segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A pedra verde


Floresceu em setembro, embora isto não seja, na sua família, um privilégio só seu, pois tem mais dois irmãos que, também, cumprimentaram a primavera. Parece que o verão tinha um efeito afrodisíaco para os seus pais, pois quatro dos filhos foram fabricados no verão, com certeza, e nasceram entre setembro e outubro, os outros dois desvirtuaram, nasceram no verão: janeiro e fevereiro.
O fato é que a primavera chegou e com ela a nossa flor, que, por ironia, não tem nome de flor, talvez porque a queriam forte, colocaram-lhe o nome de uma pedra. Claro que não uma pedra qualquer, não teria nenhuma graça ser chamada de diamante, ametista, topázio, turmalina; nenhuma dessas seria apropriada para a pessoa que teria de se apresentar sempre como uma fortaleza. Escolheram, talvez, não a mais valiosa, mas com certeza a mais bonita, a mais transparente, a mais verde delas, ressalte-se que, segundo os entendidos, o valor desta pedra se determina pela cor, tamanho, pureza e brilho.
Assim que, com dois atributos importantes veio ao mundo; o primeiro por ter nascido na primavera, estação em que tudo floresce; época em que, até o mais feio do mais feio fica bonito, porque tudo se transforma: as árvores estão mais verdes e cheias de folhas e flores, as cores ganham nuances diversas das normais, o arco íris desce e espalha as suas cores nobres, dando vida a tudo e encantando a todos. Depois, foi brindada com o seu nome, verde e forte como convém a uma pedra do seu quilate, e não só, também por ser o nome de uma Deusa Sagrada Inca, que aviva o coração e a inteligência e ainda tem poderes de cura. A estes dois atributos junta-se um terceiro: ter nascido no dia da “sorte”, não que a tenha tido sempre, mas nascer num dia treze pode ser um grande sinal, para aqueles que sabem aproveitar as oportunidades que a vida oferece. A evolução do ser que nasce num dia 13 é visível, quanto melhor quando é associado ao nome da pedra verde, porque dizem que esta também tem ligações profundas com a renovação da natureza. Passa-se por tudo, mas se sai de todas as situações, ainda que não vitoriosos de todas elas, consegue-se aprender com as derrotas, esperando sempre que estas signifiquem vitorias de outrem. Por último, mais um se adita aos demais, que é ser virginiano, no caso dela chata, meticulosa, critica, céptica, mas verdadeira, terrena, arrumada, organizada, solidária e, extremamente, responsável.
Teve uma vida atribulada é verdade, cheia de problemas, aliás, que não foram fabricados por ela, porque ela é uma mulher de soluções, e não de problemas, por isso mesmo formou-se em direito, para arrumar soluções para problemas dos outros. Não contente com a advocacia, procurou uma maneira maior de solucionar problemas, é certo que se especializou em apenas um ramo das soluções, mas com trabalho resolveu muitas questões do “trabalho”.
Trabalhou muito, mostrou a que veio, afastou-se das lides, mas não do trabalho. Continua tentando, senão resolver problemas, encontrar as justificativas para a existência deles em determinada área. Eclética, afastou-se mudando o rumo da sua “história” para tentar reproduzir a “história” de outros. Se de brancos ou pretos, não interessa, ao conhecimento não importa cor, sexo, idade.
Sempre a taxaram de louca, quanto pior quando tomou a decisão de se afastar da “justiça” e procurar descobrir a “Mama África”. Alguns lhe dizem que é surpreendente, outros, que é “louca” mesmo! Muitos outros adjetivos já lhe foram aplicados, desde “estupenda” até “inexpressiva”, naturalmente quem lhe deu este último deve se arrepender até hoje de tê-lo feito um dia, até porque, tornou-se inexpressivo, portanto, as palavras ditas deixaram de ter qualquer valor. Ela sabe, perfeitamente, que, jamais, em momento algum, em qualquer circunstância foi, ou será, “inexpressiva”.
Louca ou não, inexpressiva ou não, reproduziu, não como queria, mas o fez. Esperança, com certeza, é o que não lhe falta, talvez por esta, também, ter a cor verde, e, por isso mesmo, continuará aguardando que o rebento, como a primavera, “rebente”, aconteça e mostre todo o seu colorido e todos possam perceber que, alguns precisam de mais tempo, e de dar mais cabeçadas para passarem pela vida com sucesso, afinal, nem todos nascem no dia 13 e nem em setembro, passam do tempo e da hora e ficam “balançados” até que encontrem o equilíbrio necessário. Até lá estão marrons, mas, com certeza, ganharão o brilho do dourado, porque o marrom vai clarear tanto que chegará ao “ouro”, ao resplandecente, embora nada e nem ninguém jamais ofusque a pedra verde, por mais tentativas que façam.
Hoje a pedra verde faz 57 anos. Não há comemorações, pois o nascer na primavera já é uma comemoração que se renova a cada ano. Não é preciso de nada, sequer das lembranças dos demais, lembranças que podem ser mais uma obrigação de que qualquer tipo de “sentimento”, por isso mesmo nunca gostou de dividir com ninguém o seu momento, seja em tempos de “vacas gordas” seja em tempo de “vacas magras”.
Ultimamente tem passado só a “passagem dos seus anos”, o seu ano novo, que é só seu. Um ano novo que sempre espera “esperançosamente”, seja melhor do que o anterior, mas numa comemoração solitária, embora dividida com o universo, se necessário, pois sempre está apta a solicitar a ajuda dele para todos, os bons e os ruins, os que lhe fizeram mal e os que lhe fizeram bem. Os maus para que tomem bem noção dos erros praticados e das conseqüências que advirão deles, pois tem certeza que nada, e nem ninguém, escapará da lei universal da causa e efeito; os bons para que sigam em frente cada dia melhores.
Sejam felizes, e acreditem: é um privilégio ser treziano, virginiano, ser forte (pedra) e ter o nome da cor da “ESPERANÇA”. Todavia, atenção! A pedra verde é sensível, qualquer queda, qualquer mudança de temperatura pode causar-lhe dano, e nada pior de que uma preciosidade desta riscada, marcada por elementos exteriores. Também não lhe seja infiel, pois, de acordo com a lenda, isto pode lhe tirar o brilho e a cor. De qualquer maneira, ser dono de uma pedra desta, ou melhor, tê-la à mão sempre que necessário é privilégio de muito poucos, portanto, se você é um privilegiado, conserve e trate muito bem dela, o seu valor é inestimável, se você não tem, não se preocupe, vá à Colombia, lá tem um museu que lhe é dedicado, porquanto não só de pó aquilo lá vive.