terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lisboa te espera

Não me canso de falar de Lisboa. Não sei como uma cidade tão pequenina pode ser tão bela, dar tanta alegria aos olhos.

Uma cidade que surpreende a cada dia! Quanto mais se anda pelos seus becos e ruelas, mais se descobre lugares lindos e bucólicos. Por vezes achamos que não estamos em uma capital, de tão sossegada que ela se mostra em alguns sítios. Chegamos a duvidar que estejamos no centro de Lisboa. Possivelmente isto se agradece, e muito, às suas ladeiras e escadinhas e, mais ainda, aos seus becos, que, aqui para nós: são extraordinários. Para nós brasileiros que, quando falamos em beco, temos até arrepio, Lisboa é uma amostra do que pode ser um beco. Tem gente aqui em Lisboa que nasceu, cresceu, vive e vai morrer em um deles. Ali, naquele mínimo espaço, há um mundo de amor, respeito, solidariedade. Enfim, em cada um destes becos podemos dizer que há uma família, com brigas, discussões, barracos, mas tudo se acaba quando a raiva passa, e o beco retorna á sua paz, com as roupas secando nos varais, numa harmonia de cores, bandeirolas gigantes de diversos formatos, de tetas a cuecas, estas últimas, usadas por mulheres.

Há becos de todas as maneiras: mais largos, mais estreitos, sem saída, em escadarias, em ruelas. Há os que começam com uma arcada, parecendo avisar que, aquele espaço é privado, tem dono, não se devendo ultrapassar as suas fronteiras, mas a gente não respeita este aviso e entra nele e se maravilha sempre. Cada um tem uma característica particular: do sujo, ao extremamente limpo e calmo. Do que tem flores nas sacadas das casas, aos que mostram sisudez, com as janelas hermeticamente, como diria minha amiga Malena, cerradas.

Gosto, particularmente, de andar pelas ruas de Alfama, de chegar até a Graça, de passar pela Costa do Castelo. Há uma profusão de escadinhas e becos em todos os lados. As escadinhas exigem preparo físico, são enganadoras. A gente pensa que ela está acabando, mas, uma virada para a esquerda, ou talvez para a direita, ela ainda está lá, esperando lhe vencer, literalmente, pelo cansaço. Nunca desista no meio de uma escadinha de Lisboa, você jamais saberá o que poderá perder se não alcançar o último degrau, isto também se aplica às ladeiras, isto é, não desista na metade de nenhuma delas, vá até o fim.

Esta semana, no sábado passado, depois de muito andar na “feira da ladra”, onde já lhes disse, vende-se de tudo; qualquer dia destes não vou me surpreender se encontrar um rolo de papel higiênico usado; é só o que falto ver, pois penico sem alça, tampa de vaso sanitário quebrada, lixeiras desbotadas, sapatos velhos e usados, chaves que não abrem mais nada, cadeados fechados sem chave, já perdi a conta. Enfim, se você vier a Lisboa e quiser e puder, traga as suas velharias, não são antiguidades, são velharias mesmo, quem sabe tem a sorte de alguém ser tão louco, que ache que vale a pena comprar o que você já não dá mais qualquer valor, parece que aqui, mais de que em outro lugar, nada se perde: tudo se recria. Bem...! Saí da feira da ladra e resolvi fazer um caminho diferente, até porque queria tirar foto do “urinol”, lembram? Resultado: sai na Costa do Castelo. Andei muito, estive em um bar que chama-se: “Restô do Chapitô”. Lembrem este nome, e se um dia estiverem em Lisboa, não deixem de lá ir. Tomei umas duas cervejas e continuei a marcha. Vim dar no Bar de Santo André. Como não queria, ainda, voltar para casa, e ainda era cedo para almoçar, resolvi que iria à Graça, e foi o que fiz. Atravessei a rua, subi a ladeira e segui para a esquerda, sempre em frente. Por ali vai dar na Igreja, onde fiquei por algumas horas. Eu não vou falar nada, vejam vocês mesmo, ainda que a foto seja uma porcaria, quero dizer, a fotógrafa não é boa.


Dali, depois de mais cervejas, sai para alcançar o Martim Moniz, isto descendo as escadinhas e becos. Perto de chegar à descida, que daria mesmo na Praça Martim Moniz, e que é a que sempre desço quando faço este percurso, vi uma subida. Pensei comigo, esta eu não conheço, portanto, não custa nada subir. Para melhor localizá-los, quando vocês aqui vierem, a subida fica quase em frente ao restaurante “Via Graça”, que como o nome já indica, fica na Graça mesmo. Ir a este restaurante, se você tiver cacife, é imperdível, embora eu, pessoalmente, não possa atestar a qualidade da comida, mas a vista é extraordinária. Bom, mas eu não quero falar de restaurante, porque se assim fosse, não poderia esquecer do “Faz Figura”, que fica logo ali, bem pertinho da feira da ladra. Este eu atesto, comida e vista.

O certo é que subi a tal da ladeira. É uma ladeira pequena, bem verdade, mas é muito íngreme, e quando a gente chega ao topo tá mais para morto do que vivo. Respire fundo! Você vai precisar de todo fôlego, porque o que vai ver é de prender a respiração.

Lisboa está a sua esquerda. Vire-se e fique de frente para ela. Não tenha medo, seu coração vai resistir, você só vai prender a respiração porque vai ser necessário. É tanta beleza que você tem de registrar de maneira intensa, e, por isso mesmo, tem de dar um grande e alongado suspiro. É como se você estivesse ali no Monte Serrat, em Salvador-Bahia, olhando para a Baía de Todos os Santos lá do alto e de longe, estou falando somente da sensação, porque não dá para comparar belezas tão diversas. Estamos no miradouro de Nossa Senhora do Monte. Daí você vê uma boa parte de Lisboa. Chegue mais para frente. Veja o Castelo de São Jorge, tenha a ilusão que ele está erigido numa ilha: é só uma ilusão. O que acontece é que, quando olhamos dali, parece que ele esta no meio do Tejo, dividindo-o numa parte direita e numa esquerda.

Fique de bobeira aí. Sente nos banquinhos do jardim, de todos os êles você terá uma visão magnífica, vendo ou não o Tejo. Há um terraço neste monte que me desperta uma inveja da zorra dos seus proprietários. Pense que os sacanas, no dia em que lá estive, estavam tomando sol, com direito a “chapéu de sol” e tudo, incluindo água, o que era um desperdício. Do terraço eles têm a visão privada do que é público, e de um ângulo só deles. Nós, brasileiros, íamos fazer farras homéricas naquele terraço e, certamente, não seriam regadas á água.

Vou ficar por aqui, mas ainda vou mostrar muito de Lisboa para vocês. Deliciem-se, ainda que as fotos sejam péssimas. Até a próxima.