudar as lâmpadas da cozinha: Aparece um tal de “grilo”. O grilo é um senhor que pensa ser um galã, é limpo, baixinho, tem um bigodinho branco que demonstra o seu passar pelos anos. Chega cheio de moral, dá a lista de material. Saem os dois; ela e o “grilo” para efetivar a compra. Ele vai de bicicleta, ela vai a pé: compram tudo,  e a surpresa:  A senhora leva o material porque eu vou ter de ir ali, daqui a pouco volto.
Ela ri, então ela ia aguentar levar aquilo tudo, mas, para sua surpresa, tudo é leve.  Leva tudo para casa e começa a esperar o Sr. Grilo, com o andaime armado na cozinha. O desgraçado não aparece, e, o andaime tem de ser retirado.
O eletricista só volta no dia seguinte, e quando chega quer o andaime seja rearmado na cozinha. Ela diz que não vai mandar desarmar o andaime, que já estava do lado de fora, que agora ele vai fazer o serviço com uma escada. O homem não gosta da idéia, mas tem de admitir que ele foi errado, se tivesse voltado no dia anterior, como prometera, tudo já estava pronto.
O serviço é feito, e depois de longos doze meses, a cozinha volta a se iluminar. O serviço do  “grilo” termina, foi tudo rápido, e ele recebe, por apenas  uma ou uma hora e meia de trabalho, R$ 50,00, imagine se isto vira moda, um trabalhador não especializado, apenas um curioso, ganhando por hora quase 50 reais, o que equivaleria a  12.000,00 de salário mensal. Ela pensa: acho que vou me especializar em alguma coisa técnica e lembra do seu salário.
 No dia seguinte aparece um outro “pintor”. É cheio de bossa, de moral, todo tirado. O nome é Alex, tem olhos azuis.  Ela não gosta da aparência do homem, quanto pior por ser ele do lugarejo onde vive, melhor seria alguém de outro lugar.
O homem, no primeiro dia, faz o serviço do quarto quieto, calado, mas no dia seguinte já esta cheio de intimidades, tão cheio que a mulher vem bater na porta da casa para procurá-lo. Ela se aborrece, então alguém que não conhece vem bater na sua porta para procurar um desconhecido, que só estava ali por força de um trabalho. Chama o mestre de obra, e  queixa-se, diz que não quer mais o cara ali na casa. Mais stress, mais aborrecimentos. Este também é muito bodoso, e não limpa o que suja, segundo os outros, ele diz que este trabalho não é para ele, que só faz pintar.
O dia acaba, ela já esta mais de que arrependida de ter começado a obra, mas não dá para parar no estagio em que a pintura está.
São os mesmos profissionais que aparecem no dia seguinte, portanto, mais sujeira, mais confusão, mais aborrecimentos. Livrou-se apenas de um, o Sr. Jorge,  este não vai melar mais nada, mas ainda tem os outros dois, o Alex e o  pingo de gente, r raspada.
Dá uma bronca em todo mundo, mas eles são cínicos, parecem não ligar, porque, ato contínuo, mais sujeira, mais derrame de material.
O homem dá uma parede por pintada, ela reclama, diz que não está boa, o mestre manda o cara pintar de novo, e ela ouve ele dizer “De novo”!
- Sim, de novo, você não fez o correto, a parede tá toda manchada.
O homem recomeça o trabalho zangado, ela também esta p. da vida.
Chega o sábado, dia em que tudo deveria estar terminado, mas isto não acontece, e o pessoal trabalha somente até o meio-dia, estão apressados porque querem receber o dinheiro da semana trabalhada.
A varanda de frente não esta acabada, e assim vai ficar até o final de semana, tem de esperar pela boa vontade do pessoal.
O que fazer?  Temos de esperar a segunda feira, pois acreditem, os homens não aparecem para trabalhar, nem segunda e nem terça e tudo fica como está, a única coisa que não fica como está é a raiva da dona da obra que, se pudesse, com certeza  colocava todos para fora, e se fosse ela dona de uma empresa, seria uma despedida coletiva por justa causa.
Um conselho: quando tiver de fazer uma pintura na casa, saia dela, contrate uma empresa e só volte quando a tudo estiver pronto, ainda que seja mais caro.