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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Psicografando! Será?

Monsarraz - Alentejo Pt.

Era muito estranho, desde a última vez em que o Núncio do senhor Garcia esteve aqui em casa, não mais tive qualquer notícia dele. Ficava me perguntando: Será que ele morreu de uma vez? Sim, porque ele  no tempo certo, e segundo a historia oficial, o senhor Garcia falecera no mês de maio; assim, como o Núncio aqui esteve em maio, me dizendo que o senhor Garcia queria falar comigo lá no hospital da Santa Casa,  penso eu definitivamente ele se foi e que  não mais vai aparecer.
Também, se apareceu não conseguiu me encontrar, estive viajando por quase um mês inteiro, e ele com exceção de só uma vez no trem em Lisboa indo para Cascais, ele só me aparecia lá m casa em Arembepe.
Em Portugal pensei muitas vezes nele, mas nada aconteceu. Um dia indo para a casa da Vera lá em Oeiras, vi uma loja com um anuncio de leitura de TARÔ. Me interessei e entrei na loja, e marquei a consulta com a taralóga para o dia seguinte; No dia  da consulta cheguei e lá havia uma senhora bem bonita, não sei porque, não entendo bem, estava ela toda de preto,  vestia uma roupa que eu não conseguia definir muito bem, parecia uma dama antiga  vestindo preto, um odelo de roupa de pessoas de outro século, no de saraus, de castelos, enfim, a mulher era bem diferente.
Pediu-me que dissesse a minha data de nascimento e a hora do meu nascimento, disse-lhe, daí ela já me falou uma série de coisas, inclusive que eu tinha uma mediunidade extraordinária e que eu tinha capacidade de cura pelas mãos.  Como é a quarta ou quinta vez que ouço isto, penso que daqui para frente vou tentar desenvolver isto. Entretanto, isto não foi o interessante da minha consulta.  Ela continuou e acabou de me dizer algumas coisas que via nas cartas, umas boas e outras más, e perguntou-me se eu queria saber alguma coisa especifica: falei-lhe que queria publicar um livro, e seu eu conseguir isto.
Antes de abrir o baralho ela me perguntou sobre o que seria o livro que eu queria publicar.  Falei que era sobre a história da Bahia no período colonial, bem lá nos primórdios do descobrimento e colonização.  Também falei mais ou menos como seria a metodologia que iria aplicar.  Dito isto ela jogou as cartas e me disse claramente: “sim você vai publicar o livro, mas quem será o autor?”  Obviamente que serei eu, respondi.  Aí ela argumentou: “Você!!!!! E o espirito que lhe informa  os fatos, os acontecimentos?”  Fiquei olhando para a mulher, devo ter feito uma cara completamente idiota, porque ela  falou:  “Se estás a psicografar O autor do livro é o espirito e não você”.
Minha cara deve ter piorado mais ainda: “Que espirito o que?  Ninguém me aparece não, eu criei este personagem(espiritual) embora ele realmente tivesse existido e sido tão importante na história da Bahia, mas nunca o vi, e os fatos que narro são frutos de pesquisa minuciosa, leituras, etc.”.
E ela insiste: “Estás enganada,  este homem sobre o qual escreve, é que lhe conta  a sua própria história, e portanto você é somente um conduto, um elo de ligação dele, entre o mundo dos espíritos  e a terra.”
Não pude deixar de rir, estava achando aquilo bem engraçado. Então eu faço força e o Senhor Garcia acha bonito. Imaginei a cara dele rindo de mim, e me provando que ele era o poderoso mesmo, mas eu tinha a certeza absoluta que a taróloga  entrou numa wiber  que  eu não entendia, ou não queria entender, até porque aquilo não era mesmo verdade.  O Senhor Garcia, apesar de um personagem que eu não posso dizer fictício, tivesse existido mesmo, eu não   me vejo vendo-o em sua forma etérea e a ouvir ele descrevendo os fatos.

Com a afirmação de que conseguiria publicar o livro, com grandes novidades que provocariam polemicas, pois  eu falaria de coisas que o Senhor Garcia sabia, e só ele sabia, e nada disso poderia ser comprovado através de documentos, o que significaria uma série de questionamentos e poucas respostas para eles, deixei o local  e saí  ladeira acima, voltando para casa da  Vera e pensando  em tudo aquilo que ouvira.
A esta altura eu já estava mesmo querendo que, o que a mulher falou, se tornasse realidade.  Já pensou eu falar diretamente com o senhor Garcia e ter informações de, minimamente, sessenta e poucos anos de história da Bahia, e não só dela? Saber de fatos e acontecimentos   que somente eu, euzinha, saberia, contados pelo próprio senhor da Torre.  Ah! Seria bom demais!
Voltei de Portugal e estou aqui, mas nada acontece, o Senhor Garcia não aparece, e acho que não vai mais aparecer, MORREU, literalmente morreu e levou o seu espirito que vagava  por suas  terras e invadindo o que ele achava ser ainda seu, a exemplo da minha casa, onde ele chegava sem qualquer cerimônia.
Estava realmente com saudade de exercitar a minha imaginação e conversar mais com o Senhor da Torre, mas parece que não vai ser ainda hoje, vou ter de aguardar às ordens do dito senhor, ou então, ir em alguma sessão espírita para ver se o trago de volta.
            

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Caramuru II - Garcia D' Ávila XVIII


Eu estava muito apreensiva em relação ao próximo encontro com o Sr. da Torre. Não podia sequer imaginar qual seria a sua reação quando me encontrasse outra vez depois do acidente do barco, aliás, nem sei mesmo se ele vai aparecer outra vez, o que seria uma pena, porque se isto acontecesse eu não saberia mais nada sobre o Caramuru e nem sobre outras coisas, fatos acontecidos na época.(1550-1609).
Estávamos exatamente na parte em que ele ia me dizer porque ele ganhou a alcunha de Caramuru. Eu estava tão incrédula de uma nova visita que resolvi fazer, eu mesmo, minha pesquisa e esquecer a contribuição do Sr. da Torre.
Entretanto o homem era imprevisível, e logo que comecei a fazer o texto com as       descobertas que fiz através dos muitos autores que escreveram sobre Caramuru, o homem apareceu:
- Quer dizer que você e o seu marido queriam me matar?
-O que é isto Sr. Garcia, quem poderia adivinhar que a outra lancha ia passar e fazer uma marola tão intensa? O Senhor viu que todo mundo se desequilibrou, mas o senhor estava muito próximo da lateral  e o resultado foi o que ocorreu.
-Se eu não fosse um exímio nadador, agora estava sendo comido por peixes.
- O Que é isto Senhor Garcia! O Sr é imortal
Acho que ele não entendeu bem o que eu disse, ou então fingiu que não entendeu. Não sei, este homem é dissimulado, e a gente não pode confiar muito nele.  Quanto pior, quando estava mesmo com cara de poucos amigos e sem esquecer o que tinha acontecido. Continuei falando que ele era imortal, que o seu nome até hoje era lembrado como um dos grandes e poderosos homens da Bahia Colonial, enfim, queria dar corda ao narcisismo do Sr. Garcia. Falei muito, falei do quão ele era importante, do quanto sua Tatuapara foi determinante nas tentativas de invasões, como ele construiu o seu grande latifúndio. Não falei em momento algum das derrotas, só queria encher a bola dele. Ele, olhando fixamente para mim, parecia entender o meu jogo, mas o narciso falou mais alto e ele começou a rir e a fazer questionamentos e argumentações.
-Não sei quem são estas pessoas de quem fala! Parece que falas comigo como seu eu já tivesse morrido.
Ri por dentro, mas fiquei caladinha, hoje eu não contrariava este homem de maneira alguma.  De que falávamos mesmo senhor Garcia no nosso último encontro.
- Não te recordas, andavas tão interessada no assunto.
Sorri, o homem era um jogador e deixei que ele pensasse que estava vencendo aquela partida.
- Sei lá Senhor Garcia, quando o senhor está por perto a variedade de assuntos é muito grande, o Senhor pode falar-me de tantas coisas relacionadas com a Salvador, com a governança, com a Igreja, usos e costumes da época, que não posso me fixar em um só assunto.
- É, conheço mesmo muita coisa desta terra
-Pois então, qualquer coisa que o senhor me fale é de uma importância extrema, assim, como não me lembro do que falávamos mesmo, o senhor pode falar o que quiser, eu fico aqui sentadinha à sua disposição e toda ouvidos.
- Quantos anos tens?
A pergunta me pegou desprevenida e falei: 65
O senhor Garcia deu uma bela risada. Estás de borla comigo? Tu es muito jovem para ter esta idade. Não tens nem mesmo 30.
Fiquei a olhar o homem meio incrédula. E comecei a perguntar-me: - Como será que ele me vê? Será que ele me vê mesmo assim tão nova?  Senhor Garcia, qual a cor da roupa que estou a vestir?
- Que pergunta é esta? Não sabes a roupa que vestes?
- Anda lá Senhor Garcia, diga-me qual a cor da minha roupa, quero apenas tirar uma dúvida.
- Estás com alguma problema na vista? Então não reconheces mais as cores,: Estas com um vestido  de cor azul, aliás, um vestido que deixa-te muito atraente, e nem sei como aquele homem que dizes que é o teu esposo deixa vestir-te assim.
- Ora senhor Garcia, as  vezes ele nem nota o que que visto e dizendo isto encaminhei-me para o espelho que ficava na sala e vi que estava de shorts e uma camiseta. Kkkkkk, ri mais ainda. e descobri que o Garcia D’ Ávila me via da maneira que ele queria me ver, com a roupa que ele queria e com as maneiras que ele queria, isto me deixou intrigada e fascinada ao mesmo tempo, tanto que  falei para mim mesmo: vou estudar o espiritismo para ver se descubro algo que possa me explicar isto.
Por que está a rir? Falei alguma bobagem?
- Claro que não, o senhor não fala bobagens Sr Garcia, o senhor é um homem sério, responsável, cheio de atividades e não teria como falar bobagens, mas o senhor ainda não me disse do que falávamos no nosso último encontro.
Claro que eu sabia que falávamos de Caramuru, mas eu queria mesmo era mexer com os brios do Senhor da Torre, e fiquei dando-lhe muita corda, mas eu tinha de dar um jeito de entrar no assunto que me interessava.
- Senhor Garcia, o Senhor sabe que estive em Viana do Castelo?
- Estivestes onde?
- Em Viana do Castelo Senhor Garcia, lá no Norte de Portugal. E sabe o que descobri lá?
-O que descobristes lá?
Uma estátua do Diogo Alvares Correia e de sua Mulher:  a Catarina Paraguaçu.
- Estás a brincar comigo? O que pensas e onde estás que inventas uma asneira desta. Então o Caramuru iria ter uma estatua em Viana do Castelo?  
- Sr da Torre, eu não costumo brincar, quanto pior com o senhor. Estou a falar sério, se quiseres posso vos mostrar uma gravura desta estátua.
-De onde tiraste isto?
- Ora senhor Garcia eu não estou a dizer que fui a Viana, eu vi a estátua, e se não tivesse ido poderia saber de tudo na minha madeira preta, como o senhor chama o meu computador.
-Es mesmo uma bruxa, não sei porque ainda procuro-te para conversar, o que devia fazer mesmo era entregar-te ao Visitador.
-Tenho certeza que nunca faria isto comigo. E fui pegar o computador: Será que ele vai conseguir ver a fotografia da estátua? Será que ele consegue ver isto? Muita modernidade para um homem do século XVI.
- Não, não quero ver nada, agora se esta estátua existe mesmo, existe a troco de que?
Senti logo a facada, o homem desdenhava da história, porque era por demais convencido.  Imagine o Caramuru, aquele  homem que vivia entre indígenas, casou-se com uma delas, teve vários filhos, tinha costumes indígenas, ia lá ter uma estátua em Viana: e ele não tinha nada, nenhuma homenagem, ele o rei do gado da época colonial, o desbravador de sertão, o homem dos currais, um homem bom da cidade: Hum, isto era mesmo demais para ele aguentar.
- Senhor Garcia, Caramuru, tal qual o senhor, foi um personagem muito importante na nossa história.  Poderíamos dizer que Caramuru foi responsável pelo surgimento de uma “raça” brasileira, um povoador. Aliás o senhor bem sabe como ele ajudou o Tomé de Souza e tantos outros que aqui estiveram antes dele.
-  Um português que se esqueceu dos seus costumes e virou um indígena, foi isso que ele foi.
-É Senhor Garcia, mas foi este português que recebeu uma carta do Rei Dom João III, carta do qual o senhor deveria ter conhecimento, porque nesta missiva o Rei apresentava Tome de Sousa ao Diogo Alvares e solicitava a sua ajuda em tudo o que fosse necessário.
O Senhor Garcia me olhou com muita raiva, e eu quis sacanear um pouquinho.
- O Senhor alguma vez recebeu uma carta diretamente do Rei?
Fuzilando-me ele respondeu que ele recebia ordens diretamente de Thomé de Sousa, não necessitando falar com o Rei, até porque o Thomé de Souza e os demais governadores em os representantes do Rei na colônia. Por outro lado, a esta altura, ele um homem poderoso, não recebia ordens de absolutamente ninguém,
- Sim senhor Garcia, mas a importância de Caramuru é mesmo enorme para a nossa história e o senhor não deveria desdenhar disto, afinal a sua filha casou-se com um neto dele, e o sangue  dele corre nas veias do seu neto. As filhas dele casaram com pessoas importantes a exemplo do Dias Adorno
- Não me lembro de ter visto esta carta e nem a sua entrega por Thomé de Sousa.
Ah Senhor Garcia, preste atenção ao que El Rey escreveu:
Diogo Alvares
Eu, El Rey vos envio muito saudar. Eu ora mando Thomè de Souza, fidalgo da minha casa a essa Bahia de Todos os Santos por capitão governador d’ella, e para na dita capitania e mais outras d’esse Estado do Brasil prover de justiça d’ella, e do mais que ao meu serviço cumprir e mando, que na dita Bahia faça uma povoação, e assente grande e outras coisas de meu serviço. E porque sou informado pela muita prática e experiência, que tendes d’essas terras , e da gente. E costumes d’ellas, e sabereis bem ajudar  e conciliar, vos mando, que o dito Thomé de Souza lá chegar, e sabereis bem ajudar e conciliar, vos mando que o dito Thomé de Souza lá chegar, vos vades para elle, e o ajudeis no que lhe deveis cumprir, e vos elle encarregar, porque fareis nisso muito serviço: e porque o cumprimento, e tempo de sua chegada a ela abastada de mantimentos da terra para provimento da gente, que com ele vai, escrevo sobre isso a Paulo Dias, vosso genro, procure por se haverem, e os vá buscar pelos portos d’essa capitania de Jorge Figueredo. Sendo necessária vossa companhia e ajuda, encomendo-vos que o ajudeis no que virdes que cumpre, que o fareis. Bartolomeu Fernandes a fez em Lisboa a 19 de novembro de 1548 – Rei
Subescrito – por El Rey a Diogo Álvares, cavaleiro da minha casa na Bahia de Todos os Santos.[1]
- Nunca ouvi falar dessa carta, e não lembro de ter visto o Thomé de Souza entregar qualquer documento ao Caramuru.
-Sem dúvida Senhor Garcia, o senhor não viu esta entrega porque a carta não foi trazida por Thomé de Sousa, ela chegou antes dele, trazida por um cavaleiro do Rei – Gramatão Telles, que aqui chegou em 1548, portanto, antes  do senhor e do Thomé de Souza, a carta era uma espécie de apresentação do Thomé de Sousa e a solicitação para que o Caramuru ajudasse em tudo o que necessário.
Senti que o senhor da Torre estava ficando muito aborrecido, ele não conseguia esconder a inveja, e eu resolvi parar por ali, pois ainda tinha muita coisa par falar sobre o Caramuru, e sei que ele não ia gostar nem um pouquinho.
Não precisei de fazer nada, para mudar o assunto e nem desagrada-lo, pois de repente ele desapareceu da minha frente, sem sequer dizer até logo. Como sempre, fiquei com a cara de boba e a espera que ele, no dia que quiser, retorne. Não tem jeito, o homem é voluntarioso e temos de ficar à sua disposição.
Me lembro, entretanto, de uma noticia que li em um jornal de Viana do Castelo, numa grande coincidência. Lá, neste momento, existe uma polemica a respeito da estátua de Caramuru e da sua índia Paraguacu, pois ela vai ser retirada do local onde se encontra há longos anos, para um outro local que está sendo construído para esta finalidade. Gostei desta coincidência!
 





[1] JABOATÃO, Frei Antonio de S. Maria. Catalago Genealogico das Principais famílias que procederam de Albuquerques e Cavalcantis em Pernambuco e Caramurus na Bahia. In Revista Trimensal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, Tomo LII, Parte I, pp7,8. Rio de Janeiro. Typographia, Lithographia e Encadernação a Vapor de Lacmmart,  de C, 1889.  A revista pode ser acessada em  .https://upload.wikmidia.org/wikpedia/Commons/5/5b/IGHB_revista_1889..

terça-feira, 31 de julho de 2018

Um encontro em Humaitá - Garcia D´Ávila XV


Saí cedo, tinha de pagar a promessa: Ir andando ao Bonfim. De onde? Querem mesmo saber? Daqui de casa, Jaquaribe, na orla. Todos me diziam e dizem que sou maluca, mas se eu prometo, tenho de cumprir. Pior é que, que muitas vezes, paguei a promessa antes de saber se alcaçaria, ou não, êxito no pedido, mas pago logo para ver livre da obrigação.  Nesse dia não fora diferente, havia prometido ao Sr. do Bonfim esta ida a pé, e lá se ia eu, sozinha, toda de branco: Patamares, Boca do Rio, Imbuí, Luís Eduardo, San Martin, Largo do Tanque, Viaduto dos Motoristas, Uruguai, Baixa do Bonfim, e finalmente: Igreja do Bonfim.
Lateral da Igreja do Bonfim
Entro na Igreja, agradeço, e está na hora de voltar. Como sempre, entretanto, apesar do cansaço, desço o Monte Serrat todinho e vou até a Igrejinha de Humaitá, adoro a vista, acho aquele lugar uma coisa linda. Fico ali sentada na balaustrada. A Igreja, como sempre, está fechada, o que é uma pena, porque adoro ver os azulejos que a decoram.  Estou completamente embevecida; de onde estou posso ver a cidade, os seus prédios imensos da Vitória e, lá, bem na curvinha, o farol da Barra, que só sei que e ele porque sei da sua localização desde sempre.
É tão lindo aquilo ali, que choro emocionada.  Nas pedras que circundam a balaustrada na lateral da igreja, resto dos presentes ou ebós colocados no mar, é a crendice  baiana, gosto até disto, embora suje bastante a área. Estou tão absorvida que nem percebo alguém se aproxima:
-Bons dias!
Igreja N.Sra Monte Serrat
Vista de Salvador da Ponta de Humaitá
Tomo um baita susto, pois de imediato reconheço a voz.
-Bom dia Sr Garcia, que faz aqui?
-Não achas que quem devia fazer esta pergunta era eu?
O Sr. Garcia como sempre, pedante, senhor de si, orgulhosos, cabeça altiva, olhando-me com uma expressão de desdém.
-Não, não acho senhor Garcia! Quero mesmo saber o que o senhor faz aqui. Será que agora não tenho mais paz?  O senhor está em todos os lugares. Já não tenho qualquer momento de privacidade.
-Acordas-te com a macaca hoje foi? Não fiz a pergunta para ofender-te, mas, para variar, estás nos meus domínios e eu quero saber o que te trouxe aqui, tão longe de tua casa?
-Vim na Igreja do Bonfim e aproveitei e vim aqui na Ponta de Humaitá, que é um dos mais belos lugares da Baia de Todos os Santos.
-  Igreja do Bonfim? Onde fica, nunca ouvi falar, aqui em Itapagipe eu só conheço esta aqui, que, como sabes,  fui eu que mandei  erigir.
-Sei sim senhor Garcia, como sei.
-Mas agora ela já não mais te pertence senhor Garcia, o senhor doou aos beneditinos.
-Eu o que?
Isto mesmo que o senhor ouviu, no seu testamento o senhor deu a Igreja aos padres do São Bento.
-De onde tirastes esta ideia, que testamento? Não vês que estou vivo aqui conversando contigo.
-Quantas vezes mais vou dizer ao senhor que és um desencarnado, que, para sorte ou azar meu, me escolheu para falar de coisas do seu tempo.
-Desencarnado, o que significa isto?
Não quis me atrever a falar de morte, e fiquei ali com o desencarnado, com espirito de luz, etc., mas não dava para ficar falando disto com o Garcia D´Avila, ele realmente era grosseiro e podia me fazer alguma coisa. Era muito engraçado, quando eu estava em frente a este homem sempre me dava uma sensação de insegurança, de medo, as vezes até mesmo pavor.
- Sabes que eu tinha varias olarias aqui por esta região.
-Sei sim Senhor Garcia o senhor já me falou disto, mas agora o senhor só tem olhos para Tatuapara e para norte. Soube que o senhor contratou gente para descer índios.
-Como sabes disto?
-
 
Descendo o Plano Inclinado do Pilar
Já te falei que pelos livros. Também soube que o senhor anda de rusga com os jesuítas exatamente pela quantidade de indígenas que o senhor possui.
-Eles tem é inveja, porque com esta história de tornar os índios cristãos, eles tem mão de obra para tudo. Os aldeamentos[1] nada mais são de que deposito de índios para servir aos jesuítas, e para fornecer mão de obra para os colonos portugueses.
Como assim Sr. Garcia, fornecer mão de obra para Portugal?
-Ora, não te faças de boba.  Há um projeto do governo português e sabes disto, que é a de utilizar a mão de obra indígena indispensável ao desenvolvimento econômico da colônia, afinal não há quantidade de mão de obra suficiente vinda de Portugal, temos mesmo é que aproveitar a mão de obra nativa e os recursos nativos .
Realmente, ficar ali na Ponta de Humaitá me fazia muito bem, e eu estava muito desligada do que o senhor Garcia falava, mas era impossível ficar assim muito tempo, o homem gostava de atenção, e falava,  falava, falou tanto que tive de escutá-lo.
-Eu não disse-te que esta história de dividir o Brasil em dois governos não ia dar certo? O Rei determinou que fosse restaurado o governo geral com sede aqui, tudo como era antes.
Vista Forte São Marcelo
- Eu sei sim, isto aconteceu no ano de 1577, acho eu, e a determinação foi dada  Governo Português e foi nomeado o Governador Geral do Brasil, o Sr. Lourenço da Veiga. Como foi o governo dele Sr. Garcia?
- Como posso saber, o homem mal acabou de chegar, mas ao que parece que é um homem enérgico e de coragem.
- Pelo que li, é sim e ele vai ter muitos problemas na Paraíba.
-Paraiba?
-Sim senhor Garcia na Paraíba
-Ele vai de expulsar franceses e dominar os potiguares, que o senhor sabe, são guerreiros e a maior nação indígena do Brasil no nordeste, além de aliados dos franceses.
-Já se foram muitas expedições e ninguém consegue detê-los.
-Pois é, mas o Lourenço da Veiga vai enviar uma nova expedição, que será organizada por Chistovão Barros[2] e Cosme  Rangel[3], mas também esta expedição não teve grande êxito.
- O Senhor não vai fornecer homens para esta expedição Sr. Garcia?
Igreja da Misericórdia -
dia da festa de Santa Barbara
-Ainda não fui solicitado, o governador acabou de chegar, e tú és que estás a informar que esta expedição sairá daqui, tu e tuas bruxarias e adivinhações.
-Tá bom senhor Garcia, um dia falaremos mais sobre isto. Todavia, o senhor deve saber que a qualidade do pau brasil[4] da Paraíba é reconhecida pelos estrangeiros, e é por isto mesmo que os franceses e holandeses insistem em visitar o nosso litoral e se juntarem aos índios. [5]
De repente o Sr. Garcia disse-me: Vou embora, tenho de visitar as olarias e ver o gado que ainda se encontra aqui, mas quero saber mais a respeito deste novo governador. Ele já está bem velho e não sei quanto tempo vai aguentar, portanto, quero saber  antes de todos o que vai acontecer nesse período que ele vai governar, e tu podes informar-me. Dizendo isto virou-se de costa e desapareceu atrás da Igreja, deixando-me, mais uma vez, atônita com a dúvida se tudo isto ocorrera mesmo, ou era fruto da minha imaginação e da minha grande vontade de saber a história deste meu imenso Brasil e, principalmente, da minha terra - a Bahia.  



[1] Aldeamento- eram os ajuntamentos indígenas que eram organizados coordenadamente, em lugares  escolhidos pelas autoridades coloniais, para onde vinham  os índios de diversas povoações, após o descimento, que era a retirada dos índios da sua própria aldeia para se reunirem nas comandadas pelos missionários, para que se convertessem ao cristianismo. Esta estratégia fazia parte da política colonial portuguesa em relação aos gentios, que deveriam se converter ao  cristianismo, abandonar a  sua própria cultura, enfim, deixarem de ser bárbaros para adentrarem ao mundo civilizado, embora, na realidade, este foi o caminho encontrado pelos portugueses para a utilização de mão de obra barata, completamente dócil. A contribuição da Companhia de Jesus foi fundamental nesta estratégia, e embora o pretexto da conversão dos adultos e a educação das crianças tenha sido observado, não afastou a utilização da mão de obra indígena, sem quaisquer ônus, pelos próprios missionários jesuítas, proprietários de grandes extensões de terra. Sobre os indígenas do Brasil ler: HEMMING John , Ouro Vermelho,.São Paulo, Edusp2007, (tradução Carlos Eugenio Marcondes de Moura).
[2] Chistovão de Barros -  Provedor Mor da Fazenda  e foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia em1587
[3] Cosme Rangel de Macedo veio para o Brasil como Ouvidor Geral, com a doença do  governador Lourenço da Veiga, fez parte da Junta que governou o Brasil até a chegada do novo governador Manoel Telles Barreto,
[4] Pau Brasil – denominado pelos indígenas  – ibirapitanga.
[5]  Segundo os historiadores,” desde 1570, os índios, insuflados pelos franceses, com quem conviviam nas terras da Paraíba e Rio Grande, incursionavam em Itamaracá e Olinda, ameaçando a florescente Capitania.e em 1574 ocorreu o massacre e Tracunhaém, resultante do ato do cristão-novo Diogo Dias, senhor de engenho em Goiana, a 60 Km da futura capital paraibana e a 40 Km de Itamaracá, reter uma cunhã potiguara, filha do principal Iniguaçu, que havia se casado com um mameluco. O principal da tribo não gostou desse seqüestro e, instigado pelos franceses,  assaltou o engenho, matando todos os seus moradores. Da família de Diogo Dias escaparam dois filhos, porque não se encontravam no engenho. Envaidecidos dos seus feitos, passaram os índios a fustigarem a ilha de Itamaracá, preocupando os habitantes de Olinda, os quais temiam a qualquer momento um ataque indígena.” Luiz Hugo Guimarães, Historia da Paraíba – www..ihgp.net/luizhugo/a_conquista da paraiba.htm. acessado em 31/07/2018.




terça-feira, 12 de junho de 2018

O Senhor da Torre XIV - A morte de Isabel



Casa em Arembepe 
Estava inquieta, era uma sensação esquisita, parecia que algo não muito bom estava prestes a acontecer.  Brusky, o meu hottweiler, também parecia inquieto e olhava-me de uma maneira bem estranha, talvez tentando saber qual o motivo da minha aflição, da minha angustia.
O mundo lá fora, parecia também angustiado, não chovia, mas pesadas nuvens escuras cobriam o azul do meu pedaço de céu, sim porque sempre tive um pedação de céu, aquele que nas noites estreladas eu conseguia ver uma concentração imensa de estrelas, apenas olhando para um determinado ponto estando na lateral da minha casa. Aquele era o meu céu, não o dividia com ninguém, eu e eu olhando o que para mim era quase todo o universo, ali concentrado só para mim.
Será que o universo está confirmando o que estou a sentir neste momento? Estava feio o tempo, escuro, diferente. Não, aquele dia não seria um dia como os outros, algo ia acontecer mesmo ou já estava até acontecendo, eu só não sabia o que era.
Tentei ler, escrever, fazer alguma coisa que afastasse aquela sensação, mas estava difícil, o cachorro entrava e saia, também ele não conseguia ficar parado em lugar nenhum.  De repente olho para ele e vejo o pelos do seu dorso arrepiarem, fico nervosa, ele só fazia isto quando via algo de que não gostava. Se ele fizesse isto em relação à alguma pessoa eu tinha de correr para pegá-lo e colocá-lo no canil, pois aquele era um sinal de que ele ia atacar e eu não queria correr qualquer risco. Ele era enorme e um descuido seria uma fatalidade.
O bicho continuava com os pelos eriçados e olhando fixamente para o portão de entrada da casa.
Fui ter com ele, olhei para o mesmo ponto em que ele olhava e não vi nada. Brusky! Chamei-o, mas ele não saiu do lugar, parecia realmente estar vendo algo. Insisti, venha cá, fique aqui ao pé de mim, mas ele não se moveu, começou a rosnar bem forte, sem sair do lugar olhando fixamente para o portão.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Garcia D`Ávila XII - Continuação da chegada


Estava em casa. Chovia muito e eu, que adoro ver a chuva caindo, estava deitada na rede olhando os pingos grossos acabarem na grama, que estava verdinha, linda. O flamboyant acumulava gotinhas d`agua nas suas flores grená, que contrastavam com o verde das folhas; o coqueiro deixava que a água escorresse pelas suas palhas, engrossando mais o pingo da água. Sim, apesar de estar calma e naquele ambiente bucólico, não deixava de pensar no sr. Garcia. “Se aquele murro realmente tivesse acontecido, não sei como estaria o meu rosto: deformado com certeza!
Olhe que algumas vezes me olhei no espelho, pois a sensação é que tinha mesmo tomado aquela “pera” que o Sr.  Garcia me desferiu.  Bom, mas uma coisa era certa, acho que ele iria desaparecer completamente da minha vida, pois para ele, ele havia mesmo me batido e o estrago ele bem sabia, era terrível.
Continuei na rede, na realidade não tinha vontade de fazer nada, a não ser olhar a chuva caindo e limpando, não só o telhado da casa, como também a minha alma, sim porque era muito bom o devaneio que aquela cena tão natural me proporcionava. Ficava ali pensando em tanta coisa boa, que me esquecia das mazelas e até mesmo do “soco” do Sr. Garcia.
Entretanto, um som de casco de cavalo nas pedras me tirou daquele gostoso “far niente”.  Bom alguém com coragem está andando a cavalo na chuva. Algum louco, certamente, mas de súbito o som para, pareceu-me que o cavalo parou lá na porta de casa. Da rede me estiquei toda para olhar na fresta entre o portão e o chão. Não vi nada, não havia qualquer sombra, mas não gostei daquilo, pois, tinha a certeza absoluta que o som do casco do cavalo nas pedras da rua parou ali. De repente: Ai meu Deus! Será que é aquele filho de uma mãe? Ele tem coragem de vim aqui depois da merda que aprontou?
Fiquei hiperagoniada, sabia que estava completamente vulnerável, o fato de estar chovendo não tinha qualquer problema se fosse o Sr. da Torre que estivesse ali na frente de casa.  Droga! Este homem não me deixa em paz? O que devo fazer para me livrar deste encosto?
Todavia, ao mesmo tempo que queria que ele se afastasse de uma vez por todas, eu também queria continuar com estas conversas com ele, pois era muito interessante mesmo, falar de coisas do passado com alguém que, efetivamente, viveu aquele momento.
Quando olhei novamente para o portão: Lá vem ele, estava muito arrumado e trazia uma capa por cima da roupa, que parecia limpíssima, até as botas estavam impecáveis e ele vinha na direção da rede com uma das mãos para trás.
Quis levantar correndo, mas ele foi mais rápido de que eu, e já estava ao pé da rede me impedindo de levantar.
- O Sr. não tem vergonha não? Faz a merda que fez e ainda tem coragem de vim aqui?
- Vim para pedir-te desculpas; estou estes dias todos agoniado, pensando como tu estarias, como estava o teu rosto, mas vejo que me preocupei atoa, porque não vejo nenhuma marca de nada.
Não sabia se ria ou se chorava, sinceramente.  Ver o espanto do Sr. Garcia ao ver o meu rosto era mesmo uma graça, mas sabe-lo ali mais uma vez, sem a perspectiva de livrar-me dele era um transtorno. Não adiantava nada dizer impropérios, manda-lo embora; ele simplesmente ficava ali o tempo que quisesse, entrando e saindo na hora que bem lhe entendesse.,
- Vamos lá, tenho uma coisa para ti.
E dizendo isto estendeu a mão que estava escondida e eu vi algo brilhando.
-Vamos levanta-te, quero eu mesmo colocar isto no teu pescoço.
-Sr. Garcia eu não quero nada, faça o favor de ir-se da minha casa, o senhor me ofendeu bastante.
-Anda cá, desculpa-me vai lá. Vamos conversar, pergunte o que quiser, faço qualquer coisa para que me perdoes.
Era mesmo ridículo ver aquele pequeno homem todo enfatiotado e muito atabalhoadamente pedindo desculpas.  Tive que rir da situação e levantei-me da rede sem pegar na mão que ele estendia.
Vira-te de costas para que eu possa colocar a gargantilha.
Ri e virei-me, não ia ter mesmo saída. Senti um ligeiro calafrio, parecia que algo de metal gelado estava em volta do meu pescoço, comecei mesmo a tremer pensando   de como ficara vulnerável. E se o diabo do homem tentasse garguelar-me.
-Vira-te. Ficou lindo! Tens um belo colo, es, efetivamente, uma bela mulher.
Caminhei até a cozinha e olhei-me no vidro do armário. Não vi nada, mas aquela sensação de que algo frio estava em volta do meu pescoço continuava.
-Gostas? Estou perdoado!
Sim, gosto.
-Vamos para a sala, quero sentar-me naquela cadeira confortável e lá perguntas o que quiseres.
-Bom, vamos continuar aquela nossa conversa sobre a fundação de Salvador.
-Onde ficamos?
-No segundo dia, após a chegada.
-Bem no segundo dia após a nossa chegada, depois da recepção que nos foi feita pelo Caramuru, lá na Vila do Pereira, era hora de procurar, como nos foi ordenado, um lugar para começar a cidade.
- Sr. Garcia, me satisfaça uma curiosidade: Onde os senhores dormiram? Aliás onde dormiu todo mundo?
Na nau minha querida, onde poderíamos mais dormir?
-Sei lá, na casa do Caramuru?
Casa?  Que casa? O Caramuru e a sua família moravam, como todos os demais índios do local, em choupanas cobertas de palha, nós não estávamos acostumados com aquilo e não poderíamos dormir ali, até porque não tinha lugar suficiente.  
- Levaram alguma índia para a nau?
-Estas doidas ou o que? O Capitão Thomé de Sousa é um homem sério e jamais iria permitir uma coisa desta.
-Não foi isto que soube Sr. Garcia, tenho informações que os índios costumam oferecer mulheres aos seus visitantes, inclusive a própria.
-Tens muita coisa nesta cabeça, estamos falando de Diogo Alvares, que era português, por mais que ele convivesse com os índios não iria, de maneira alguma, acatar alguns dos costumes bárbaros deles. Então lá ia ele oferecer a mulher ao Capitão, ou a qualquer um de nós?
-Está bem Sr Garcia, mas me diga, o que foi mesmo que foi ordenado ao Thomé de Sousa.
- O Thomé de Souza trouxe Regimento consigo, aliás além do Regimento de Thomé de Sousa, foram a regimentos ao Antônio Cardoso de Barros – o que foi nomeado como Provedor-Mor  e ao Pero Borges de Sousa  o de ouvidor geral e ainda a Pero de Góes o de capitão mor da costa. Todos estes regimentos foram assinados em Almerim em dezembro de 1548.[1]
-Almeirim? Por que Almeirim e não Lisboa?
- Então não sabes, Tu que sabes de tudo.  Foi assinado lá porque o Rei estava no local onde passava a temporada de inverno.
-Ah!  Não sabia disto Sr. Garcia, mas qual a diferença climática? Almeirim fica tão perto de Lisboa..
- Aquilo lá era uma falta de vergonha. Todos os anos a mesma coisa, a corte se transferia para lá nesse período e  se  fazia caçadas, saraus, festas,  flertes   De acordo co, Julio Castilho, em  Lisboa Antiga “ à fresca Almeirim afluia todo que tinha moradia e assentamento e todo o que desejava ter: o cavaleiro ocioso recém chegado da Índia, o taful que buscava mulher nos estrados do Paço, todos os estalajadeiros, “mariposas do palácio”namorados dos encantos de Portugal.” [2]
.  Sim, mas vamos voltar à chegada e aos regimentos:  E o senhor? Veio com que instrução
- Nenhuma, mas eu sabia que o Thomé de Sousa me daria um bom cargo quando aqui chegasse, e foi efetivamente o que aconteceu, fui nomeado almoxarife.
Sim Sr. Garcia, mas o que dizia o Regimento de Thomé de Sousa a respeito da fundação da cidade?
- Muita coisa, não tenho condição de dizer-te tudo que estava naquele regimento. Mais uma coisa sei, o Rei determinava que Thomé de Sousa se apossasse da fortificação que fora do donatário Coutinho em Vila Velha, também conhecida como Vila do Pereira e ali ficasse até que encontrasse um local de melhor conformidade com a os interesses da coroa em relação à fundação e defesa da cidade a ser estabelecida, que seria a cabeça de todas as demais capitanias.[3]  
-E O Coutinho, o que aconteceu com ele?
O Coutinho foi devorado pelos Tupinambás em Itaparica, ele esteve sempre em guerra com os indígenas, a quem odiava, Quando em 1547 foi morto pelos indígenas, Dom João VI comprou a capitania de volta à viúva. Na verdade eu não o conhecia, sei destas informações por ouvir dizer, de certo mesmo só sei o que estava no regimento, que deveríamos nos apossar das fortificação existente e procurar um novo local para estabelecer a sede principal do governo.
Sr. Garcia, me diga por que foi escolhida a Bahia, e não outra capitania?  Por que não São Vicente? Que era prospera, ou ainda Recife?
- Posso lhe garantir que não sei, entretanto, logo no início do Regimento  podíamos ver:

Eu, ElRei, faço saber a vós, Tomé de Sousa, fidalgo de minha casa, que vendo eu quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobreceras Capitanias e povoações das terras do Brasil e dar ordem e maneira com que melhor e mais seguramente se possam ir povoando, para exalçamento da nossa Santa Fé e proveito de meus Reinos e Senhorios, e dos naturais deles, ordenei ora de mandar nas ditas terras fazer uma fortaleza e povoação grande e forte, em um lugar conveniente, para daí se dar favor e ajuda às outras povoações e se ministrar justiça e prover nas cousas que cumprirem a meu serviço e aos negócios de minha Fazenda e a bem das partes; e por ser informado que a Bahia de todos os Santos é o lugar mais conveniente da costa do Brasil para se poder fazer a dita povoação e assento, assim pela disposição do porto e rios que nela entram, como pela bondade, abastança e saúde da terra, e por outros respeitos, hei por meu serviço que na dita Bahia se faça a dita povoação e assento, e para isso vá uma armada com gente, artilharia, armas e munições e todo o mais que for necessário. E pela muita confiança que tenho em vós, que em caso de tal qualidade e de tanta importância me sabereis servir com aquela fidelidade e diligência, que se para isso requer, hei por bem de vos enviar por Governador às ditas terras do Brasil, no qual cargo e assim no fazer da dita fortaleza tereis a maneira seguinte, da qual fortaleza e
terra da Bahia vós haveis de ser Capitão:

1 – Ireis por Capitão-mor da dita armada e fareis vosso caminho direitamente à dita Bahia de todos os Santos, e na dita viagem tereis a maneira que levais por outro Regimento.
2 – Tanto que chegardes à dita Bahia, tomareis posse da cerca que nela está, que fez Francisco Pereira Coutinho, a qual sou informado que está povoada de meus vassalos e que é favorecida de alguns gentios da terra e está de maneira que pacificamente, sem resistência, podereis desembarcar e aposentar-vos nela com a gente que convosco vai;
sendo caso que a não acheis assim e que está povoada de gente da terra, trabalhareis po-la tomar o mais a vosso salvo e sem perigo da gente que puder ser; fazendo guerra a quem quer que vos resistir, e o tomardes posse da dita cerca será em chegando ou depois, em qualquer tempo que vos parecer mais meu serviço.
3 – Tanto que estiverdes na posse da dita cerca, mandareis reparar o que nela está feito e fazer outra cerca junto dela, de valos e madeira ou taipal, como melhor parecer, em que a gente possa estar agasalhada e segura, e como assim estiver agasalhado, dareis ordem como vos provejais de mantimenos da terra, mandando-os plantar, assim pela
gente que levais como pela da terra, e por qualquer outra maneira por que se melhor puderem haver, e, porém, se vos parecer que será mais meu serviço desembarcardes no lugar onde se houver de fazer a fortaleza, fá-lo-eis assim.
4 – Ao tempo que chegardes à dita Bahia, fareis saber, por todas as vias que puderdes, aos Capitães das Capitanias das ditas costas do Brasil, de vossa chegada, e eu lhes tenho escrito que tanto que souberem vos enviem toda ajuda que puderem de gente e
mantimentos e as mais cousas que na terra tiverem; das que vos podem ser necessárias, e que notifiquem a todas as pessoas que estiverem nas ditas Capitanias e tiverem terra na dita Bahia de todos os Santos, que as vão povoar e aproveitar nas primeiras embarcações que o forem para a dita Bahia, com a declaração de que não indo nas ditas primeiras embarcações perderão o direito que nelas tiverem e se darão a outras pessoas que as aproveitem, e que da dita notificação façam autos e vo-los enviem.
5 – Eu sou informado que a gente que possui a dita terra da Bahia é.uma pequena parte da linhagem dos Tupinambás, e que poderá haver deles nela, de cinco até seis mil homens de peleja, os quais ocupam ao longo da costa, para a parte do Norte., até Totuapara, que são seis léguas, e pelo sertão até entrada do Peraçuu, que serão cinco
léguas, e que tem dentro da dita Bahia a Ilha de Taparica e outras três mais pequenas, povoadas da dita nação, (...)[4] (grifo nosso)

- Tatuapara?

-Sim, Tatuapara já se sabia existir Don Esmeralda, qual o espanto? Cansei, este Regimento é enorme, e ele é que era mesmo a nossa Carta Administrativa, tudo que se teria de fazer nestas plagas estava ali, o Rei Dom João III foi muito cuidadoso e especificou bem qual seria o trabalho do Thomé de Sousa, os seus poderes e deveres.

OH seu Garcia não vá embora agora não, quero saber mais.

- Vou sim, está ficando tarde, continua chovendo e tenho de ir para o  Tatuapara, estamos organizando um  ataque aos índios que estão invadindo algumas fazendas na  região, e não podemos deixar isto acontecer,  temos que mostrar quem é que manda, portanto  tenho de ir, porque todos estão me esperando, afinal, sou um líder, o maior fornecedor de braços desta terra, sem mim nada acontece.

 E dizendo isto desapareceu.

Fiquei ali algum tempo pensando naquela figura tão prepotente, e esta prepotência me fez lembrar alguns políticos atuais, que parecem ter o Rei na barriga, Sarney, Collor de Melo, Lula da Silva, e tantos outros; todavia não só os políticos são assim, e recordo-me  dos senhores Ministros do Supremo Tribunal Federal, deuses na terra, cada um querendo aparecer mais de que outro. Louvo o saber de muitos deles, mas odeio a prepotência de todos,  

Até o próximo encontro.







[1] FLEIUSS, Max. História Administrativa do Brasil, 2ª ed. Melhoramentos, São Paulo, 1925
[2] Ver o site da Câmara Municipal de Almeirim. Distrito de Santarém, que dista uns 100 Km de Lisboa.
[3] FLEIUSS, Mx. ob cite pg 14-15
[4] Regimento que levou Tomé de Souza governador do Brasil, Almerim, 17/12/1548,
Lisboa, AHU, códice 112, fls. 1-9. ( Arquivo Histórico do Ultramar)