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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Caramuru II - Garcia D' Ávila XVIII


Eu estava muito apreensiva em relação ao próximo encontro com o Sr. da Torre. Não podia sequer imaginar qual seria a sua reação quando me encontrasse outra vez depois do acidente do barco, aliás, nem sei mesmo se ele vai aparecer outra vez, o que seria uma pena, porque se isto acontecesse eu não saberia mais nada sobre o Caramuru e nem sobre outras coisas, fatos acontecidos na época.(1550-1609).
Estávamos exatamente na parte em que ele ia me dizer porque ele ganhou a alcunha de Caramuru. Eu estava tão incrédula de uma nova visita que resolvi fazer, eu mesmo, minha pesquisa e esquecer a contribuição do Sr. da Torre.
Entretanto o homem era imprevisível, e logo que comecei a fazer o texto com as       descobertas que fiz através dos muitos autores que escreveram sobre Caramuru, o homem apareceu:
- Quer dizer que você e o seu marido queriam me matar?
-O que é isto Sr. Garcia, quem poderia adivinhar que a outra lancha ia passar e fazer uma marola tão intensa? O Senhor viu que todo mundo se desequilibrou, mas o senhor estava muito próximo da lateral  e o resultado foi o que ocorreu.
-Se eu não fosse um exímio nadador, agora estava sendo comido por peixes.
- O Que é isto Senhor Garcia! O Sr é imortal
Acho que ele não entendeu bem o que eu disse, ou então fingiu que não entendeu. Não sei, este homem é dissimulado, e a gente não pode confiar muito nele.  Quanto pior, quando estava mesmo com cara de poucos amigos e sem esquecer o que tinha acontecido. Continuei falando que ele era imortal, que o seu nome até hoje era lembrado como um dos grandes e poderosos homens da Bahia Colonial, enfim, queria dar corda ao narcisismo do Sr. Garcia. Falei muito, falei do quão ele era importante, do quanto sua Tatuapara foi determinante nas tentativas de invasões, como ele construiu o seu grande latifúndio. Não falei em momento algum das derrotas, só queria encher a bola dele. Ele, olhando fixamente para mim, parecia entender o meu jogo, mas o narciso falou mais alto e ele começou a rir e a fazer questionamentos e argumentações.
-Não sei quem são estas pessoas de quem fala! Parece que falas comigo como seu eu já tivesse morrido.
Ri por dentro, mas fiquei caladinha, hoje eu não contrariava este homem de maneira alguma.  De que falávamos mesmo senhor Garcia no nosso último encontro.
- Não te recordas, andavas tão interessada no assunto.
Sorri, o homem era um jogador e deixei que ele pensasse que estava vencendo aquela partida.
- Sei lá Senhor Garcia, quando o senhor está por perto a variedade de assuntos é muito grande, o Senhor pode falar-me de tantas coisas relacionadas com a Salvador, com a governança, com a Igreja, usos e costumes da época, que não posso me fixar em um só assunto.
- É, conheço mesmo muita coisa desta terra
-Pois então, qualquer coisa que o senhor me fale é de uma importância extrema, assim, como não me lembro do que falávamos mesmo, o senhor pode falar o que quiser, eu fico aqui sentadinha à sua disposição e toda ouvidos.
- Quantos anos tens?
A pergunta me pegou desprevenida e falei: 65
O senhor Garcia deu uma bela risada. Estás de borla comigo? Tu es muito jovem para ter esta idade. Não tens nem mesmo 30.
Fiquei a olhar o homem meio incrédula. E comecei a perguntar-me: - Como será que ele me vê? Será que ele me vê mesmo assim tão nova?  Senhor Garcia, qual a cor da roupa que estou a vestir?
- Que pergunta é esta? Não sabes a roupa que vestes?
- Anda lá Senhor Garcia, diga-me qual a cor da minha roupa, quero apenas tirar uma dúvida.
- Estás com alguma problema na vista? Então não reconheces mais as cores,: Estas com um vestido  de cor azul, aliás, um vestido que deixa-te muito atraente, e nem sei como aquele homem que dizes que é o teu esposo deixa vestir-te assim.
- Ora senhor Garcia, as  vezes ele nem nota o que que visto e dizendo isto encaminhei-me para o espelho que ficava na sala e vi que estava de shorts e uma camiseta. Kkkkkk, ri mais ainda. e descobri que o Garcia D’ Ávila me via da maneira que ele queria me ver, com a roupa que ele queria e com as maneiras que ele queria, isto me deixou intrigada e fascinada ao mesmo tempo, tanto que  falei para mim mesmo: vou estudar o espiritismo para ver se descubro algo que possa me explicar isto.
Por que está a rir? Falei alguma bobagem?
- Claro que não, o senhor não fala bobagens Sr Garcia, o senhor é um homem sério, responsável, cheio de atividades e não teria como falar bobagens, mas o senhor ainda não me disse do que falávamos no nosso último encontro.
Claro que eu sabia que falávamos de Caramuru, mas eu queria mesmo era mexer com os brios do Senhor da Torre, e fiquei dando-lhe muita corda, mas eu tinha de dar um jeito de entrar no assunto que me interessava.
- Senhor Garcia, o Senhor sabe que estive em Viana do Castelo?
- Estivestes onde?
- Em Viana do Castelo Senhor Garcia, lá no Norte de Portugal. E sabe o que descobri lá?
-O que descobristes lá?
Uma estátua do Diogo Alvares Correia e de sua Mulher:  a Catarina Paraguaçu.
- Estás a brincar comigo? O que pensas e onde estás que inventas uma asneira desta. Então o Caramuru iria ter uma estatua em Viana do Castelo?  
- Sr da Torre, eu não costumo brincar, quanto pior com o senhor. Estou a falar sério, se quiseres posso vos mostrar uma gravura desta estátua.
-De onde tiraste isto?
- Ora senhor Garcia eu não estou a dizer que fui a Viana, eu vi a estátua, e se não tivesse ido poderia saber de tudo na minha madeira preta, como o senhor chama o meu computador.
-Es mesmo uma bruxa, não sei porque ainda procuro-te para conversar, o que devia fazer mesmo era entregar-te ao Visitador.
-Tenho certeza que nunca faria isto comigo. E fui pegar o computador: Será que ele vai conseguir ver a fotografia da estátua? Será que ele consegue ver isto? Muita modernidade para um homem do século XVI.
- Não, não quero ver nada, agora se esta estátua existe mesmo, existe a troco de que?
Senti logo a facada, o homem desdenhava da história, porque era por demais convencido.  Imagine o Caramuru, aquele  homem que vivia entre indígenas, casou-se com uma delas, teve vários filhos, tinha costumes indígenas, ia lá ter uma estátua em Viana: e ele não tinha nada, nenhuma homenagem, ele o rei do gado da época colonial, o desbravador de sertão, o homem dos currais, um homem bom da cidade: Hum, isto era mesmo demais para ele aguentar.
- Senhor Garcia, Caramuru, tal qual o senhor, foi um personagem muito importante na nossa história.  Poderíamos dizer que Caramuru foi responsável pelo surgimento de uma “raça” brasileira, um povoador. Aliás o senhor bem sabe como ele ajudou o Tomé de Souza e tantos outros que aqui estiveram antes dele.
-  Um português que se esqueceu dos seus costumes e virou um indígena, foi isso que ele foi.
-É Senhor Garcia, mas foi este português que recebeu uma carta do Rei Dom João III, carta do qual o senhor deveria ter conhecimento, porque nesta missiva o Rei apresentava Tome de Sousa ao Diogo Alvares e solicitava a sua ajuda em tudo o que fosse necessário.
O Senhor Garcia me olhou com muita raiva, e eu quis sacanear um pouquinho.
- O Senhor alguma vez recebeu uma carta diretamente do Rei?
Fuzilando-me ele respondeu que ele recebia ordens diretamente de Thomé de Sousa, não necessitando falar com o Rei, até porque o Thomé de Souza e os demais governadores em os representantes do Rei na colônia. Por outro lado, a esta altura, ele um homem poderoso, não recebia ordens de absolutamente ninguém,
- Sim senhor Garcia, mas a importância de Caramuru é mesmo enorme para a nossa história e o senhor não deveria desdenhar disto, afinal a sua filha casou-se com um neto dele, e o sangue  dele corre nas veias do seu neto. As filhas dele casaram com pessoas importantes a exemplo do Dias Adorno
- Não me lembro de ter visto esta carta e nem a sua entrega por Thomé de Sousa.
Ah Senhor Garcia, preste atenção ao que El Rey escreveu:
Diogo Alvares
Eu, El Rey vos envio muito saudar. Eu ora mando Thomè de Souza, fidalgo da minha casa a essa Bahia de Todos os Santos por capitão governador d’ella, e para na dita capitania e mais outras d’esse Estado do Brasil prover de justiça d’ella, e do mais que ao meu serviço cumprir e mando, que na dita Bahia faça uma povoação, e assente grande e outras coisas de meu serviço. E porque sou informado pela muita prática e experiência, que tendes d’essas terras , e da gente. E costumes d’ellas, e sabereis bem ajudar  e conciliar, vos mando, que o dito Thomé de Souza lá chegar, e sabereis bem ajudar e conciliar, vos mando que o dito Thomé de Souza lá chegar, vos vades para elle, e o ajudeis no que lhe deveis cumprir, e vos elle encarregar, porque fareis nisso muito serviço: e porque o cumprimento, e tempo de sua chegada a ela abastada de mantimentos da terra para provimento da gente, que com ele vai, escrevo sobre isso a Paulo Dias, vosso genro, procure por se haverem, e os vá buscar pelos portos d’essa capitania de Jorge Figueredo. Sendo necessária vossa companhia e ajuda, encomendo-vos que o ajudeis no que virdes que cumpre, que o fareis. Bartolomeu Fernandes a fez em Lisboa a 19 de novembro de 1548 – Rei
Subescrito – por El Rey a Diogo Álvares, cavaleiro da minha casa na Bahia de Todos os Santos.[1]
- Nunca ouvi falar dessa carta, e não lembro de ter visto o Thomé de Souza entregar qualquer documento ao Caramuru.
-Sem dúvida Senhor Garcia, o senhor não viu esta entrega porque a carta não foi trazida por Thomé de Sousa, ela chegou antes dele, trazida por um cavaleiro do Rei – Gramatão Telles, que aqui chegou em 1548, portanto, antes  do senhor e do Thomé de Souza, a carta era uma espécie de apresentação do Thomé de Sousa e a solicitação para que o Caramuru ajudasse em tudo o que necessário.
Senti que o senhor da Torre estava ficando muito aborrecido, ele não conseguia esconder a inveja, e eu resolvi parar por ali, pois ainda tinha muita coisa par falar sobre o Caramuru, e sei que ele não ia gostar nem um pouquinho.
Não precisei de fazer nada, para mudar o assunto e nem desagrada-lo, pois de repente ele desapareceu da minha frente, sem sequer dizer até logo. Como sempre, fiquei com a cara de boba e a espera que ele, no dia que quiser, retorne. Não tem jeito, o homem é voluntarioso e temos de ficar à sua disposição.
Me lembro, entretanto, de uma noticia que li em um jornal de Viana do Castelo, numa grande coincidência. Lá, neste momento, existe uma polemica a respeito da estátua de Caramuru e da sua índia Paraguacu, pois ela vai ser retirada do local onde se encontra há longos anos, para um outro local que está sendo construído para esta finalidade. Gostei desta coincidência!
 





[1] JABOATÃO, Frei Antonio de S. Maria. Catalago Genealogico das Principais famílias que procederam de Albuquerques e Cavalcantis em Pernambuco e Caramurus na Bahia. In Revista Trimensal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, Tomo LII, Parte I, pp7,8. Rio de Janeiro. Typographia, Lithographia e Encadernação a Vapor de Lacmmart,  de C, 1889.  A revista pode ser acessada em  .https://upload.wikmidia.org/wikpedia/Commons/5/5b/IGHB_revista_1889..

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Garcia D´Ávila XVII -Diogo Alvares Correa - Caramuru



Estava na lancha do amigo Juarez e, na volta do passeio pela Baía de Todos os Santos, para mim a mais linda de todas, pois é nela que posso passear de lancha e ver lugares maravilhosos em companhias agradáveis, paramos para um estimulante banho no Porto da Barra. ´É fantástico ver aquele pedacinho lindo de Salvador do mar.   Lindo de viver! Pena que nem todos possam admirar e ter esta sensação que tenho agora.  Fico olhando aquela beleza toda e penso nos portugueses. Porra! Num momento deste por que tenho de pensar nos portugueses? O racional responde imediatamente: Porque eles é que descobriram, povoaram e viveram neste espaço por muito tempo.
É tem lógica o meu pensamento, tenho de lembrar deles mesmo e da sorte que eles tiveram de encontrar um lugar tão maravilhoso como este. Deixo-me levar pelos pensamentos e lembro de quando pequena na escola primária ouvia falar de Caramuru. Sim, Caramuru – Diogo Alvares Correa, o naufrago que conseguiu dominar os indígenas com o fogo. Será isso mesmo, pergunto-me?  Já nem lembro direito, mas seis que ele fez fogo e os índios acharam que ele era um feiticeiro.
Fico tentando me lembrar qual foi mesmo a história que me contaram no primário, e, de repente: O Senhor da Torre! Sim, ele, ele poderá me contar muito sobre o Caramuru, afinal ele conviveu com ele e sua filha desposou um de seus netos, portanto eles eram quase parentes, faiam parte de uma família.
Disse para mim mesmo: Amanhã vou chamar o Sr. Garcia, e se ele não aparecer, eu vou no Castelo da Torre para ver se encontro com ele. Sei que ele é de veneta, só aparece quando quer, mas estou muito curiosa, e então vou insistir.
Nem bem tinha acabado de pensar nisto quando vejo o Sr Garcia refestelado no banco da lancha, quase sentado no colo de Carlos: tomei um susto da zorra, embora soubesse que só eu poderia vê-lo, todavia, o senhor Garcia me deixava para lá de inquieta, e naquele espaço, mais ainda.
Ele, de onde estava, quase à minha frente me olhava de uma maneira bem estranha certamente porque eu estava de biquíni e com uma saída de praia completamente transparente que deixava ver as minhas formas, embora não esplendorosas, mas ainda com formas.
-Não tens vergonha de andar nua assim?
Como responder ao senhor Garcia, as pessoas ali iam achar que eu estava maluca. O certo era fingir que não o estava vendo, muito menos o excitando.
-Não estas a ouvir-me? Já gritou o senhor Garcia, visivelmente aborrecido. Fiquei olhando fixamente para o lugar onde ele estava; Fiquei tão séria, que Carlos achou que eu estava olhando para ele e também perguntou? -O que é? Por que está olhando fixamente assim para mim?
Puta merda! Que situação. Se eu respondesse a Carlos, certamente o senhor Garcia ia achar que eu estava respondendo a ele, se eu respondesse ao senhor Garcia, Carlos ia achar que a resposta era para ele, que dilema miserável. Resolvi não responder a ninguém.
O Senhor Garcia levantou-se e veio sentar junto de mim. Agora é que a porra vai pegar, pensei eu, ele vai querer me sacanear e eu vou ter de ficar aqui quietinha, sem qualquer reação.
-Vocês sabiam que isto aqui chamava-se Vila do Pereira?
-Todos olharam para mim. Pois é, aqui, viveu Caramuru com as suas mulheres indígenas.
-Vila do Pereira! alguém perguntou. Não seria Vila Velha?
- Sim, mas antes era a Vila do Pereira, e assim era chamada porque o primeiro donatário da capitania  Francisco Pereira Coutinho criou a Vila que tomou o seu nome- Vila do Pereira, bem aqui na ladeira da Barra.
O senhor Garcia olhava-me atento, parecia querer dizer-me alguma coisa, mas ficava só a me olhar. Talvez porque não visse as outras pessoas, ou talvez porque estivesse mais interessado pelo que estava vendo por baixo da minha saída de praia, sei lá, mas ele estava quieto, mas isto durou muito pouco, porque de repente ele levanta-se fica bem em frente a mim e diz:
Não sabes de nada sobre o Diogo. Sabes como ele chegou aqui?
- Dei risada e disse, certamente chegou em uma nau: não tenho a menor dúvida. O  Senhor Garcia não gostou muito da brincadeira e chegando perto de mim sussurrou:
-Se vais brincar e procurar graça vou embora e não digo-te mais nada.
 Eu, sinceramente, estava curiosíssima, mas naquele momento preferia que ele fosse embora mesmo. Mas não podia perder aquela oportunidade e aí fiquei séria e quieta, procurando ser o mais natural possível para os demais que estavam na lancha.
- [...] foi este Diogo Álvares Correa, natural de Vianna pessoa nobre, e de linhagem conhecida na Provincia de Entre Douro, e Minho. Era moço, e o desejo que levava a outros muitos sujeitos da sua qualidade naquele tempo a sahir de suas pátrias, e buscar nas novas Capitanias do Reyno alguma aventura, o arrastando para a Índia em companhia de um tio seu, que em certa Náo fazia para la a sua derrota. Outros dizem , que esta viagem era para a Capitania de S.Vicente no mesmo Brasil [...].[...] mas ou fosse para esta ou aquella, a sua Náo se veyo meter na grande boca da Enseada da Bahia, afastada de ventos contrários, onde sobrevindo-lhe outra tempestade, deo com ella, quebrados os mastros e perdido o rumo nos baixos, que ficão a Leste da sua barra, a que  o  Gentio chamava Mairaguiguig; em fronte donde se mete no mar o Rio Vermelho, humma lagoa distante da ponta que dizer do Padrão[1] . Aqui tiveram todos com a perda da Náo, lastimoso naufrágio, do qual os que se livrarão com vida não escaparão de serem presos do bárbaro Gentio Tupynambá, que habitava aquela Costa, e ali acudiu fazendo pilhagem, não só no que a despedaçada Náo lançava às prayas muito melhor dos miseráveis naufragados, que recolhidos ás suas estocadas, lhes foram servindo de gostoso manjar por repetido dias[...][2]
Impaciente perguntei: Sr Garcia, onde o Caramuru entra nesta história.
O Senhor da Torre me deu uma olhada que me fez gelar! O homem tinha mesmo o poder de me deixar trêmula. O pior é que eu tinha de falar com ele sem que ninguém percebesse, pois ninguém acreditaria que estava falando com um morto ali na lancha, o fato é que todos estavam estranhando o meu comportamento. Carlos chegou a me perguntar:  O que foi que você disse, não entendi.
- Quem é este que ousa interromper-me e desviar a tua atenção de mim?
- Meu marido senhor Garcia! meu marido.
-Como é? ´
É isto mesmo Sr Garcia, o Senhor sempre disse que não acreditava que fosse casada, mas, efetivamente sou, e é este o meu esposo.
Tive a impressão que ele ia desaparecer depois da cara que fez, mas ao contrário, ficou ali a me olhar de uma maneira muito especial e a se chegar mais e mais a mim. A impressão que tive é que ele ia atravessar o meu corpo, passar por dentro de mim, tal a proximidade que ele impôs. 
--Se quiser continuo a história.
A voz do Senhor Garcia soou diferente, parecia querer seduzir-me, estava macia, sem qualquer conotação de agressividade. Uma luz se acendeu e eu entendi a jogada daquele malandro: Se ele continuasse a falar sobre Caramuru eu iria dar atenção total a ele e Carlos ia ficar lá entretido com os amigos e me deixaria quieta, e efetivamente foi o que ocorreu. Vi o riso cínico do Senhor Garcia ao recomeçar a narrativa.
- [...] Menos Diogo Alvares Correa, que com a sua sorte, ou a sua viveza, ou tudo junto, com superior destino, lhe administrou para uso meyos oportunos. Era moço, esperto, ágil e de entendimento claro, e vendo aquella gente muy ocupada na colleta dos vários despojos da perdida Náo, introduzido com elles os ajudava a comboyar para onde via eles as hião acomodando e assim começou a fortuna a traçar a sorte de Diogo Alvares[...] (JABOATAM: 1858; 37)
- Sim senhor Garcia, mas onde está o momento em que os indígenas começaram a respeitar o Diogo e o alcunharam de Caramuru?
-Estás muito apressada: calma, chegaremos lá. Eu não estou com nenhuma pressa de sair daqui, e tenho muita coisa a dizer-te sobre o Caramuru.
Esta última frase me deixou apreensiva e só confirmou o pensamento que tive antes: o Sr. Garcia estava jogando e sabia que sairia vencedor, porquanto tinha certeza que a minha curiosidade histórica era maior que qualquer coisa.
- Bom, dentre as coisas que foram resgatadas do naufrágio, estavam armas e pólvora e o Diogo [...] já mais alentado do primeiro susto, teve advertência para recolher entre os despojos algumas armas de fogo, barriz de pólvora e cunhetes de balas, tudo prevençoens já de sua astúcia e já de humm presagioso e  vindouro futuro. Havendo já recolhido o Gentio ás suas Estâncias, tudo o que do naufrágio entendeo lhes poder servir, e eles também  mais  sossegados nas suas cabanas, tratou Diogo Alvares de preparar algumas daquelas armas, carrega humma, faz tiro com ella e acerta presa(seria uma ave ), dá com ella em terra, que meninos e mulheres se punhão a fugir, e os  mayores em espanto e admiração de verem e ouvirem humma tal coisa, e especialmente  o damno, o estrago que causarão as balas sem serem vistas. (JABOATAM; 1858:37).
A história era bem interessante mesmo, eu estava ansiosa para chegar  ao CARAMURU, mas o senhor Garcia parecia mesmo não ter nenhuma pressa, ficava contando  detalhes do naufrágio, dos indígenas, das pedras do Rio Vermelho, coisas que naquela momento não me interessavam muito, o que eu queria mesmo saber como foi que os indígenas, depois desta história começaram a chamar o Diogo de Caramuru.
O diabo do homem estava me sacaneando, fazendo suspense. Olhava para Carlos cinicamente, postava-se a minha frente galantemente, parecia querer que eu fizesse alguma comparação entre ele e Carlos; como se isto fosse possível. Ele todo cheio de roupas esquisitas, estatura não muito alta, bigode grosso, barba. Carlos de sunga, nu da cintura para cima. Kkkkkkk ri interiormente, pois até isto me fazia temer a reação do velho senhor da Torre.
Neste exato momento deu-se um movimento brusco na lancha causado por uma marola feita por outra lancha que passava muito próximo e  velozmente, todos se desequilibraram inclusive o Senhor Garcia que, desequilibrado, teve o seu corpo projetado pra fora da lancha; cheguei a dar um grito, que ninguém entendeu, e, embora soubesse que nada aconteceria ao Sr. da Torre, fiquei olhando ele nadar até  a praia, de onde gesticulava,  possivelmente dizendo impropérios, tenho certeza.  Uma pena, embora providencial, o que aconteceu. O que resta é esperar que o homem esqueça o que aconteceu e retorne para acabar de me contar a história de Diogo Alvares  Correa, como ele se tornou  o CARAMURU,  e toda a sua importância para o  Brasil e para o povo brasileiro.







[1] Ponta do Padrão onde localiza-se o Farol da Barra
[2]  JABOATAM, Frei Antonio de Santa Maria, Novo Orbe Serafico brasílico ou Crhonica dos Frades Menores da Provincia da Bahia, Lisboa 1761, Reimpresso por Ordem do Instituto Histórico e Geográfico brasileiro, Rio de Janeiro, Typographia Maximiliano Gomes Ribeiro 1858. O português é original. Segundo o que consta da introdução, o Frei Jaboatam escreveu sobre Caramuru, com base em manuscrito que encontrou no Convento de São Francisco.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Garcia D`Ávila XII - Continuação da chegada


Estava em casa. Chovia muito e eu, que adoro ver a chuva caindo, estava deitada na rede olhando os pingos grossos acabarem na grama, que estava verdinha, linda. O flamboyant acumulava gotinhas d`agua nas suas flores grená, que contrastavam com o verde das folhas; o coqueiro deixava que a água escorresse pelas suas palhas, engrossando mais o pingo da água. Sim, apesar de estar calma e naquele ambiente bucólico, não deixava de pensar no sr. Garcia. “Se aquele murro realmente tivesse acontecido, não sei como estaria o meu rosto: deformado com certeza!
Olhe que algumas vezes me olhei no espelho, pois a sensação é que tinha mesmo tomado aquela “pera” que o Sr.  Garcia me desferiu.  Bom, mas uma coisa era certa, acho que ele iria desaparecer completamente da minha vida, pois para ele, ele havia mesmo me batido e o estrago ele bem sabia, era terrível.
Continuei na rede, na realidade não tinha vontade de fazer nada, a não ser olhar a chuva caindo e limpando, não só o telhado da casa, como também a minha alma, sim porque era muito bom o devaneio que aquela cena tão natural me proporcionava. Ficava ali pensando em tanta coisa boa, que me esquecia das mazelas e até mesmo do “soco” do Sr. Garcia.
Entretanto, um som de casco de cavalo nas pedras me tirou daquele gostoso “far niente”.  Bom alguém com coragem está andando a cavalo na chuva. Algum louco, certamente, mas de súbito o som para, pareceu-me que o cavalo parou lá na porta de casa. Da rede me estiquei toda para olhar na fresta entre o portão e o chão. Não vi nada, não havia qualquer sombra, mas não gostei daquilo, pois, tinha a certeza absoluta que o som do casco do cavalo nas pedras da rua parou ali. De repente: Ai meu Deus! Será que é aquele filho de uma mãe? Ele tem coragem de vim aqui depois da merda que aprontou?
Fiquei hiperagoniada, sabia que estava completamente vulnerável, o fato de estar chovendo não tinha qualquer problema se fosse o Sr. da Torre que estivesse ali na frente de casa.  Droga! Este homem não me deixa em paz? O que devo fazer para me livrar deste encosto?
Todavia, ao mesmo tempo que queria que ele se afastasse de uma vez por todas, eu também queria continuar com estas conversas com ele, pois era muito interessante mesmo, falar de coisas do passado com alguém que, efetivamente, viveu aquele momento.
Quando olhei novamente para o portão: Lá vem ele, estava muito arrumado e trazia uma capa por cima da roupa, que parecia limpíssima, até as botas estavam impecáveis e ele vinha na direção da rede com uma das mãos para trás.
Quis levantar correndo, mas ele foi mais rápido de que eu, e já estava ao pé da rede me impedindo de levantar.
- O Sr. não tem vergonha não? Faz a merda que fez e ainda tem coragem de vim aqui?
- Vim para pedir-te desculpas; estou estes dias todos agoniado, pensando como tu estarias, como estava o teu rosto, mas vejo que me preocupei atoa, porque não vejo nenhuma marca de nada.
Não sabia se ria ou se chorava, sinceramente.  Ver o espanto do Sr. Garcia ao ver o meu rosto era mesmo uma graça, mas sabe-lo ali mais uma vez, sem a perspectiva de livrar-me dele era um transtorno. Não adiantava nada dizer impropérios, manda-lo embora; ele simplesmente ficava ali o tempo que quisesse, entrando e saindo na hora que bem lhe entendesse.,
- Vamos lá, tenho uma coisa para ti.
E dizendo isto estendeu a mão que estava escondida e eu vi algo brilhando.
-Vamos levanta-te, quero eu mesmo colocar isto no teu pescoço.
-Sr. Garcia eu não quero nada, faça o favor de ir-se da minha casa, o senhor me ofendeu bastante.
-Anda cá, desculpa-me vai lá. Vamos conversar, pergunte o que quiser, faço qualquer coisa para que me perdoes.
Era mesmo ridículo ver aquele pequeno homem todo enfatiotado e muito atabalhoadamente pedindo desculpas.  Tive que rir da situação e levantei-me da rede sem pegar na mão que ele estendia.
Vira-te de costas para que eu possa colocar a gargantilha.
Ri e virei-me, não ia ter mesmo saída. Senti um ligeiro calafrio, parecia que algo de metal gelado estava em volta do meu pescoço, comecei mesmo a tremer pensando   de como ficara vulnerável. E se o diabo do homem tentasse garguelar-me.
-Vira-te. Ficou lindo! Tens um belo colo, es, efetivamente, uma bela mulher.
Caminhei até a cozinha e olhei-me no vidro do armário. Não vi nada, mas aquela sensação de que algo frio estava em volta do meu pescoço continuava.
-Gostas? Estou perdoado!
Sim, gosto.
-Vamos para a sala, quero sentar-me naquela cadeira confortável e lá perguntas o que quiseres.
-Bom, vamos continuar aquela nossa conversa sobre a fundação de Salvador.
-Onde ficamos?
-No segundo dia, após a chegada.
-Bem no segundo dia após a nossa chegada, depois da recepção que nos foi feita pelo Caramuru, lá na Vila do Pereira, era hora de procurar, como nos foi ordenado, um lugar para começar a cidade.
- Sr. Garcia, me satisfaça uma curiosidade: Onde os senhores dormiram? Aliás onde dormiu todo mundo?
Na nau minha querida, onde poderíamos mais dormir?
-Sei lá, na casa do Caramuru?
Casa?  Que casa? O Caramuru e a sua família moravam, como todos os demais índios do local, em choupanas cobertas de palha, nós não estávamos acostumados com aquilo e não poderíamos dormir ali, até porque não tinha lugar suficiente.  
- Levaram alguma índia para a nau?
-Estas doidas ou o que? O Capitão Thomé de Sousa é um homem sério e jamais iria permitir uma coisa desta.
-Não foi isto que soube Sr. Garcia, tenho informações que os índios costumam oferecer mulheres aos seus visitantes, inclusive a própria.
-Tens muita coisa nesta cabeça, estamos falando de Diogo Alvares, que era português, por mais que ele convivesse com os índios não iria, de maneira alguma, acatar alguns dos costumes bárbaros deles. Então lá ia ele oferecer a mulher ao Capitão, ou a qualquer um de nós?
-Está bem Sr Garcia, mas me diga, o que foi mesmo que foi ordenado ao Thomé de Sousa.
- O Thomé de Souza trouxe Regimento consigo, aliás além do Regimento de Thomé de Sousa, foram a regimentos ao Antônio Cardoso de Barros – o que foi nomeado como Provedor-Mor  e ao Pero Borges de Sousa  o de ouvidor geral e ainda a Pero de Góes o de capitão mor da costa. Todos estes regimentos foram assinados em Almerim em dezembro de 1548.[1]
-Almeirim? Por que Almeirim e não Lisboa?
- Então não sabes, Tu que sabes de tudo.  Foi assinado lá porque o Rei estava no local onde passava a temporada de inverno.
-Ah!  Não sabia disto Sr. Garcia, mas qual a diferença climática? Almeirim fica tão perto de Lisboa..
- Aquilo lá era uma falta de vergonha. Todos os anos a mesma coisa, a corte se transferia para lá nesse período e  se  fazia caçadas, saraus, festas,  flertes   De acordo co, Julio Castilho, em  Lisboa Antiga “ à fresca Almeirim afluia todo que tinha moradia e assentamento e todo o que desejava ter: o cavaleiro ocioso recém chegado da Índia, o taful que buscava mulher nos estrados do Paço, todos os estalajadeiros, “mariposas do palácio”namorados dos encantos de Portugal.” [2]
.  Sim, mas vamos voltar à chegada e aos regimentos:  E o senhor? Veio com que instrução
- Nenhuma, mas eu sabia que o Thomé de Sousa me daria um bom cargo quando aqui chegasse, e foi efetivamente o que aconteceu, fui nomeado almoxarife.
Sim Sr. Garcia, mas o que dizia o Regimento de Thomé de Sousa a respeito da fundação da cidade?
- Muita coisa, não tenho condição de dizer-te tudo que estava naquele regimento. Mais uma coisa sei, o Rei determinava que Thomé de Sousa se apossasse da fortificação que fora do donatário Coutinho em Vila Velha, também conhecida como Vila do Pereira e ali ficasse até que encontrasse um local de melhor conformidade com a os interesses da coroa em relação à fundação e defesa da cidade a ser estabelecida, que seria a cabeça de todas as demais capitanias.[3]  
-E O Coutinho, o que aconteceu com ele?
O Coutinho foi devorado pelos Tupinambás em Itaparica, ele esteve sempre em guerra com os indígenas, a quem odiava, Quando em 1547 foi morto pelos indígenas, Dom João VI comprou a capitania de volta à viúva. Na verdade eu não o conhecia, sei destas informações por ouvir dizer, de certo mesmo só sei o que estava no regimento, que deveríamos nos apossar das fortificação existente e procurar um novo local para estabelecer a sede principal do governo.
Sr. Garcia, me diga por que foi escolhida a Bahia, e não outra capitania?  Por que não São Vicente? Que era prospera, ou ainda Recife?
- Posso lhe garantir que não sei, entretanto, logo no início do Regimento  podíamos ver:

Eu, ElRei, faço saber a vós, Tomé de Sousa, fidalgo de minha casa, que vendo eu quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobreceras Capitanias e povoações das terras do Brasil e dar ordem e maneira com que melhor e mais seguramente se possam ir povoando, para exalçamento da nossa Santa Fé e proveito de meus Reinos e Senhorios, e dos naturais deles, ordenei ora de mandar nas ditas terras fazer uma fortaleza e povoação grande e forte, em um lugar conveniente, para daí se dar favor e ajuda às outras povoações e se ministrar justiça e prover nas cousas que cumprirem a meu serviço e aos negócios de minha Fazenda e a bem das partes; e por ser informado que a Bahia de todos os Santos é o lugar mais conveniente da costa do Brasil para se poder fazer a dita povoação e assento, assim pela disposição do porto e rios que nela entram, como pela bondade, abastança e saúde da terra, e por outros respeitos, hei por meu serviço que na dita Bahia se faça a dita povoação e assento, e para isso vá uma armada com gente, artilharia, armas e munições e todo o mais que for necessário. E pela muita confiança que tenho em vós, que em caso de tal qualidade e de tanta importância me sabereis servir com aquela fidelidade e diligência, que se para isso requer, hei por bem de vos enviar por Governador às ditas terras do Brasil, no qual cargo e assim no fazer da dita fortaleza tereis a maneira seguinte, da qual fortaleza e
terra da Bahia vós haveis de ser Capitão:

1 – Ireis por Capitão-mor da dita armada e fareis vosso caminho direitamente à dita Bahia de todos os Santos, e na dita viagem tereis a maneira que levais por outro Regimento.
2 – Tanto que chegardes à dita Bahia, tomareis posse da cerca que nela está, que fez Francisco Pereira Coutinho, a qual sou informado que está povoada de meus vassalos e que é favorecida de alguns gentios da terra e está de maneira que pacificamente, sem resistência, podereis desembarcar e aposentar-vos nela com a gente que convosco vai;
sendo caso que a não acheis assim e que está povoada de gente da terra, trabalhareis po-la tomar o mais a vosso salvo e sem perigo da gente que puder ser; fazendo guerra a quem quer que vos resistir, e o tomardes posse da dita cerca será em chegando ou depois, em qualquer tempo que vos parecer mais meu serviço.
3 – Tanto que estiverdes na posse da dita cerca, mandareis reparar o que nela está feito e fazer outra cerca junto dela, de valos e madeira ou taipal, como melhor parecer, em que a gente possa estar agasalhada e segura, e como assim estiver agasalhado, dareis ordem como vos provejais de mantimenos da terra, mandando-os plantar, assim pela
gente que levais como pela da terra, e por qualquer outra maneira por que se melhor puderem haver, e, porém, se vos parecer que será mais meu serviço desembarcardes no lugar onde se houver de fazer a fortaleza, fá-lo-eis assim.
4 – Ao tempo que chegardes à dita Bahia, fareis saber, por todas as vias que puderdes, aos Capitães das Capitanias das ditas costas do Brasil, de vossa chegada, e eu lhes tenho escrito que tanto que souberem vos enviem toda ajuda que puderem de gente e
mantimentos e as mais cousas que na terra tiverem; das que vos podem ser necessárias, e que notifiquem a todas as pessoas que estiverem nas ditas Capitanias e tiverem terra na dita Bahia de todos os Santos, que as vão povoar e aproveitar nas primeiras embarcações que o forem para a dita Bahia, com a declaração de que não indo nas ditas primeiras embarcações perderão o direito que nelas tiverem e se darão a outras pessoas que as aproveitem, e que da dita notificação façam autos e vo-los enviem.
5 – Eu sou informado que a gente que possui a dita terra da Bahia é.uma pequena parte da linhagem dos Tupinambás, e que poderá haver deles nela, de cinco até seis mil homens de peleja, os quais ocupam ao longo da costa, para a parte do Norte., até Totuapara, que são seis léguas, e pelo sertão até entrada do Peraçuu, que serão cinco
léguas, e que tem dentro da dita Bahia a Ilha de Taparica e outras três mais pequenas, povoadas da dita nação, (...)[4] (grifo nosso)

- Tatuapara?

-Sim, Tatuapara já se sabia existir Don Esmeralda, qual o espanto? Cansei, este Regimento é enorme, e ele é que era mesmo a nossa Carta Administrativa, tudo que se teria de fazer nestas plagas estava ali, o Rei Dom João III foi muito cuidadoso e especificou bem qual seria o trabalho do Thomé de Sousa, os seus poderes e deveres.

OH seu Garcia não vá embora agora não, quero saber mais.

- Vou sim, está ficando tarde, continua chovendo e tenho de ir para o  Tatuapara, estamos organizando um  ataque aos índios que estão invadindo algumas fazendas na  região, e não podemos deixar isto acontecer,  temos que mostrar quem é que manda, portanto  tenho de ir, porque todos estão me esperando, afinal, sou um líder, o maior fornecedor de braços desta terra, sem mim nada acontece.

 E dizendo isto desapareceu.

Fiquei ali algum tempo pensando naquela figura tão prepotente, e esta prepotência me fez lembrar alguns políticos atuais, que parecem ter o Rei na barriga, Sarney, Collor de Melo, Lula da Silva, e tantos outros; todavia não só os políticos são assim, e recordo-me  dos senhores Ministros do Supremo Tribunal Federal, deuses na terra, cada um querendo aparecer mais de que outro. Louvo o saber de muitos deles, mas odeio a prepotência de todos,  

Até o próximo encontro.







[1] FLEIUSS, Max. História Administrativa do Brasil, 2ª ed. Melhoramentos, São Paulo, 1925
[2] Ver o site da Câmara Municipal de Almeirim. Distrito de Santarém, que dista uns 100 Km de Lisboa.
[3] FLEIUSS, Mx. ob cite pg 14-15
[4] Regimento que levou Tomé de Souza governador do Brasil, Almerim, 17/12/1548,
Lisboa, AHU, códice 112, fls. 1-9. ( Arquivo Histórico do Ultramar)