sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Novo! Será?

O último dia do ano chega sem que nada de diferente aconteça. As pessoas estão excitadas, parece que vai acontecer algo de diferente. Os sons se confundem; tudo ruim, mas há “axé” no lado, no fundo, na frente. Na casa da frente os “alquimistas”, mas uma vez, driblam o poder público e, descaradamente, fazem um réveillon na casa de “não eventos”, num desrespeito total, aos vizinhos, ao público em geral, ao poder público, que segundo informações, não concedeu o alvará de funcionamento; também não poderiam, pois a ilegalidade é flagrante, mas parece que “as alquimistas” não temem nada, estão acostumadas a desobedecer tudo, a ordem moral, a ordem legal, enfim, são favoráveis à “desordem”.
Os carros nas garagens disputam com os sons caseiros o primeiro lugar da poluição sonora. Quem é o mais capaz de poluir? Teve gente que colocou na porta da garagem que “aqui nesta casa há felicidade e alegria”, a que acrescentou-se: "e muitos surdos”.
É neste ambiente que ela está sozinha pensando como será possível dormir com tanta confusão. Não está com vontade de fazer nada. Chamaram-lhe para ir até a praça, mas ela não tem a menor coragem. A cidade está cheia, mas muito cheia de gente, o que é pior, de gente feia, mal educada, ignorante.
Não tem coragem, sequer, de se arrumar. Se arrumar para que? Mudar a roupa não muda o íntimo de ninguém. O que realmente devia acontecer, a cada começo de ano, era uma mudança no interior de cada um. Era acontecer coisas boas para todos, sem que isto estivesse, sequer, vinculado á um dia: o último dia do ano ou o começo do vindouro.  O pior de tudo é que se vê que esta euforia idiota não passa mesmo de uma falsidade, de mais um motivo para se ser falso.
O telefone toca, é alguém lhe desejando, falsamente, um feliz ano novo. Ela sorri, sabe que não é mesmo isto que querem, ao menos quem ligou, pois é a pessoa responsável por muitas angústias e muitas tristezas em todos os dia do ano, aliás, o ano de 2011 podia ser riscado do seu calendário. Um ano ruim, de dor, de sofrimento, de mais decepções, alguns momentos de felicidade “enganosa”, que sequer conseguiram, mesmo momentaneamente, afastar tanta tristeza.
Evidentemente que, para ela, desejar coisas boas para os outros, não é uma questão de virar o ano, é sim uma questão pessoal, de coerência. Gostaria muito que todos que a rodeiam, mesmo aqueles que a fazem sofrer  tanto, fossem felizes em todos os dias e em todos os momentos, independente de qualquer marco que fizesse uma troca numérica no ano.
As pessoas passam pela porta da casa, a cadela late, A rua esta cheia de carros estacionados o que dificulta, e muito, o trânsito, seja de automóveis, seja de gente, e mais uma vez ela questiona: Será que estas pessoas, que desejam um ano novo para outrem, não são capazes de perceberem que, estacionando o veículo na frente da garagem de alguém está procurando uma confusão? Será que não percebem que incomodam? Que o que se esta a fazer é errado? Não, para eles está tudo correto, quem está errado é quem fez aquela garagem ali, no meio da rua, impedindo que os carros estacionem. É uma inversão completa de valores,  de coerência. Se o pobre coitado dono da garagem fizer qualquer reclamação é taxado de encrenqueiro. Pode? E são estas mesmas pessoas que chegam e lhe desejam um bom Ano Novo. Para que? Para no próximo continuar a fazer a mesma coisa, ou um pouco pior?
Mais um som se confunde com os demais, claro que um outro pagode, não há outro ritmo por estas paragens, a não ser quando colocam o Silvano Salles no arrocha.  Há também a Paula Fernandes, mas é muito rápido, afinal não é dia de ouvi-la.
Outra ligação; mais um falso Feliz Ano Novo, este então chega mesmo a doer: Imagine que alguém lhe perde perdão do que faz com ela. Ela não ri; desta vez chora mesmo, porque sabe perfeitamente da falsidade deste pedido de perdão, até ele mesmo despropositado, porque não há nada para se pedir perdão e ela não tem nada para perdoar, cada um vive a sua própria vida fazendo o que acha que é correto, portanto, não há motivo para perdão.
Ligam outra vez, agora a ligação é do exterior, fica com pena de quem ligou; também a pessoa lhe deseja um grande ano novo, que ela sabe que esta pessoa não terá. Há dificuldades no seu país, teve corte em suas rendas, vai ser difícil segurar a onda daqui para frente, tem vontade de chorar, mas seguro o choro, não segura é um pouco da agressividade peculiar. A pessoa nota que ela esta nervosa, ela tenta disfarçar, mas não dá; sua voz lhe entrega, ainda assim deseja um feliz ano novo, como se aquelas palavras pré-fabricadas pudessem trazer algum ânimo àquela pessoa que sabe que nada vai mudar no ano que vem, ou melhor, a mudança que vai ocorrer será mesmo para pior.
Resolve então parar tudo, até de pensar, queria ter esta capacidade, se abstrair de tudo e todos e ficar em um momento, que fosse de total desligamento. Sabe que só vai ser tentativa, porque o som dos carros e das casas não permite tamanha proeza.
Desiste, escreve, registra: é bom para depois refletir e perceber que a sua vida é morna, não há variação na sua temperatura, tudo parece sempre se repetir, espera por coisas boas que não acontecem, recebe coisas más que não espera, mas chegam com uma grande facilidade, tenta afastar este pensamento, cobra-se, faz uma retrospectiva da sua própria estória, mas não adianta, a angústia é maior ainda.
Para tudo: chora, pede ajuda, mas também esta ajuda não chega, porque os ouvidos já se cansaram dos seus pedidos. Vai continuar pedindo ajuda para si e para os seus; não importa que quem tenha de ajudar esteja momentaneamente surdo, tem fé que a surdez seja passageira.
Não quer mais chorar; levanta-se, muda a roupa, vai para a rua, talvez, quem sabe, algo de novo possa aparecer e uma luz possa se acender. Vai ao mar, mergulha, espera que alguma coisa melhore; que Iemanjá possa levar metade das suas inquietações.
A cachorra está aflita, foguetes pipocam e ela treme, parece ter medo. Tudo enfim é desfavorável
E ela pensa: Será que pode desejar a alguém “Feliz ano novo”?