sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Galinha ao Molho Pardo! Quer mais?

E lá se foram todos. Ela e o companheiro, a amiga e o marido, e muitos outros. Era um evento jurídico, portanto, aqueles que quisessem, inclusive receber títulos e louvores, estavam lá.

Diferentemente da grande maioria, ficaram hospedadas em um hotel que pertencia a um antigo e bem quisto, serventuário da Justiça, daqueles que ganham mais de que os pobres e coitados substitutos, e até mesmo titulares, os ex antigos “chefes de secretaria”.Bem verdade que, quando começou a “juizar”, só restavam três deles, mas isto nunca impediu, que eles, sapientemente, diferentemente dos mais jovens, preservassem as antigas amizades com os seus “superiores” e conquistassem alguns, nem tão superiores assim, mas que, pela liturgia do cargo, deveriam ser assim ser considerados.

O certo é que um deles tornou-se proprietário de uma bela e rústica pousada em São Jorge dos Ilhéus, onde aconteceu o evento. Um Congresso, do qual já não se recorda o nome, pois que todo o Congresso que se preza tem um tema, que, vira um nome  pelo qual é divulgado, e que, na sua repetição anual, ganha o romano correspondente.

Ficaram nesta pousada, ela e o companheiro, sua grande e, à época, inseparável, amiga mais o marido, uma xará da sua irmã, e mais um futuro, senão, já eleito Presidente do respectivo Tribunal, bem como a família desse.

O ambiente era o melhor possível. Comparecia-se às conferências, mas depois as conferências piscinais eram mesmo interessantes, com certeza, muito mais que as primeiras, embora tivessem de se fazer presentes a essas, afinal tinham que dizer a que foram.

Apesar da existência do buffet no restaurante do hotel onde o evento se realizava, bem como uma grande quantidade de restaurantes oferecidos pela bela e turística cidade de Ilhéus, eternizada e internacionalizada por “Gabriela” de Jorge Amado, que mostrou ao mundo a sensualidade de se mostrar uma “calcinha” a “baiana”, com gosto de quibe e mais outras guloseimas, afinal o “cacau” do Nacib também restou internacionalizado, virando uma vedete chocolatada, produto de exportação, variando de tamanho ao gosto de cada cliente, voltavam ao hotel. Bom, o certo é que, mesmo com toda a oferta gastronômica da cidade, este grupo quedava-se na pousada onde se fazia uma comida caseira de excelente qualidade.

A primeira experiência do grupo ao optar pelo restaurante da pousada foi maravilhosa, pois todos, sem exceção, apreciavam uma boa “galinha a molho pardo”, todos sabem o que é, não é? Aquela galinha que se faz com o sangue da bicha. Em alguns lugares chamam de galinha de cabidela. Em Portugal tem arroz á cabidela. A galinha é feita juntamente com o arroz que é cozido no próprio caldo sangrento. Não adianta fazer cara de nojo, a porra é boa mesmo.

O frango, que era de quintal, estava maravilhoso, no ponto mesmo: nem mole e nem duro, com aquele aspecto que só frango criado em quintal tem, a pele parece que esta bronzeada e fica rija, não se desfaz quando cozinha, os pedaços ficam inteiros e definidos. O seleto grupo comeu que se enfartou. Os da cidade, que não acham mui facilmente o prato feito com frango de quintal, se deliciaram mesmo. Como estavam em um grupo muito seleto, não estavam muito preocupados com a boa educação, e o frango foi comido como deveria ser, com os ossos chupados, mastigados, nervinhos trucidados.

Dia seguinte, não se almoçou na pousada, alguns do grupo foram comer em um restaurante que servia bacalhau. Ótima pedida.

De volta ao hotel, a tarde convidava ao ócio, os dorminhocos de plantão foram tirar a sesta, era muito melhor não fazê-lo, porque os miseráveis iam dormir, enquanto os outros, que não tinham este hábito, ficavam bebendo na piscina, e aí, quando os “sacanas” levantavam fagueiros, os não dorminhocos estavam para lá de “altos”, mas tinham que fazer companhia aos descansados e, claro, ficavam muito mais altos ainda, à exceção de um deles, que sempre parecia não ter bebido nada, diziam alguns, que ele tinha uma enzima que lhe chupava todo o álcool ingerido, qualquer coisa deste tipo.

Bom, o certo é que, lá pelas 9 da noite, começam a chamar para o jantar. Lógico que depois de tanto álcool, nada melhor que uma boa comidinha caseira. Que seria hoje? Qual a surpresa?

Todos se dirigiram ao local das refeições. E aí, para surpresa dos comensais: Galinha de molho pardo! Sem qualquer outra opção. Ótimo. Como a anterior, estava muito boa mesmo, comeu-se à vontade. Digestivos na piscina, comentários sobre a galinhada, enfim, mais uma etapa vencida. Sono profundo

Dia seguinte, salvo engano, ultimo dia do evento. O jantar seria no local das conferências, jantar de despedida. Todos tinham de estar sóbrios, afinal, ali estava uma boa parte da população jurídica do Estado, e, portanto, estes pobres viventes tinham de bem se apresentar para não se tornarem alvos de críticas, futricas, comentários maldosos, embora nem todos tivessem esta grande preocupação.

Deram uma volta pela rua, mas voltaram e resolveram que, mais uma vez, iriam almoçar na pousada, ficar por ali pela piscina, tomar algumas, dar uma dormida, coisas deste tipo, para estarem bem apresentáveis à noite.

E assim se fez. Na beira da piscina foram servidos: peixes fritos, camarões, azeitonas, outros petiscos, cerveja com moderação alguma. Chegada a hora do almoço, que sempre era mesmo à ultima hora permitida, o séquito do presidenciável ou já presidente, vai se acomodar nas suas mesas ,e adivinhem qual era o menu! Claro! Galinha de molho pardo! Tudo bem que se goste deste prato, mas porra, comer três vezes seguida a zorra, fica meio difícil, inclusive porque o sangue dá um gosto adocicado, e a sua repetição, pode causar alguma náusea. A risada foi geral, pelo menos da mesa dela e da amiga e de seus respectivos companheiros. Duas pessoas críticas, como eram as duas, não paravam de rir e de gozar aquela situação, até que, o álcool e a intimidade permitiam, chamaram o dono da pousada, o antigo chefe de secretaria e lhe perguntaram qual o motivo de só servir “galinha de molho pardo”. Êle, muito convicto, disse: a maioria gosta. Bom! As duas entreolharam-se, e mais uma vez, desataram a rir. Ficaram a olhar as pessoas que ali estavam, eram muitos, bem verdade, mas não era possível que uma maioria gostasse tanto assim deste tipo de galinha que não pudesse existir uma variação. E aí, a mais sacana, faz a pergunta: e quem é esta maioria? O Homem, sem pestanejar e sem qualquer constrangimento: A maioria é o presidente (ou presidenciável).

Caíram todos na risada, mas não tiveram outra alternativa senão comer, pela terceira vez consecutiva, e pasmem! Pagando, GALINHA AO MOLHO PARDO!

Assim, se você estiver em um lugar em que esteja também um presidente ou presidenciável, seja de Tribunal, seja de Clube, seja de associação desportiva, seja da porra que for, tenha o cuidado de perguntar qual o seu prato predileto, pois você pode não ter o mesmo gosto da “maioria”, que, como sempre, vence e, no presente caso, COME. Bom Apetite!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lisboa te espera

Não me canso de falar de Lisboa. Não sei como uma cidade tão pequenina pode ser tão bela, dar tanta alegria aos olhos.

Uma cidade que surpreende a cada dia! Quanto mais se anda pelos seus becos e ruelas, mais se descobre lugares lindos e bucólicos. Por vezes achamos que não estamos em uma capital, de tão sossegada que ela se mostra em alguns sítios. Chegamos a duvidar que estejamos no centro de Lisboa. Possivelmente isto se agradece, e muito, às suas ladeiras e escadinhas e, mais ainda, aos seus becos, que, aqui para nós: são extraordinários. Para nós brasileiros que, quando falamos em beco, temos até arrepio, Lisboa é uma amostra do que pode ser um beco. Tem gente aqui em Lisboa que nasceu, cresceu, vive e vai morrer em um deles. Ali, naquele mínimo espaço, há um mundo de amor, respeito, solidariedade. Enfim, em cada um destes becos podemos dizer que há uma família, com brigas, discussões, barracos, mas tudo se acaba quando a raiva passa, e o beco retorna á sua paz, com as roupas secando nos varais, numa harmonia de cores, bandeirolas gigantes de diversos formatos, de tetas a cuecas, estas últimas, usadas por mulheres.

Há becos de todas as maneiras: mais largos, mais estreitos, sem saída, em escadarias, em ruelas. Há os que começam com uma arcada, parecendo avisar que, aquele espaço é privado, tem dono, não se devendo ultrapassar as suas fronteiras, mas a gente não respeita este aviso e entra nele e se maravilha sempre. Cada um tem uma característica particular: do sujo, ao extremamente limpo e calmo. Do que tem flores nas sacadas das casas, aos que mostram sisudez, com as janelas hermeticamente, como diria minha amiga Malena, cerradas.

Gosto, particularmente, de andar pelas ruas de Alfama, de chegar até a Graça, de passar pela Costa do Castelo. Há uma profusão de escadinhas e becos em todos os lados. As escadinhas exigem preparo físico, são enganadoras. A gente pensa que ela está acabando, mas, uma virada para a esquerda, ou talvez para a direita, ela ainda está lá, esperando lhe vencer, literalmente, pelo cansaço. Nunca desista no meio de uma escadinha de Lisboa, você jamais saberá o que poderá perder se não alcançar o último degrau, isto também se aplica às ladeiras, isto é, não desista na metade de nenhuma delas, vá até o fim.

Esta semana, no sábado passado, depois de muito andar na “feira da ladra”, onde já lhes disse, vende-se de tudo; qualquer dia destes não vou me surpreender se encontrar um rolo de papel higiênico usado; é só o que falto ver, pois penico sem alça, tampa de vaso sanitário quebrada, lixeiras desbotadas, sapatos velhos e usados, chaves que não abrem mais nada, cadeados fechados sem chave, já perdi a conta. Enfim, se você vier a Lisboa e quiser e puder, traga as suas velharias, não são antiguidades, são velharias mesmo, quem sabe tem a sorte de alguém ser tão louco, que ache que vale a pena comprar o que você já não dá mais qualquer valor, parece que aqui, mais de que em outro lugar, nada se perde: tudo se recria. Bem...! Saí da feira da ladra e resolvi fazer um caminho diferente, até porque queria tirar foto do “urinol”, lembram? Resultado: sai na Costa do Castelo. Andei muito, estive em um bar que chama-se: “Restô do Chapitô”. Lembrem este nome, e se um dia estiverem em Lisboa, não deixem de lá ir. Tomei umas duas cervejas e continuei a marcha. Vim dar no Bar de Santo André. Como não queria, ainda, voltar para casa, e ainda era cedo para almoçar, resolvi que iria à Graça, e foi o que fiz. Atravessei a rua, subi a ladeira e segui para a esquerda, sempre em frente. Por ali vai dar na Igreja, onde fiquei por algumas horas. Eu não vou falar nada, vejam vocês mesmo, ainda que a foto seja uma porcaria, quero dizer, a fotógrafa não é boa.


Dali, depois de mais cervejas, sai para alcançar o Martim Moniz, isto descendo as escadinhas e becos. Perto de chegar à descida, que daria mesmo na Praça Martim Moniz, e que é a que sempre desço quando faço este percurso, vi uma subida. Pensei comigo, esta eu não conheço, portanto, não custa nada subir. Para melhor localizá-los, quando vocês aqui vierem, a subida fica quase em frente ao restaurante “Via Graça”, que como o nome já indica, fica na Graça mesmo. Ir a este restaurante, se você tiver cacife, é imperdível, embora eu, pessoalmente, não possa atestar a qualidade da comida, mas a vista é extraordinária. Bom, mas eu não quero falar de restaurante, porque se assim fosse, não poderia esquecer do “Faz Figura”, que fica logo ali, bem pertinho da feira da ladra. Este eu atesto, comida e vista.

O certo é que subi a tal da ladeira. É uma ladeira pequena, bem verdade, mas é muito íngreme, e quando a gente chega ao topo tá mais para morto do que vivo. Respire fundo! Você vai precisar de todo fôlego, porque o que vai ver é de prender a respiração.

Lisboa está a sua esquerda. Vire-se e fique de frente para ela. Não tenha medo, seu coração vai resistir, você só vai prender a respiração porque vai ser necessário. É tanta beleza que você tem de registrar de maneira intensa, e, por isso mesmo, tem de dar um grande e alongado suspiro. É como se você estivesse ali no Monte Serrat, em Salvador-Bahia, olhando para a Baía de Todos os Santos lá do alto e de longe, estou falando somente da sensação, porque não dá para comparar belezas tão diversas. Estamos no miradouro de Nossa Senhora do Monte. Daí você vê uma boa parte de Lisboa. Chegue mais para frente. Veja o Castelo de São Jorge, tenha a ilusão que ele está erigido numa ilha: é só uma ilusão. O que acontece é que, quando olhamos dali, parece que ele esta no meio do Tejo, dividindo-o numa parte direita e numa esquerda.

Fique de bobeira aí. Sente nos banquinhos do jardim, de todos os êles você terá uma visão magnífica, vendo ou não o Tejo. Há um terraço neste monte que me desperta uma inveja da zorra dos seus proprietários. Pense que os sacanas, no dia em que lá estive, estavam tomando sol, com direito a “chapéu de sol” e tudo, incluindo água, o que era um desperdício. Do terraço eles têm a visão privada do que é público, e de um ângulo só deles. Nós, brasileiros, íamos fazer farras homéricas naquele terraço e, certamente, não seriam regadas á água.

Vou ficar por aqui, mas ainda vou mostrar muito de Lisboa para vocês. Deliciem-se, ainda que as fotos sejam péssimas. Até a próxima.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A pedra verde


Floresceu em setembro, embora isto não seja, na sua família, um privilégio só seu, pois tem mais dois irmãos que, também, cumprimentaram a primavera. Parece que o verão tinha um efeito afrodisíaco para os seus pais, pois quatro dos filhos foram fabricados no verão, com certeza, e nasceram entre setembro e outubro, os outros dois desvirtuaram, nasceram no verão: janeiro e fevereiro.
O fato é que a primavera chegou e com ela a nossa flor, que, por ironia, não tem nome de flor, talvez porque a queriam forte, colocaram-lhe o nome de uma pedra. Claro que não uma pedra qualquer, não teria nenhuma graça ser chamada de diamante, ametista, topázio, turmalina; nenhuma dessas seria apropriada para a pessoa que teria de se apresentar sempre como uma fortaleza. Escolheram, talvez, não a mais valiosa, mas com certeza a mais bonita, a mais transparente, a mais verde delas, ressalte-se que, segundo os entendidos, o valor desta pedra se determina pela cor, tamanho, pureza e brilho.
Assim que, com dois atributos importantes veio ao mundo; o primeiro por ter nascido na primavera, estação em que tudo floresce; época em que, até o mais feio do mais feio fica bonito, porque tudo se transforma: as árvores estão mais verdes e cheias de folhas e flores, as cores ganham nuances diversas das normais, o arco íris desce e espalha as suas cores nobres, dando vida a tudo e encantando a todos. Depois, foi brindada com o seu nome, verde e forte como convém a uma pedra do seu quilate, e não só, também por ser o nome de uma Deusa Sagrada Inca, que aviva o coração e a inteligência e ainda tem poderes de cura. A estes dois atributos junta-se um terceiro: ter nascido no dia da “sorte”, não que a tenha tido sempre, mas nascer num dia treze pode ser um grande sinal, para aqueles que sabem aproveitar as oportunidades que a vida oferece. A evolução do ser que nasce num dia 13 é visível, quanto melhor quando é associado ao nome da pedra verde, porque dizem que esta também tem ligações profundas com a renovação da natureza. Passa-se por tudo, mas se sai de todas as situações, ainda que não vitoriosos de todas elas, consegue-se aprender com as derrotas, esperando sempre que estas signifiquem vitorias de outrem. Por último, mais um se adita aos demais, que é ser virginiano, no caso dela chata, meticulosa, critica, céptica, mas verdadeira, terrena, arrumada, organizada, solidária e, extremamente, responsável.
Teve uma vida atribulada é verdade, cheia de problemas, aliás, que não foram fabricados por ela, porque ela é uma mulher de soluções, e não de problemas, por isso mesmo formou-se em direito, para arrumar soluções para problemas dos outros. Não contente com a advocacia, procurou uma maneira maior de solucionar problemas, é certo que se especializou em apenas um ramo das soluções, mas com trabalho resolveu muitas questões do “trabalho”.
Trabalhou muito, mostrou a que veio, afastou-se das lides, mas não do trabalho. Continua tentando, senão resolver problemas, encontrar as justificativas para a existência deles em determinada área. Eclética, afastou-se mudando o rumo da sua “história” para tentar reproduzir a “história” de outros. Se de brancos ou pretos, não interessa, ao conhecimento não importa cor, sexo, idade.
Sempre a taxaram de louca, quanto pior quando tomou a decisão de se afastar da “justiça” e procurar descobrir a “Mama África”. Alguns lhe dizem que é surpreendente, outros, que é “louca” mesmo! Muitos outros adjetivos já lhe foram aplicados, desde “estupenda” até “inexpressiva”, naturalmente quem lhe deu este último deve se arrepender até hoje de tê-lo feito um dia, até porque, tornou-se inexpressivo, portanto, as palavras ditas deixaram de ter qualquer valor. Ela sabe, perfeitamente, que, jamais, em momento algum, em qualquer circunstância foi, ou será, “inexpressiva”.
Louca ou não, inexpressiva ou não, reproduziu, não como queria, mas o fez. Esperança, com certeza, é o que não lhe falta, talvez por esta, também, ter a cor verde, e, por isso mesmo, continuará aguardando que o rebento, como a primavera, “rebente”, aconteça e mostre todo o seu colorido e todos possam perceber que, alguns precisam de mais tempo, e de dar mais cabeçadas para passarem pela vida com sucesso, afinal, nem todos nascem no dia 13 e nem em setembro, passam do tempo e da hora e ficam “balançados” até que encontrem o equilíbrio necessário. Até lá estão marrons, mas, com certeza, ganharão o brilho do dourado, porque o marrom vai clarear tanto que chegará ao “ouro”, ao resplandecente, embora nada e nem ninguém jamais ofusque a pedra verde, por mais tentativas que façam.
Hoje a pedra verde faz 57 anos. Não há comemorações, pois o nascer na primavera já é uma comemoração que se renova a cada ano. Não é preciso de nada, sequer das lembranças dos demais, lembranças que podem ser mais uma obrigação de que qualquer tipo de “sentimento”, por isso mesmo nunca gostou de dividir com ninguém o seu momento, seja em tempos de “vacas gordas” seja em tempo de “vacas magras”.
Ultimamente tem passado só a “passagem dos seus anos”, o seu ano novo, que é só seu. Um ano novo que sempre espera “esperançosamente”, seja melhor do que o anterior, mas numa comemoração solitária, embora dividida com o universo, se necessário, pois sempre está apta a solicitar a ajuda dele para todos, os bons e os ruins, os que lhe fizeram mal e os que lhe fizeram bem. Os maus para que tomem bem noção dos erros praticados e das conseqüências que advirão deles, pois tem certeza que nada, e nem ninguém, escapará da lei universal da causa e efeito; os bons para que sigam em frente cada dia melhores.
Sejam felizes, e acreditem: é um privilégio ser treziano, virginiano, ser forte (pedra) e ter o nome da cor da “ESPERANÇA”. Todavia, atenção! A pedra verde é sensível, qualquer queda, qualquer mudança de temperatura pode causar-lhe dano, e nada pior de que uma preciosidade desta riscada, marcada por elementos exteriores. Também não lhe seja infiel, pois, de acordo com a lenda, isto pode lhe tirar o brilho e a cor. De qualquer maneira, ser dono de uma pedra desta, ou melhor, tê-la à mão sempre que necessário é privilégio de muito poucos, portanto, se você é um privilegiado, conserve e trate muito bem dela, o seu valor é inestimável, se você não tem, não se preocupe, vá à Colombia, lá tem um museu que lhe é dedicado, porquanto não só de pó aquilo lá vive.

domingo, 5 de setembro de 2010

Minha Mãe e a Pátria Amada


O consultório do Dr. Renato ficava na Rua Chile, no prédio onde fucionava  a Associação dos Comerciários da Bahia, ou talvez o Sindicato deles, não me lembro bem. Naquela época, salvo engano, morávamos em Itapagipe, no Armazém Brasil, que era explorado por meu pai, que explorava a minha mãe, que além de fazer os serviços da casa, embora nisto fosse ajudada por mim, que era obrigada a passar óleo de “peroba”, aquele que tinha o rosto de um cacique no rótulo, nos rebuscados móveis da casa; tomar conta dos filhos, que à época eram ainda três, ainda tinha de fazer toda a comida que era servida no bar, além de ajudar no balcão.

Bom, mas todo este labor não impedia que fôssemos, ao menos, de seis em seis meses, ao dentista. Íamos eu, a minha mãe, minha irmã Elisa e Tininho. Eram muitas pessoas na sala de espera, que, se bem me lembro, ficava no corredor: cadeiras de um lado e de outro encostadas nas paredes, o ambiente era escuro, o chão de tabuado e as paredes, salvo engano, eram divididas até a metade com um espécie de papel de parede, uma madeira que circundava toda ela, e acima desta madeira vinha a pintura normal com tinta.

Eu sempre ficava encantada com o prédio da Associação, um prédio centenário, que ainda hoje existe; está lá, muito velho, quase caindo aos pedaços, mas continua em pé, com a sua imensa porta de madeira de dois lados. Fica na esquina da Câmara Municipal de Salvador, na mesma praça, para quem não sabe, do Elevador Lacerda.

A entrada do prédio é por esta rua lateral, mas o prédio tem toda a sua fachada do lado esquerdo, na Rua Chile, de frente ao Palácio Rio Branco, antiga sede do Governo da Bahia. Não me lembro se nesta época a minha tia Aércia já trabalhava, mas fui, muitas vezes, ao Palácio vê-la, pois, em algum período ela trabalhou ali com certeza, acho que pelos idos de 66-67, quando tinha eu entre catorze quinze anos, até porque adorava ser elogiada por um colega dela, um moreninho, de quem que já não lembro o nome.

Continuando, o prédio da Associação tinha uma escadaria linda, e tinha um elevador, daqueles que a porta é uma espécie de sanfona, toda de cobre, acho que era este o material, mas de um tipo maleável, que permitia que ela encolhesse e liberasse a saída. Ainda temos alguns prédios que tem estes elevadores; em Lisboa, então, é muito comum. A cabine era minúscula e só cabiam três pessoas, mas de que isto era suicídio, portanto, quase sempre, tínhamos de subir as escadas, pois o consultório do dentista era no segundo andar.

Chegávamos à ante-sala e ela já estava cheia, afinal não se pagava nada pelo serviço de dentista, ou melhor, os comerciários davam a sua contribuição mensal, e recebiam o atendimento, para si e para os familiares, o que era o nosso caso.

Como, às vezes, passávamos horas a aguardar a vez, minha mãe aproveitava o tempo para exercitar uma função que lhe era nata: ensinar. Sempre levávamos lápis e cadernos. Um de nossos cadernos, não esqueço até hoje, aliás, uma pratica que deveria ainda existir, tinha na capa de frente uma paisagem com árvores, bichos, representando a natureza do Brasil, se bem que em tinta azul; e na capa de fundo, a letra do Hino Nacional.

Minha mãe fazia ditados, ou seja; falava um texto e eu e Elisa tínhamos de copiá-lo, depois ela via os erros e corrigia-os, não sem um grande sermão, e às vezes um tapinha nada recomendável. Um dia ela resolveu que nós tínhamos de ler toda a letra do Hino Nacional, o que fizemos; depois, de linha a linha, ela procurava tirar de nós o que entendemos daquela leitura, qual o significado daquela frase. Lógico que este exercício, dado ao tamanho do hino, não acabou ali, passamos, eu e Elisa, dias a analisar aquela letra gigantesca que descrevia o Brasil em toda a sua plenitude e grandeza.

Não gostamos nada disso, nem eu e nem Elisa, mas hoje agradeço imenso a minha mãe ter nos obrigado a este exercício de interpretação. Aliás, este estudo detalhado da letra do nosso Hino Nacional deveria ser um exercício normal e cotidiano entre todos os estudantes do ensino médio no Brasil. Sou do tempo que, mesmo iniciada anos antes pela minha mãe, tinha obrigação de, todas as quintas feiras no colégio, hastear a Bandeira e cantar o Hino Nacional. Fiz isto até os quinze dezesseis anos de idade, e só deixei de fazê-lo porque fui estudar à noite no Colégio da Bahia – O Central.

Por minha mãe aprendi que o hino usa uma linguagem figurada, que “deitado eternamente em berço esplendido” não significa que se faz apologia da preguiça, e sim que o Brasil esta numa posição por demais privilegiada no que diz respeito ao seu território e ao seu relevo. Que quando a letra se reporta ao Brasil como Florão da América, “Fulguras ó Brasil Florão da América, iluminado ao sol do novo mundo”, quer dizer que o Brasil brilha dentro do continente Americano pela sua grandeza, pelo seu povo e que suas riquezas naturais, e que um novo mundo, a partir da liberdade assegurada pela Independência, seria garantido. Enfim, conseguimos, através de minha mãe, saber o significado do Hino para o povo brasileiro, qual a sua representação, e porque ele devia ser cantado com orgulho por todos, que deveriam sempre estar envaidecidos de ser brasileiros e livres e, de, se necessário, defender esta liberdade e a igualdade que ela tenciona proporcionar, caso alguém a ela se oponha.

Pois, agradeço a minha mãe saber toda a letra do nosso Hino Nacional, de saber que os seus autores foram: Joaquim Osório Duque Estrada (letra) e Francisco Manoel da Silva (música) e também respeitá-lo, como deve ser respeitado, como um símbolo de brasilidade (nacionalidade). Não posso entender que alguém, ainda que seja em jogos de football e em eventos esportivos internacionais, não tenha um calafrio, um arrepio, de pé à cabeça, ao ouvir o nosso Hino, que nos emociona por demais quando a sua letra nos lembra que somos todos irmãos, porque “dos filhos deste solo és mãe gentil PÁTRIA AMADA BRASIL”.



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

AURENTINO MARTINEZ GARCIA: Meu Pai!

Escritores sempre deveriam estar bêbados, ou quiçá, drogados! Por que digo isto? Porque bêbados e drogados, acho eu, são capazes de dizer e fazer o que lhes vem na alma. Não estranhem que lhes digo, apenas tentem compreender. Todos nós somos contidos pelas forças sociais, devemos nos comportar dentro dos padrões, caso contrário, somos considerados como marginais, que significa à margem do social, do que é aceitável.

Assim, quando bebemos, que não é muito diferente de que quando nos drogamos, porque o álcool funciona como um alucinógeno com o outro qualquer, a variação, acho eu, deve ser na intensidade, fazemos coisas que temos vontade, sem nos preocuparmos com o amanhã, porque quem se droga, seja no álcool ou com qualquer outro tipo de droga, simplesmente não pensa no amanhã, quer viver o hoje e o agora na maior intensidade possível. Por isso mesmo todos os recalques (vontades escondidas) vêm á tona, como coisas normais e queridas.

Tenho quase certeza que funciona assim.

Por que começo um texto desta maneira? Porque quero dizer alguma coisa sobre alguém, mas quero dizer como deve ser dito, sem subterfúgios, sem traumas, sem meias palavras, e quero dizer exatamente do meu pai. Bebi, não estou no meu estado normal, portanto posso ser verdadeira além do limite que me estabeleço para tal.

Meu pai! Um espanhol. Não um espanhol qualquer. Um espanhol galego. A Espanha tem disto, você é tanto mais espanhol se for, mais galego, mais catalão, mais basco, e esquecem que a Espanha é única, não é dividida. Ainda não compreenderam que não é  vivendo sozinho que se alcança o respeito, a soberania e nem a nacionalidade, mas isto agora não está em causa. O que está em causa é o meu pai, um galego, que, por acaso, admirava Franco, mesmo tendo sido ele a causa da sua migração completamente involuntária, pois ninguém abandona pai, mãe e a família, em geral, salvo se não tiver uma causa muito forte. A do meu pai foi ter sido forçado pelos meus avós a abandoná-los em nome da sobrevivência. O amor pela vida dos filhos foi mais forte aos meus avós, do que mantê-los junto a si e vê-los morrer inultilmente.

Por isso meu pai veio ter ao Brasil aos treze anos, não só ele, como o meu tio Alfonso, e mais muitas outras dezenas de espanhóis, galegos ou não.

O que se faz aos treze anos num país estranho? Num país que sequer fala a nossa língua? Bem verdade que a Tia Palmyra e o Tio Augusto estavam na retaguarda, mas esta retaguarda era a comida e a dormida. Onde estava o amor? Onde ficou a sensibilidade do ser filho? Onde ficaram as recordações de um afago, de uma passada de mão pelos cabelos, de um perdão pelas coisas erradas da infância? Onde ficou o receio da repreenda de um pai, que, mesmo rindo por dentro, tinha que fazer o seu papel, mesmo tendo praticado as mesmas merdas outrora, desejos outros da juventude que valeram ralhações dos próprios pais? Pois é! Meu pai não teve nada disto. Aos treze anos teve de assumir a sua própria vida, assumir a condição de “macho”, ser involuntariamente um homem sem a condição de sê-lo.

E o que aconteceu em razão disto? Vou tentar lhes contar, embora jamais, em tempo algum, possa eu, ou qualquer outra pessoa, dizer o que se passou de verdade, seja pela cabeça do meu pai, dos seus irmãos, das pessoas com quem ele conviveu, dos seus próprios filhos e da sua mulher, a minha mãe.

Do que me recordo, pois quando nasci o meu pai já tinha 33 anos, ele era lindo! Não é nenhuma apologia da beleza do meu pai, ele era lindo mesmo. Um homem de sua época, mas com um grande diferencial: cabelos finose bem tratados, sempre arrumados, nariz de deuses do Olímpio, corpo para lá de perfeito, hoje em dia, “malhado”. O homem era mesmo um deus grego, minha mãe teve todos os motivos para se apaixonar por aquele galego. Vestia-se para lá de bem, afinal era o manequim “vivo” da Loja Renner de roupa masculina, que pertencia a membros da família, diziam até que ele era sócio, não posso garantir.

Vi, apesar de não saber onde estão ou onde foram parar, diversos retratos do meu pai na loja: um deles, que me despertou a atenção em particular, estava ele de calça branca de linho (diagonal) para quem não sabe, uma espécie de linho da maior qualidade possível, cujos fios são tão unidos que o pano tem uma queda, quero dizer molejo que nem dá para crer, hoje já não se usa e, talvez nem se faça, diagonal assim, há uns dez anos o Dr. Carlos Alcântara ainda usava, camisa de cambraia de linho branca, uma gravata bege ou marrom, já não me lembro, ou melhor, não sei identificar, porque a foto era marrom, cinto e sapatos da mesma cor. Bom! Se a roupa não era a propaganda, o garoto propagando o era. O nariz fino, o corpo delgado, o sorriso maroto, as mãos displicentemente colocadas no bolso, seriam suficiente para que se visse ali um homem para mulher nenhuma colocar defeito.

Bom, o fato é que o retrato, como era chamado a “fotografia” antigamente, retratava o físico, aliás, como até hoje, o aparente, pois o real não é apreendido por ela, porquanto o real é o que vai à alma de alguém, e a alma fica marcada por tudo o que se passou na vida, e, infelizmente, quando ela resolve demonstrar que é viva, que é presente, e o que ela realmente é, de nada adianta a beleza exterior, pois ela se apresenta com toda a sua força, com toda a sua realidade, seja boa ou má..

Assim é que a vida marcou o meu pai, que, pelo sofrimento, pela falta de amor recebido, não soube amar os seus filhos, talvez nem sequer tenha sabido amar a sua mulher, ou tantas outras que passaram pela sua vida.

Quiçá, não posso garantir, o seu amor tenha sido transformado em ódio pelo que ele não pode ser e não pode dar. A sua frustração de si foi transformada em agressão para os que ele, talvez, tenha mais amado na vida: a sua mulher e a sua prole.

Humilhou a todos: não sabia expressar o amor, mas sabia, e muito, expressar o desprezo, o ódio, a raiva de não ter sido filho, de pensar não ter sido amado, quando a maior prova de amor dos seus pais foi, exatamente, tê-lo mandado embora da Espanha, não só ele, mas aos outros dois irmãos. Não me recordo de ver um gesto de carinho de meu pai, a não ser no dia em que passei no vestibular. Na realidade, não era um gesto de carinho, era uma expressão de orgulho de me ter por sua filha. Não que ele tenha me parabenizado por isso, mas eu sabia que aquele tinha sido um momento muito importante na sua vida. Afinal, eu, aos dezenove anos, estava realizando um possível sonho dele. Se não por ele mesmo, acho que ele queria esta realização, um filho seu estava entrando para a Universidade, quanto melhor, seria um doutor em Direito, um advogado. Sim, este era um sonho de muitos pais, não só do meu pai galego, mas de muitos, ricos ou pobres pais. Passar num vestibular da Universidade Federal da Bahia era um sonho de consumo de muitos, e a filha dele tinha conseguido; talvez não fosse a filha a vitoriosa, aquela poderia ser a sua vitória, dele e da minha mãe, afinal, eles me criaram, eles eram o responsáveis por esse feito.

Estava ele orgulhoso mesmo, mas a cachaça não deixou que ele demonstrasse o amor, apenas permitiu que ele mostrasse o valor da sua filha para os seus amigos bêbados, todos felizes porque a filha do “espanha” seria uma doutora.

O tempo passou. Ainda que, como uma provável doutora, tenha sido muitas vezes humilhada, ofendida, até mesmo agredida por meu pai. Tive inúmeros problemas com ele, pois, de todos os seus filhos, a única que lhe conseguia  dar “testa” era eu. Desde as coisas mais insignificantes, quando brigávamos quando ele dizia que no Brasil faltava homens como “Franco”, até coisas importantes, quando tive eu de quebrar garrafas de cervejas e outras bebidas, porque ele não podia mais beber por estar com câncer na garganta, e ter sido proibido de ingerir qualquer bebida alcoólica.

Meu pai conseguiu conduzir-me ao altar para me casar com a pessoa que, talvez, ele mais tenha admirado na vida, o doutor delegado, ficava entusiasmado de falar sobre o meu ex marido, que para ele nunca o foi, quero dizer, ex marido, parece que para ele o tempo tinha parado e aquele homem tinha virado o “Deus”. A doutora Esmeralda já não existia, quem existia para todos era o “marido dela”. Agora a sua filha passara, mais uma vez, ao segundo plano, o importante era o Dr. Delegado.

Contudo, dei ao meu pai todas as alegrias que um homem, como pai, pode ter tido. Tornei-me a Bela. Esmeralda Simões Martinez, filha de Aurentino Martinez Garcia e Yvone Simões Regis Garcia,  para orgulho só dele, passei a ser a Sra. Esmeralda Martinez Barbosa, ato continuo, virei a mãe do seu neto, Fabio Martinez Barbosa. Se vivesse ele hoje teria um orgulho da porra de ter visto a sua filha virar a Doutora Juíza Esmeralda Simões Martinez, a historiadora e Mestre Esmeralda Martinez, a doutoranda Esmeralda Martinez, a escritora Esmeralda Martinez,(pretensão) a que valorizou o seu “appelido”, como se diz em bom espanhol, MARTÍNEZ.

Tudo isto foi preciso que se passasse para que esta filha pudesse entender e aceitar 90% do que o seu pai lhe fez passar e sentir, mas com certeza, tudo redimido no momento em que, no ato final, no momento da sua morte, presenciou um dos mais belos gestos de amor de um ser por outro: “o esforço do meu pai para tirar a aliança de casamento do dedo e colocá-la no dedo da minha mãe”, depois de uma vida de muita dor e, talvez, de muito amor entre os dois, amor que ambos, não souberam como partilhar com os seus filhos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Você gosta de cachorro?


Estou desconfiada que em Maputo se come cachorro. Digo isto porque tenho andado muito a pé nesta cidade, não só pela falta de transporte público decente, como por falta de dinheiro mesmo, aliado a um terceiro motivo: conhecer realmente a cidade, o que só acontece se andarmos pelas suas ruas.

Pois é, desde o dia que aqui cheguei, dia 23 de julho, se muito vi foi seis a sete cachorros nas ruas, mas estes estavam devidamente encoleirados e a passear nas ruas com os seus donos.

Será que aqui se come cachorro? Não ia estranhar nada, porque vi na televisão, que em uma outra Província, não prestei atenção ao nome, se come rato e que este comércio está em franca ascensão. A reportagem mostrava os bichos estirados em um pano no chão, e as pessoas, tranquilamente, comprando aquelas coisas feias e esturricadas.

Bom, mas o fato é que já tenho quase trinta dias em Maputo e não vejo cachorro na rua. Na minha cidade, Salvador, há uma quantidade imensa de cachorros soltos na rua, que disputam com os mendigos os lixos. Aqui os menos favorecidos não tem esta concorrência, eles revolvem o lixo sem sofrer qualquer tipo de incomodo, seja por parte de animais, seja por parte de policiais.

Também não vejo gatos, e olhe que já andei por este Maputo quase todo. Ando a pé como já disse; melhor que tomar “chapas”.

Sábado, por exemplo, decidi que ia conhecer a Avenida Eduardo Mondlane, só que escolhi o lado errado dela. Ao invés de ir para o lado em que ela termina na Julio Nyerere, acho eu, fui para o lado que vai dar na Baixa. Andei feito uma filha da puta, quanto pior que o sapato era um que me deixa de calos nos pés, mas como já tava na chuva, não hesitei em me molhar mesmo, até porque, se eu chegasse ao hotel, já não sairia mais, alem do fato de estar a se aproximar a data da volta.

Desci toda a avenida que tem três estágios completamente diferentes: A parte chique, que vai da Mesquita para o lado da Júlio Nyerere. A da Mesquita até a altura da Felipe Samuel Magaya e, daí em diante o negócio pega. A avenida fica muito feia, cheia de buracos, muitas pessoas vendendo coisas na rua, muita gente andando, sujeira, muitas ruas esburacadas e com lixo, muitos prédios antigos e sujos, mas sem cachorros.

Cheguei até uma rua onde tem um palácio de sua Alteza alguma coisa tal como Aga Khan e dali voltei por uma rua de dentro alcançando a Avenida da Guerra Popular, nunca vi um nome tão bem aplicado a uma Avenida. Aqui é realmente uma guerra para lá de popular. No final dessa avenida há o terminal das chapas. Pense ai! É como se fosse um terminal na frente da Feira de São Joaquim, ou naquele ponto de ônibus que fica exatamente do outro lado da feira, na frente da Igreja dos Órfãos de São Joaquim, lembram?(para quem conhece Salvador) Não tem qualquer organização. Um aglomerado de gente, de carros, de vendedores que colocam as suas mercadorias no chão. Vende-se de tudo, de feijão, verduras a sapatos, roupas, utensílios, etc. Ha um fato interessante na venda dos sapatos, é que eles podem já ter sido usados. Pior que isto, as pessoas compram estes sapatos: ao menos, vi gente experimentando. Toda a mercadoria está exposta e sempre há o risco de ser pisada, cuspida, sei lá mais o que. Empurra, empurra para entrar nas chapas. Onde deveria caber, no máximo, 20 pessoas muito mal acomodadas, entram 40 ou mais. Nem me imagino dentro de um troço daqueles com pessoas sentadas no meu colo, porque penso que é por aí. Entretanto, não vi cachorro, vi gente mal encarada, mal vestida, suja, mal cheirosa, todavia, cachorro não.

Continuo invocada com isto, mas não tenho coragem de perguntar o motivo de não ver cachorro na rua. Será que existe alguma lei proibindo isto? Isto é; que as pessoas deixem seus cães nas ruas?

Ah! Neste dia também fui quase agredida por uma autoridade (segurança de um banco). Há no banco de Moçambique um mural lindo, toma uma parte da parede de frente do banco, onde não tem porta alguma, não se vê sequer a entrada do banco, enfim, o painel fica em local em que não há qualquer risco de se entrar ou se ver alguma coisa no interior do Banco, como se o Banco não fosse quase que um local público, pois se presume, pelo menos é o que acontece no Brasil e em todos os países que conheço, nos quais qualquer pessoa pode adentrar ás agência dos Bancos. Bom, mais o fato é que tirei uma foto do painel, ato contínuo,começei a ouvir um homem a gritar: “desfaça”, “desfaça”. Eu, sem entender nada, continuei a caminhar em direção ao homem, que continuava a gritar e a se encaminhar para mim com uma cara de muito poucos amigos e a gritar “desfaça”. Quando ele chegou junto a mim e quase toma a câmera à força, eu lhe disse: Boa Tarde em primeiro lugar, depois o Sr me peça o favor de fazer o que o Sr quer. O homem parou, olhou para mim com cara de mau, mas disse-me. Por favor, desfaça porque não é permitido tirar fotos. Eu perguntei a ele onde estava a placa proibitiva e ele disse que não tinha, mas que não era permitido e pronto. Apaguei e mostrei a ele que o tinha feito e disse-lhe: é uma grande pena porque este painel é lindo e poderia ser conhecido por muitas pessoas, mas já que a arte Moçambicana não pode ser divulgada, tudo bem. Dá para crer? O cão era mesmo terrível e rosnava muito alto e num um péssimo tom.

Pois é, mesmo assim, continuei sem ver cachorros, pelos menos aqueles que são mesmo bichos de quatro pés, mamíferos da espécie dos “Cani familiaris”, do gênero canídeos, porque outros tipos de cães, tanto os que ladram e mordem, quanto os que ladram e não mordem, a gente encontra em muitos lugares, seja em Maputo, seja no Brasil, seja em Portugal, seja alhures, muitas vezes travestidos de “homo sapiens”, como vocês bem podem perceber.

Uma coisa é certa, cachorros em Maputo, andando na rua, não há. Se os comem ou não, não posso garantir, mas, uma coisa é certa: neste aspecto Maputo supera em muito Lisboa, pelo menos, aqui não temos que estar nos desviando, como lá, o tempo todo, da prova cabal de que ali não se come cachorro, mas que eles existem em larga escala e, sabe-mo-lo pelo olfato e quase pelo tato, pois as necessidades destes animais são feitas nas ruas, portanto, sente-se o cheiro e, se dermos o azar de falhar o sentido da visão, o sentido do tato, com certeza, vai funcionar, pois teremos o desprazer de ter o contato físico com os dejetos destes animais de estimação, aliás, fico realmente atônita de ver os proprietários dos bichos com esta obrigação cotidiana de levá-los para as casas de banhos públicas dos canídeos lusitanos, que são as maravilhosas ruas de Lisboa, não escapando nenhuma: sejam as das ruas do Restelo, da Avenida da Liberdade, de Alvalade, da Estrela, da Amadora, Carnaxide, enfim, em Lisboa, como se isto fosse uma coisa educada e normal. Em Lisboa, com certeza, não se come cachorro, mas eles existem e comem como cachorros do primeiro mundo que são, e sujam toda a cidade, o que depõem contra esta pertença ao primeiro mundismo, de que tanto se orgulha o português. Será que não era melhor comer cachorro!



segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma péssima escolha

Fui jantar num restaurante indiano, que também serve comida chinesa. Fica na mesma rua do hotel, aliás, faz esquina com a rua. Como estou cansada de comer atum enlatado, milho enlatado, cenoura enlatada e alface lavado dentro de um saco, com muito vinagre, na pia do banheiro do meu quarto de hotel; resolvi variar.

Nunca gostei de mudanças, isto pode não parecer real para muita gente, mas gosto mesmo é da habitualidade, da rotina, do dia-a-dia, embora me permita, de vez em quando, algumas variações.

Vivi com pessoas que gostavam de variar tanto, que resolveram variar de mim também, mas isto não vem ao caso. Sou fiel a muitas coisas, e não gosto de mudanças, embora tenha tido, ao longo da vida, de passar por elas, muitas delas provocadas por terceiro.

Pronto, divaguei para chegar ao mesmo lugar, o restaurante hibrido: indiano-chines.

Por conhecer um pouco de comida chinesa, porque há muitos restaurantes deles, tanto em Salvador como em Lisboa; viu que chic, sou mesmo uma internacional metida, resolvi comer a comida indiana.

Enquanto esperava a comida, fiquei observando, como sempre, as pessoas que estavam no restaurante. Do meu lado direito havia uma mesa com indianos, cinco homens e umas dez mulheres; as mulheres com idades variadas. Lembrei da novela Caminho das Indias, porque havia Mama Di e muitas outras mamas. As mulheres completamente separadas dos homens, você notava claramente a distinção: homens à direita da mesa, e as mulheres à esquerda.

O que mais me chamou atenção nas indianas é que elas estavam todas com as roupas que apreciam na novela: calças com boca fina e túnicas muita trabalhadas, bordadas de pedrarias, deviam estar comemorando algum aniversário, acho eu. Cada roupa mais bonita de que outra. Os cabelos, Ah que cabelos! Longos, lindos e brilhantes. Todas, invariavelmente, com cabelos além dos ombros. Todas muito bonitas. Como estava quase em frente a elas, tive a oportunidade de bem obervá-las. Falavam baixo, bem comportadas, nao se ouvia sons vindos da mesa, e olhe que tinha mais de 15 pessoas. A Mama Di estava de “sari” de um estampado lindo, embora bem discreto. Somente ela trazia os cabelos presos.

Olhava aquelas mulheres com curiosidade. Primeiro com inveja dos cabelos, que são realmente lindos; segundo com inveja das roupas, algumas muito lindas mesmo, terceiro, e aí já me refiro a todos da mesa, tanto homens, quanto as mulheres, pela maneira de comer. Eles comem tudo com as mãos. Já tinha visto paquistaneses comendo da mesma maneira, quando estive em Barcelona com a promoter, aliás, a única profissional do tipo que conheço; eles colocam um molho de qualquer coisa no prato e molham o pão, que nao é pão, parece um taco mexicano, embora mais fino e estaladiço e comem aquilo como entrada. Não é so isto, tem uma outra coisa mais espessa que eles também introduzem no molho e acompanha a refeição principal. Até então, nada de talhares. De repente vejo o homem que estava na cabeçeira, bem próximo de mim, a comer com uma colher. Estranhei e dei uma olhada para as mesas que estavam ao meu lado ainda vazias, embora prontas para receber os clientes, e vi que os talheres dispostos nelas eram só garfos e colheres. Não havia facas.

Eu já tinha pedido a minha comida e estava a espera, um carril de cabrito com arroz branco. Detalhe, tudo é pago separadamente, pois o cabrito nao tem acompanhamento, como se a gente pudesse comer aquilo sem nada.

Neste momento começaram a chegar os pratos principais da mesa ao lado. Muito arroz e umas cumbucas muito pequeninas. Notei que as cumbuquinhas traziam algo com caldo, não consegui identificar o que era, alguma especie de carril. O certo é que quem não comia com a mão, comia de colher.

Acabaram de comer e vi uma das indianas pedi a uma outra que segurasse uma criança. Que droga! Não sei porque tenho de ficar olhando a vida alheia. Era uma criança com problemas: não tinha movimentos. Não sustentava a cabeça, os braços não dobravam, as pernas também não, ficava babando: um horror! Fiquei deprimida na hora e me perguntando: Por que me queixo da vida? Será que tenho razão de tantas queixas? O que eu faria diante de uma situação daquela? Não nego que as lágrimas cairam, porque eu não consigo mesmo entender qual o motivo que leva Deus a permitir que estas coisas aconteçam. Não adianta as pessoas espiritualizadas me dizerem que isto é carma, que são atitudes de vidas passadas, que são cobradas desta maneira para que a alma se purifique, sei lá mais que tipo de explicação para o inexplicável.

Quem fez errado que se lenhe pagando a sua merda com a própria vida, com a própria pele. Nao venha para cá descontar suas asneiras em quem nada tem a ver com isso. Purificação de alma uma porra! Isto é muito injusto, injusto mesmo.

Minha comida chegou. Provei e não gostei. Uma mistura de muitas especiarias, que termina tirando o sabor da carne. Pedi cabrito lembrem! Sentia gosto de pimenta, de piri-piri, de açafrão, mas não conseguia sentir o sabor da carne. Trouxeram molhos em uma espécie de castiçal com três tigelas: duas delas com molho vermelho e uma com um molho verde. Bom, o molho verde era pimenta verde batida com alguma coisa que a deixava pastosa; o vermelho parecia aquele molho chinês meio doce, e o terceiro era pimenta mesmo, molho de pimenta vermelha.

Não gostei da comida e não repito, mas enquanto disputava o dinheiro e matava a fome, pois só como uma vez por dia aqui em Maputo, sempre à noite, continuava a observar os indianos. Todos, sem exceção, tratavam aquela criança com um grande amor, pelos menos é o que aparentavam Os homens começaram a se reservar segurando-o. Tudo tinha de ser feito com cuidado, talvez, com técnica, pois a cabeça da criança nao podia ficar pendente e sempre tinham que estar llimpando a baba.

Um dos homens, quando o segurou, conversava com ele. A criança dava urros, parecia entender o que aquele homem lhe dizia. Pelo relacionamento dos dois, aquela conversa parecia ser um hábito entre eles.

Olhava aquilo e chorava. Me perguntava se seria eu capaz de suportar uma situação daquela; de brincar com a criança, de tê-la nos braços. Não sei se seria capaz mesmo.

Mesmo com tudo isto, continuei a observar os indianos como um todo. Vi o garçon se aproximar com um balde de inox, um prato com uns rolinhos e algumas tigelas. Pensei que era “deserts” e fiquei olhando atenta para descobrir o que era. Que sobremesa que nada! Era cumbuca para lavar a mão. O que eu pensava ser um doce era uma espécie de lenço pequenino bem dobradinho, que era colocado na água para que eles lavassem as mãos. Tem de ser porque, já que se come tudo com a mão, não seria provável que todos tivessem de ir ao lavabo para lavar as mãos: é melhor  que o  lavabo venha até à mesa daquela maneira peculiar. Parece com aquilo que, nos restaurantes que servem mariscos, lhe dão com água e limão; evidentemente que isto não acontece em barracas de praia e nem nas "cabanas dos joãos" da vida.

Todos lavaram as mãos com aquilo e se foram. Eu ainda fiquei ali comendo aquela comida, que não recomendo, chorando e dando a desculpa ao empregado de que a pimenta era tão forte que me deixou assim, lacrimejante.

Paguei a conta, sem qualquer entusiamo, e voltei para o hotel.

Espero que tudo isto me leve a uma reflexão sobre a vida, sobre o que penso, sobre mim mesma e minha relação com os demais que me circundam: mas nada disto afastará a pergunta que vou continuar a fazer ao de lá de cima: Por que?



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os taxistas de Maputo

Bom, em principio tenho que dizer que andar em Maputo, para mim, é uma aventura. Todos os dias eu renovo a esperança de que vou viver muito, pois, é assim que penso depois que consigo atravessar, e chegar viva do outro lado, as ruas.

Maputo é uma cidade que tem grandes avenidas, a grande maioria delas socialistas nos nomes: Mao Tse Tung; Ho Chi Min; Karl Marx, Engels, Guerra Popular, Eduardo Mondlane, dentre muitas outras, mas completamente dissociais, quando se trata da travessia do proletariado, mortais em potencial

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tudo na mesma



Sai do arquivo as 12:00hs, porque era sábado dia que funciona até este horário, e resolvi que iria andando porque queria conhecer a Av. Júlio Nyerere. Sai da Rua da França, onde fica o portão do Campus da Universidade Eduardo Mondlane, onde está o barracão do arquivo, e segui pela Avenida Kenneth Kaunda. Rapaz, que surpresa!

Esta Avenida, do lado direito de quem vem da Vladimir Lenine é o bicho. É uma avenida de duas pistas largas, separadas por um canteiro no meio. Começou a aparecer muitas casas boas, mas muito boas mesmo, casas enormes, com dois ou mais andares, bem arquitetadas, parecia que eu tinha saído do Maputo, que até então conhecia.

A Avenida está limpa, não há lixo acumulado, nem tampouco contentores abarrotados de lixo derramando a podridão pela rua. Continuo a andar, vejo muitos seguranças, como sempre, alguns estão dormindo, outros coçando o pé, só alguns poucos estão realmente fazendo o seu serviço corretamente. Todos estão fardados, as fardas são das cores mais diversas, sinal de que existem muitas empresas de “segurança sonolenta” por estas bandas, todos mostram na cintura, pendurada no cinto, um par de algemas; deve ser para facilitar o trabalho de quem rouba, pois além de surpreender o segurança dormindo, ainda tem o privilégio de algemá-lo com a sua própria algema.

A grande maioria dos seguranças é raquítica. Acho que se aparecer um negão, ou um menino mais forte, eles se mijam todo e botam para correr, mas vá lá: tem segurança. A quantidade, entretanto, naquele espaço me chama atenção e eu começo a olhar mais atenciosamente para as casas. Descubro a razão: Ali estão casas onde funcionam embaixadas e casas de moradores abastados e dos próprios cônsules e embaixadores.

As Embaixadas se sucedem: Bélgica, Brasil, Espanha, as duas últimas unidas e separadas apenas pela cerca eletrificada. O Atlântico foi completamente engolido pelo Indico. Muitas outras instituições: tudo gradeados. São fortalezas, parecem prisões fortificadas, tudo esta fechado, de movimento só os seguranças, isto quando não estão em estado letárgico.

Uma estrangeira, acho eu, porque loura de olhos claros, roupa bem diferente da que se costuma ver aqui, sai de uma garagem com o carro e sai do carro para fechar a garagem, claro que o carro é um jeep último modelo, lindo por sinal! Entra no carro e se pica.

Continuo a andar e mais fortalezas aparecem de todos os dois lados da rua. Certamente para demonstrar que quem está dentro não quer sair dali e que quem esta fora deve ai permanecer: não são bem vindos. Fico imaginando se será assim em dias de expediente.

Começo a ver o mar, aliás, já disse isto: aqui é melhor ver o mar do alto, ou então de alguma esplanada, porque ai não se vê a pobreza e nem a sujeira.

Continuo a descida olhando o mar. Chego a uma espécie de rotunda, porque aquilo não é porra de nada, e vejo uma indicação para a Sommerschield (não está escrito errado não). Resolvo ir por ali, porque já sabia que este local é na praia e que era o lugar chique da cidade, até tentei alugar um flat, que eles assim chamam um apartamento independente que fica não sei se do lado ou nos fundos de uma das casas, por 100 dólares dia, mas não consegui porque já estava ocupado.

Atravesso a Avenida Julio Nyerere com muita dificuldade. Como sempre, não me acostumo mesmo com a porra da mão inglesa. Desço uma ladeira: muitas construções novas, muitos condomínios de luxo. Continuo a descer e, de repente chego, exatamente, a um local onde há um restaurante, que fica na praia, chamado Nossa Casa, onde tinha visto muitos panos pendurados e muito artesanato na rua, e onde estava pensando em ir para comprar umas calças típicas.

Compro uma calça. De início custava 550 meticais, chorei tanto e fui embora que o homem foi atrás de mim e a calça saiu por 300 meticais, embora ainda muito cara, mas a calça era linda, quero dizer,o estampado. Deixe dizer que a calça custou menos de sete euros e meio, aproximadamente 16,00 reais. Estou pensando seriamente em comprar aqui panos e levar para o Brasil para fazer calças ou saias, penso que vou ganhar dinheiro, porque realmente as estampas são lindas e diferentes.

Atravesso para o outro lado da rua, o lado da praia, e sigo pela calçada, se é que se pode chamar isto de calçada. Ha pedaços que a maré levou e tem buracos com avisos de “não passar”, outros são as pedras que estão quebradas, enfim, tudo esburacado e termina ficando perigoso, porque um passo em falso e a cara vai para o chão mesmo.

Vejo muitas pessoas mais adiante e estranho porque estão todos muito vestidos, homens de terno, mulheres bem arrumadas à maneira Moçambicana, claro. Algumas pessoas estão literalmente na praia, num cais que avança para o mar.

Vou me aproximando mais: Surpresa! Tem duas noivas ali, elas e seus convivas e as damas de honra. Acho que as próprias damas recomendam mal a honra da casadoura, porque duas delas, que estão vestidas com roupa de cor vinho, as outras duas estão de azul, cheia de babados, estão descalças e dançam mexendo bem a bunda. É uma dança esquisita, não vejo qualquer sensualidade em dançar com as pernas abertas, como elas fazem, chega a ser feio, quanto pior porque elas estavam de vestido curto.

Uma das noivas está muito longe, já bem perto da água, a outra está ainda na areia e, para fazer pose para a foto, atira-se no pescoço do noivo e dobra as pernas. Uma foto cinematográfica. Hilariante!

São 13.30 e eu não entendo o horário do casamento, mas acho que eles herdaram isto dos portugueses, porque em Lisboa também os casamentos são realizados de dia, deve ser para que o noivo não seja enganado a respeito da beleza da noiva, principalmente aqui, em que se pode correr o risco de só ver a noiva no dia do casamento.

Acho engraçada a estória, mas não consigo explicação para o fato de noivas e convidados estarem ali, penso que deve ser alguma tradição.

Ouço um senhor falar para outros, que já estão reunindo o pessoal para ir embora e aí noto que tem muitos carros no local, inclusive vans.

Sigo em frente. Sinto-me, outra vez, roubada, porque compro duas calças por 500 meticais, e olhe que começou com o cara pedindo 350 por cada uma.

Compro as calças e vou andando em direção ao centro, que está muito longe, mas eu não tenho outro jeito, pois não vou tomar a chapa e não tenho crédito no telemóvel para chamar um taxi.

Vejo muitos carros juntos seguindo um primeiro que está todo enfeitado. Olho rápido; é mais uma noiva, que vai em direção ao mesmo local onde estavam as duas outras.

Mais carros e mais noivas, passaram umas três ou quatro, todas com o seu séquito.

De repente vejo batedores, muitas motos. Um dos motoqueiros grita para mim uma piada que não consegui entender, graças a Deus, por isto olho para o lado e que surpresa! Os batedores estão abrindo caminho para uma limusine branca, que esta toda enfeitada, indicando que ali vão os noivos. Quase não acredito no que vejo uma limusine, mas para meu espanto, a primeira vinha seguida de mais quatro, uma delas vermelha e as outras pretas. Todas com vidros escuros que não permitiam ver nada lá dentro. Não pensem que eu estou brincando, eram limusines mesmo, aqui em Maputo. Não bastasse a limusine, um séquito de carros seguiam o cortejo, muitos jeeps e carros importados lindos: parece que alguém da nata estava se casando.

Fiquei mesmo estupefata! Numa cidade pobre e suja como Maputo, uma cidade cujo governo se diz socialista, vide os nomes das ruas que já indicam a ideologia que os senhores representantes do Governo querem afirmar – Vladimir Lenine; Mao TSE Tung, Ho Chi Mim; Guerra Popular; Karl Max: Engels, Amilcar Cabral, Salvador Allende e muitos outros ,o regime que se quis implantar em Moçambique com Samora Machel em 1975 e a FRELIMO(partido marxista-leninista). O homem passou na Presidência 11 anos, só deixou o cargo por força da própria natureza, faleceu 1986, o que não impediu que a FRELIMO continuasse no poder, embora, hoje exista um outro partido, que lhe faz oposição, a RENAMO- Resistência Nacional de Moçambique). Não percebo, entretanto, como isto funciona aqui em Moçambique, sei sim que em todo e qualquer governo, seja ele socialista, comunista, democrático, ditador, há os que mandam e os que obedecem. Há a burguesia, tão combatida pelos dois primeiros regimes, e a pobreza.

O nome das ruas nada significa, os símbolos colocados na bandeira Moçambicana também não, aliás, os homenageados com os nomes das ruas, certamente devem estar muito aborrecidos com esta homenagem, que nada os dignificam, muito pelo contrário, demonstram que as suas doutrinas foram por demais mal interpretadas, que a mais valia aqui é ser rico, rico mesmo, sem que os pobres possam jamais sair do estado de pobreza em que se encontram. Aliás, um escritor moçambicano, ROCHA, 2006:82-83

“Apesar da orientação ideológica socialista e tal como anteriormente o movimento frentista, o PF continuou a ser uma força heterogênea, com sensibilidades diversas, integrando marxistas e liberais, militares, intelectuais e tecnocratas, muitos deles vendo no Partido uma forma de aceder a lugares e benefícios diversos”[...] As conseqüências desta opção marxista pela FRELIMO, embora se possa reconhecer o seu carácter estatista e modernista, não se fizeram esperar, tanto interna como externamente. A ala marxista era efectivamente hegemônica, mas os ideais socialistas não eram partilhados por parte significativa dos membros do Partido. Por isso a adesão à postura socialista não foi consensual, e alguns críticos tiveram de deixar o Partido, indo alguns dos mais inconformados formar bases de grupos oposicionistas diversos, alguns dos quais vieram a integrar o movimento rebelde que mais tarde se constituiu na Resistência Nacional de Moçambique(RENAMO)” (grifo nosso)

Portanto os pobres vão continuar a revirar o lixo para comer, a vender frutas e verduras nas ruas, sem quaisquer condições de higiene, a vender coisas usadas nas ruas, a roubar as pessoas, enfim, que eles se lenhem para que os ricos, cada vez mais ricos, continuem andando de Limusine, acentuando a diferença, que foi tão combatida na época colonial em relação aos europeus. Mudam os nomes e até mesmo a cor dos dirigentes, o que não muda, exatamente, é a divisão de classe aqui tão bem visível, sendo que o proletariado daqui, não existe, pois o proletariado tem de estar organizado para alcançar os seus objetivos, o que, possivelmente, ainda vai demorar muito, se é que um dia isto ainda possa acontecer. Enquanto isto, Maputo fica mostrando os seus contrastes e Moçambique continua recebendo fundos humanitários para combate a AIDS, para preservação dos animais (elefantes, onças, girafas, macacos, hipopótamos, cobras e muitos outros) e o povo continua a morrer de fome nas ruas, sem emprego, sem assistência, sem dignidade, mas os resorts em Inhaca, nas praias de Inhambane, em Pemba e em tantos outros sitos do país continuam recebendo turistas que saem daqui encantados com as belezas naturais, sem qualquer preocupação com a população, que de uma maneira ou de outra, ainda continua à disposição dos que se julgam superiores.


sábado, 7 de agosto de 2010

Tá com a vista boa? Então enxergue direito...

Está nostálgica. Deve ser porque passou em frente a um bar na Rua do Hotel onde está hospedada, e ouviu uma música do tempo “corno” aí no Brasil. Do tempo em que ela ouvia rádio com um dos irmãos segurando a antena para que a mãe pudesse ouvir a novela, “Jerônimo o Herói do Sertão”, salvo engano; se não esta era “O Direito de Nascer”. Não interessa o nome da novela, o que interessa é o rádio e as músicas que nele tocavam: O ébrio com Vicente Celestino; Senhor da Floresta com Augusto Calheiros; Unforgatable com Nat King Cole, Boêmia com Nelson Gonçalves, Anísio Silva e tantos outros que não vai mesmo lembrar os nomes. As quatro ou cinco da tarde o rádio tinha um concorrente, que era o serviço de alto falante da Cidade, que como já disse uma vez, uma das bocas ficava, exatamente, no poste em frente à sua residência.

Pois, neste alto falante aprendeu uma música, que, salvo engano, era cantada por Adelino Moreira, que, se vocês não sabem, era português do Porto, e compôs muitas músicas para Nelson Gonçalves, talvez por Anísio Silva, este é mais provável, porque a música era da dupla que sabia fazer música de dor de cotovelo, Euvaldo Gouveia e Jair Amorim. Vocês devem ter visto o especial sobre a Dalva de Oliveira e viram como as coisas de corno eram cantadas em versos pelos corneados. Depois disto a música já teve inúmeras regravações, inclusive, por Gal Costa: Olhem que primor de dor de corno: “Alguém me disse que tu andas novamente, de novo amor, nova paixão, todo contente. Conheço bem tuas promessas, outras ouvi iguais a estas. Este teu jeito de enganar, conheço bem. Pouco me importa que te beijem tantas vezes, e que tu mudes de paixão todos os meses, mas se vai beijar como eu bem sei, fazer sonhar como sonhei, mas sem ter nunca amor igual ao que te dei.”

Viu Bem! Corno é assim. Sabe que o ex parceiro tem outro (a), mas faz uma música desta, como se para ter mesmo um consolo. Então lá se quer saber se alguém beija melhor do que ela? Se alguém sonha os sonhos que ela sonhou melhor? Quer nada! Embora hoje ela não se preocupe com os beijos e a boca tantas vezes beijada, mas sim com a vista, a visão dos outros, daqueles que dão ou deram um “corno”, ou mais, em alguém.

Fica a pensar. Se o corneante dava corno com a visão turva, vendo as coisas um pouco deformadas, imagine agora vendo todos os detalhes. Aí é que vai cornear mais, porque vai ficar procurando sempre melhorar o que tem, embora todos nós saibamos que as aparências enganam, e como enganam. Ninguém traz na cara o que lhe vai ao interior. Alguns, muito poucos, teem o privilégio de, com os olhos, entregarem todo o seu “eu”. São pessoas sensíveis e que não sabem enganar. Os olhos falam mais de que a sua voz. Não é necessário que essas pessoas digam nada a respeito de si em alguns momentos da vida, porque os olhos já dizem tudo. Pessoas que não podem e nem sabem mentir, tem um detector de mentiras dentro de si próprias, por isso não podem enganar nem a si e nem a ninguém.

Sabe ela que ninguém tá entendendo nada desta estória de visão, mas “a quem interessar possa” vai entender, e muito: talvez seja muito tarde para poder ver as coisas com mais clareza, sem a névoa que tomou conta dos seus olhos e do seu interior. Quem deixou de ser visto por causa dos maus olhos, por força da visão turva, primeiro sintoma da catarata, pode não mais estar disponível para ser olhado com a visão restabelecida e, mesmo com o saudosismo das canções, mesmo querendo voltar o tempo, mesmo lembrando do que deveria tá morto e enterrado pode, agora, sofrer da vista e ter a visão turva, já não podendo mais falar com os olhos o que lhe vai na alma e nem enxergar os sinais de quem, agora, é portador de uma excelente visão, ao menos de um dos olhos.

Certamente, um reparo da visão enevoada não mudará a maneira de olhar da pessoa: Claro que não!Uma simples operação na vista não faz com que ela seja retrato da alma, apenas melhora a visão de fora, o interior de cada um continua como sempre, porquanto poucos, muitos poucos, mas poucos mesmo, conseguem, mesmo com problemas de vista acarretados pela idade, refletir com os olhos tudo que se passa no seu interior, da felicidade à mágoa, do ódio ao amor, da tristeza à esperança, mesmo que seja a de “corno” ao cantar ou, ao menos, cantarolar os versos da música cantada por Adelino Moreira,digo Anisio Silva, como esclarecido por um leitor, a quem se agradece, inclusive a dica para mais um texto, porque nada como se falar da "sede"  social dos bairros periíericos..  

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As três irmãs

Quando estive interna, conheci três irmãs que moravam no colégio. Uma delas muito mais velha que eu.Na época, para mim, era como se fosse quase minha mãe, embora ela não tivesse nem 30 anos. Eu tinha 10 a 11 anos e quem tinha mais de 25 para mim, creiam, àquela época, já era velha; outra com uns vinte e poucos e a terceira, mais nova, devia ter uns 16 a 17.

Diziam que elas eram irmãs, mas eu as achava tão diferentes que nunca acreditei, talvez pelo fato de serem órfãs e morarem mesmo com as freiras, fabricaram aquele parentesco, possivelmente, irmãs em Cristo.

A mais velha era uma mulher magra, não muito alta, tinha os cabelos chegados para o ruivo, não sei se eram pintados. Trabalhava fora do colégio e, portanto, estava sempre muito bem vestida. Ela já não dormia no dormitório; ficava numa parte do colégio em que moravam senhoras solteiras que trabalhavam e não tinham parentes na cidade. Era uma pessoa que não se podia dizer bonita, mas tinha lá o seu charme. Tinha um sotaque diferente na fala e, acho que por isso mesmo, tinha o apelido de “paulista”. Creiam em Deus! Passei quatro anos interna nesse colégio e nunca soube o nome desta senhora, aliás, continuo sem saber.

A irmã seguinte, ou seja; a do meio, chamava-se Gardênia, olhem que nome! Como colocaram este nome na criatura? Era baixinha tinha o cabelo castanho muito claro, chegando já para o louro, olhos claros e usava óculos. Era muito séria e tomava conta, junto com Zoraide, uma outra loura imensa e feia, da fileira do dormitório do lado direito; o meu lado. Não me lembro de ter visto esta moça feliz, saltitante, dando risada. Era compenetrada, cumpria as suas obrigações exemplarmente e nunca dava muita chance de aproximações, penso que estava sendo educada para virar mais uma irmã de caridade, sem caridade e sem graça.

A terceira chamava-se Georniete, nunca entendi nome tão estranho. Era alta, magra, loura dos cabelos encaracolados, brilhantes e lindos. Tinha olhos bem azuis, mas não conseguia ser uma pessoa bonita. Era simplesmente interessante. Por ser a mais jovem das três, era vigiada pelas duas mais velhas e cerceada em todos os momentos para evitar qualquer deslize. Ela não viveu a sua juventude porque não lhe deixaram,embora fique difícil viver em um internato em qualquer fase da vida. Espero que, mesmo com este nome tenha arrumado um marido, falo isto porque era o sonho de muitas internas, mui principalmente destas que eram órfãs e criadas pelas irmãs. O casamento era uma espécie de conquista de uma “liberdade”.

Salvo engano, Gardênia aprendia pintura, por sinal, uma das coisas que eu mais queria na vida à época, mas que era impossível para mim, pois as aulas eram pagas, porque o ensino era explorado por uma pessoa que não pertencia à escola. Olhei tanto o pessoal a aprender a pintar, isto aos dias de sábado quando tinha tempo, que terminei aprendendo a reproduzir, aliás, era o que era ali ensinando. Vi reprodução da reprodução, da reprodução dos Girassóis de Van Gogh ser ali feita por uma aluna, acho que de nome Eliane, e não só por ela, tanto que a reprodução, da reprodução, da reprodução que servia de modelo, estava toda gasta: os girassóis quase desfolhados e pálidos. Devia ser por isso que as reproduções ali feitas eram tão ruins. A professora de pintura era uma senhora que mais podia ensinar bruxaria, de tão feia que era, aliás, neste particular, competia com a irmã que tomava conta da rouparia: uma freira baixa, de bigodes, com um sinal do lado direito do rosto, bem perto da boca, que lhe acentuava a feiúra: deve ter sido por isso que resolveu ser irmã de caridade e trabalhar na rouparia, onde quase sempre estava escondida. Com aquela feiúra, entretanto, podia realmente voar, como fazem as bruxas, com uma diferença: ela ia ser levada pelo vento que impulsionaria os dois vértices formados por uma porra de um chapéu horrível que as freiras usavam, do tipo que era usado pela Noviça Voadora. Lembram do filme? Aquele que foi estrelado por Shelly Fields. Acho eu. Eram asas na cabeça.

Não me lembro se a Georniete também aprendia pintura, acho que não, ela era muito agitada para poder ficar tanto tempo parada em frente a uma tela e com tantos tubinhos de tintas na sua frente.

Lembrei destas três porque tinha uma vontade danada de saber o que foi feito delas. Será que as duas menores casaram? Viraram professoras e continuaram na própria escola? Viraram freiras? Fugiram do colégio? Esta última, se eu fosse uma delas, seria a opção escolhida.

E a Paulista! O que será que lhe aconteceu? Já morreu? Ainda vive? Será que, por um completo golpe de sorte, se casou? Olhe que se estiverem vivas, todas três já passaram dos 60, devem ter agora 75, 65,61 respectivamente.

Pois é. Não sei se só aconteceu isto comigo. Quando deixei o colégio nunca mais soube de nenhuma das pessoas dali. Um dia, por total acaso, encontrei Zoraide, que com toda a sua feiúra conseguiu se casar. Quando ela me disse isto, passei a acreditar que ninguém, por pior aparência que tenha, pode perder a esperança de encontrar um par, ainda que seja para completar a própria feiúra, ou diminuí-la um pouco, porque quando se encontra alguém mais feio de que nós mesmos, a nossa própria feiúra diminui, somos até capazes de acreditar que somos bonitos. O certo é que não sei de ninguém, que também, com certeza, não sabem de mim, e se souberem, por fazer a ligação do nome com a minha figura, certamente não acreditam que se trata daquela menina que dava tanto trabalho a todos no internato, aquela que quase foi expulsa por chamar freira de vaca, por desobedecer ordens e por, enfim, aos 10 11 anos, contrariar a ordem estabelecida e que, por isso mesmo, ninguém acreditava que seria “alguém” na vida.

Bom!Não acredito que nenhuma das pessoas aqui citadas vai ler isto, mas, se, por uma coincidência qualquer, isto acontecer, não duvidem: esta pessoa sou eu, aquela menina que vocês conheceram, que se fez notar pelos “erros”. A Esmeralda da portaria da escola, a bell girl do internato.