terça-feira, 27 de setembro de 2011

Dia de São Cosme e Damião

Hoje é o dia 27 de setembro. Na Bahia, e não só aqui, festeja-se os santos meninos- São Cosme e Damião. É assim mesmo, apesar de dois, parece que são um só, pois nunca ouvi ninguém falar de São Cosme e São Damião assim separando os “saos”.
Dizem, os que contam a história dos gêmeos, que eles são originários da Arábia, estudaram medicina na Síria, e praticavam o oficio gratuitamente, foram acusados de feitiçaria e, por isso mesmo, foram assassinados.
No candomblé eles são os filhos gêmeos de Xangó e Iansã, são os Ibejés, e tem mais cinco irmãos: Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi, este último, pelo nome, parece ser o mais árabe de todos.
Minha mãe, sempre ofereceu um caruru neste dia 27 de setembro, acho que, por isso mesmo, pela fé que tinha nos dois santos meninos, ela pariu um dos meus irmãos neste dia e, talvez por isso, o menino nasceu de 7 meses, de parto natural, feito em casa, por uma parteira gorda e bem velhinha, que disse ter sido enganada pelos meninos santos, porque ela tinha certeza que não era aquele dia do meu irmão nascer. Lembro-me de minha mãe contar este caso às amigas:
-" Ela disse que, ou os meninos queriam lhe pregar uma peça, ou então era o último parto que ela estaria fazendo."
Não sei se foi o último parto que ela fez, mas sei que logo depois, soubemos que ela, efetivamente, faleceu.
Bom, o certo é quem meu irmão nasceu de sete meses, em casa, na cidade baixa, na Rua da Imperatriz no dia 27 de setembro de ano que já não me lembro, recebendo nome de Cosme Antônio. O Cosme, por motivos óbvios, o Antônio em homenagem ao meu avô materno, que se chamava Antonio Regis Filho, para mim era o “meu príncipe porque nasceu louro e com os olhos bem claros e, logicamente, eu associei isto aos contos de fadas em que os príncipes eram sempre brancos, louros e de olhos claros, como se não pudesse existir príncipes negros, mulatos, ou amarelos.
Se o caruru lá de casa era oferecido antes do nascimento do Cosme, depois deste evento, aí sim, minha mãe nunca mais deixou de fazê-lo, até que as forças não mais respeitaram as suas crenças ou quando não tínhamos mesmo qualquer dinheiro, ainda assim, minha mãe distribuía balas de mel entre as crianças.
preparação
Sempre achei interessante esta estória de São Cosme e São Damião, que são os dois primeiros irmãos, de uma família de sete meninos. Minha mãe sempre fez o caruru com todo o tradicionalismo recomendado:
Acordava-se muito cedo, muita gente em casa cortando quiabos que ia aumentado de quantidade com o passar dos anos, já vi caruru lá em casa de mais de 1.500 quiabos; quiabos para danar e lenhar os meus dedos de criança.  Efetivamente era uma festa mesmo, as minhas tias, irmãs da minha mãe, todas lá, era dia de pernoite e todos trabalhavam muito, sem qualquer sombra de cansaço. Tudo era satisfação. Antes das ajudantes começarem, a pessoa que estava dando o caruru, a minha mãe no caso, tinha de cortar sete quiabos fazendo os seus pedidos aos santos meninos; depois disto eram escolhidos sete quiabos inteiros que assim iam ser cozidos e só depois disto é que as ajudantes podiam começar os trabalhos. No caruru de São Cosme os quiabos são cortados em quadradinhos pequeninos. Os sete quiabos inteiros são colocados junto aos quiabos cortados e, segunda a tradição, quem tem um quiabo inteiro no prato, tem de dar um caruru.
Antes de contar os quiabos, lembro-me que minha mãe se vestia toda de branco, arrumava a mesa dos santos, em que o lugar principal pertencia aos meninos: velas pequeninas e coloridas eram acesas em pratinhos brancos em numero de sete, estas “candeias” como ela falava, tinham de ficar acesas durante todo o dia, e às vezes, durante sete dias seguidos. A rua era “despachada” era assim que se dizia; afastando os maus olhados e os espíritos indesejados; água e sal grosso jogados de frente, nas laterais e por cima da cabeça. Eu olhava aquilo tudo sem entender direito, somente com o decorrer dos anos é que fui perceber, não na sua plenitude, alguma coisa de todo aquele ritual.
caruru

Minha mãe era incansável nestes dias, aliás, sempre o foi, nesses e nos outros; ficava feliz sempre, fazia tudo praticamente sozinha, porque a não ser a ajuda com o corte dos quiabos, tudo mais era feito por ela. Tratava 30 a 40 quilos de galinha sozinha, passava a noite fazendo este trabalho. Uma bacia grande em sua frente com os pedaços de galinha, tudo cortado no “muque”, ainda não se comprava galinha em pedaços, as bichinhas eram compradas inteiras, vivas ainda, e eram “assassinadas” lá em casa mesmo. A executora delas era minha mãe ou alguma tia corajosa. Após violentamente assassinadas, eram depenadas em um caldeirão enorme com água fervente, onde os bichos eram enfiados para facilitar a retirada das penas, depois deste processo, vinha o momento do destrinchamento. Sempre achei uma perÍcia alguém encontrar as articulações das bichinhas e tudo ser cortado no lugar certo. Eu, até hoje, não consigo encontrar o lugar certo do corte, talvez por isso tenha preferido direito à medicina.
O pior momento era ver a minha mãe colocar as bichinhas no chão, segurar os pés da ave com os dela, ou seja, imobilizar a bicha, e depois dar o corte fatal no pescoço. Não gostava nem um pouco dessa parte, mas, se tínhamos de comer a galinha de xinxim, não havia outra possibilidade. Se dependesse de mim, até hoje ninguém comia galinha, porque eu jamais saberia fazer isto. A minha falta de técnica e de coragem faria tudo virar uma lástima. Minha mãe sempre dizia que não podia se ter pena do animal e nem cortar no lugar errado, isto era fatal, porque a bicha, às vezes, meio morta e meio viva, ainda conseguia se libertar e sair tentando fugir pela casa, uma baboseira só, já aconteceu lá em casa em algumas oportunidades, ver a galinha, já sem cabeça ainda dando alguns passos pela casa e melando tudo de sangue, um horror!
galinha de xinxin
O ritual da galinha acabava e os pedacinhos eram cortados quase que milimetricamente, afinal, todos tinham de ter um pedaço da carne no prato, e isto significava cortes precisos de tamanhos minúsculos. O peito de uma delas era sempre cozido inteiro, porque este era o que seria colocado no prato dos santos, que eram três pratinhos de barro, complementados com as três jarrinhas coloridas cheias de mel, e as “balas” também de mel.
O caruru de minha mãe era completo, tinha de rapadura cortada em quadradinhos mínimos a vatapá: tudo enfim: inhame, banana da terra frita, coco, acaçá, acarajé, abará, cana de açúcar, abóbora, pipoca, o caruru, feijão fradinho, feijão preto, arroz, milho branco, farofia de mel e a de dendê, batata doce. Comida para dar, vender e emprestar.
O camarão seco, principal ingrediente do caruru já estava guardado e pronto para ser utilizado; era a primeira coisa que entrava em casa para o caruru, ele precisa ser descascado com antecedência, minhas mãos ficavam fedorentas e as pontas dos dedos sujas e machucadas, quando não furadas, mas eu gostava daquela tremenda confusão que se armava nos dias que antecediam a festa dos meninos.
ultimo caruru em Arembepe
Lá em casa todos participavam, seja ajudando, seja comendo, a grande maioria estava nesta ultima opção. Meu pai, pense ai! Um espanhol legitimo adorava estas farras, ele também entrava no jogo e, por algum tempo, respeitou os ritos, imagine que passava o dia sem beber, ficava de roupa branca, era incensado e ainda ajudava a levar a comida do santos: é que depois do terceiro dia que essa comida estava no altar aos pés dos santos, tinha de ser retirada colocada num matinho verde: a comida só poderia ser “baixada” em lugar com esta característica.
O certo é que o caruru durante muitos anos foi esperado lá em casa. Na hora de servir, depois de feito o prato dos meninos santos, a comida tinha de ser servida a sete meninos homens, só podia ser homens, eu não entendia a discriminação, mas fazer o que? Isto era feito em um grande agdá que era colocado no centro de um pano branco estendido no chão e as crianças, que eram chamadas na rua, sentavam ali ao redor daquele prato cheio de comida e tinham de comer de mão.  Todos ficavam olhando aquilo, uma meleira da porra achando muita graça, tinha meninos que, parecendo possuídos, melavam uns aos outros, passando a comida na cara, nas roupas, enfim, era uma porcariada que divertia as pessoas.
Minha mãe sempre cantava uma cantiga relacionada aos santos meninos:
“São Cosme mandou fazer,
Uma camisinha azul,
No dia da festa dele,
São Cosme quer caruru”
Ou então:
“Cosme Damião
Oh cadê Dau
Cosme Damião onde esta o Alabá!”
Dentre outras que não me lembro
Em seguida a este ritual com os meninos, os pratos para o público começavam a sair. Antigamente não se podia negar entrada a qualquer pessoa, quem dava caruru o fazia para o povo, quem passasse na rua e quisesse entrar tinha de ser servido. Lembro-me que, quando mais velha, com uns quinze anos, cheguei a comer caruru em quatro casas diferentes no mesmo dia, não sei como não morria; gulodice só, pois ninguém agüenta uma zorra desta, mas era mesmo bom e o folclore da coisa melhor ainda.
Em dado momento lá em casa minha mãe “recebia” o santo. Era muito engraçado mesmo: ela começava a agir como se fosse uma criança muito sapeca, adorava melar os outros de mel e falava de uma maneira que a gente não entendia muito direito. Todos ficavam ao redor dela que ficava sempre esfregando as mãos uma na outra, pulava, sorria, puxava o cabelo de um, beliscava outro, dava uma risada entre dentes, dizia coisas engraçadas. As pessoas ficavam perguntando coisas, lembro-me que um dia ela virou para mim e disse que eu ia ter problemas porque eu tinha uma indaca muito grande. “indaca” segundo me informaram, não sei se realmente o significado era este mesmo, era “língua”. O engraçado é que não sou de falar da vida dos outros, mas se pensar que digo muitas coisas aos outros que alguns têm pudores de dizer, aí sim, tenho a “indaca” grande. Também soube que a minha “virgindade” seria perdida, imaginem só, perdida! O que seria feito por um homem muito mais velho que eu: pois não é que este vaticínio deu certo, a diferença foi mesmo o dobro da minha idade à época, olhe que já faz anos para danar.
Eu era um alvo danado destes meninos, sempre estavam dizendo coisas a meu respeito, algumas boas, outras más, devia ter ficado mais atenta e prestado mais atenção aos vaticínios.
convidados do ultimo caruru
Hoje já não se faz caruru na minha casa, de vez em quando, ainda peço alguma coisa aos santos meninos, eles estão ficando velhos, acho eu, porque andam meio surdos, pois peço e eles não atendem os meus pedidos, quando o fazem demoram muito, mas, mesmo assim, demorando ou não, pago as promessas; às vezes o faço antecipadamente, acho que talvez por isso, porque apesar de velhos eles continuam marotos e devem estar esperando o pós caruru.
Vatapá
Bom, eles sabem o que pedi: se acontecer, com certeza dou outro caruru, com tudo que eles tem direito, mas vou fazer um pedido público aos meninos velhos travessos. Onde o irmão “Cosme” estiver, faça-o feliz, diga-lhes que nos temos somente saudades, mas das coisas boas, e que já o perdoamos há muito. Que ele siga em paz, sem mágoas, sem revoltas, porque o queremos muito, e que ele continue  sendo o nosso super herói –“ He man” forte como um touro, mas com a inocência dos meninos marotos que inspiraram o seu nome composto como ele era: abençoado como deveria ser.
candeias
meus gêmeos
Meninos, to esperando e agradecendo pelos meninos antigos e recentes, os mais novos  Cosme Damião da nossa família:  Matheus Cosme e Pedro Damião,(alusão feita por Tininho) que sabiamente anteciparam o nascimento em cinco dias, pensando em driblar  os meninos santos, sem qualquer sucesso entretanto, porque os meninos estão atentos e acompanhando estes novos representantes do dia 27 de setembro -  dia de SÃO COSME e DAMIÃO, os santos meninos, protetores dos gêmeos e dos irmãos e de quem mais queira acreditar neles.
Ah, para a edição nova, a familia aumentou, temos mais duas meninas, Giulia e Aghata, duas  ibejés que prometem traquinagens, e que devem ser  abençoadas por vocês queridos meninos santos.
Renovo ainda o pedido de bençãos para o meu irmão, onde quer que ele esteja.