quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Uma personagem insistente

Acorda, todo dia é a mesma coisa. Está só, mesmo quando acorda ainda sonhando, porque sonha quase todos os dias, o seu sonho em que um personagem é constante. Os enredos variam, do melhor ao pior, do bom ao mal, de lugares lindos a lugares turvos, feios horríveis, de mergulhos em águas claras e de mergulhos em águas tão escuras que não se consegue visualizar nada, mas a personagem tá ali, participando, presenciando. Os sonhos às vezes são tão reais que acorda e continua achando que tudo ainda esta acontecendo.
Todavia, é sempre igual: acorda e quando olha para o lado vê que realmente tudo não passou de um sonho. Fica tentando entender porque sonhar tanto, porque aquela personagem insistente fica lhe tirando as forças quando dorme. Não consegue explicação, acorda cansada, porque às vezes os sonhos lhe fazem correr, lutar, fugir. Já sonhou batendo em gente, apanhando de gente, fugindo de alguém,se afogando, nadando,correndo perigo. Os sonhos são mesmo variados, o que não varia é a personagem principal. Podem aparecer muitos outras nos sonhos, como na realidade aparecem, mas a personagem fixa, presente, insistente, que é ele, ele que já passou pela sua vida, que já lhe deu adeus, que já se foi, mas parece que não fez nada disto de espontânea vontade, continua ali, porque insiste em se fazer presente nas suas noites, como se não bastasse se pegar pensando nela durante o dia.
Todo o dia pergunta-se Por quê? Não encontra resposta, a sua pergunta fica ecoando, mas ninguém lhe explica o motivo de tanto sonho e de uma personagem fixa.
Deu para escrever todos os dias os sonhos, quer mostrar para alguém que entenda e possa lhe dizer o significado deles, como se ela precisasse ter outra explicação que não a que a vida mesmo já lhe proporcionou. Na verdade, quer se enganar, sabe perfeitamente que nada do que sonha é real, e que se sonha é porque a sua vida esta mesmo atribulada, preocupante, tensa. Sabe que em curto prazo não tem solução para quaisquer dos problemas que insistem em se apresentar, ou melhor, não querem se ausentar da sua vida; sempre foi assim: problemas e mais problemas, afetivos, financeiros, de saúde (sua e dos outros) profissionais. Estes miseráveis, que não se vão, não lhe dão trégua, porque mesmo quando o corpo já não agüenta e se recolhe para o descanso necessário, a mente, esta infeliz algoz, continua a sua rotina e permanece na sua atividade de lhe trazer e rememorar problemas, problemas que se confundem nos sonhos, que se às vezes procuram solução para eles, outras vezes complica-os ainda mais, porque as soluções encontradas são drásticas.
Já sonhou morrendo, matando, ferindo, magoando, mas também já sonhou amando, gozando, feliz. Nem os primeiros e nem os segundos se tornaram realidades. Para se matar gente não é preciso sonhar, a gente mata outros em quase todas as horas do dia, aliás, se todos os nossos pensamentos virassem realidade, muitos gente já teria desaparecido para sempre, embora para sempre para ela não exista, porque mesmo matando as pessoas em pensamento, ou se o fizesse mesmo na realidade, eles voltariam nos sonhos, para lhe atormentar, para lhe cobrar coisas, para não deixá-la esquecer dos erros, dos enganos, das derrotas.
Como sempre, acorda cansada, e hoje acordou especialmente cansada, pois sonhou que estava em um deserto sendo perseguida por um bando de pessoas feias e sujas, homens barbudos, com roupas longas, túnicas brancas que se tornaram beges devido à sujeira. As pernas ficavam atoladas na areia e ela via a turba se aproximando mais e mais, falavam coisas que ela não entendia, não era a sua língua. A perseguição continuava e quando todos se aproximam, o que ela não pode evitar porque já não tinha mais forças para correr naquela areia escaldante,  consegue vislumbrar, mesmo atrás do turbante, da barba, da roupa, um rosto familiar; é a sua personagem, que desce do cavalo e vai em sua direção. Ela se recolhe o quanto pode, fica mínima, encolhe-se toda, treme. Olha para aquele olho que ela conhece e não consegue ver nada de bom, o olhar era de raiva, de desprezo, vê a pessoa levantar a perna, pressente a dor que irá sentir, a aflição é tanta que ela acorda suada e gritando.
Um grito que ninguém ouve, porque ela esta só. Chora: um choro que ninguém vê, porque esta só, reza, parece que, também, ninguém ouve as suas orações. Respira fundo, faz exercícios de respiração para se acalmar, para deixar de pensar e procurar explicações para aquele sonho e para a raiva da personagem. Quer esquecer e tentar dormir outra vez. Não consegue dormir, tampouco esquecer.
Pega um livro, vai procurar nas letras a paz que necessita. É sempre assim: os seus amigos sinceros e honestos (ao menos a grande maioria deles) são os livros. Ah os livros! Quanta coisa boa eles podem trazer, quantos ensinamentos, quantas viagens, quantos sonhos, quantas indagações, quantas incertezas. Não dorme mais, o seu dia começa cedo, o seu dia de solidão, de recordações, de desesperanças. Vai ler mais um livro, talvez, quem sabe; uma “idéia de justiça” possa apaziguar a sua mente, possa fazê-la esquecer dos sonhos, destes que tem quando dorme, porque os sonhos de quando acorda, ela não quer esquecer, porque no dia em que ela não mais sonhar, aí sim, comprovadamente os seus dias acabarão, porque o que ainda segura esta mulher sofrida, magoada, são os sonhos que, por possíveis, podem se tornar realidade, o que ela efetivamente quer, o que já provou em algumas oportunidades.
Talvez o único sonho que, dormindo ou acordada, não se torne realidade exatamente o que envolve a personagem, que insiste em não sair da sua vida, continuando com a sua insistente maneira de mostrar-lhe que pode impedir que o seu maior sonho não se realize, porque depende dela, e ela, que é uma personagem que tomou as rédeas do jogo, saiu da sua condição de personagem, criada por ela, para ter vida própria, vida que ela pode comandar sem qualquer interferência de quem quer que seja, nem mesmo a de quem a criou, cultivou, amou, fez crescer, embora insista em não se afastar dela, para lhe demonstrar que, às vezes, como no caso, a criatura engole o criador, mas como não é capaz de saber o próximo passo, fica ali, atazanando o criador para que ele, mesmo sabendo da impossibilidade de tudo, lhe dê força, lhe encoraje para que cada dia mais ele, o criador, fique dependente de sua criatura, que não lhe quer, a não ser como instrumento para manter a sua própria existência, que só se justifica quando promove a infelicidade, seja do criador, seja de qualquer outra pessoa, que se aproxime e queira, ou pretenda, afastar-lhe de qualquer caminho que possa fazer alguém feliz.
Pois é, mais um dia que passará tentando afastar de si sua inconveniente personagem, para que ela não ganhe mais força e lhe faça tanto mal.