domingo, 5 de setembro de 2010

Minha Mãe e a Pátria Amada


O consultório do Dr. Renato ficava na Rua Chile, no prédio onde fucionava  a Associação dos Comerciários da Bahia, ou talvez o Sindicato deles, não me lembro bem. Naquela época, salvo engano, morávamos em Itapagipe, no Armazém Brasil, que era explorado por meu pai, que explorava a minha mãe, que além de fazer os serviços da casa, embora nisto fosse ajudada por mim, que era obrigada a passar óleo de “peroba”, aquele que tinha o rosto de um cacique no rótulo, nos rebuscados móveis da casa; tomar conta dos filhos, que à época eram ainda três, ainda tinha de fazer toda a comida que era servida no bar, além de ajudar no balcão.

Bom, mas todo este labor não impedia que fôssemos, ao menos, de seis em seis meses, ao dentista. Íamos eu, a minha mãe, minha irmã Elisa e Tininho. Eram muitas pessoas na sala de espera, que, se bem me lembro, ficava no corredor: cadeiras de um lado e de outro encostadas nas paredes, o ambiente era escuro, o chão de tabuado e as paredes, salvo engano, eram divididas até a metade com um espécie de papel de parede, uma madeira que circundava toda ela, e acima desta madeira vinha a pintura normal com tinta.

Eu sempre ficava encantada com o prédio da Associação, um prédio centenário, que ainda hoje existe; está lá, muito velho, quase caindo aos pedaços, mas continua em pé, com a sua imensa porta de madeira de dois lados. Fica na esquina da Câmara Municipal de Salvador, na mesma praça, para quem não sabe, do Elevador Lacerda.

A entrada do prédio é por esta rua lateral, mas o prédio tem toda a sua fachada do lado esquerdo, na Rua Chile, de frente ao Palácio Rio Branco, antiga sede do Governo da Bahia. Não me lembro se nesta época a minha tia Aércia já trabalhava, mas fui, muitas vezes, ao Palácio vê-la, pois, em algum período ela trabalhou ali com certeza, acho que pelos idos de 66-67, quando tinha eu entre catorze quinze anos, até porque adorava ser elogiada por um colega dela, um moreninho, de quem que já não lembro o nome.

Continuando, o prédio da Associação tinha uma escadaria linda, e tinha um elevador, daqueles que a porta é uma espécie de sanfona, toda de cobre, acho que era este o material, mas de um tipo maleável, que permitia que ela encolhesse e liberasse a saída. Ainda temos alguns prédios que tem estes elevadores; em Lisboa, então, é muito comum. A cabine era minúscula e só cabiam três pessoas, mas de que isto era suicídio, portanto, quase sempre, tínhamos de subir as escadas, pois o consultório do dentista era no segundo andar.

Chegávamos à ante-sala e ela já estava cheia, afinal não se pagava nada pelo serviço de dentista, ou melhor, os comerciários davam a sua contribuição mensal, e recebiam o atendimento, para si e para os familiares, o que era o nosso caso.

Como, às vezes, passávamos horas a aguardar a vez, minha mãe aproveitava o tempo para exercitar uma função que lhe era nata: ensinar. Sempre levávamos lápis e cadernos. Um de nossos cadernos, não esqueço até hoje, aliás, uma pratica que deveria ainda existir, tinha na capa de frente uma paisagem com árvores, bichos, representando a natureza do Brasil, se bem que em tinta azul; e na capa de fundo, a letra do Hino Nacional.

Minha mãe fazia ditados, ou seja; falava um texto e eu e Elisa tínhamos de copiá-lo, depois ela via os erros e corrigia-os, não sem um grande sermão, e às vezes um tapinha nada recomendável. Um dia ela resolveu que nós tínhamos de ler toda a letra do Hino Nacional, o que fizemos; depois, de linha a linha, ela procurava tirar de nós o que entendemos daquela leitura, qual o significado daquela frase. Lógico que este exercício, dado ao tamanho do hino, não acabou ali, passamos, eu e Elisa, dias a analisar aquela letra gigantesca que descrevia o Brasil em toda a sua plenitude e grandeza.

Não gostamos nada disso, nem eu e nem Elisa, mas hoje agradeço imenso a minha mãe ter nos obrigado a este exercício de interpretação. Aliás, este estudo detalhado da letra do nosso Hino Nacional deveria ser um exercício normal e cotidiano entre todos os estudantes do ensino médio no Brasil. Sou do tempo que, mesmo iniciada anos antes pela minha mãe, tinha obrigação de, todas as quintas feiras no colégio, hastear a Bandeira e cantar o Hino Nacional. Fiz isto até os quinze dezesseis anos de idade, e só deixei de fazê-lo porque fui estudar à noite no Colégio da Bahia – O Central.

Por minha mãe aprendi que o hino usa uma linguagem figurada, que “deitado eternamente em berço esplendido” não significa que se faz apologia da preguiça, e sim que o Brasil esta numa posição por demais privilegiada no que diz respeito ao seu território e ao seu relevo. Que quando a letra se reporta ao Brasil como Florão da América, “Fulguras ó Brasil Florão da América, iluminado ao sol do novo mundo”, quer dizer que o Brasil brilha dentro do continente Americano pela sua grandeza, pelo seu povo e que suas riquezas naturais, e que um novo mundo, a partir da liberdade assegurada pela Independência, seria garantido. Enfim, conseguimos, através de minha mãe, saber o significado do Hino para o povo brasileiro, qual a sua representação, e porque ele devia ser cantado com orgulho por todos, que deveriam sempre estar envaidecidos de ser brasileiros e livres e, de, se necessário, defender esta liberdade e a igualdade que ela tenciona proporcionar, caso alguém a ela se oponha.

Pois, agradeço a minha mãe saber toda a letra do nosso Hino Nacional, de saber que os seus autores foram: Joaquim Osório Duque Estrada (letra) e Francisco Manoel da Silva (música) e também respeitá-lo, como deve ser respeitado, como um símbolo de brasilidade (nacionalidade). Não posso entender que alguém, ainda que seja em jogos de football e em eventos esportivos internacionais, não tenha um calafrio, um arrepio, de pé à cabeça, ao ouvir o nosso Hino, que nos emociona por demais quando a sua letra nos lembra que somos todos irmãos, porque “dos filhos deste solo és mãe gentil PÁTRIA AMADA BRASIL”.