sábado, 17 de setembro de 2011

Dias opacos

São quatro e trinta da manhã. O dia vem surgindo lento, parece não querer sair da letargia que a noite lhe proporciona. Não quer despertar do seu sono tranquilo, ele dorme mais de oito horas, talvez, por isso mesmo, esteja ele hoje muito cansado, e, portanto  demorando mais para trazer a sua luz.

O sol não aparece. A noite trouxe a chuva e deixou as suas marcas: está escuro, nuvens  densas impedem que o dia venha com toda a sua força para esquentar o que ela esfriou.

A chuva continua a cair e a impedir que o dia acorde como deve de ser.

Tudo isto parece ratificar o seu estado de espírito; o universo parece querer lhe  mostrar o que lhe vai na alma, a dor que lhe invade o peito. Parece que os seus dias são sempre sombrios, não se aquecem. Também, como iria aquecê-los?  Para que o dia amanheça e o sol apareça e esquente a terra é necessario  que as nuvens  se afastem, que não tenha chuva, enfim que os obstáculos sejam afastados a fim de que os seus raios cheguem  esplendorosos, quentes, iluminando tudo, definindo as cores. Ela,entretanto, não consegue remover os obstáculos: os seus dias continuam sendo sombrios, mórbidos, sem luz.  Olha para os lados; paredes brancas parecem querer lhe dizer algo, algo que ela não entende, afinal paredes não falam, talvez escutem, todavia,  falar não falam.

O dia continua lutando para afastar os obstáculos, para eliminar os elementos  que  querem lhe deixar opaco; ela, ao contrário do dia, não tem forças para isto, parece ter se acostumado a viver  atrás de nuvens que lhe condicionaram a luminosidade. 

Não é feliz, bem sabe que não o é; a sua felicidade depende da felicidade de outrens. Ela jamais será feliz enquanto  outras pessoas, a quem quer bem, não o sejam. Ela bem que tenta mostrar um pouco de  brilho, para  tentar, não sabe se o faz, enganar as pessoas, a fim de que com ela não se preocupem e tentem encontrar os seus rumos, sem que a sua vida possa interferir em nada. Não quer dividir os seus problemas, as suas preocupações, as suas angústias e frustrações, sabe que se assim fizer, poderá impedir que alguém brilhe, que o sol apareça para aquela pessoa todos os dias, e ela sabe que não tem o direito de impedir isto.


Segue o seu caminho sozinha, um caminho que para muitos é de brilho, de vitórias, de conquistas e mais conquistas, mas ela sabe o quanto padece  para demonstrar um brilho que ela, seguramente, não tem, porque o universo conspirou contra si e lhe fez  assim, dissimulada, sem poder se mostrar como realmente é no seu interior.

Se para o público ela brilha e é forte, para si ela é opaca e frágil. É exigente consigo própria e,talvez, por isso mesmo, não consiga, ou pensa que não consegue, afastar os obstáculos para poder sair desta névoa que lhe consome  os dias, as noites, a sua própria existência.

Ah se eles soubessem dos seus  reais sentimentos, das suas reais intenções, dos seus medos! Não,mas eles nao podem saber, ninguém  vai penetrar neste mundo opaco interior que é o seu, ela não quer e nem tem o direito de fazer pessoas infelizes. Ela quer o brilho  para todos, quer  ver as pessoas felizes, quer que todos estejam e sejam iluminados; possivelmente tem algumas restrições em relação a alguns que ajudaram a sua vida á perder a cor, a ser sempre cinza,mas, ainda assim, quer que também estes brilhem, se recuperem.

Um dia, talvez, alguém  possa realmente notar o que lhe vai na alma, pode ser que alguém que tenha recebido muita energia e luz do sol, seja capaz de lhe retirar da neblina em que se encontra, alguém que lhe ensine que os dias  podem ser  frios,  mas eles não são motivos para fazer alguém se tornar tão opaco; alguém que possa lhe tirar desta angústia, desta solidão acentuada em que vive, preocupando-se em não demonstrar para quem ama tudo o que vai na alma, apenas e simplesmente porque os quer felizes, e por entender que não tem o direito de os fazer sofrer.

Sim, um dia quem sabe! Ela poderá realmente mostrar todo o seu brilho, não este que as pessoas pensam que ela tem, mas aquele que ela realmente terá, quando todas as as névoas forem afastadas, não só as da sua própria vida, mas da vida das pessoas a quem ama e que quer ver bem.

Retira força de si própria, remoe a  sua  própria vida para ver se consegue, ao menos, um lampejo que seja, para, como se fosse um feixe de luz entrando por uma fresta da janela da alma, lhe dizer que tudo é possivel, que ela poderá encontrar este alguém ou algo, que lhe possa ajudar a colorir os seus  cinzentos dias, e que ela possa sentir toda a quentura do sol, lhe dando vida, energia, lhe fazendo “viçosa” e feliz.

Que este dia chegue logo! O tempo está passando muito rápido e, qualquer dia, ela nem mesmo conseguirá  ver a beleza que é um dia de muito sol, o que, ainda, lhe reconforta a alma, pois, nestes dias, tem a tênue esperança de que tudo, de um momento para o outro, como num passe de mágica, possa mudar e permitir que ela se mostre sem qualquer máscara, sendo apenas ELA.