sexta-feira, 3 de setembro de 2010

AURENTINO MARTINEZ GARCIA: Meu Pai!

Escritores sempre deveriam estar bêbados, ou quiçá, drogados! Por que digo isto? Porque bêbados e drogados, acho eu, são capazes de dizer e fazer o que lhes vem na alma. Não estranhem que lhes digo, apenas tentem compreender. Todos nós somos contidos pelas forças sociais, devemos nos comportar dentro dos padrões, caso contrário, somos considerados como marginais, que significa à margem do social, do que é aceitável.

Assim, quando bebemos, que não é muito diferente de que quando nos drogamos, porque o álcool funciona como um alucinógeno com o outro qualquer, a variação, acho eu, deve ser na intensidade, fazemos coisas que temos vontade, sem nos preocuparmos com o amanhã, porque quem se droga, seja no álcool ou com qualquer outro tipo de droga, simplesmente não pensa no amanhã, quer viver o hoje e o agora na maior intensidade possível. Por isso mesmo todos os recalques (vontades escondidas) vêm á tona, como coisas normais e queridas.

Tenho quase certeza que funciona assim.

Por que começo um texto desta maneira? Porque quero dizer alguma coisa sobre alguém, mas quero dizer como deve ser dito, sem subterfúgios, sem traumas, sem meias palavras, e quero dizer exatamente do meu pai. Bebi, não estou no meu estado normal, portanto posso ser verdadeira além do limite que me estabeleço para tal.

Meu pai! Um espanhol. Não um espanhol qualquer. Um espanhol galego. A Espanha tem disto, você é tanto mais espanhol se for, mais galego, mais catalão, mais basco, e esquecem que a Espanha é única, não é dividida. Ainda não compreenderam que não é  vivendo sozinho que se alcança o respeito, a soberania e nem a nacionalidade, mas isto agora não está em causa. O que está em causa é o meu pai, um galego, que, por acaso, admirava Franco, mesmo tendo sido ele a causa da sua migração completamente involuntária, pois ninguém abandona pai, mãe e a família, em geral, salvo se não tiver uma causa muito forte. A do meu pai foi ter sido forçado pelos meus avós a abandoná-los em nome da sobrevivência. O amor pela vida dos filhos foi mais forte aos meus avós, do que mantê-los junto a si e vê-los morrer inultilmente.

Por isso meu pai veio ter ao Brasil aos treze anos, não só ele, como o meu tio Alfonso, e mais muitas outras dezenas de espanhóis, galegos ou não.

O que se faz aos treze anos num país estranho? Num país que sequer fala a nossa língua? Bem verdade que a Tia Palmyra e o Tio Augusto estavam na retaguarda, mas esta retaguarda era a comida e a dormida. Onde estava o amor? Onde ficou a sensibilidade do ser filho? Onde ficaram as recordações de um afago, de uma passada de mão pelos cabelos, de um perdão pelas coisas erradas da infância? Onde ficou o receio da repreenda de um pai, que, mesmo rindo por dentro, tinha que fazer o seu papel, mesmo tendo praticado as mesmas merdas outrora, desejos outros da juventude que valeram ralhações dos próprios pais? Pois é! Meu pai não teve nada disto. Aos treze anos teve de assumir a sua própria vida, assumir a condição de “macho”, ser involuntariamente um homem sem a condição de sê-lo.

E o que aconteceu em razão disto? Vou tentar lhes contar, embora jamais, em tempo algum, possa eu, ou qualquer outra pessoa, dizer o que se passou de verdade, seja pela cabeça do meu pai, dos seus irmãos, das pessoas com quem ele conviveu, dos seus próprios filhos e da sua mulher, a minha mãe.

Do que me recordo, pois quando nasci o meu pai já tinha 33 anos, ele era lindo! Não é nenhuma apologia da beleza do meu pai, ele era lindo mesmo. Um homem de sua época, mas com um grande diferencial: cabelos finose bem tratados, sempre arrumados, nariz de deuses do Olímpio, corpo para lá de perfeito, hoje em dia, “malhado”. O homem era mesmo um deus grego, minha mãe teve todos os motivos para se apaixonar por aquele galego. Vestia-se para lá de bem, afinal era o manequim “vivo” da Loja Renner de roupa masculina, que pertencia a membros da família, diziam até que ele era sócio, não posso garantir.

Vi, apesar de não saber onde estão ou onde foram parar, diversos retratos do meu pai na loja: um deles, que me despertou a atenção em particular, estava ele de calça branca de linho (diagonal) para quem não sabe, uma espécie de linho da maior qualidade possível, cujos fios são tão unidos que o pano tem uma queda, quero dizer molejo que nem dá para crer, hoje já não se usa e, talvez nem se faça, diagonal assim, há uns dez anos o Dr. Carlos Alcântara ainda usava, camisa de cambraia de linho branca, uma gravata bege ou marrom, já não me lembro, ou melhor, não sei identificar, porque a foto era marrom, cinto e sapatos da mesma cor. Bom! Se a roupa não era a propaganda, o garoto propagando o era. O nariz fino, o corpo delgado, o sorriso maroto, as mãos displicentemente colocadas no bolso, seriam suficiente para que se visse ali um homem para mulher nenhuma colocar defeito.

Bom, o fato é que o retrato, como era chamado a “fotografia” antigamente, retratava o físico, aliás, como até hoje, o aparente, pois o real não é apreendido por ela, porquanto o real é o que vai à alma de alguém, e a alma fica marcada por tudo o que se passou na vida, e, infelizmente, quando ela resolve demonstrar que é viva, que é presente, e o que ela realmente é, de nada adianta a beleza exterior, pois ela se apresenta com toda a sua força, com toda a sua realidade, seja boa ou má..

Assim é que a vida marcou o meu pai, que, pelo sofrimento, pela falta de amor recebido, não soube amar os seus filhos, talvez nem sequer tenha sabido amar a sua mulher, ou tantas outras que passaram pela sua vida.

Quiçá, não posso garantir, o seu amor tenha sido transformado em ódio pelo que ele não pode ser e não pode dar. A sua frustração de si foi transformada em agressão para os que ele, talvez, tenha mais amado na vida: a sua mulher e a sua prole.

Humilhou a todos: não sabia expressar o amor, mas sabia, e muito, expressar o desprezo, o ódio, a raiva de não ter sido filho, de pensar não ter sido amado, quando a maior prova de amor dos seus pais foi, exatamente, tê-lo mandado embora da Espanha, não só ele, mas aos outros dois irmãos. Não me recordo de ver um gesto de carinho de meu pai, a não ser no dia em que passei no vestibular. Na realidade, não era um gesto de carinho, era uma expressão de orgulho de me ter por sua filha. Não que ele tenha me parabenizado por isso, mas eu sabia que aquele tinha sido um momento muito importante na sua vida. Afinal, eu, aos dezenove anos, estava realizando um possível sonho dele. Se não por ele mesmo, acho que ele queria esta realização, um filho seu estava entrando para a Universidade, quanto melhor, seria um doutor em Direito, um advogado. Sim, este era um sonho de muitos pais, não só do meu pai galego, mas de muitos, ricos ou pobres pais. Passar num vestibular da Universidade Federal da Bahia era um sonho de consumo de muitos, e a filha dele tinha conseguido; talvez não fosse a filha a vitoriosa, aquela poderia ser a sua vitória, dele e da minha mãe, afinal, eles me criaram, eles eram o responsáveis por esse feito.

Estava ele orgulhoso mesmo, mas a cachaça não deixou que ele demonstrasse o amor, apenas permitiu que ele mostrasse o valor da sua filha para os seus amigos bêbados, todos felizes porque a filha do “espanha” seria uma doutora.

O tempo passou. Ainda que, como uma provável doutora, tenha sido muitas vezes humilhada, ofendida, até mesmo agredida por meu pai. Tive inúmeros problemas com ele, pois, de todos os seus filhos, a única que lhe conseguia  dar “testa” era eu. Desde as coisas mais insignificantes, quando brigávamos quando ele dizia que no Brasil faltava homens como “Franco”, até coisas importantes, quando tive eu de quebrar garrafas de cervejas e outras bebidas, porque ele não podia mais beber por estar com câncer na garganta, e ter sido proibido de ingerir qualquer bebida alcoólica.

Meu pai conseguiu conduzir-me ao altar para me casar com a pessoa que, talvez, ele mais tenha admirado na vida, o doutor delegado, ficava entusiasmado de falar sobre o meu ex marido, que para ele nunca o foi, quero dizer, ex marido, parece que para ele o tempo tinha parado e aquele homem tinha virado o “Deus”. A doutora Esmeralda já não existia, quem existia para todos era o “marido dela”. Agora a sua filha passara, mais uma vez, ao segundo plano, o importante era o Dr. Delegado.

Contudo, dei ao meu pai todas as alegrias que um homem, como pai, pode ter tido. Tornei-me a Bela. Esmeralda Simões Martinez, filha de Aurentino Martinez Garcia e Yvone Simões Regis Garcia,  para orgulho só dele, passei a ser a Sra. Esmeralda Martinez Barbosa, ato continuo, virei a mãe do seu neto, Fabio Martinez Barbosa. Se vivesse ele hoje teria um orgulho da porra de ter visto a sua filha virar a Doutora Juíza Esmeralda Simões Martinez, a historiadora e Mestre Esmeralda Martinez, a doutoranda Esmeralda Martinez, a escritora Esmeralda Martinez,(pretensão) a que valorizou o seu “appelido”, como se diz em bom espanhol, MARTÍNEZ.

Tudo isto foi preciso que se passasse para que esta filha pudesse entender e aceitar 90% do que o seu pai lhe fez passar e sentir, mas com certeza, tudo redimido no momento em que, no ato final, no momento da sua morte, presenciou um dos mais belos gestos de amor de um ser por outro: “o esforço do meu pai para tirar a aliança de casamento do dedo e colocá-la no dedo da minha mãe”, depois de uma vida de muita dor e, talvez, de muito amor entre os dois, amor que ambos, não souberam como partilhar com os seus filhos.