sexta-feira, 22 de março de 2019

Garcia D´Ávila XIX - A volta do "DAS MANHAS'


O Senhor Garcia desaparecer completamente, fazia alguns meses que ele não dava qualquer sinal de vida (morte) kkkk. Eu estava preocupada, não porque gostasse do senhor Garcia, sb ia perfeitamente que ele não fora nada que prestasse em vida, além do mais tinha aquele ar de superioridade colonial que me irritava muito, todavia, para os meus propósitos, ele era fundamental,
Gosto de história, tanto que, após alguns anos de formada em direito resolvi fazer história, acreditem se quiserem: sem matricula especial. Fiz um novo vestibular e fui aprovada na Universidade Católica do Salvador, onde fiz dois dos primeiros semestres, os demais fiz na UNEB no campus de Santo Antonio de Jesus, para on de fui transferida por força do trabalho, entretanto,  isto não vem ao caso agora, a não ser para dar a exata noção da minha paixão póla história.
Como nem todos tem o mesmo interesse  por História como eu, tendo ouvido muitas vezes algumas pessoas dizerem que “odeiam” a matéria história, é que pensei em escrever, ao menos história da Bahia colonial, de uma maneira  lúdica, engraçada, que prendesse a atenção dessas pessoas que dizem odiar a história sem saberem  o quanto ela é fantástica, o quanto do saber  de outras disciplinas a ela está ligado e quão  mais fácil fica, quando  aprendemos a contextualizar os fatos nos seus devidos momentos e lugares. Mas também não quero  falar da história como ciência aqui, o que quero, e tinha e tenho em mente, é exatamente levar  o leitor a aprender história, entretanto ele só irá perceber que  está lendo um texto de história quando acaba de o ler  e apreender as informações ali contidas. A ideia é despertar o interesse para que ele, o leitor, se aprofunde mais naquelas informações que ele acabou de perceber e apreender, durante a leitura do texto. Isto seria e será uma grande realização pessoal.
Foi assim que o Garcia D´Ávila entrou na minha vida, como ele se fixou e como agora me faz falta quando deixa de aparecer por tanto tempo. O Senhor Garcia se fazendo presente, me presenteava com as informações que ele presenciara, vivera. Eu tinha uma fonte de informação privilegiada, mas o danado é voluntarioso e só aparece quando quer.
Este desaparecimento estava realmente me preocupando, e eu começava a achar que algo de ruim tinha acontecido.  Será que ele faleceu?  Pergunta idiota: vocês podem estar dizendo isto a mim, mas ela tem toda lógica dentro do contexto meu e do Senhor Garcia. Olhem bem, o homem pensava que estava vivo, não me aparecia como alma penada que era, e que alma penada!  Conversava comigo como se vivo fosse, me dava informações do seu tempo e da sua hora. Me contava fatos, alguns muito pouco conhecidos, do momento histórico que viveu nestas plagas. Assim, para mim tinha toda lógica o pensamento de seu falecimento. Se ele morresse e aceitasse esta morte ele poderia não mais aparecer e conversar comigo: isto me dava uma ansiedade e uma tristeza danada.
Sem dúvida que para mim era uma perda irreparável.]
Bom, e foi com estes pensamentos que ouvi um barulho na sala. Parecia que alguém tinha levado um tombo. Larguei o computador em cima do sofá e sai correndo para o local de onde teria vindo o ruído. “Que cena hilária”!  E não pude deixar de rir: Ali estava o senhor Garcia ainda sentado no chão e, o cavalo dele dera uma empenada e o derrubara, se apressando para levantar, mas a idade já não permitia tanta agilidade, e eu o peguei ali, no chão.
Kkkkkkkkkkkk, o que houve Senhor Garcia?
- Não me encha os pacova, não estas a ver?
Contendo o riso perguntei-lhe – quereis ajuda para levantar-se.
- Esmeralda!  Não sei para que ainda venho aqui e converso consigo: És insuportável e pensas que podes comigo.  Não podes não, não sei como ousas pensar em ajudar um homem como eu a levantar.
- Desculpe senhor Garcia eu só queria ser educada, mais nada.
- Guarde a sua educação, eu a dispenso e já estou arrependido de vim aqui.
Aquela última frase me deu um friozinho na espinha. Desgraçado; bulira no meu ponto fraco, ah se ele realmente resolvesse não voltar! Como, sem ele, eu continuaria com o meu projeto? Amenizei, então, a coisa.
Desculpe Senhor Garcia, é que esqueço o quão forte o senhor é. Então o senhor ia lá precisar de uma mulher para levantar?  Jamais, jamais mesmo. Sou mesmo uma abestada como pensaria e verbalizaria uma coisa desta.
Claro que isto   para aquele velho prepotente, fazia toda a diferença. O Senhor Garcia estava envelhecendo, aquela queda era uma constatação. Por mais que ele não admitisse, ele estava ficando frágil.
-  O que houve com o senhor? Pensei que tinha acontecido alguma coisa consigo? Desapareceu faz algum tempo.
- Tenho muitas coisas a fazer, além de estar vindo visitar-te., mas hoje, efetivamente fiquei com saudades tuas e vim aqui, além do mais tenho uma grande novidade para ti.
- Uma novidade? Chegou algum novo governador? Alguma coisa está para acontecer que eu não tenha conhecimento?  Ah como fiquei excitada com esta fala do Senhor Garcia.
-Calma!  Vou falar-te, mas antes quero uma coisa.
Uma esfriada; que diabos aquele homem ia querer? Sexo com ele, apesar de sabe-lo um espirito, seria impossível. Eu não gostava da aparência daquele velho, não gostava dele, não admitiria, nem mesmo a nível espiritual que aquele sacana me pegasse. O que seria?
- Quero que olhes na sua madeira preta uma coisa
- O que:  Quase tenho uma crise de riso: então o senhor Garcia queria que eu olhasse algo na minha madeira preta!  Ele realmente achava que eu era uma bruxa e que aquela madeira preta, como ele chamava meu computador, deveria ser uma bola de cristal.
- Sim, vai chegar mesmo um novo governador e eu quero saber como este homem ficará aqui, como ele vai se portar. Afinal o último governador deixou uma marca triste para nós, homens de bem que engrossamos tesouro real.
- Eu olho senhor Garcia, mas o senhor tem que me dizer algumas coisas?
- O que por exemplo?
-Em que ano estamos, ou quem foi o último governador que deixou tão grande nódoa. Enfim, alguma coisa que me permita encontrar o que que quer.
- Então não sabes, tu mesmo que me falaste das vergonhas e safadezas do Diogo Botelho.
-Ah, agora sim.  O Senhor quer saber quem virá agora? Vou olhar.
- Todavia gostaria muito de saber qual o motivo desta sua preocupação. O senhor é uma pessoa bem informada e sabe de tudo antes mesmo das coisas acontecerem.
- Agora é diferente, só quero mesmo confirmar uma coisa que estamos temendo. Há uma intenção da divisão do poder em dois governadores, um que terá sede no Rio de Janeiro e outro aqui na Bahia, e quero saber mesmo se El Rey vai fazer isto mesmo. Noutra ponta, tenho mais receio ainda de que o Francisco das M9nas volte.
- Senhor Garcia o senhor devia se afastar destas questões, devia é cuidar da sua saúde, dos seus bens, as mudanças administrativas   não vão interferir muito na vossa vida.
-Podes ver isto ou não?
- Claro que posso
Pequei o computador e coloquei no google – Quem foi o governador geral em 1908: Sem qualquer surpresa.  O Diogo Botelho seria substituído por um outro Diogo – o Diogo de Menezes Cerqueira, que ficaria na Bahia, e pelo Francisco das Manhas, o Francisco das Minas, como o senhor da torre havia falado.
- Maldição! Gritou o Senhor da Torre. Onde estes réis espanhóis estão com a cabeça. O Francisco só quer saber de encontrar minas de ouro, não irá governar nada, além do mais esta divisão de governo somente vai complicar as coisas.    Já não viram que não deu certo da primeira vez?
Fiquei intrigada com aquela reação do senhor Garcia, ele já estava para lá de Bagdá, e eu saia que ele não ia durar muito, então para que aquela reação? -  O que será que ele estava planejando ainda?
-Senhor Garcia, se eu soubesse que o senhor ia ficar tão zangado não lhe diria nada, Por que esta raiva. O Das Manhas fez alguma coisa contra o senhor? Ele não vai it referir no governo daqui, pois ele comandará o Sul, a partir do Rio de Janeiro, o senhor poderá, caso se interesse por minas de ouro, continuar com as suas buscas por aqui, pelo norte nordeste. ~-
- Não estou zangado não, estou mesmo é possesso. Então os reis não sabem que o das Manhas, quando estava à frente do governo geral, ao saber que fora encontrado outro em no “Jaraguá e em Voturana  decretou: “Hey por bem, e serviço de sua majestade, em nome de dito senhor, fazer mercê a Diogo Gonçalves Laço do cargo de Capitão das Minas de ouro e  prata e metais , que são descobertas cobrirem nesta vila de São Paulo”.[1]  Não contente com isto, ele “ foi pessoalmente  ver as minas com seus próprios olhos e colocar  uma parte do metal em seu próprio bolso”[2]  Francisco de Souza , o governador geral do Brasil era obcecado por ouro”.[3]
-Ora senhor Garcia, é óbvio que os reis espanhóis estão também atrás de ouro, e o Senhor das Manhas tinha informações preciosas a respeito do metal, portanto, não há o que se surpreender. A alcunha do Francisco (das Manhas) não lhe foi dada atoa.
- Ele não vai fazer nenhuma coisa pelo Brasil, pois estará simplesmente envolvido em encontrar ouro.
- Bom Senhor Garcia não há nada mais a ser feito, ele será o governador do Sul e pronto, simples assim.
Assim que eu disse isto, o Sr. Garcia ficou muito irritado e partiu para cima de mim, parecendo que iria me agredir, cheguei mesmo a sair do caminho, mas Graças a Deus ele simplesmente passou por mim e desapareceu como sempre. Deixando-me a me perguntar: Qual seria a novidade que ele queria me contar. Recorde-se que ele teria vindo para isto. Me contar uma novidade.


[1] CALDEIRA, Jorge. Padre Guilherme Pompeu de Almeida. O Banqueiro do Sertão, Vol. II, São Paulo, Mameluco, 2006.pg. 86
[2] Idem, pág. 87.
[3] Idem pág. 87.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

NOSTALGIA FUTUROLÓGICA


Acordei nostálgica, tive um sonho esquisito em que era traída na tampa, via a cena à minha frente.  O engraçado é que eu, apesar do susto, via o amor entre aquelas duas pessoas e simplesmente me afastava, era o melhor, nisto tudo havia uma coisa mais estranha ainda; tudo começara por causa de uma discussão sobre um santo: kkkkk acreditem! São Gregório.  Acordei, e, de imediato, fui ver que Santo era este e qual o seu dia: 03.09. Bom, ao menos o homem é do meu mês de nascimento. Confesso que fui olhar para saber exatamente esta data, porque penso que pode ser um sinal para jogar na mega – sena. Do jeito que ando com as finanças é melhor acreditar em qualquer coisa., e ainda mais quando ele está associado a uma traição tão intensa quanto esta. É duro saber que até em sonho sou traída, humilhada, enfim.
Mas havia mais motivos para esta nostalgia, sim havia. Recebi algumas imagens da Bahia antiga, já as tinha visto em outra oportunidade, mas, talvez, pelo momento e circunstâncias atuais, elas me fizeram mesmo voltar a um tempo em que a vida era linda, sem quaisquer problemas, somente esperanças e sonhos.
Uma das imagens me traz momentos vividos na Rua Chile há tantos e tantos anos. A Rua Chile era a Rua, pense em uma coisa chic. Ali estavam: O Adamastor, bem embaixo do que hoje é o hote, por sinal maravilhoso, onde a rua se divide para dar lugar à Rua da Ajuda e Rua Chile.  Quantas vezes gazeei aula na Medalha Milagrosa para ir à Rua Chile. Algumas vezes com a passagem de ônibus paga pela Meluzinha, com o único fim de passar pela Casa da Música e, sob algum pretexto idiota, afinal nenhuma de nós tocávamos e nem pensávamos em tocar qualquer instrumento, entravamos na loja e olhavamos aquele belo homem que ali trabalhava. Não sei se era dono, filho do dono, ou apenas um empregado, sei que o diabo era lindo. Êxtase total se ele apenas cumprimentasse uma de nós.  Fico pensando na pureza daquela idiotice, ficávamos apaixonas por alguém apenas por olhar para a pessoa, contentávamos-nos em ouvir a voz dizendo bom dia, oh então como vai, e mais nada, amávamos à distância e sem quaisquer certezas ou esperanças. Lembro do nome do pobre coitado; hoje ia ganhar um dinheiro da porra com assédio: Fernando Fllemon ou Tilemon, não lembro bem. Espero que tenha sido muito feliz e que ainda esteja vivo, mas, certamente não o quero ver mais nunca, para não perder aquela imagem que guardo até hoje: olhos claros (penso que verdes) numa pele morena e cabelos lisos, meu Deus, era bonito mesmo!
Outra foto me traz a mulher de roxo, apesar da foto em branco e preto, sei que a roupa era roxa. Quantas e quantas vezes vi aquela mulher vagando pela Rua Chile, a qualquer dia e a qualquer hora que fosse à Rua Chile ela estava lá, ficava mais em frente à Slopper.  Que loja fantástica! Hoje, quando chego em determinadas lojas de Lisboa, ainda posso ver a Slopper. Tem uma parte do Corte inglês, a que expõe as carteiras e lenços (marroqueria), que é igualzinha  ao nicho que expunha estas coisas na loja daqui de Salvador, que tanto sucesso fez, entre  o high Society da terra, e até entre aqueles que lá nem chegavam perto, a exemplo de mim e da minha família.  Adorava entrar naquela loja, e ir até ao fundo do prédio, não queria ver nada, e sim apreciar a Baía de Todos os Santos, qualquer pretexto para entrar ali valia a pena. Que coisa mais linda. Ali deveria ser um puto dum hotel.
Cansei de me perguntar o que aquela mulher fazia ali; de onde veio? Quem era? Por que chegou a este estágio?  Será alguma desilusão amorosa? Será que perdera um grande amor?  O fato é que ela com seu olhar vago, vagava pela rua, onde, algum dia, penso eu, desfilou como uma rainha. Os panos da roupa eram bons e ela andava mais ou menos limpa, sinal de que era cuidada de alguma maneira.
Em outra foto o abrigo da Praça Castro Alves, onde, e, quantas vezes meu Deus! Esperei o ônibus para ir para casa, seja com minha mãe, com meu pai, sozinha. Ah quantas lembranças de uma Praça em que vi pela primeira vez um desfile de “bichas”, e nem venham para cá dizer que eu sou homofóbica, é que quando eu tinha dezessete anos, e não havia qualquer  homofobia, pelo menos aparente e nem ninguém dava todo este valor “clamor” à palavra gênero, as bichas desfilavam nas escadarias do prédio do lado esquerdo da Praça. Não lembro que era aquilo, um prédio cinza. Ri tanto naqueles desfiles. Ia com minhas tias, irmã e tios. Nunca tive nenhum problema, e até conhecia algumas das que desfilavam.
Outras fotos trazem mais e mais recordações, edifício sul América! Como era bem ter uma sala naquele edifício, só poderosos tinham escritórios ali, e no carnaval, que maravilha! O trio elétrico fazendo a volta para retornar pela Carlos Gomes. Que apertadinho mais gostoso, e a gente ainda achava que era uma bagunça. Hoje sim que é uma merda,    
  .  Ver o encontro de trios, ver Dodô e Osmar, Trio elétrico saborosa, apaches, filhos de Gandhi. Os rapazes dos Internacionais e dos Corujas, os Barões do Barão, e o melhor deles, o JACU: que saudades!
Outras fotos, outros momentos, outras recordações, mas logo após estas fotos também recebo uma outra mensagem, que vem encaminhando um texto do Nizan Guanaes. Que maravilha de texto; embora ele possa nos remeter ao futuro, é como se tudo fosse uma volta ao passado ao qual agora me referi. Nizan sonha, e eu embarquei no sonho com ele. Diga-se de passagem; sonho realizável, lógico que não no curto prazo que ele colocou no texto, talvez pela vontade de fazer retornar o orgulho bahiano de ser bahiano e valorizar a nossa terra, tão cheia de história e beleza, todavia num prazo mais longo, quem sabe! Me transporto e vou acompanhando o texto e passando pelos lugares de outrora no futuro programado para 2029. Dou risada ao subir a ladeira da montanha de bonde. Que maravilha! A Ladeira já não tem mais qualquer “puteiro”, as casas foram reconstruídas à maneira antiga, umas coladinhas nas outras, janelinhas umas ao lado das outras, é quase um presépio, Chego ao sopé da ladeira e desço do bondinho, agora vou subindo em direção à Rua Chile. passo pela frente no antigo Cine Guarani, que voltou a ter este nome. De lá viro-me para a Ladeira de São Bento e vejo o velho Edif. Sul América todo remodelado; agora é mais um hotel 5 estrelas no Centro da Cidade. Vou subindo e me deparo com o Hotel Fasano, no antigo prédio da Tarde. Tomo coragem e entro, peço para ir ao terraço.  – Perco o fôlego.  A Baía de Todos os Santos aos meus pés, não há nada entre mim e ela, olhando daquele terraço.  Quase desfaleço de emoção. Peço um drink, mas o garçom nega e me diz que o serviço ali naquela área é só para hóspedes. Xingo inconscientemente os pobres coitados tive vontade de mandá-lo à porra, só não o fiz para não quebrar o encanto daquele momento divino. Desço, sigo andando pela Rua Chile: Espanto! Uma loja da Lui Vuiton em plena salvador. Será mesmo? Mais adiante: uma ‘PRADA”, e mais outra ERMENEGILDO ZENGA”, RALPH LAUREN,DOLCE GABANA,  ARMANI e outra e outra. Nem acredito, mas está tudo ali, acho que viramos o metro quadrado mais caro do mundo. Continuo andando, chego na rua do Pau da Bandeira, ali onde ficava o antigo VARANDÁ, hoje está um restaurante francês. Não resisto e desço a ladeira. A entrada é pelas escadinhas, que foram apenas recuperadas, para dar um pouco mais de originalidade ao local, no entanto, o restaurante é mesmo fantástico, e pasmem a Baia de novo se entrega à minha contemplação. Fico extasiada! Só me recupero quando ouço alguém dizer que o restaurante está fechado até as 19:00 quando abre para o jantar. Nem ligo, sei que vou entrar ali um dia e vou comer, ou melhor, vou ficar mastigando devagarinho para demorar bem no local, tomarei muitas garrafas de vinho, corro o risco de sair carregada, mas fico ali o tempo que me der na telha vendo a beleza desta maravilhosa terra.
É mais tenho de sair mesmo e subo novamente a ladeira. Em frente ao Palácio Rio Branco o casario foi recuperado, a fachada a mesma, mas o interior virou um shopping center de primeira, muitas lojas de grife e muitas pessoas. É a Rua Chile recuperando o seu glamour.
Como viram, a nostalgia deu lugar `euforia, mas isto durou muito pouco, porque quando saio do torpor e do encantamento que foi trazido pelo texto do Nizan, caio na real, e de real só vejo mesmo o Fasano e o Hotel Palace, o resto está tudo igual, quanto pior: ainda tenho receio de andar pela Rua Chile, principalmente à noite. Todavia, como Nizan, reconheço o potencial da área e o potencial da nossa terra, e, embora sabendo que isto vai demorar muito, penso que aquele centro de salvador vai ser recuperado e nós, talvez meus netos, comemoraremos a beleza e o glamour da nossa RUA CHILE, da nossa Salvador, da nossa Bahia. 

domingo, 6 de janeiro de 2019

Uma saudade de matar


Domingo, meio da tarde, a casa cheia,mas,  por incrível que pareça, eu to sozinha e com a saudade entrando por todos os caminhos possíveis. Pela televisão, pelo computador, pelo meu celular. Engraçado é que, em um único momento, consegui  que a minha juventude, representada pela minha amiga Diná aparecesse aqui em casa, assim como se nada se  tivesse passado há muito tempo. Lembrei de tantas coisas que ocorreram naquele Colégio da Bahia, o Central, e das grandes e inocentes aventuras que vivi. Ah minha amiga, como eram doces os nossos momentos. Uma saidinha aqui, outra ali, e nós vivendo a nossa juventude. Admiradas por muitos, odiadas por tantos outros. O nosso colégio, era assim que ainda chamávamos o central, onde fizemos, eu e você, o nosso clássico, que virou cientifico no último ano e  quase acabava o nosso sonho de uma UFBA., mas não foi o suficiente, porque  passamos, se faz presente.. Lembro de tanta coisa., Dina trabalhando com os Gatos, eu trabalhando com os Gatos, mas na água, ela na engenharia. Coisa engraçada:  áreas diferentes, mas o assédio igual, hoje estaríamos ricas. A vida passou minha amiga. Minha querida e eterna amiga, nem o tempo e nem pessoas tirarão isto de nós, virou uma grande mãe de família. Eu continuei a minha vida, não tinha vocação para grande mãe de família, sempre tive vocação para ser família, mas não construir, eu, sozinha, uma, e deu no que deu: mas Deus recuperou e, de uma maneira ou de outra, continuo tendo uma família, a minha e a que criei – FABIO.
Continuo lembrando do  Central: dos Carlos, dos Bergsons, dos Josias, dos Christovinhos,, dos Lucios, e de tantos outros, especialmente, dos Charles e dos Oyamas, os dois últimos  na minha privacidade. Ah! e como foi bom o amor inocente de dezoitanos apaixonados, querendo viver, em um só momento, uma vida inteira de repressão e dificuldades. Ainda hoje lembro da Carlos Gomes,, quando ainda podíamos transitar nela às onze da noite, esperando o último ônibus passar para casa, depois deste horário o problema estava formado.   
Vou recordando, o tempo passa rápido no virtual e nas recordações: somos capazes de, em poucos minutos, fazer  sessenta e cinco anos virar minutos, quase segundos. Os flashes continuam: e agora eu vejo o quintal do Zeca (cd) trazendo o  bahiano, Nelson Rufino, a cantar – “Descobri que te amo demais, descobri em você minha paz, descobri em você a vida, verdade, ”. Rapaz o coração dói, sai pululante do peito: aí eu lembro de  você a me dizer isto: (descobri que te amo demais) na frente de todos e encoberto pela musica que todos ouvem. Na frente  de todos, sem que ninguém notasse, esta bela declaração de amor, era transmitida e entendida, o receptor atento conseguia receber a mensagem. Queria mesmo que fosse no privado, mas você era assim, preferia dizer através de  outrem o que você sentia, até porque não poderia literalmente dizer abertamente isto. Que choque! Que saudades Meu Deus! Que saudade intensa, chega até dói na alma. Lembranças boas, mas que doem  porque se foram, não estão e nem estarão  mais aqui, e ninguém mais repete, ,ainda que por versos alheios, o amor que você  conseguiu me dizer que sentia, aliás, aliado a tantos gestos e ações, não sei se notadas por outrem. Mas,  que importa agora? Só importa mesmo a mim, porque verbalizei, com as minhas próprias palavras e gestos, sem o intermédio de quem quer que seja, o meu grande amor, talvez tenha tido  mais coragem que você. Sobrevivi, continuo, como já disse, ouvindo  a mesma música, mas os seus olhos já não encontram mais os meus, para, brilhando, dizer que descobriu o quanto me amava

Praia da Costa- Aveiro -foto de Idalina 
Por do sol em Nazaré - foto de Idalina
Como se tudo isto não bastasse, vem a Dadá a me trazer, pelo face, o meu amado Portugal. Primeiro Aveiro, depois Fátima,  agora Nazaré: Ai meu Deus! Nunca pensei em amar tanto. Todos os amores ficaram para trás, quando percebo a intensidade do meu amor por um lugar – PORTUGAL. Gente, é uma saudade, uma dor misturada à satisfação de sabe-lo amado por outrem. Cada foto, cada palavra faz aumentar a minha saudade, o amor ninguém mais consegue aumentar, porque ele está incrustado em mim,o que me faz sentir Portugal com o se lá estivesse em meio a esta distância taõ imensa:  O ar impregnado de odores: em junho de sardinhas, e,  nos demais meses, de tantos e tantos outros odores: odores cheirosos, odores fétidos, mas odores de uma terra viva e amada. Ah! Como era bom e é bom, porque eu volto, a sentir o odor daquela   Largo São Domingos impregnado de suor, da gente que na pele traz a sua identidade e o seu cheiro. Como é bom subir as escadinhas que levam aos becos outros de Alfama e sentir o cheiro  das casas que só se abrem  se alguém entrar ou sair: nada além disto, mas, ainda assim, se der a sorte de sentir o cheiro nesta abertura de porta, vai sentir  o cheiro da idade de Lisboa, dos seus casarios, da sua tradição. Alguns dirão que é mofo; claro que é mofo: então  a idade não cheira a mofo.! Saudade  da Ribeira, dos bailes da tarde em tantos lugares: saudades, de sentir o mofo nas roupas dos  velhinhos que esperavam estes dias, sábados e domingos, para  mostrarem os seus dons (dançarinos)


Saudades  de andar  pelas ruas internas  do Cais do Sodré; de ver, há algum tempo atrás, as (putas) de Lisboa, na decadência da vida, entretanto, dando vida àquele espaço, à época, sombrio: hoje retiraram-nas para dar espaço  a bares fantásticos. A juventude acabando com a tradição, mas, ainda assim ,bom.  Realmente,  continuo impregnada de amor por Lisboa e por Portugal, não sei como isto vai acabar, porque se eu não voltar para lá, vai acabar comigo esta dor, este amor. É como se fosse uma paixão sem resolução, quando um não quer corresponder. Mas, eu sei que não é assim, porque Lisboa e o meu Tejo me querem, eu sei, eles me amam na mesma intensidade que eu os amo. O Tejo, talvez mais volúvel, entretanto mais poderoso, pode chegar até a mim através do Atlântico. Fico esperando que ele esteja nas águas em que entro aqui em Patamares. Talvez uma corrente mais fria seja ele me avisando que está ali. Que bom! Só assim consigo, ao menos, por um minuto, ter o seu amor quase dentro de mim, entrando por todos os orifícios possíveis. Ah Meu Deus, termino ficando doida de tanto amor.
Sei que é comprometedor amar tanto e esta declaração pública de amor, mas com você, meu querido e amado Portugal, é diferente: tenho a ousadia de dizer publicamente do meu amor, queria mesmo é que você me amasse numa correspondência tão intensa quanto a do meu.
Pois é, em uma tarde de domingo, hoje dia 06 de janeiro em que se comemora o dia dos Reis, em que na Espanha se troca presentes, espero que seja merecedora de um. – Voltar a Portugal, Ver Lisboa, molhar os pés no Tejo, agradecer à Nossa Senhora de Fátima, caminhar pela calçada de Figueira da Foz, andar pelas ruelas de Alfama, ir no miradouro (qualquer um deles) passar pela ponte do Minho, do Douro, ir à Chaves, Bragança, Guimarães, Braga, Viana do Castelo, Ponte de Lima, |Ah Meu Deus quanta saudade!
Ir o Alentejo :andar sozinha pelas praias de Melides, Lagoa de Santo Andres, sentar naquele restaurante em Vila Nova de Mil Fontes,  comer em Zambujeira do Mar, ir ao Algarve, ver Portimão, Olhão, Tavira, Albufeira, Vila Moura e tantos outros lugares, não interessa onde, mas lá, na terrinha, escrevendo num final de tarde de domingo  lá, em Cascais, olhando o por do sol naquele farol que sempre conseguiu me dar rumo em todos os momentos, de preferência, na companhia do meu querido Alentejano, que soube, como ninguém, me dar amor e me mostrar o melhor de Portugal.
Que saudade!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Garcia D`Ávila XX - Mais um Diogo


O final do ano chega e o senhor Garcia nada. O homem se aborreceu mesmo, parece que não gostou mesmo de eu estar voltada para a história de Caramuru e esquecido um pouco dele.  Eu queria falar sobre a fundação de Cachoeira na Bahia e saber dele como foi esta história, mas ele  resistia em falar disto. A situação piorou quando, no último encontro, eu fiz ele ver a importância de Diogo Alvares Correia, perguntando-lhe se algum dia ele, Garcia D`Ávila tinha recebido alguma carta do Rei como aconteceu com Caramuru, aliás, eu lhe fiz ver que o Rei pediu um favor ao Diogo.  Realmente para o Senhor da Torre, o narcisista de primeira, aquilo fora demais, quase uma humilhação.
Estava realmente aflita, pois sei que algumas pessoas gostariam de mais um texto este ano, e eu, pessoalmente, queria terminar  por completar  vinte episódios, mas o miserável do homem sumiu mesmo.
Paciência, dizia eu para mim mesmo.  Por que não escreve sobre outra coisa? O certo é que eu gostaria de continuar a escrever sobre Caramuru, para dar uma sequência mais lógica aos textos, mas já que não era possível, vou tentar escrever sobre qualquer  acontecimento, sem fazer ligações com o Senhor Garcia D’ Ávila, afinal de contas a história da Bahia é mais de que rica e eu não posso ficar limitada ao que diz um fantasma  com ares superiores e metido a besta.
Pensando nisto peguei o computador e comecei a pensar no ano de 1603. Eu sabia que o senhor Garcia já andava mesmo muito alquebrado, e talvez por isso, fantasma ou não, ele estava se recusando a aparecer. Não se queria mostrar velho  e cansado, talvez quisesse preservar a sua imagem viril, como se ele fosse eternamente jovem. Também eu sabia que a hora dele estava chegando.
Procurei nos livros quem era o governador da época: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, o homem não ia aparecer de maneira alguma, pois não é que o nome do governador era DIOGO BOTELHO. Se o Garcia aparecesse e eu falasse em algum Diogo ele jamais me perdoaria, pois ia associar o nome ao outro.
Diogo Botelho chegou ao Brasil em 1602, já chegou com uma fama de retadão. O homem duro, filho de uma nobreza portucalense, e como primeira missão: acabar com uma  indisciplina de indígenas e negros pelos lados do Ceará, Alagoas. Por este motivo, ao invés de vim para a Bahia, capital do  Brasil quedou-se em Pernambuco.
_ Gostas muito de Diogos!
Me assustei, tive a nítida impressão que ouvi  voz do Sr Garcia.
 Não dei muita atenção, porquanto o Sr Garcia, jamais chegaria até mim sem se materializar fisicamente (voz e violão). Todavia, ao rir do pensamento e da situação em si, senti um forte empurrão.
- Que diabo é isto?
- kkkkkk sou eu minha querida,  O Sr Da Torre, já esquecestes de mim assim tão fácil?
- Quem poderia esquecer do senhor?
-Diga-me lá. Qual o seu interesse agora por mais este Diogo?
-Ora Senhor Garcia, eu escrevo sobre a história da Bahia colonial, ou melhor sobre o Brasil, e se houve um governador, o oitavo deles, preciso falar sobre ele e o período do seu governo.
- Então já esqueceste do Caramuru?
-Claro que não, mas o senhor não quer falar mais dele, então tenho de estudar mais sobre ele nos livros, assim resolvi falar do Diogo. O que o senhor pode dizer sobre este senhor?
-  Não tenho muito a falar sobre ele não, afinal ele, ao invés de prestigiar a Bahia, ficou lá pelas bandas de Pernambuco, e se não fossemos nós, os homens de bem desta terra, não sei o que teria acontecido. 
- Ora senhor Garcia, o homem veio com ordens do Rei para conter a rebelião dos negros  então deve ter procurado o lugar mais próximo, de onde ele poderia comandar melhor a ação.
- Gostas de justificar erros não é?
- Não, não gosto, estou simplesmente explicando  o motivo dele ter ficado por lá.
- Então achas que ele não poderia fazer isto daqui? Pergunte-me se ele foi para alguma frente de batalha com aqueles negros, Claro que não, ele mandou o Pero Coelho de Sousa e, contrariando ordens do Rey, fez cativos os indígenas.
-Como é Senhor Garcia, o homem desobedeceu ordens Reais?
-Sim, tanto que o Rey determinou em carta que enviou que fizessem todos retornarem às suas aldeias, isto em 22 de setembro de 1605.
- É eu li esta carta, achei interessante como o Rey saudava o Diogo Botelho, ele o chamava de AMIGO.[1]
- Estas doida, então o Rey ia lá se dirigir a um subordinado tratando-o como AMIGO.
-Estou a falar sério Senhor Garcia, li duas ou três cartas do Rey para o Diogo, e em todas elas  a palavra amigo, estava sempre colocada após o nome do Diogo Botelho.
- Se o rei soubesse a realidade, como era o comportamento desse homem, certamente, não o trataria assim.
- Então diga-me qual o comportamento deste homem, que todos dizem muito honesto e enérgico.
- Honesto e enérgico? Enérgico talvez, mas honesto ele não é não.
- O que ele fez senhor Garcia, estas me deixando curiosíssima
- Devias saber, não vives a fuçar a vida das pessoas na sua madeira preta. Vai lá e procura, eu não vou dizer-te nada, não posso me comprometer.
- Como é senhor Garcia, o senhor não vai me dizer nada mesmo.
-Não, não vou, o homem é fidalgo, amigo do rei como tu mesmo dissestes, se ele sabe que ando a falar das falcatruas dele, não sei o que pode acontecer.
Fiquei realmente curiosa  e já que o  Senhor da Torre não ia me dizer, tinha mesmo de procurar, mas para isto era preciso que ele fosse embora.
-Olhe bem, não te vou dizer nada, mas procure saber por que foi ordenada uma devassa contra este seu novo Dioguinho, devassa esta que foi conduzida pelo Belchior do Amaral.
-O que? Então houve uma devassa. Oh senhor Garcia, diga-me lá  qual o motivo que levou a ser feita esta devassa?
-Vou embora, já falei demais, mas vá procurar saber e vais se surpreender  com este senhor. Ele é muito ambicioso, e certamente, por causa desta “ambição desmedida levantou suspeita sobre a sua honestidade[....]  suspeitas tão fortes que justificaram a abertura de uma devassa geral conduzida por Belchior Amaral em 1604.[2]
-O Senhor está brincando Senhor Garcia, todos falam da  austeridade, da rigidez do Diogo Botelho:
-Bolas!  Eu brincando!  Então no relatório do Belchior  ele informa ao Rei: “Vossa Majestade devia mandar outro governador àquele Estado.[3]
-O que foi apurado  Senhor Garcia me diga, me poupe o trabalho de pesquisar.
- De fato , “
as culpas do Diogo Botelho eram comprometedoras: venda de cargos e ofícios, apropriação dos salários dos oficiais, confisco ilegal de vinhos para vendê-los a preços extorsivos; apropriação da renda dos defuntos para a compra de escravos: compra de escravos a preços irrisórios. A isto se ajuntavam  outros tantos delitos, como a participação no negócio negreiro, pois ele pagava o que bem queria pelos escravos vindos de Angola, costume de aceitar presentes por parte dos moradores;; interferência nos despachos do ouvidor; além de permanecer em Pernambuco e não na Bahia, contrariando ordens régias”[4].
Danou-se, isto foi mesmo verdade.
-Claro que é verdade. O homem enganou a todos direitinho. E ainda dizem, não posso afirmar, ?ue ele pratica a sodomia.
-Póxa Senhor Garcia o Senhor é cruel, quem disse isto.
-É o que falam as más línguas.
Comecei a rir, pois o Senhor da Torre tinha razão mesmo, mas como eu ia dizer a ele que o Diogo Botelho foi denunciado à Inquisição, na segunda que ocorreu no Brasil, cujo Inquisidor era Dom Marcos Texeira, pelo seu pajem Fernão Roiz de Souza, que confessou ter cometido ambos o “pecado nefando da sodomia”, por inúmeras vezes ao longo de dez anos”[5].
O homem era, como se pode ver um retado, e há ainda muitas estórias sobre ele, estórias que contarei da próxima vez que o senhor da Torre aparecer, e esteja tão falante quanto hoje, embora tenha saído sem dar até logo.



[1] Documentos do tempo de Diogo Botelho relativos ao Ceará, 1912.
[2] ROMEIRO, Adriana, Corrupção e Poder no Brasil, Uma História, Séculos XVI a  XVIII, 2017,https//playgoogle.com?books/reader, acessado em 31/12/2018. .
[3] Idem
[4] Ibidem
[5] Ibidem, Idem

domingo, 23 de dezembro de 2018

Parabéns Senhor Aurentino


Por um dia você não nasceu no mesmo dia de Jesus. Será? Foi vinte e quatro ou vinte e cinco? Se foi vinte e quatro por que o natal é vinte e cinco, se foi vinte e cinco, por que temos que comemorar no dia vinte e quatro?  Questões idiotas, tenho certeza, ao menos para mim, mas o que quero mesmo e precisava de uma deixa, era falar e você e do seu aniversário.
´E engraçado, quando você estava vivo não podíamos nem abrir a boca, qualquer comentário meu era motivo de uma grande confusão. Ficava calada observando as merdas que você fazia, até porque o olhar de minha ´mãe era tão amedrontador que era melhor ficar quieta, mas, muitas vezes não resisti e tive de falar, e só escapei das cacetadas porque era ágil aos meus quinze ou dezesseis anos.
Bom, o fato é que hoje você, se vivo estivesse, faria apenas kkkkkki 98 anos. Porra, será aguentaríamos você? Certamente não, ao menos eu, com certeza não.
O tempo passa e há mais de trinta anos que você se foi, mas, nem mesmo todas as sacanagens que você fez, comigo, com minha mãe e toda a nossa família, foi capaz de deixar que nos lembremos que você foi o nosso pai.
Presente nas porradas, quero dizer, nas surras que levávamos, mas ausente sempre de amor. Não tivemos você nunca. Fico imaginando a sua dor, porque você foi criado sem amor e conseguiu, puta merda! transferir toda a sua dor e frustração para nós, seus filhos, que, de uma maneira ou de outra, te amavam.
Fico sempre pensando que você tinha vontade de fazer um carinho em todos nós, mas o seu ibérico sangue, tirado a retado, não permitiu nunca. Não recordo, e isto é real, de te ver alisando um cabelo de um de nós, os seus filhos. Também não me lembro de ver você e minha mãe em algum momento mais íntimo, de verdadeiro amor.
Lembro-me os gemidos de vez em quando, nossa casa era de parede meia, mas, além disto nada. Como você foi cruel conosco pai, queríamos tanto ter o seu carinho, o seu amor. Você conseguiu criar uma legião de pessoas que não gostam de demonstrar   sentimentos, Você  nos fez reproduções de você, mesmo sem querer somos  contidos no amor que temos por nós mesmos,  e por outrem. 
Estamos mudando, com certeza estamos, procuramos hoje demonstrar um pouco mais de amor por nós outros, mas é difícil. Coisa de sangue. Uns piores que outros. Temos sobrinhos que com a corda no pescoço preferem sucumbir a dizer alguma coisa. Não percebo, realmente não percebo, e quero sua ajuda para poder dissipar isto. Precisamos de nós, nós precisamos de nós, e é  necessário que o senhor, de onde estiver, interfira nisto. Queremos estar muito unidos, e você é essencial para isto agora, porque no seu plano espiritual pode nos ajudar muito, Estou ter pedindo pai, o que você não pode fazer antes, faça por favor agora. Não nos deixe mais á deriva. Você, melhor que eu, sabe o quanto estamos  desgarrados  na nossa família. Por favor, ajude-nos a nos unir, precisamos disto .Se isto não acontecer corremos o risco de nos perder para sempre. Tio Lino, Tio Mosqueira, Meu padrinho Augusto, Palmira, Amalia, Vó Regis, Tunieta, Natercia e tantos outros já se foram, só temos agora a sua descendência direta, e não queremos nos perder.
Você, que era igualzinho ao que somos hoje na grande maioria de nós,  precisa de nos dar um empurrão. Você pode, espiritualmente, nos ajudar. Ajude-nos pai., Se não fizestes isto em vida, faça agora, por favor.
O seu aniversário, 98 anos,  permite-nos que te peçamos algo: já estas bem maduro. Com certeza os filhos que se foram estão ai ao seu lado e lhe darão força suficiente par que você, agora no plano espiritual, nos ajude, nos mostre o caminho a seguir. Minha mãe, seus pais,   seus filhos, os meus avós maternos estão aí, no mesmo plano que você, portanto, aproveite  para resgatar tanto que nos deve em relação ao  amor. È um pedido pai, eu sei que você sabe o que alguns estão passando, e você bem sabe que precisamos de tua ajuda. Faça algo.
Mas, entretanto, e apesar de tantas queixas, é o seu aniversário. Espero que no etéreo plano em que estás, estejas comemorando com a  sua fiel e grande esposa, seus filhos apressados, que quiseram se unir a você antes  do tempo certo, talvez para poder usufruir do amor que você tanto escondeu de nós, de seus pais,  e tantos outros que você, no seu  silêncio, admirou e amou.
Feliz aniversário Pai.


domingo, 9 de dezembro de 2018

Nao desistam dos sonhos


Não desistam nunca. As metas só se alcançam pela persistência. Não estou dizendo para você insistir no que você sente que vai dar errado, ou em algo que é errado mesmo desde o seu começo, e sim que, se você quer conseguir algo, tem de persistir.
Por que resolvi escrever este texto? Por que sou o exemplo vivo de que tudo o que se quer se consegue, quando  este tudo depende somente de nós mesmos, Quando, para realizarmos algo, necessita-se de outrem, as coisas ficam mais complicadas, mas, mesmo assim, não devemos desistir.
Alcançar metas, realizar sonhos significa encontrar a felicidade, ou vermos os nossos desejos realizados, tudo em nossas mãos. Não importa a idade em que realizemos os nossos sonhos,porque o que importa e alcançarmos  as nossas metas e encontrar a felicidade, porque a felicidade é exatamente isto, o bem estar que sentimos quando realizamos os nossos sonho
Eu queria conhecer Veneza e a Grécia, só consegui aos 60 e na companhia de quem projetei para ir comigo.
Eu realizei muitos sonhos, e sempre digo que os realizei, porque sempre sonhei o que era possível. Não adianta fixar metas impossíveis de serem alcançadas: por exemplo: “quero ter uma casa na Vieira Souto”, sabe quando isto vai acontecer?  Nunca, porque, a não ser com a loteria (mega sena acumulada), isto jamais seria alcançado através dos meus ganhos pessoais. Assim, o melhor de tudo é sonhar o possível, o realizável.

domingo, 21 de outubro de 2018

Um conversa entre o vigilante e o lavador de carro


Ontem, pela manhã, como de costume em todos os dias, sai para  fazer a minha caminhada matinal. Como sempre, estou a andar em um mesmo espaço, já conheço quase todos que transitam no local naquele horário; a grande maioria de empregadas domésticas que chegam para o trabalho; os moradores locais, que levam os seus cães para fazerem as suas necessidades, outros que se dirigem à praia ou seguem para as academias próximas. Uma senhora que todos os dias me diz que tem inveja da minha disposição, inveja que julgo crescente, porque eu tenho, aproximadamente, uns dois anos que faço a caminhada no mesmo sítio e ela nada. Um vigilante que, chegando ou saindo do turno, carrega a sua gaiola com o seu pássaro de estimação.
Entretanto, tem duas pessoas que vejo religiosamente: o vigilante de um condomínio, que,às seis da manhã, já não fica dentro da portaria, e sim no outro lado da rua, de onde pode avistar as pessoas que entram nela vindo da orla, a espera de ver o colega, com quem vai trocar o turno, se aproximar, é visível a sua impaciência para que o companheiro chegue, mas isto não lhe tira a educação de dar o bom dia à madame: (a madame sou eu), e o lavador de carros dos proprietários que vivem naquele condomínio,
Pois bem: o vigilante que é um homem robusto, careca, deve passar dos quarenta e cinco anos, e o lavador de carros baixinho, moreno, não me lembro da sua fisionomia direito, mas deve ter de cinquenta pra lá, estavam conversando; pego apenas um ponto da conversa, como é evidente, pois não podia parar para ficar ouvindo o que conversavam, mas deu para perceber que tratavam de convivência com mulher:
O lavador de carro, justo na hora que passei fez o seguinte comentário:
- Agora não quero mais mulher nenhuma morando comigo: Depois do que a última fez, vou viver sozinho. Nunca mais boto uma mulher em casa.
O outro retrucou: Pois é o que vou fazer também: Daqui há uns dois anos isto acaba, e também não vou querer mais nenhuma lá em casa:
Segui andando e querendo entender esta colocação do vigilante: Daqui há dois anos isto acaba. Pensei comigo: então a relação dele tem prazo de validade fixado? Por que será que ele vai precisar esperar ainda dois anos? E tentando adivinhar o que a do lavador tinha feito: Será que deu um corno nele? 
“Esmeralda, o que você tem com isto? Preste atenção a sua caminhada e deixe de pensar  na vida dos homens” 
Todavia, o pensamento não se afastava, e eu fiquei retada porque tinha de me afastar e não poderia ouvir o fim da conversa. Voltando no caminho, peguei outro trecho:
-Agora pego a mulher e levo para casa e pronto e no outro dia ela vai embora, diz o lavador de carro.
- Tá doido! Retruca o vigilante:  Leve para qualquer lugar, menos para sua casa, nem deixe ela saber onde você mora: estas porras  são assim: Vai um dia, dois, três: com uma semana já começa a levar uma roupa aqui outra ali, tudo treita, em um mês ela já levou as roupinhas todas e já está instalada e querendo mandar e mudar as coisas da sua casa, e o pior, comandar a sua vida.
Não pude deixar de rir: pois vi mesmo o filme, É assim mesmo: tanto homem quanto mulher agem da mesma maneira: chegam de mansinho como quem não quer nada e vão se apossando de você, da sua casa. Mulher! ainda pior, porque modificam tudo, à título de agradar, claro que a si própria, mudam posição dos móveis, arrumam gavetas tirando as coisas do lugar, fazem comida, mexem nas coisas para descobrir a vida do homem. Bom, o homem, entra também da mesma maneira: uma roupa hoje, uma cueca amanhã, mais não sei o que no outro dia, e de repente querem comandar a vida da mulher, querem que elas se separem de algumas amigas, de amigos, deixe de ir a lugares, enfim, começa o inferno.
Quero dizer a vocês que nada disto aconteceu comigo, entretanto, tenho presenciado coisas do tipo com algumas pessoas que conheço e conheci ao longo da vida. Vi relacionamentos que começaram assim, com uma calcinha hoje e uma cueca amanhã, darem certo, mas, também, vi relacionamentos muito errados, tão errados que foi necessária a intervenção de terceiros: família, policia, juiz, para que o intruso saísse da casa do outro.
Mais ainda, vi pessoas que conviveram apenas por meses, questionarem bens do outro. Dá para acreditar? Acreditem porque é verdade mesmo, há pessoas inescrupulosas, que se sentem realmente prejudicadas.
E quando um deles já tem filhos! Merda total; pois o intruso quer tomar as rédeas, lhe dizer como você deve criar o seu filho, disputam espaço, dinheiro, carinho, enfim
Bom, mas não comecei o texto para discutir este tipo de comportamento, Só ´fiz o texto porque achei interessante e engraçada a conversa dos dois personagens, e é uma pena que não a tenha ouvido toda, pois deve ter saído muitas outras pérolas dali.  A realidade, o cotidiano daquelas pessoas, a crônica da vida.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Caramuru II - Garcia D' Ávila XVIII


Eu estava muito apreensiva em relação ao próximo encontro com o Sr. da Torre. Não podia sequer imaginar qual seria a sua reação quando me encontrasse outra vez depois do acidente do barco, aliás, nem sei mesmo se ele vai aparecer outra vez, o que seria uma pena, porque se isto acontecesse eu não saberia mais nada sobre o Caramuru e nem sobre outras coisas, fatos acontecidos na época.(1550-1609).
Estávamos exatamente na parte em que ele ia me dizer porque ele ganhou a alcunha de Caramuru. Eu estava tão incrédula de uma nova visita que resolvi fazer, eu mesmo, minha pesquisa e esquecer a contribuição do Sr. da Torre.
Entretanto o homem era imprevisível, e logo que comecei a fazer o texto com as       descobertas que fiz através dos muitos autores que escreveram sobre Caramuru, o homem apareceu:
- Quer dizer que você e o seu marido queriam me matar?
-O que é isto Sr. Garcia, quem poderia adivinhar que a outra lancha ia passar e fazer uma marola tão intensa? O Senhor viu que todo mundo se desequilibrou, mas o senhor estava muito próximo da lateral  e o resultado foi o que ocorreu.
-Se eu não fosse um exímio nadador, agora estava sendo comido por peixes.
- O Que é isto Senhor Garcia! O Sr é imortal
Acho que ele não entendeu bem o que eu disse, ou então fingiu que não entendeu. Não sei, este homem é dissimulado, e a gente não pode confiar muito nele.  Quanto pior, quando estava mesmo com cara de poucos amigos e sem esquecer o que tinha acontecido. Continuei falando que ele era imortal, que o seu nome até hoje era lembrado como um dos grandes e poderosos homens da Bahia Colonial, enfim, queria dar corda ao narcisismo do Sr. Garcia. Falei muito, falei do quão ele era importante, do quanto sua Tatuapara foi determinante nas tentativas de invasões, como ele construiu o seu grande latifúndio. Não falei em momento algum das derrotas, só queria encher a bola dele. Ele, olhando fixamente para mim, parecia entender o meu jogo, mas o narciso falou mais alto e ele começou a rir e a fazer questionamentos e argumentações.
-Não sei quem são estas pessoas de quem fala! Parece que falas comigo como seu eu já tivesse morrido.
Ri por dentro, mas fiquei caladinha, hoje eu não contrariava este homem de maneira alguma.  De que falávamos mesmo senhor Garcia no nosso último encontro.
- Não te recordas, andavas tão interessada no assunto.
Sorri, o homem era um jogador e deixei que ele pensasse que estava vencendo aquela partida.
- Sei lá Senhor Garcia, quando o senhor está por perto a variedade de assuntos é muito grande, o Senhor pode falar-me de tantas coisas relacionadas com a Salvador, com a governança, com a Igreja, usos e costumes da época, que não posso me fixar em um só assunto.
- É, conheço mesmo muita coisa desta terra
-Pois então, qualquer coisa que o senhor me fale é de uma importância extrema, assim, como não me lembro do que falávamos mesmo, o senhor pode falar o que quiser, eu fico aqui sentadinha à sua disposição e toda ouvidos.
- Quantos anos tens?
A pergunta me pegou desprevenida e falei: 65
O senhor Garcia deu uma bela risada. Estás de borla comigo? Tu es muito jovem para ter esta idade. Não tens nem mesmo 30.
Fiquei a olhar o homem meio incrédula. E comecei a perguntar-me: - Como será que ele me vê? Será que ele me vê mesmo assim tão nova?  Senhor Garcia, qual a cor da roupa que estou a vestir?
- Que pergunta é esta? Não sabes a roupa que vestes?
- Anda lá Senhor Garcia, diga-me qual a cor da minha roupa, quero apenas tirar uma dúvida.
- Estás com alguma problema na vista? Então não reconheces mais as cores,: Estas com um vestido  de cor azul, aliás, um vestido que deixa-te muito atraente, e nem sei como aquele homem que dizes que é o teu esposo deixa vestir-te assim.
- Ora senhor Garcia, as  vezes ele nem nota o que que visto e dizendo isto encaminhei-me para o espelho que ficava na sala e vi que estava de shorts e uma camiseta. Kkkkkk, ri mais ainda. e descobri que o Garcia D’ Ávila me via da maneira que ele queria me ver, com a roupa que ele queria e com as maneiras que ele queria, isto me deixou intrigada e fascinada ao mesmo tempo, tanto que  falei para mim mesmo: vou estudar o espiritismo para ver se descubro algo que possa me explicar isto.
Por que está a rir? Falei alguma bobagem?
- Claro que não, o senhor não fala bobagens Sr Garcia, o senhor é um homem sério, responsável, cheio de atividades e não teria como falar bobagens, mas o senhor ainda não me disse do que falávamos no nosso último encontro.
Claro que eu sabia que falávamos de Caramuru, mas eu queria mesmo era mexer com os brios do Senhor da Torre, e fiquei dando-lhe muita corda, mas eu tinha de dar um jeito de entrar no assunto que me interessava.
- Senhor Garcia, o Senhor sabe que estive em Viana do Castelo?
- Estivestes onde?
- Em Viana do Castelo Senhor Garcia, lá no Norte de Portugal. E sabe o que descobri lá?
-O que descobristes lá?
Uma estátua do Diogo Alvares Correia e de sua Mulher:  a Catarina Paraguaçu.
- Estás a brincar comigo? O que pensas e onde estás que inventas uma asneira desta. Então o Caramuru iria ter uma estatua em Viana do Castelo?  
- Sr da Torre, eu não costumo brincar, quanto pior com o senhor. Estou a falar sério, se quiseres posso vos mostrar uma gravura desta estátua.
-De onde tiraste isto?
- Ora senhor Garcia eu não estou a dizer que fui a Viana, eu vi a estátua, e se não tivesse ido poderia saber de tudo na minha madeira preta, como o senhor chama o meu computador.
-Es mesmo uma bruxa, não sei porque ainda procuro-te para conversar, o que devia fazer mesmo era entregar-te ao Visitador.
-Tenho certeza que nunca faria isto comigo. E fui pegar o computador: Será que ele vai conseguir ver a fotografia da estátua? Será que ele consegue ver isto? Muita modernidade para um homem do século XVI.
- Não, não quero ver nada, agora se esta estátua existe mesmo, existe a troco de que?
Senti logo a facada, o homem desdenhava da história, porque era por demais convencido.  Imagine o Caramuru, aquele  homem que vivia entre indígenas, casou-se com uma delas, teve vários filhos, tinha costumes indígenas, ia lá ter uma estátua em Viana: e ele não tinha nada, nenhuma homenagem, ele o rei do gado da época colonial, o desbravador de sertão, o homem dos currais, um homem bom da cidade: Hum, isto era mesmo demais para ele aguentar.
- Senhor Garcia, Caramuru, tal qual o senhor, foi um personagem muito importante na nossa história.  Poderíamos dizer que Caramuru foi responsável pelo surgimento de uma “raça” brasileira, um povoador. Aliás o senhor bem sabe como ele ajudou o Tomé de Souza e tantos outros que aqui estiveram antes dele.
-  Um português que se esqueceu dos seus costumes e virou um indígena, foi isso que ele foi.
-É Senhor Garcia, mas foi este português que recebeu uma carta do Rei Dom João III, carta do qual o senhor deveria ter conhecimento, porque nesta missiva o Rei apresentava Tome de Sousa ao Diogo Alvares e solicitava a sua ajuda em tudo o que fosse necessário.
O Senhor Garcia me olhou com muita raiva, e eu quis sacanear um pouquinho.
- O Senhor alguma vez recebeu uma carta diretamente do Rei?
Fuzilando-me ele respondeu que ele recebia ordens diretamente de Thomé de Sousa, não necessitando falar com o Rei, até porque o Thomé de Souza e os demais governadores em os representantes do Rei na colônia. Por outro lado, a esta altura, ele um homem poderoso, não recebia ordens de absolutamente ninguém,
- Sim senhor Garcia, mas a importância de Caramuru é mesmo enorme para a nossa história e o senhor não deveria desdenhar disto, afinal a sua filha casou-se com um neto dele, e o sangue  dele corre nas veias do seu neto. As filhas dele casaram com pessoas importantes a exemplo do Dias Adorno
- Não me lembro de ter visto esta carta e nem a sua entrega por Thomé de Sousa.
Ah Senhor Garcia, preste atenção ao que El Rey escreveu:
Diogo Alvares
Eu, El Rey vos envio muito saudar. Eu ora mando Thomè de Souza, fidalgo da minha casa a essa Bahia de Todos os Santos por capitão governador d’ella, e para na dita capitania e mais outras d’esse Estado do Brasil prover de justiça d’ella, e do mais que ao meu serviço cumprir e mando, que na dita Bahia faça uma povoação, e assente grande e outras coisas de meu serviço. E porque sou informado pela muita prática e experiência, que tendes d’essas terras , e da gente. E costumes d’ellas, e sabereis bem ajudar  e conciliar, vos mando, que o dito Thomé de Souza lá chegar, e sabereis bem ajudar e conciliar, vos mando que o dito Thomé de Souza lá chegar, vos vades para elle, e o ajudeis no que lhe deveis cumprir, e vos elle encarregar, porque fareis nisso muito serviço: e porque o cumprimento, e tempo de sua chegada a ela abastada de mantimentos da terra para provimento da gente, que com ele vai, escrevo sobre isso a Paulo Dias, vosso genro, procure por se haverem, e os vá buscar pelos portos d’essa capitania de Jorge Figueredo. Sendo necessária vossa companhia e ajuda, encomendo-vos que o ajudeis no que virdes que cumpre, que o fareis. Bartolomeu Fernandes a fez em Lisboa a 19 de novembro de 1548 – Rei
Subescrito – por El Rey a Diogo Álvares, cavaleiro da minha casa na Bahia de Todos os Santos.[1]
- Nunca ouvi falar dessa carta, e não lembro de ter visto o Thomé de Souza entregar qualquer documento ao Caramuru.
-Sem dúvida Senhor Garcia, o senhor não viu esta entrega porque a carta não foi trazida por Thomé de Sousa, ela chegou antes dele, trazida por um cavaleiro do Rei – Gramatão Telles, que aqui chegou em 1548, portanto, antes  do senhor e do Thomé de Souza, a carta era uma espécie de apresentação do Thomé de Sousa e a solicitação para que o Caramuru ajudasse em tudo o que necessário.
Senti que o senhor da Torre estava ficando muito aborrecido, ele não conseguia esconder a inveja, e eu resolvi parar por ali, pois ainda tinha muita coisa par falar sobre o Caramuru, e sei que ele não ia gostar nem um pouquinho.
Não precisei de fazer nada, para mudar o assunto e nem desagrada-lo, pois de repente ele desapareceu da minha frente, sem sequer dizer até logo. Como sempre, fiquei com a cara de boba e a espera que ele, no dia que quiser, retorne. Não tem jeito, o homem é voluntarioso e temos de ficar à sua disposição.
Me lembro, entretanto, de uma noticia que li em um jornal de Viana do Castelo, numa grande coincidência. Lá, neste momento, existe uma polemica a respeito da estátua de Caramuru e da sua índia Paraguacu, pois ela vai ser retirada do local onde se encontra há longos anos, para um outro local que está sendo construído para esta finalidade. Gostei desta coincidência!
 





[1] JABOATÃO, Frei Antonio de S. Maria. Catalago Genealogico das Principais famílias que procederam de Albuquerques e Cavalcantis em Pernambuco e Caramurus na Bahia. In Revista Trimensal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, Tomo LII, Parte I, pp7,8. Rio de Janeiro. Typographia, Lithographia e Encadernação a Vapor de Lacmmart,  de C, 1889.  A revista pode ser acessada em  .https://upload.wikmidia.org/wikpedia/Commons/5/5b/IGHB_revista_1889..