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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A não se repetir

Está tentando fazer um balanço de 2016, entretanto, não consegue colocar no papel as emoções tantas, sofridas e vividas nesse ano que passou.
Está sozinha, o que não é uma grande novidade, mas o fato é que está e fica sozinha, parece que estar mesmo condenada a viver só no meio de tantos, tantos que passaram pela sua vida no ano findo, inúmeros,  nunca tantos estiveram tão próximo de si, mas nada aliviou a sua solidão, que  não é sequer percebida. Todos pensam que ela está bem, que ela gosta  da vida que leva: Que engano! Eles não sabem de suas angústias, de suas dores, de suas aflições.

sábado, 15 de março de 2014

O Desabrochar da Flor do Deserto

A flor do deserto, mais uma vez, desabrochou. Desta vez ela foi para lá de generosa, porquanto  estão brotando, em um só momento, treze delas num único ramo. Estou feliz,  mas isto não apaga  a sensação desértica da minha vida. Queria florescer como esta planta conhecida por flor do deserto.  Acho que o nome deve ter sido colocado pela aparência, pois o seu caule é grosso, as folhas também; deve ser para aguentar as intempéries do seu local de origem, mas o fato é que ela, mesmo em poucas vezes no ano, não sei se apenas uma ou duas vezes, floresce.  Não floresce ela de qualquer maneira, ela se amostra linda, a sua cor não tem comparações, acho que a cor é grená, mas é tão lindo, tão encarnado, que a gente fica na dúvida de que cor é mesmo.
Pois é, queria florescer como a flor que florescer, mas tá difícil, porque, se ela, planta, tem a mim para, ainda que ela seja do deserto, ser molhada, ter a terra ao seu redor revolvida para que ela possa respirar melhor e crescer mais, colocar veneno nas pragas que a atacam, eu não tenho nada, estou sempre só, ninguém me rega, ninguém me revolve. Há muito que ninguém coloca um basta nos venenos que foram colocados na minha alma, que vai morrendo um pouco a cada dia, perdendo o brilho, a cor, que era resplandecente. Agora vivo no opaco. Parei com tudo, não quero escrever exatamente porque o escrito sai um lamento. Não quero ouvir músicas porque elas me trazem recordações que não quero ter.  Agora mesmo  ouço  Nana Cayme numa música em que ela fala do tempo e do vento.  A música é linda, a letra também, mas ela me reporta à minha própria vida, ao meu tempo, ao quanto fico sem jeito quando ele passa sorrindo e me deixando chorar, porque ele, como bem diz a musica, sabe passar, mas eu não sei. Ah como queria eu  que o tempo,  ou voltasse, ou  então passasse bem depressa para que o que tiver de chegar chegue mais rápido.
O que tiver de chegar! Será melhor ou pior do que o momento que passo?  Estou inútil, pois nem mesmo o que mais gosto de fazer na vida, que é ler, estou conseguindo. Não tenho concentração, a cabeça fervilha de questionamentos que não  recebem respostas, nem minhas e nem de ninguém, porque são perguntas silenciosas que faço  a Deus. Sim, a Deus, como se ele pudesse responder alguma coisa.
Um telefonema e tudo rui, até os pensamentos que começam a tomar uma forma. Vou embora, vou deixar tudo para trás, vou procurar sonhos. Que sonhos?  Acham vocês que alguém pode sonhar aos sessenta?  Dor na perna, dor no pé, dor no ombro, herança maldita de uma família artrosiada, ou artritiosa: não sei, só sei dos efeitos . Penso em minha mãe:  Será que vou ficar igual a ela?  Respondo a mim mesmo, querendo um consolo: “não você não vai ficar assim, você foi sempre ativa, você faz yoga, você  anda.”  Não isto não me consola. Minha mãe andava para  cacete, não como eu, mas andava. Subia uma ladeira imensa  se quisesse sair de casa e ir a rua, e olhe que ela gostava de rua, pois  ela frequentava a igreja, adorava ir a médicos, por sinal fez muitos amigos nas filas  dos consultórios: brancos, pretos, até estrangeiros, ela era assim, quanto pior: e ainda os levava  todos para almoçar lá em casa, caso  eles tivessem que ficar mais tempo na fila.  Pois é, eu não  fico em filas, não  subo escadas,  mas faço yoga e  ando uma hora dia. Será que isto vai resolver alguma coisa? Acho que não, o calcanhar está aqui para me mostrar isto.
Fico então pensando em que velhice vou ter: sozinha, chata, frustrada, mal humorada. Este é um futuro que quero reverter, mas está difícil, difícil mesmo. Nem a esperança da flor do deserto  me faz mudar  o pensamento.
Olho em volta, estou sozinha, não tenho nem mesmo a quem me queixar. Todo tem compromissos, nos quais não estou incluída. Promessas! Para que as quero? Não, não as quero, até porque elas não serão cumpridas, a gente vê que elas não se realizarão. Se acontecerem elas serão efêmeras como a orquídea lilás linda e delicada que floresceu a semana passada e agora  desapareceu, deixando apenas uma marca da sua passagem. Será que ela foi feliz nesta momentânea aparição?  Será que ela não precisa ser feliz, que ela se contenta com  a beleza que ela  permite que alguém aprecie? O fato é que ela  floresceu, viveu  três ou quatro dias e simplesmente murchou.  Seria bom que  as coisas fossem efêmeras assim como a orquídea
que aqui floresceu. Se  as coisas ruins fossem efêmeras não estaria eu aqui agora  traduzindo a minha dor em palavras para ver se diminui a pressão, não a pressão do corpo, esta só diminui agora com remédio, mas a da alma, que está mesmo a ponto de explodir.
Penso mais uma vez,  será que ninguém consegue ver os sinais? Eles estão aí, se mostrando a todo momento e ninguém  olha, ninguém vê, ninguém ajuda. Todos preocupados consigo mesmo. Um com a casa que precisa será terminada, outro em enganar e deixar de pagar o que deve, outro com um caso extraconjugal, muitos com a aparência tão somente, alguns  com a responsabilidade de ter assumido mais do que devia e não pode dar conta. Pois é, ninguém tem tempo, e o deserto do que necessita aumenta, está completamente árido, não adianta chover, nem mesmo a chuva  é suficiente para  deter o processe de desertificação.  É a pessoa não vai florescer mais, embora esteja procurando uma maneira de fazê-lo.
Mudei a música. Quem sabe sem entender direito a letra isto fique melhor, mas é um engano, porque coloco Michel Boublé e ele canta:  "You`ll never find another love like mine". Digo a mim mesmo: Really it is true: he will never find another love like mine, someone who loves him like  I do.  But its not important for anyone, because  noone  will read it, then  anyone wont know how my love is great and  deep.
Vou continuar olhando a minha flor do deserto, agora ouvindo Luis Miguel a cantar “La puerta se cerrou detras de ti”, esperando que amanhã uma porta se abra e que  mais uma flor do deserto desabroche, e com  ela a  esperança de que também possa florescer. 

domingo, 17 de março de 2013

Nuvens carregadas


É um sábado, o dia começou nublado, o homem da limpeza não veio, ela olha o pano que está seco e confirma que ele  realmente não esteve no local. Pelo segundo dia consecutivo ele não vem e ela tem de limpar tudo, na verdade não se importa muito, mas o que não gosta é exatamente de ficar na expectativa   Como tem de limpar mesmo, o faz.  Molha as plantas porque a chuva está muito fina e não vai dar vencimento, cata as folhas que caíram à noite, varre todo a varanda e o pátio, joga o lixo fora, faz tudo automaticamente, parece um robô.
O dia cresce sem muito entusiasmo. Ela limpa tudo, o quarto de cima, abre as portas, limpa escada, desce limpa a sala. Toma banho no chuveirão do lado de fora da casa, sabe que está sendo olhada, mas não se preocupa, está na sua casa, portanto quem está olhando é que é o intruso.
Muda a roupa, vai na feira, nada lhe agrada, a chuva começa a ficar mais forte, ela retorna.
Faz um mousse de limão, tudo muito automático, parece que não quer estar ali naquele lugar, fica procurando fazer coisas para não pensar muito no que está sendo a sua vida agora. O que adiantou fazer tanta coisa? O que adiantou se afastar tanto tempo, se isto não resolveu nada, muito pelo contrário, isto só fez aumentar as suas incertezas, inseguranças, até mesmo a raiva. Não se controla, chora, xinga, blasfema.  Deus não tá vendo esta merda?
Quer ir embora, não suporta esta coisa que não sabe o que é, que não é definida. Ninguém vive de promessas e de ausências. Ela quer viver, ser feliz, mas parece que outros não querem, ou melhor, nunca quiseram isto.
Tenta se recuperar, está entrando num parafuso e sabe aonde isto vai ar, então pega um disco de Kitaro e coloca, por incrível que pareça o nome do disco é “Dream”, bem sugestivo para o momento que está passando, então ela começa a pensar. “Vou vender tudo, vou pagar o que devo e vou embora, para onde não sei, mas vou passar um bom período fora daqui; quem sabe quando voltar, se voltar, as pessoas tenham se resolvido, ou quiçá, desaparecido”.
Pensa em ficar na rede, afinal é uma coisa que ela realmente gosta, ficar ali meio deitada estudando, lendo alguma coisa. Ai dela se não fossem os livros? Com certeza ela já não suportaria tanta solidão, tanta ausência, tantas incertezas, tantas dúvidas. Sabe que já não tem mais idade para tê-las, mas ela as tem.
A Chuva agora cai forte, mas muito forte mesmo, e ela fica a olhar da varanda todo o esplendor que tem um dia de chuva providencial, porque o calor estava mesmo insuportável. Ela pega o computador e pensa em escrever um texto, não é a hora adequada e ela bem sabe disto, mas ela tem de botar para fora alguma coisa, caso contrário ela não vai suportar.
A natureza, entretanto, se lhe mostra feliz, e ela tem de desviar pensamentos tão cruéis, e tenta entrar em contato com ela, passar a fazer parte dela, do verde, da chuva, do cinza do céu. É difícil, mas ela tenta. Procura se lembrar do sonho que teve hoje, sabe que foi alguma coisa a ver com cabelos brancos, com sobrancelhas, com o contraste que agora existe entre os seus cabelos, as suas sobrancelhas e a vida.  Seus cabelos mostram a sua realidade hoje, mas ela não quer se convencer dela, acha que ainda não está na hora de se sentir assim, mais velha, no entanto decidiu que não vai mais pintar os cabelos, vai deixar que eles se mostrem como realmente estão, brancos.
Não sabe dos acertos das suas decisões, mas vai ter de tomar algumas, desde a casa, até a sua ida, de uma vez, para fora do país.  Tudo é melhor fora daqui, ela bem o sabe, a distância é uma grande sua aliada. A liberdade, o não ter de dar satisfação a ninguém dos seus atos, a impresença de todos e dela, em relação a eles, lhe faz bem. Se um dia chora, no outro está bem, ao contrário daqui que só chora, nada lhe agrada, nem mesmo as migalhas que lhe dão e que dizem que é amor.
Vai mesmo pensar muito, hoje é um dia adequado para isto, vai se inspirar na natureza, que se modifica a cada momento, nada é igual ao ontem e nem ao amanhã em relação a ela.  Mais galhas na pitangueira, que amanhã pode estar com mais ou com menos folhas. Os frutos hoje verdes, amanhã estarão vermelhos.  Os cocos hoje verdes, amanhã poderão não estar mais no cacho, a chuva e o vento podem derrubá-los. Os pequenos embriões, que começam a se mostrar, podem morrer antes mesmo de demostrarem as suas características.
O jasmim pode ter as suas digressões interrompidas por uma quebra dos seus galhos. Enfim; a natureza mestra mostra-lhe que tudo pode mudar de um dia para o outro, e é isto que ela espera: que as coisas mudem mesmo, mas para melhor, porque para pior ela já não suporta mais, está, a cada dia, mais sozinha, mas velha, mais triste. O refúgio está em seus livros, mas até eles começam a não gostar do seu toque, não querem ser abertos, manuseados, lidos. Ela está dispersa, e quando isto acontece eles não podem lhe oferecer os seus conhecimentos, os seus conselhos.
E o notebook, também não satisfeito,  não gosta quando ela  lhe usa para  descarregar tristezas, ele, que também é o seu companheiro de solidão,  quer que ela viva, que ela seja feliz, quer ver alegria no seu olhar refletido através do seu visor para ela mesma, que tem de se convencer que ela bela, que é capaz, que tem obrigação de ser feliz.
O disco continua tocando e a chuva parou, o sol quer aparecer, mas as nuvens não permitem, hoje é o dia delas, hoje elas é que vão brilhar, que vão permitir que outra chuva caia  e que as gotas sirvam para que ela possa, em cada uma delas,  desinfetar a alma e  possa reagir e ter esperança de que,  amanhã, tudo será bem diferente, que as suas dúvidas  já não existem, e que ela vai viver tudo o quanto ela  sonhou. 

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Novo! Será?

O último dia do ano chega sem que nada de diferente aconteça. As pessoas estão excitadas, parece que vai acontecer algo de diferente. Os sons se confundem; tudo ruim, mas há “axé” no lado, no fundo, na frente. Na casa da frente os “alquimistas”, mas uma vez, driblam o poder público e, descaradamente, fazem um réveillon na casa de “não eventos”, num desrespeito total, aos vizinhos, ao público em geral, ao poder público, que segundo informações, não concedeu o alvará de funcionamento; também não poderiam, pois a ilegalidade é flagrante, mas parece que “as alquimistas” não temem nada, estão acostumadas a desobedecer tudo, a ordem moral, a ordem legal, enfim, são favoráveis à “desordem”.
Os carros nas garagens disputam com os sons caseiros o primeiro lugar da poluição sonora. Quem é o mais capaz de poluir? Teve gente que colocou na porta da garagem que “aqui nesta casa há felicidade e alegria”, a que acrescentou-se: "e muitos surdos”.
É neste ambiente que ela está sozinha pensando como será possível dormir com tanta confusão. Não está com vontade de fazer nada. Chamaram-lhe para ir até a praça, mas ela não tem a menor coragem. A cidade está cheia, mas muito cheia de gente, o que é pior, de gente feia, mal educada, ignorante.
Não tem coragem, sequer, de se arrumar. Se arrumar para que? Mudar a roupa não muda o íntimo de ninguém. O que realmente devia acontecer, a cada começo de ano, era uma mudança no interior de cada um. Era acontecer coisas boas para todos, sem que isto estivesse, sequer, vinculado á um dia: o último dia do ano ou o começo do vindouro.  O pior de tudo é que se vê que esta euforia idiota não passa mesmo de uma falsidade, de mais um motivo para se ser falso.
O telefone toca, é alguém lhe desejando, falsamente, um feliz ano novo. Ela sorri, sabe que não é mesmo isto que querem, ao menos quem ligou, pois é a pessoa responsável por muitas angústias e muitas tristezas em todos os dia do ano, aliás, o ano de 2011 podia ser riscado do seu calendário. Um ano ruim, de dor, de sofrimento, de mais decepções, alguns momentos de felicidade “enganosa”, que sequer conseguiram, mesmo momentaneamente, afastar tanta tristeza.
Evidentemente que, para ela, desejar coisas boas para os outros, não é uma questão de virar o ano, é sim uma questão pessoal, de coerência. Gostaria muito que todos que a rodeiam, mesmo aqueles que a fazem sofrer  tanto, fossem felizes em todos os dias e em todos os momentos, independente de qualquer marco que fizesse uma troca numérica no ano.
As pessoas passam pela porta da casa, a cadela late, A rua esta cheia de carros estacionados o que dificulta, e muito, o trânsito, seja de automóveis, seja de gente, e mais uma vez ela questiona: Será que estas pessoas, que desejam um ano novo para outrem, não são capazes de perceberem que, estacionando o veículo na frente da garagem de alguém está procurando uma confusão? Será que não percebem que incomodam? Que o que se esta a fazer é errado? Não, para eles está tudo correto, quem está errado é quem fez aquela garagem ali, no meio da rua, impedindo que os carros estacionem. É uma inversão completa de valores,  de coerência. Se o pobre coitado dono da garagem fizer qualquer reclamação é taxado de encrenqueiro. Pode? E são estas mesmas pessoas que chegam e lhe desejam um bom Ano Novo. Para que? Para no próximo continuar a fazer a mesma coisa, ou um pouco pior?
Mais um som se confunde com os demais, claro que um outro pagode, não há outro ritmo por estas paragens, a não ser quando colocam o Silvano Salles no arrocha.  Há também a Paula Fernandes, mas é muito rápido, afinal não é dia de ouvi-la.
Outra ligação; mais um falso Feliz Ano Novo, este então chega mesmo a doer: Imagine que alguém lhe perde perdão do que faz com ela. Ela não ri; desta vez chora mesmo, porque sabe perfeitamente da falsidade deste pedido de perdão, até ele mesmo despropositado, porque não há nada para se pedir perdão e ela não tem nada para perdoar, cada um vive a sua própria vida fazendo o que acha que é correto, portanto, não há motivo para perdão.
Ligam outra vez, agora a ligação é do exterior, fica com pena de quem ligou; também a pessoa lhe deseja um grande ano novo, que ela sabe que esta pessoa não terá. Há dificuldades no seu país, teve corte em suas rendas, vai ser difícil segurar a onda daqui para frente, tem vontade de chorar, mas seguro o choro, não segura é um pouco da agressividade peculiar. A pessoa nota que ela esta nervosa, ela tenta disfarçar, mas não dá; sua voz lhe entrega, ainda assim deseja um feliz ano novo, como se aquelas palavras pré-fabricadas pudessem trazer algum ânimo àquela pessoa que sabe que nada vai mudar no ano que vem, ou melhor, a mudança que vai ocorrer será mesmo para pior.
Resolve então parar tudo, até de pensar, queria ter esta capacidade, se abstrair de tudo e todos e ficar em um momento, que fosse de total desligamento. Sabe que só vai ser tentativa, porque o som dos carros e das casas não permite tamanha proeza.
Desiste, escreve, registra: é bom para depois refletir e perceber que a sua vida é morna, não há variação na sua temperatura, tudo parece sempre se repetir, espera por coisas boas que não acontecem, recebe coisas más que não espera, mas chegam com uma grande facilidade, tenta afastar este pensamento, cobra-se, faz uma retrospectiva da sua própria estória, mas não adianta, a angústia é maior ainda.
Para tudo: chora, pede ajuda, mas também esta ajuda não chega, porque os ouvidos já se cansaram dos seus pedidos. Vai continuar pedindo ajuda para si e para os seus; não importa que quem tenha de ajudar esteja momentaneamente surdo, tem fé que a surdez seja passageira.
Não quer mais chorar; levanta-se, muda a roupa, vai para a rua, talvez, quem sabe, algo de novo possa aparecer e uma luz possa se acender. Vai ao mar, mergulha, espera que alguma coisa melhore; que Iemanjá possa levar metade das suas inquietações.
A cachorra está aflita, foguetes pipocam e ela treme, parece ter medo. Tudo enfim é desfavorável
E ela pensa: Será que pode desejar a alguém “Feliz ano novo”?

sábado, 17 de setembro de 2011

Dias opacos

São quatro e trinta da manhã. O dia vem surgindo lento, parece não querer sair da letargia que a noite lhe proporciona. Não quer despertar do seu sono tranquilo, ele dorme mais de oito horas, talvez, por isso mesmo, esteja ele hoje muito cansado, e, portanto  demorando mais para trazer a sua luz.

O sol não aparece. A noite trouxe a chuva e deixou as suas marcas: está escuro, nuvens  densas impedem que o dia venha com toda a sua força para esquentar o que ela esfriou.

A chuva continua a cair e a impedir que o dia acorde como deve de ser.

Tudo isto parece ratificar o seu estado de espírito; o universo parece querer lhe  mostrar o que lhe vai na alma, a dor que lhe invade o peito. Parece que os seus dias são sempre sombrios, não se aquecem. Também, como iria aquecê-los?  Para que o dia amanheça e o sol apareça e esquente a terra é necessario  que as nuvens  se afastem, que não tenha chuva, enfim que os obstáculos sejam afastados a fim de que os seus raios cheguem  esplendorosos, quentes, iluminando tudo, definindo as cores. Ela,entretanto, não consegue remover os obstáculos: os seus dias continuam sendo sombrios, mórbidos, sem luz.  Olha para os lados; paredes brancas parecem querer lhe dizer algo, algo que ela não entende, afinal paredes não falam, talvez escutem, todavia,  falar não falam.

O dia continua lutando para afastar os obstáculos, para eliminar os elementos  que  querem lhe deixar opaco; ela, ao contrário do dia, não tem forças para isto, parece ter se acostumado a viver  atrás de nuvens que lhe condicionaram a luminosidade. 

Não é feliz, bem sabe que não o é; a sua felicidade depende da felicidade de outrens. Ela jamais será feliz enquanto  outras pessoas, a quem quer bem, não o sejam. Ela bem que tenta mostrar um pouco de  brilho, para  tentar, não sabe se o faz, enganar as pessoas, a fim de que com ela não se preocupem e tentem encontrar os seus rumos, sem que a sua vida possa interferir em nada. Não quer dividir os seus problemas, as suas preocupações, as suas angústias e frustrações, sabe que se assim fizer, poderá impedir que alguém brilhe, que o sol apareça para aquela pessoa todos os dias, e ela sabe que não tem o direito de impedir isto.


Segue o seu caminho sozinha, um caminho que para muitos é de brilho, de vitórias, de conquistas e mais conquistas, mas ela sabe o quanto padece  para demonstrar um brilho que ela, seguramente, não tem, porque o universo conspirou contra si e lhe fez  assim, dissimulada, sem poder se mostrar como realmente é no seu interior.

Se para o público ela brilha e é forte, para si ela é opaca e frágil. É exigente consigo própria e,talvez, por isso mesmo, não consiga, ou pensa que não consegue, afastar os obstáculos para poder sair desta névoa que lhe consome  os dias, as noites, a sua própria existência.

Ah se eles soubessem dos seus  reais sentimentos, das suas reais intenções, dos seus medos! Não,mas eles nao podem saber, ninguém  vai penetrar neste mundo opaco interior que é o seu, ela não quer e nem tem o direito de fazer pessoas infelizes. Ela quer o brilho  para todos, quer  ver as pessoas felizes, quer que todos estejam e sejam iluminados; possivelmente tem algumas restrições em relação a alguns que ajudaram a sua vida á perder a cor, a ser sempre cinza,mas, ainda assim, quer que também estes brilhem, se recuperem.

Um dia, talvez, alguém  possa realmente notar o que lhe vai na alma, pode ser que alguém que tenha recebido muita energia e luz do sol, seja capaz de lhe retirar da neblina em que se encontra, alguém que lhe ensine que os dias  podem ser  frios,  mas eles não são motivos para fazer alguém se tornar tão opaco; alguém que possa lhe tirar desta angústia, desta solidão acentuada em que vive, preocupando-se em não demonstrar para quem ama tudo o que vai na alma, apenas e simplesmente porque os quer felizes, e por entender que não tem o direito de os fazer sofrer.

Sim, um dia quem sabe! Ela poderá realmente mostrar todo o seu brilho, não este que as pessoas pensam que ela tem, mas aquele que ela realmente terá, quando todas as as névoas forem afastadas, não só as da sua própria vida, mas da vida das pessoas a quem ama e que quer ver bem.

Retira força de si própria, remoe a  sua  própria vida para ver se consegue, ao menos, um lampejo que seja, para, como se fosse um feixe de luz entrando por uma fresta da janela da alma, lhe dizer que tudo é possivel, que ela poderá encontrar este alguém ou algo, que lhe possa ajudar a colorir os seus  cinzentos dias, e que ela possa sentir toda a quentura do sol, lhe dando vida, energia, lhe fazendo “viçosa” e feliz.

Que este dia chegue logo! O tempo está passando muito rápido e, qualquer dia, ela nem mesmo conseguirá  ver a beleza que é um dia de muito sol, o que, ainda, lhe reconforta a alma, pois, nestes dias, tem a tênue esperança de que tudo, de um momento para o outro, como num passe de mágica, possa mudar e permitir que ela se mostre sem qualquer máscara, sendo apenas ELA.




sábado, 19 de fevereiro de 2011

Solidão compartilhada

A casa é grande o que lhe dá a verdadeira noção da sua solidão. Para que uma casa tão grande assim? Ela não pretende dormir em cada quarto, sozinha, a cada noite, revezando entre eles os seus segredos, as suas tristezas.

Já não entra no seu próprio quarto, ele é a própria solidão, uma solidão compartilhada pelo quadro da parede, que, ironicamente, mostra um casal beijando-se, um beijo de amor. O quadro é de Abelleira, amigo dela. Tem medo, o autor do quadro é falecido e ela lembra que pode morrer também, talvez mais rápido, por causa da sua solidão.

Entra no banheiro do seu quarto, vai limpá-lo. Se sente estranha, a porta do box está mais leve, tão leve que, como ela, está descontrolada; resultado, corre no trilho e o puxador é quebrado, quebra exatamente em um lugar onde não tem recuperação. O pequeno puxador quer lhe dizer alguma coisa, também ele quer dizer que está sentindo uma imensa tristeza, está só, não é utilizado, ninguém mais usa o banheiro e ele perdeu a sua função.

Tudo seco, árido, o banheiro não tem mais uso, aquilo que outrora era disputado por tantos perdeu o seu papel, o seu status. Agora ele, também, é um recordante, vive de recordar, olha para a solitária figura que quer limpar o que está oco, limpo exatamente pela falta de uso, e pede silenciosamente: “ao menos dê uma descarga, deixe a água correr pelas minhas entranhas, deixe lubrificar os canos,  me deixe desaguar em algum lugar. Obedece: dá descarga, a água abunda, o som entrando goela abaixo do vaso sanitário dá a sensação que os canos lhe agradecem.

Abre a torneira da pia, a água sai fininha no começo, depois um jato mais forte, mas é preciso algum tempo para que a torneira perceba que foi aberta, que precisa cumprir a sua obrigação: deixar a água rolar, bem verdade que para nada, a não ser para desenferrujar um pouco, lubrificar os canos. Fica olhando água cair e entrar pelo ralo, tem a sensação que estão engolindo os seus sonhos.

Sai dali, vai até o o que deveria ser um gabinete, abre a porta do guarda-roupa, a solidão ainda é mais assustadora, o armário está cheio de roupas em desuso, roupas que não lhe pertencem, na verdade não pertencem mais a ninguém, apenas ficam ali esperando que algum “dono” venha buscar e retire o passado do seu presente.

Segura o choro, fecha as portas do guarda-roupa. Antes, porém, vê um terno azul de linho e lembra que quem o usava ficava bem naquela roupa. Olha, ainda, um pouco as camisas “lacoste” de listras, são lindas, mas não tem utilidade alguma, apodrecem dentro das gavetas. Uma caixa plástica transparente mostra o seu conteúdo: ali tem gravatas e meias, certamente as gravatas já não seriam usadas, pelo tempo já caíram de moda. As meias por sua vez, devem estar rasgando. O tempo é cruel, o salitre também, mas ela não se atreve a abrir a caixa, com certeza choraria mais.

Olha o frigobar, que, também, mostra as marcas do desuso e do tempo: esta todo enferrujando, com certeza, não deve mais funcionar, mas ali nada é tirado. Tudo fica ali como está. Só vai ao quarto mesmo para limpá-lo, nada mais, não aguentaria.

Fecha a porta do passado atrás de si, desce as escadas rumo ao presente, sabendo que não é bem assim, a casa fala a toda hora, lembra o que ela quer esquecer. Esta encurralada dentro dela, os seus sonhos foram congelados em seus cômodos. Os sonhos não seguiram os seus rumos, pararam no meio e o acordar lhe dá sensação de que nunca existiram, é como se uma névoa sempre estivesse ali pairando encobrindo tudo.

Nada mais existe, continua como uma estranha dentro da casa que não é mais a “sua casa”, até porque nunca a queria assim. Foi uma casa de dois, portanto nunca será a “sua casa”, tudo lhe mostra isto.

Está perdida entre as paredes procurando o mínimo de identidade com a sua própria vida. Não, não existe nada, tudo o que ali está é um passado que insiste em ser presente, um presente que ela quer que seja o próprio passado voltando, sabendo da certeza da impossibilidade.

Precisa sair dali, quer sair dali, mas não tem para onde ir, tem de se conformar, tem de tentar esquecer ali dentro das paredes que não a deixam viver, a sua vida atual é limitada pelas sobras do que um dia, naquela casa, se chamou felicidade.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

POEMAS

Todos nós temos um poeta dentro de nós, basta uma grande alegria, um grande felicidade, ou uma imensa dor, e a gente  resolve fazer poesia; umas muito boas, outras muito ruins,todavia, poesia.

Nasci par ter saudades

Parece que nasci para ter saudades!

Saudades de meus pais quando fui interna;

Saudades dos colegas quando sai do internato;

Saudades da minha infância quando virei adulta;

Saudades do primeiro amor quando ele se foi;

Saudades do meu filho quando ele partiu;

Saudades do meu amor quando ele deixou de me amar;

Saudades do dia em que conheci um outro amor;

Este, se foi para nunca mais voltar mesmo.

Saudades de você, que ainda hoje insiste em estar aqui

Dentro de um não saber de você que dói mais que a

Própria saudade.

Arembepe, Brasil, 2009



O que me fizeste

Não tens dimensão do que me fizeste

Tiraste-me o prazer de te saber meu

De te saber tão próximo que às vezes queria ter-te mais longe

Somente para cobrar a tua presença viva e forte

Não sabes o que me fizeste

Afastaste-me do amor real,

Vivo, quente, sentido,querido

Tenho agora só saudades

Saudades de ti, do corpo colado

Das tentativas do não amor

Ah! Se soubesses o que fizeste-me

Certamente procurarias um meio de desfazer a dor que me causaste

Me pegarias nos braços, me levarias para o aconhego,

E ficaria a meu lado como sabes que gosto, apenas ali, juntos,

Talvez de mãos dadas, apenas sentindo a presença um do outro

Escutando a respiração contínua, pausada, calma

Com a certeza de que se quer estar, nada mais que, “juntos”

Melides,Portugal, 2008



O que a tua falta faz

A tua falta me faz amarga,

Fria, agressiva, dura.

A tua falta me deixa seca, infeliz, feia.

Não acho graça da graça,

Não gosto de pessoas felizes,

Quero sombras, escuridão, infelicidade

Tudo isto faz parte do meu hoje,

Que não tem amanhã, pois não o quero,

Ele não me traz você, apenas me afasta do que amo

Melides, Portugal, 2008