sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Galinha ao Molho Pardo! Quer mais?

E lá se foram todos. Ela e o companheiro, a amiga e o marido, e muitos outros. Era um evento jurídico, portanto, aqueles que quisessem, inclusive receber títulos e louvores, estavam lá.

Diferentemente da grande maioria, ficaram hospedadas em um hotel que pertencia a um antigo e bem quisto, serventuário da Justiça, daqueles que ganham mais de que os pobres e coitados substitutos, e até mesmo titulares, os ex antigos “chefes de secretaria”.Bem verdade que, quando começou a “juizar”, só restavam três deles, mas isto nunca impediu, que eles, sapientemente, diferentemente dos mais jovens, preservassem as antigas amizades com os seus “superiores” e conquistassem alguns, nem tão superiores assim, mas que, pela liturgia do cargo, deveriam ser assim ser considerados.

O certo é que um deles tornou-se proprietário de uma bela e rústica pousada em São Jorge dos Ilhéus, onde aconteceu o evento. Um Congresso, do qual já não se recorda o nome, pois que todo o Congresso que se preza tem um tema, que, vira um nome  pelo qual é divulgado, e que, na sua repetição anual, ganha o romano correspondente.

Ficaram nesta pousada, ela e o companheiro, sua grande e, à época, inseparável, amiga mais o marido, uma xará da sua irmã, e mais um futuro, senão, já eleito Presidente do respectivo Tribunal, bem como a família desse.

O ambiente era o melhor possível. Comparecia-se às conferências, mas depois as conferências piscinais eram mesmo interessantes, com certeza, muito mais que as primeiras, embora tivessem de se fazer presentes a essas, afinal tinham que dizer a que foram.

Apesar da existência do buffet no restaurante do hotel onde o evento se realizava, bem como uma grande quantidade de restaurantes oferecidos pela bela e turística cidade de Ilhéus, eternizada e internacionalizada por “Gabriela” de Jorge Amado, que mostrou ao mundo a sensualidade de se mostrar uma “calcinha” a “baiana”, com gosto de quibe e mais outras guloseimas, afinal o “cacau” do Nacib também restou internacionalizado, virando uma vedete chocolatada, produto de exportação, variando de tamanho ao gosto de cada cliente, voltavam ao hotel. Bom, o certo é que, mesmo com toda a oferta gastronômica da cidade, este grupo quedava-se na pousada onde se fazia uma comida caseira de excelente qualidade.

A primeira experiência do grupo ao optar pelo restaurante da pousada foi maravilhosa, pois todos, sem exceção, apreciavam uma boa “galinha a molho pardo”, todos sabem o que é, não é? Aquela galinha que se faz com o sangue da bicha. Em alguns lugares chamam de galinha de cabidela. Em Portugal tem arroz á cabidela. A galinha é feita juntamente com o arroz que é cozido no próprio caldo sangrento. Não adianta fazer cara de nojo, a porra é boa mesmo.

O frango, que era de quintal, estava maravilhoso, no ponto mesmo: nem mole e nem duro, com aquele aspecto que só frango criado em quintal tem, a pele parece que esta bronzeada e fica rija, não se desfaz quando cozinha, os pedaços ficam inteiros e definidos. O seleto grupo comeu que se enfartou. Os da cidade, que não acham mui facilmente o prato feito com frango de quintal, se deliciaram mesmo. Como estavam em um grupo muito seleto, não estavam muito preocupados com a boa educação, e o frango foi comido como deveria ser, com os ossos chupados, mastigados, nervinhos trucidados.

Dia seguinte, não se almoçou na pousada, alguns do grupo foram comer em um restaurante que servia bacalhau. Ótima pedida.

De volta ao hotel, a tarde convidava ao ócio, os dorminhocos de plantão foram tirar a sesta, era muito melhor não fazê-lo, porque os miseráveis iam dormir, enquanto os outros, que não tinham este hábito, ficavam bebendo na piscina, e aí, quando os “sacanas” levantavam fagueiros, os não dorminhocos estavam para lá de “altos”, mas tinham que fazer companhia aos descansados e, claro, ficavam muito mais altos ainda, à exceção de um deles, que sempre parecia não ter bebido nada, diziam alguns, que ele tinha uma enzima que lhe chupava todo o álcool ingerido, qualquer coisa deste tipo.

Bom, o certo é que, lá pelas 9 da noite, começam a chamar para o jantar. Lógico que depois de tanto álcool, nada melhor que uma boa comidinha caseira. Que seria hoje? Qual a surpresa?

Todos se dirigiram ao local das refeições. E aí, para surpresa dos comensais: Galinha de molho pardo! Sem qualquer outra opção. Ótimo. Como a anterior, estava muito boa mesmo, comeu-se à vontade. Digestivos na piscina, comentários sobre a galinhada, enfim, mais uma etapa vencida. Sono profundo

Dia seguinte, salvo engano, ultimo dia do evento. O jantar seria no local das conferências, jantar de despedida. Todos tinham de estar sóbrios, afinal, ali estava uma boa parte da população jurídica do Estado, e, portanto, estes pobres viventes tinham de bem se apresentar para não se tornarem alvos de críticas, futricas, comentários maldosos, embora nem todos tivessem esta grande preocupação.

Deram uma volta pela rua, mas voltaram e resolveram que, mais uma vez, iriam almoçar na pousada, ficar por ali pela piscina, tomar algumas, dar uma dormida, coisas deste tipo, para estarem bem apresentáveis à noite.

E assim se fez. Na beira da piscina foram servidos: peixes fritos, camarões, azeitonas, outros petiscos, cerveja com moderação alguma. Chegada a hora do almoço, que sempre era mesmo à ultima hora permitida, o séquito do presidenciável ou já presidente, vai se acomodar nas suas mesas ,e adivinhem qual era o menu! Claro! Galinha de molho pardo! Tudo bem que se goste deste prato, mas porra, comer três vezes seguida a zorra, fica meio difícil, inclusive porque o sangue dá um gosto adocicado, e a sua repetição, pode causar alguma náusea. A risada foi geral, pelo menos da mesa dela e da amiga e de seus respectivos companheiros. Duas pessoas críticas, como eram as duas, não paravam de rir e de gozar aquela situação, até que, o álcool e a intimidade permitiam, chamaram o dono da pousada, o antigo chefe de secretaria e lhe perguntaram qual o motivo de só servir “galinha de molho pardo”. Êle, muito convicto, disse: a maioria gosta. Bom! As duas entreolharam-se, e mais uma vez, desataram a rir. Ficaram a olhar as pessoas que ali estavam, eram muitos, bem verdade, mas não era possível que uma maioria gostasse tanto assim deste tipo de galinha que não pudesse existir uma variação. E aí, a mais sacana, faz a pergunta: e quem é esta maioria? O Homem, sem pestanejar e sem qualquer constrangimento: A maioria é o presidente (ou presidenciável).

Caíram todos na risada, mas não tiveram outra alternativa senão comer, pela terceira vez consecutiva, e pasmem! Pagando, GALINHA AO MOLHO PARDO!

Assim, se você estiver em um lugar em que esteja também um presidente ou presidenciável, seja de Tribunal, seja de Clube, seja de associação desportiva, seja da porra que for, tenha o cuidado de perguntar qual o seu prato predileto, pois você pode não ter o mesmo gosto da “maioria”, que, como sempre, vence e, no presente caso, COME. Bom Apetite!