segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Uma proteção bem quente

Como sempre, estava sozinha em casa. Era noite, tudo fechado, ventilador ligado, pernilongos alvoroçados “em cardume” atacavam. Os pés e as pernas eram o foco do ataque, tudo ficava ardendo. De repente, o basculante da cozinha bate, ela toma um susto e levanta para ver o que aconteceu. Nada, o basculante apenas fechou.
Volta para a sala e tenta concentrar-se outra vez.
As muriçocas estão indomáveis, o pé arde, parece que as bichas andam comendo muita pimenta, porque a picada faz arder.
Outra pancada: Agora é a porta que dá para a varanda que bate.
Ela dá um salto do sofá e vai ver o que aconteceu. Não estava ventando, as outras portas estavam fechadas, não havia corrente de ar, portanto, não tinha qualquer explicação para aquelas batidas.
Fica apreensiva: Anda pela casa toda, olha os quartos, suspende as colchas e olha por baixo da cama, abre a despensa, olha tudo, vai até embaixo da escada, olha para a porta que dá acesso ao quarto superior, está trancada, como sempre. Não há vestígio de nada.
- É não há nada, fala para si.
Como já era tarde, umas dez horas da noite, fecha a casa toda, e como sempre apaga as luzes do exterior, deixa apenas a luz de dentro de casa como era de costume.
Senta-se outra vez no sofá e fica ali esperando o sono chegar.
De repente:
- Boa noite!
Ela quase cai do sofá.
Olha para todos os lados, levanta picada, acende a luz da sala. Não há ninguém ali.
Tenta não se impressionar, mas é difícil, ela, com certeza, ouviu uma voz lhe dando boa noite, mas como dizem que ela é doida, então pensa que esta a ficar mesmo “maluca” e tenta não pensar mais nisto, até porque, se ficasse pensando nesta estória não ira dormir tão cedo.
Quer se concentrar no programa da televisão, mas não consegue, resolve então ir para a cama.
Diz em voz alta: Vou fechar a porta do quarto com chave e se dirige ao aposento. Antes de chegar nele, entretanto, vê um vulto passar de um quarto para outro.  Dá um grito, acende todas as luzes possíveis, olha tudo novamente, abre até os guarda roupas. Não há nada.  O sono, a esta altura, foi-se, ela prevê uma longa noite.
Volta para a sala, abre a porta que dá para a varanda:
- Vou deitar na rede e ficar um pouco aqui para ver se o sono chega.
O céu, felizmente está límpido; as nuvens brancas são visíveis e detalhadas, a lua está escondida em uma delas. Da rede ela pode ver perfeitamente a lua se esforçando para sair de detrás das nuvens e mostrar a sua luminosidade.  A estrela Dalva está bem na sua direção, ela olha inebriada para a estrela e faz um pedido.
- Kakakakakakakakakakak! Você ainda pede isto? Não tem vergonha?
 Não havia mais dúvida, tinha alguém ali, estava, novamente recebendo a visita do sacana do “diabo” de fala mansa, de gestos largos, de riso bonito, que se lhe apresentava sempre da maneira que ele sabia que ela gostava de vê-lo. A barba hoje estava por fazer, estava, como sempre, de branco, roupas largas de linho, uma calça larga tipo pantalona bem folgada e uma camisa de mangas largas, muito bem feita. Trazia uma corrente linda no braço direito, além de um anel no dedo anular.
- Cacete: você de novo! Não se cansa de me atazanar a vida não?
- Não, minha querida, você não muda, e eu preciso, de vez em quando, te dar umas cutucadas, você precisa entender que esta viva, que é bonita, que é poderosa, e que pode ser muito feliz, mas para isto você tem de sair desta redoma em que se colocou; esquecer todo o seu passado e fazer uma vida sem a presença de sombras que somente lhe prejudicam.
- Não preciso nem de sua opinião e nem dos seus conselhos, aliás, eu não sei qual a razão de você me eleger para dar de bonzinho: você não presta, portanto, não seja falso, não venha para cá me dar o que você não é capaz.
 - Não é bem assim, você sabe perfeitamente disto. Eu resolvi como já te disse, te ajudar, porque você é tão imbecilmente boa, que todo mundo faz gato e sapato de você, todo mundo, desde os homens que passaram e passam na sua vida, até os amigos e familiares. Quando a gente pensa que você tá se esquecendo deles, eles aparecem se não aparecem se fazem presentes de alguma maneira, trazendo problemas para você resolver. O mês de agosto é fatal para você. Você ainda não notou isto?  Parece que eles reservam este mês para lhe sacanear mais ainda.
- Porra, já que você quer me ajudar mesmo, por que você não elimina o mês de agosto da minha vida? Por que você não elimina as pessoas que mais me incomodam, que você parece saber quem são e por que o fazem.
- Fique em paz mulher, eu não vou permitir que eles se aproximem porque eu não quero eliminá-las agora, poderia fazer isto num passe de mágica: Um carro batendo ali, um assalto acolá com um tiro certeiro; uma intoxicação alimentar fatal, uma bactéria em alguma comida, enfim, tinha muitas maneiras de fazer isto, mas não é assim que você vai resolver os seus problemas, aliás, eles aumentariam, porque do jeito que você é, era capaz de resolver sustentar mais alguém, algum descendente deles. O que você tem de fazer é eliminá-los do seu interior, arrancá-los de uma vez de seu coração, não permitir que eles se aproximem e brinquem com os seus sentimentos como fazem. Não vou deixar que eles planejem a vida deles pensando no que você pode dar, ninguém vai comprar carro financiado por você, porque só você, na família, tem o nome limpo. Até a criança já sabe disto: você bem sabe do que to falando. 
-Falar é fácil, você que se julga o todo poderoso não consegue se livrar de mim, tá a todo o momento entrando na minha estória, como, então, eu, uma pobre mortal, poderia fazer o que me recomenda?
- Assim, exatamente como estou te dizendo.
A cadela se aproxima, está agoniada, fica olhando para uma só direção e late. Ela vê quando ele levanta a mão tentando bater na cachorra, que se retrai um pouco, mas fica rosnando de longe.
- To com sono; vou dormir, amanhã quero acordar cedo, agora que já sei que é você que tá por aqui, fico tranqüila.
- O que? Se você me deixar aqui falando sozinho você não vai gostar.  Não vou te deixar dormir, vou fazer esta casa tremer, baterei todas as portas, vou fazer sapo entrar no quarto, botar muita muriçoca para dentro, vou ficar lhe futucando. É melhor você ouvir o que tenho para te falar.
- Porra, desembucha logo então. Não gosto muito de olhar para você.
- Ah você não gosta não é? Eu bem sei porque: porque eu to aqui da maneira que você gostaria que um homem estivesse, é assim que você queria que ele se apresentasse; pois é, eu me lembrei disto, e da viagem de barco que você fez pelo Douro e me arrumei igual àquele homem que tanto lhe chamou atenção.
- Rapaz, não dá para esconder nada de você não é?
- Não, não dá. Eu estou em todos os lugares, eu vejo tudo, eu sei de tudo.  Sei inclusive que você continua uma idiota mesmo. O cara lhe deu a maior bola e você cheia de dedos porque ele tava com uma mulher, que, para seu governo, era só uma amiga dele. Será que você não percebeu os olhares que aquele homem lhe deu?  Você acha que o cara largaria a mulher lá sentada e ia ficar conversando com você por quê? Porque você é chata? Porque não é interessante? Não minha querida, aquele cidadão, tal qual você, ficou foi bem interessado na sua pessoa. Mas você não ajudou em nada, nem mesmo quando eu fiz com que ele se hospedasse no mesmo hotel em que você e sua amiga estavam? Você acha que foi uma coincidência? Claro que não, aquilo foi meu dedo, eles iam ficar no Porto, mas eu dei um jeito de eles passarem para Vila Nova de Gaia.
- Eu to com sono, me deixa dormir.
- Ainda não: Esta você vai ter de ouvir e perceber o quão você esta se desvalorizando em não querer sair do ponto em que parou há, aproximadamente, 10 anos. Você se lembra que você ouviu um cara, lá na terrinha, lhe dizer: “Não, você é uma mulher toda proporcional, você nunca mais diga que você é gorda ou que esta gorda. Uma pessoa com a sua idade da maneira que você está devia agradecer todos os dias” Tá lembrada disto? Lembra quem falou, pois é, fui eu quem fez o cara falar, até porque se eu não o futucasse ele que é quase mudo, jamais teria coragem de dizer, isto, quanto pior, na companhia daquele....  Você se lembra do dia em que você estava sentada com um rapaz conversando, uma amizade um pouco mais recente e a pessoa lhe disse: “Olhe eu conheço você pouco, mas você é uma pessoa boa, extraordinária. Eu não conheço uma pessoa que tenha conhecido ou estado com você, que tenha restrições à sua pessoa”. Lembra? Obra minha, tudo para que você acredite no seu potencial, seja como mulher, seja como fêmea seja como profissional. Você precisa entender que você é mesmo uma mulher reta da, uma fêmea que precisa de carinho, de atenção. Se aquele.... não quer ver isto, você não pode ficar aí esperando o tempo passar, recebendo apenas migalhas de atenção. Além do mais, eu vou sacanear tanto ainda com esta pessoa, que não quero que você fique por perto, porque se você estiver por perto, eu vou tentar lhe proteger e não vou fazer o que devo, aí, mais uma vez, você vai ser boazinha, a fada madrinha, protetora de quem não merece e eu não quero isto.
- Pronto: Você acabou seu blá, blá, blá. Então agora me deixe dormir, já não to conseguindo ficar de olhos abertos.
- Tá bem, já lhe disse, outra vez, o que queria. Não vou aparecer mais, pelo menos por um bom tempo, vou ficar te seguindo claro, mas não vou mais me materializar. Só te peço uma coisa: Não permita que duas pessoas, sim porque estas duas são de lenhar mesmo, parecem que não te querem ver feliz de maneira alguma, te atrapalhem tanto que você fique depressiva, melancólica, deixe de acreditar em você e no seu potencial. Deixe que eles sigam as suas vidas, sem a sua presença, permita, ao menos, que eles provem um pouquinho do meu veneno, da minha maldade, eles merecem não fique triste ou aborrecida, ou tenha pena do que lhes acontecer.  É assim mesmo que a vida é.  Quanto a você, o seu começo de ano- 1912 vai ser uma maravilha, aproveite, vou fazer você descobrir muitas coisas, inclusive arrumar uma pessoa como esta que você esta vendo agora, isto é o prenúncio do que você vai encontrar a partir de janeiro de 2012, quando você deixará de se preocupar com A.B. ou C, para se preocupar somente com você.
-Ok, espero que você tenha razão e que isto aconteça mesmo. Não sei se te agradeço ou não, mas para quem você é, realmente, fico sensibilizada com a sua preocupação, mas, por favor, quando você reaparecer, não precisa me assustar como hoje, apenas chegue e pronto. Tchau.
Dormiu, sonhou com esgoto e com um porco. Preocupada foi ver o que significava sonhar com estas duas coisas e, para seu espanto: dinheiro, amizade nova, boas perspectivas; ou seja: “o diabo não é tão feio quanto parece”!