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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Mito ou Realidade? As minas de Gabriel Soares


Estou em casa sozinha preparando, mais uma vez a ceia do final do ano.
 Lembro-me que, no ano passado, o senhor Garcia me apareceu sem mais nem aquela exatamente nessa mesma situação. Pensei comigo mesmo: Seria tão bom se aquele velho chato me aparecesse com alguma novidade da Bahia quinhentista! Sabia, entretanto, que isto seria quase impossível, até porque, da última vez que o senhor Garcia apareceu, foi quando me disse que ia reformar o seu testamento para me colocar nele como beneficiária. Lembram que ia me dar Arembepe? Penso que ele ficou muito aborrecido com a minha reação, ou então, ele se deu por morto mesmo, e se foi para o seu lugar no infinito e aceitou a sua morte e deixou o seu espírito descansar.
Continuei nos meus afazeres, mas, de repente, um calafrio imenso, os pelos eriçados e sentindo a presença de alguém ou alguma coisa estranha na casa.
- Bons dias! 
De imediato reconheci a voz do Senhor da Torre. Fiquei excitada e ao mesmo tempo apreensiva. Certamente o senhor Garcia não tinha qualquer problema em aparecer onde quer que fosse, bastava querer, mas fiquei inclinada a perguntar-lhe como me achou.
Eu tinha me mudado de casa e já estava mesmo achando que este era um dos motivos do desparecimento do Senhor Garcia. Olhe que tem horas que me acho louca mesmo, tenho de concordar com as pessoas que me acham assim e sem qualquer vergonha verbalizam este pensamento, e é bem assim eu me sinto em relação a esta estória com o Senhor da Torre.
=Bom dia Senhor Garcia, quanto tempo?
-Diga-me lá: por que não avisaste que mudaste de direção? Estivemos em tua casa em Arembepe algumas vezes e demos com os burros n´àgua.
Sorri com a expressão, e disse: Oh senhor Garcia eu não sei como encontrá-lo, aliás, da última vez que o senhor esteve comigo, disseste-me que estava no hospital da Misericórdia. Passei lá outro dia, no dia 04 de dezembro e até fiquei inclinada a entrar.
Pelourinho
Igreja da Misericórdia
Fiquei atônita, incrédula com o que acabei de falar, então eu iria entrar na Misericórdia para ver o senhor Garcia em pleno dia de Santa Bárbara e em pleno ano de 2019? Endoidei de vez, este homem conseguia me tirar do prumo mesmo.
- E ainda estou, disse-me ele, mas, como vês, vivo.
- Felizmente , felizmente. O que tem de novo para me contar? Antes, porém, esclareça-me em que ano estamos.
-Como em que ano estamos? Estas de borla comigo?
-Claro que não, mas preciso saber para tentar me localizar, inclusive no pedaço da madeira preta.
-Estamos em 1609. 
- 1609, quem é o governador?
Extas mesmo de borla comigo, então não sabes quem é o governador?
- Diogo Siqueira
E Francisco de Souza.?
- Também, é que mais uma vez o Rei dividiu o governo do Brasil, ficando aqui na Bahia o Diogo e, no Rio de Janeiro, o Francisco de Sousa
- Francisco de Sousa? Aquele que era um aficionado por minas?
Pelourinho
-Sim, ele mesmo, sabes que ele   tanto chafurdou na Corte, que terminou por ser nomeado para Governador do Sul, governo com sede no Rio e janeiro e ainda conseguiu a promessa de receber o título de nobreza ligado às Minas.
- No Rio de Janeiro?
-Sim, por que o espanto?
Ora, se ele tinha interesse em encontrar as minas que foram identificadas por João Coelho de Sousa, irmão de Gabriel Soares de Sousa deveria ficar perto do Nordeste, especificamente aqui em Salvador da Baia, ou em Sergipe, nunca no Rio de Janeiro.
- O importante para ele era estar aqui, não importa qual o lugar, até porque, também em São Paulo há perspectiva da existência de metais, não só lá como alderredor.
Sim, e ele em encontrou tais Minas?
Neste momento o Senhor Garcia deu uma larga risada. – Não ele não encontrou.
Agora quem ria era eu, mas ria por dentro, até porque o senhor Garcia não poderia saber se o Francisco tinha ou não encontrado tais minas, afinal ele falecera em maio de 1609. Francisco havia retornado ao Brasil em janeiro daquele ano e ido para o Rio de Janeiro, e pouco era o contato de ambos, bem como as notícias. Possivelmente, o Senhor da Torre não saberia do que acontecera entre janeiro e maio de 1609 com relação às minas.
- Mas diga-me lá Senhor da Torre, quem era mesmo João Coelho de Sousa
- Já disse-lhe: era irmão de Gabriel Soares de Sousa, este eu conheci muito bem, porque era um rico dono de engenho aqui mesmo na Bahia
“Gabriel Soares de Sousa, nascido em Portugal cerca de 1540 emigrara para a Bahia no fim da década de 1560. Durante uma permanência de dezoito anos na Bahia tornara-se um bem-sucedido plantador de cana e participou do conselho municipal em 1580. Seu irmão João Coelho de Sousa, descobriu depósitos minerais no interior da capitania, morreu antes de poder explorar essa mina, mas deixou a Gabriel um mapa que lhe indicava a localização. Em 1584 Gabriel foi à Corte com uma petição para a concessão dessa e quaisquer novas descobertas. Recebeu-a em 1590, ganhando a patente de Governador e Capitão-mor da Conquista e Minas do Rio São Francisco. Regressou à Bahia com 360 homens, comandou uma expedição ao vale superior do Rio Salitre na cabeceira do São Francisco. Morreu na viagem de regresso e foi enterrado no mosteiro beneditino da Bahia sob uma lápide com a inscrição “aqui jaz um pecador” (...) (RUSSEL WOOD 1939: 55-56).[1]
Como sempre, notei que o homem não estava gostando da conversa, que girava em torno de uma obra que não era dele. Ele adorava falar de si e das suas proezas. Gostava de endeusar-se, de falar da sua Tatuapara e da defesa que esta representava para a cidade do Salvador.  Falar de uma figura importante como era o Gabriel Soares[2] era muito para ele, acontece que não dava para mudar o assunto, e quando insisti mais um pouco, ele, como sempre, deu as costas e foi-se, sem saber o que eu tinha de falar para ele sobre estas minas e  da importância que teria o seu neto Francisco Dias D´Ávila para encontra-las.  Foi bom até, porque ele não iria acreditar mesmo que Francisco chegaria a tanto, todavia ele vai saber, porque eu tenho certeza que o Senhor Garcia, morrendo ou não efetivamente em maio de 1609, não deixará de aparecer para mim e eu terei a oportunidade de contar-lhe tudo o que o seu neto representou para a nossa Bahia, perenizando o nome dos GARCIA D´ÁVILA.[3]. 







[1] RUSSELL-WOOD, A.J.R. Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755(trad. De Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981, Coleção Temas Brasileiros, 20.
[2] Gabriel Soares de Sousa escreveu o Tratado Descriptivo do Brasil, (1587) uma das grandes fontes para o conhecimento da Bahia Colonial, pode ser encontrado na Biblioteca Digital do Senado Federal.
[3]  Ver.  O feudo: a Casa da Torre de Garcia d'Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Bandeira, Luiz Alberto Moniz. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 2000: 

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A herdeira de Garcia D'Ávila



Parece brincadeira; uma semana após  publicar o texto falando sobre a ausência e a possível morte definitiva do Senhor Garcia,  estou sozinha aqui em casa e  ouço algumas batidas fortes na porta; me aborreço porque a porra da porta tem campainha, e não posso entender  por que não  a acionam ao invés de bater na porta naquela violência.
Saio da sala apressada para ver quem era. Abro a porta tão violentamente quanto as batidas que lhe deram.Acreditem: ninguém, nadica de nada, nem um pé de gente, nem um carro, nem cavalo.
Cavalo! Já sei, disse para mim mesmo,  é o Senhor Garcia, entretanto, logo o pensamento passa, porque ele não se daria ao luxo de bater na porta, apenas entraria e pronto.
Volto irritada para dentro, e o susto foi grande.  Estavam sentados no sofá:  o Senhor Garcia, um outro senhor, que identifiquei como sendo o núncio do outro dia, e um menino feio como todos os meninos feios que existem.
O Senhor Garcia deu a maior gargalhada quando viu a minha reação. Eu estava mesmo apavorada, então o desgraçado estava ali se sentando com mais duas pessoas e eu não vira passar por mim. Desta vez não tive qualquer reação física. Todas as vezes que o senhor Garcia aparecia eu ficava arrepiada, trêmula, na verdade: com medo, mas, desta vez, eu não sentira nada e ele estava ali, sentadinho. Só me assustei bastante.
- Por que não fostes ao hospital[1] como pedi?
- Senhor Garcia, o senhor não iria entender o motivo, mas não foi possível sair daqui:  a viagem, como o senhor sabe, é longa, eu não tenho cavalo, etc. Parei de falar, porque me dei conta que estava falando e justificando como se estivesse no tempo dele. Disse para mim mesmo: “estás ficando maluca mulher, tu nem andas a cavalo kkkkkkkk!”
- Não sabes o esforço que estou a fazer para estar aqui. Sinto que estou a morrer e preciso ter forças para modificar o testamento que fiz anteriormente  beneficiando  aos padres do São Bento, eles não me deixaram em paz, tive de sair da minha  casa e ir para o hospital[2] para ver se eles me deixavam mais tranquilo, mas,  agora tenho de refazer o testamento  e,  como quero deixar-te algo, precisas dar-me o teu nome completo, e outras informações que possam identificar-te com facilidade. 
Trouxe o meu amigo para testemunhar isto. Este menino é meu Este é meu neto, Francisco, ele é que será o herdeiro de tudo o quanto construí, este filho da mãe, feio como todos os feios, que parece ter sido cagado ao invés de parido, mas não tenho outro herdeiro, portanto, ele é que, de mão beijada, vai receber tudo, entretanto, quero dar-te algo.
-Oh seu Garcia deixa isto de lado! Não vos preocupeis com isto.
- Todavia eu quero, portanto....
Neste exato momento me transportei para Lisboa, e me vi questionando o “portanto” dos portugueses. Eles falam, falam falam, e no final dizem: portanto, e eu fico a esperar a complementação, que nunca vem. O portanto, pois, é justificado antes, eu digo tudo o que quero e depois falo, portanto, kkkkk, é uma maneira bem engraçada de finalizar uma oratória., todavia, eu achava que isto era uma coisa mais moderna, e vem ali o senhor Garcia a me dizer exatamente a  palavra ”portanto”, mas com uma finalização mesmo:  vais ser  minha “herdeira”,  porque quero, portanto.... (ou seja) não há mais questionamentos e pronto, é o que quero.
Fiquei imaginando o que o senhor Garcia poderia deixar para mim.
Quase lendo o meu pensamento, ele disse-me:
- Deixar-te-ei este local em que vives.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk . Como é que é Senhor Garcia, vai deixar-me a minha própria casa?
- Sim, para que não venhas a ter problemas. Construístes ilegalmente nas minhas terras, todos sabem que estas terras são minhas, e para que os demais herdeiros não te possam tirar-te daqui, vou deixar-te estas terras
Eu não conseguia parar de rir mesmo, então vou ter direito ao que já é meu. Puta merda, o homem era doido mesmo, e eu mais de que ele que ainda lhe dava ouvidos.
-Senhor Garcia o que significa estas terras, além desta casa?
- Tudo, de Arembepe até a margem direita do Jacuípe.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, realmente não pude conter o riso. Pensei nos Figueredo, donos de muitas terras em Arembepe, nas minhas vizinhas laterais, Solange e Eliana, nos vizinhos do fundo, nos da frente, no Mar Aberto, em Colo, em Vu, em Duinha, Chris:. Kkkkk, tudo meu. Eu iria despejar todos das minhas terras.  A aldeia dos hippies, hoje tombada, enfim tudo em Arembepe agora, por vontade do Senhor Garcia, era meu. Eu que tive tanto trabalho para conseguir escriturar minha casa. Hilário mesmo!
Então   vi que o Senhor Garcia começou a ficar muito vermelho e muito aborrecido com a minha risada, e sem mais delongas levantou-se e saiu, deixando-me, mais uma vez, abruptamente e com a certeza de que ele não voltaria mais nunca. Ele ia morrer mesmo de uma vez e pronto, e eu ficaria sem as novidades, ou melhor, eu já não poderia conversar com ele, agora na minha vez de contar-lhe os acontecimentos “post mortem”.

BIBLIOGRAFIA
CALMON, Pedro.  História da Casa da Torre. Uma Dinastia de Pioneiros. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 3ª. Ed. 1983
MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto, O Feudo – A Casa da Torre de Garcia D’Ávila, da Conquista dos Sertões à Independência do Brasil.  RJ, 19ª ed   2000 (recurso eletrônico) acesso em 25.10,2019
RUSSEL -WOOD, A.J.R, Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755. Trad.  Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981  



[1][1] A Santa Casa de Misericórdia foi fundada em Lisboa em 1498 e a “filial da Bahia era a mais importante do Brasil colonial (....)  A irmandade. Recrutava os seus membros dentre cidadãos eloquentes, fossem os aristocratas da terra, comerciantes ou artesãos proeminentes. RUSSEL-WOOD (1981:XIV-XV).  A Casa de Misericórdia de Lisboa em 1516 editou o Compromisso de Lisboa finalidades, espirituais e corporais, dentre os corporais estavam: resgatar cativos e visitar prisioneiros: tratar dos doentes; vestir os nus; alimentar famintos, dar de beber aos sedentos; abrigar os viajantes e pobres;  sepultar os mortos.(RUSSEL WOOD, 1981: 14-15). Obviamente o Senhor Garcia era membro da Santa Casa de Misericórdia, por seu um homem bom da cidade, rico, grande proprietário e poderia estar, como esteve internado na Instituição onde faleceu.   
[2] Segundo os autores que escreveram sobre Garcia D’Ávila, a exemplo de Pedro Calmon, Bandeira, dentre outros, Garcia D`Ávila foi tão incomodado pelos padres do São Bento, que para se livrar deste assédio foi para a Santa Casa de Misericórdia. “Envelhecera o grande lidador. Roçava os noventa anos, quando, importunado pelos frades bentos que queriam lhes deixasse parte dos bens, fugiu para a hospedaria do hospital da Misericórdia, e aí, a 18 de maio de 1609, ditou o testamento a Francisco de Oliveira, servindo de testemunhas o desembargador Baltazar Ferraz, o licenciado Gonçalo Homem de Almeida, irmão do lente de Coimbra, o cristão novo Antônio Homem, queimado pela Inquisição em 1624, o tabelião, ancestral( quem isso imaginaria na primeira década do século XVII!). da Casa que ombreará, em ambição e poder, com a Casa da Torre” (1983:34).   “Os monges que receberam de Catarina Álvares a doação da ermida de Nossa Senhora da Graça, bem como de uma vasta área ao redor e eram grandes proprietários de grandes extensões de terra na zona do rio Jaguaribe, nas imediações de Santo Amaro de Ipitanga e Itapoá, passaram, entretanto, a submeter Garcia D’Ávila já bastante enfermo nos últimos anos de sua vida, a crescente pressões a fim de força-lo a fazer mais  doações ao Mosteiro de São Bento (...) E o cerco dos beneditinos chegou a tal ponto que o poderoso Garcia D’Ávila, sentindo-se por eles coagido e impedido de dispor livremente dos seus bens, teve de ir “fugindo” de casa para  o hospital da Santa Casa de Misericórdia, a fim de que pudesse agir conforme sua consciência mandava. A indignação contra tal procedimento ele não escondeu. Manifestou-a, reiteradas vezes, ao ditar em 18 de maio de 1609 seu testamento(...) (2000:96-197)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Psicografando! Será?

Monsarraz - Alentejo Pt.

Era muito estranho, desde a última vez em que o Núncio do senhor Garcia esteve aqui em casa, não mais tive qualquer notícia dele. Ficava me perguntando: Será que ele morreu de uma vez? Sim, porque ele  no tempo certo, e segundo a historia oficial, o senhor Garcia falecera no mês de maio; assim, como o Núncio aqui esteve em maio, me dizendo que o senhor Garcia queria falar comigo lá no hospital da Santa Casa,  penso eu definitivamente ele se foi e que  não mais vai aparecer.
Também, se apareceu não conseguiu me encontrar, estive viajando por quase um mês inteiro, e ele com exceção de só uma vez no trem em Lisboa indo para Cascais, ele só me aparecia lá m casa em Arembepe.
Em Portugal pensei muitas vezes nele, mas nada aconteceu. Um dia indo para a casa da Vera lá em Oeiras, vi uma loja com um anuncio de leitura de TARÔ. Me interessei e entrei na loja, e marquei a consulta com a taralóga para o dia seguinte; No dia  da consulta cheguei e lá havia uma senhora bem bonita, não sei porque, não entendo bem, estava ela toda de preto,  vestia uma roupa que eu não conseguia definir muito bem, parecia uma dama antiga  vestindo preto, um odelo de roupa de pessoas de outro século, no de saraus, de castelos, enfim, a mulher era bem diferente.
Pediu-me que dissesse a minha data de nascimento e a hora do meu nascimento, disse-lhe, daí ela já me falou uma série de coisas, inclusive que eu tinha uma mediunidade extraordinária e que eu tinha capacidade de cura pelas mãos.  Como é a quarta ou quinta vez que ouço isto, penso que daqui para frente vou tentar desenvolver isto. Entretanto, isto não foi o interessante da minha consulta.  Ela continuou e acabou de me dizer algumas coisas que via nas cartas, umas boas e outras más, e perguntou-me se eu queria saber alguma coisa especifica: falei-lhe que queria publicar um livro, e seu eu conseguir isto.
Antes de abrir o baralho ela me perguntou sobre o que seria o livro que eu queria publicar.  Falei que era sobre a história da Bahia no período colonial, bem lá nos primórdios do descobrimento e colonização.  Também falei mais ou menos como seria a metodologia que iria aplicar.  Dito isto ela jogou as cartas e me disse claramente: “sim você vai publicar o livro, mas quem será o autor?”  Obviamente que serei eu, respondi.  Aí ela argumentou: “Você!!!!! E o espirito que lhe informa  os fatos, os acontecimentos?”  Fiquei olhando para a mulher, devo ter feito uma cara completamente idiota, porque ela  falou:  “Se estás a psicografar O autor do livro é o espirito e não você”.
Minha cara deve ter piorado mais ainda: “Que espirito o que?  Ninguém me aparece não, eu criei este personagem(espiritual) embora ele realmente tivesse existido e sido tão importante na história da Bahia, mas nunca o vi, e os fatos que narro são frutos de pesquisa minuciosa, leituras, etc.”.
E ela insiste: “Estás enganada,  este homem sobre o qual escreve, é que lhe conta  a sua própria história, e portanto você é somente um conduto, um elo de ligação dele, entre o mundo dos espíritos  e a terra.”
Não pude deixar de rir, estava achando aquilo bem engraçado. Então eu faço força e o Senhor Garcia acha bonito. Imaginei a cara dele rindo de mim, e me provando que ele era o poderoso mesmo, mas eu tinha a certeza absoluta que a taróloga  entrou numa wiber  que  eu não entendia, ou não queria entender, até porque aquilo não era mesmo verdade.  O Senhor Garcia, apesar de um personagem que eu não posso dizer fictício, tivesse existido mesmo, eu não   me vejo vendo-o em sua forma etérea e a ouvir ele descrevendo os fatos.

Com a afirmação de que conseguiria publicar o livro, com grandes novidades que provocariam polemicas, pois  eu falaria de coisas que o Senhor Garcia sabia, e só ele sabia, e nada disso poderia ser comprovado através de documentos, o que significaria uma série de questionamentos e poucas respostas para eles, deixei o local  e saí  ladeira acima, voltando para casa da  Vera e pensando  em tudo aquilo que ouvira.
A esta altura eu já estava mesmo querendo que, o que a mulher falou, se tornasse realidade.  Já pensou eu falar diretamente com o senhor Garcia e ter informações de, minimamente, sessenta e poucos anos de história da Bahia, e não só dela? Saber de fatos e acontecimentos   que somente eu, euzinha, saberia, contados pelo próprio senhor da Torre.  Ah! Seria bom demais!
Voltei de Portugal e estou aqui, mas nada acontece, o Senhor Garcia não aparece, e acho que não vai mais aparecer, MORREU, literalmente morreu e levou o seu espirito que vagava  por suas  terras e invadindo o que ele achava ser ainda seu, a exemplo da minha casa, onde ele chegava sem qualquer cerimônia.
Estava realmente com saudade de exercitar a minha imaginação e conversar mais com o Senhor da Torre, mas parece que não vai ser ainda hoje, vou ter de aguardar às ordens do dito senhor, ou então, ir em alguma sessão espírita para ver se o trago de volta.
            

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Garcia D´Ávila VI - Com raiva de Nóbrega

Estava diante do computador tentando começar um novo texto sobre O Senhor da Torre. Agora eu tinha, de qualquer maneira, de falar sobre o seu neto, Francisco D´Ávila, mas sabendo da intransigência do Sr. Da Torre, não só em relação ao neto, como, também,  por ele não admitir que já não estava mais entre nós.
Eu começaria a escrever sim sobre os descendentes do Sr. Da Torre, quisesse ele ou não, do contrário a estória ia acabar no próprio senhor da Torre, o que não era correto, porque a dinastia Torre se perpetuou na Bahia, através dos seus descendentes, portanto, eles não poderiam ser excluídos.
Abstraída nestes pensamentos e no que deveria escrever,  não notei a chegada do próprio, que já estava completamente instalado no meu sofá, quando dei por conta dele.
-Sr. Garcia! Que susto! O senhor ainda me mata com estas suas chegadas 
- Que queres que eu faça? Tua porta está sempre fechada, então tenho de entrar por algum lugar. Que fazes em frente a esta madeira preta.?
Procurei em volta pela tal madeira preta, sem entender que ele estava a referir-se ao meu computador.
-Ah isto aqui, não senhor Garcia, isto não é uma madeira preta, isto é um computador.
-Computador? Que diabo é isto?  Deve ser mais uma das suas bruxarias. Estou perdendo é tempo ao não denunciar-te ao Santo Oficio.
Fiquei quieta, argumentar com o Sr. Da Torre era difícil, e esta ameaça da Inquisição chegava mesmo a me dar calafrios, embora sabendo da impossibilidade total, mas uma coisa era certa: ele ainda estava em 1591-1593.
- Para que serve este negócio aí?
- Para muitas coisas, para ler sobre o senhor, para saber informações gerais, escrever sobre o senhor, enfim, é um instrumento de pesquisa sensacional, uma base de dados excelente para tudo, hoje em dia não se faz mais nada que não seja através do computador.
- Hum, vou deixar mais uma vez para lá, não te vou levar a sério, mas diga-me lá, o que mais falaram sobre mim.
-Sabe senhor Garcia o senhor e a sua família são famosos mesmo, há muitas pessoas que escreveram e escrevem sobre os senhores. Imagine que até mesmo eu, esta que vos fala, escreve sobre sua dinastia. Bem, mas nem sempre falam coisas boas a seu respeito, vou ler para o senhor uma carta que foi enviada ao Thomé de Sousa.
-Ao Thomé de Sousa? Quem enviou?
-Deixa eu ler para ver se o senhor advinha:
“agora entro nos queixumes que tenho de Garcia D´Ávila: hé ele um homem com quem eu mais me alegrava e consolava nesta terra porque achava nelle um resto do espírito e  bondade de V.M de que eu sempre muyto me contentei e com ho ter quá me alegrava parecendo-me estar aynda Thomé de Sousa  nesta terra. Tinha ele huns yndios perto de sua fazenda. Quando o governador os ajuntava, pedia-me lhe alcançasse do governador que lhos deixassem, prometendo ele de os meninos yrem  a escola a Sant Paulo, que estará a meia legoa dele, e os mais yrão aos domingos e festas à missa e a pregação.
Concedera-lho, mas elle teve não cuydado de cumprir, sendo de my muytas vezes amoestado, antes deixava viver e morrer a todos como gentios  e tinha aly um homem que lhe dava pouco por ele nem os escravos e muyto menos o gentio yerem a missa. Polo qual fuy forçado de minha consciência a pedir que os ajuntassem com os outros em Sant Paul e posto que aynda não lhos tirasse, contudo ele  muyto se escandalizou de my asy que nem a ele nem a outro nenhuma já tenho e nem quero mais que a Deus N S. e a razão  e justiça se há eu tiver.”(SERAFIM LEITE 1955:313 )[1].

-O que?  Quem foi este filho da mãe? Só pode ser o Nobrega. Estefilha de uma mãe escreveu ao Thomé de Sousa falando mal de mim? Não acredito. Onde conseguistes isto.? Quando ele fez isto?
-Foi em 5 de janeiro de 1559.
- Desgraçado, ele me paga. Conhece-o?
- Pessoalmente não, claro, nasci séculos depois que ele morreu, conheço-o, como a si, de livros e de documentos que tenho acesso em diversos arquivos.
-  Vou procura-lo para ele me dizer qual o motivo que o levou a queixar-se ao Thomé.
- Eu se fosse o senhor não perderia meu tempo, Thomé de Sousa não deve ter dado muito ouvidos às queixas do Padre Nobrega, afinal ele lhe deixou toda a sua herança no Brasil. Se ele tivesse restrições ao senhor por culpa desta queixa o senhor não acha que seria diferente?

- Claro que sim, tens bem razão, não vou procurar tirar satisfação dele não, vou continuar é tendo os meus escravos índios e pronto, pois não sei como se poderá fazer alguma coisa nesta imensidão de terra sem a escravização dos índios, além do mais o que os jesuítas e os demais querem é pegar para si os próprios indígenas com esta estória de que vão catequisar, torna-los cristãos, o que eles querem, como nós, são braços para trabalharem nas terras que possuem, e que não são poucas,  o Nobrega mesmo recebeu de Thomé de Souza para fundar o colégio, para sustenta-lo recebeu a sesmaria de Água de Meninos que ele explorava através de escravos, para, segundo ele, poder suprir o colégio: também recebeu outras terras que explora através dos aldeamentos, assim como eu, fazia as mesmas coisas em relação ao gentios, que eram explorados, também, por todos as ordens que aqui existiam.
Notei que o senhor da Torre ficara mordido, e que não cumpriria o que me dissera, ele ia procurar tirar satisfação sim, e eu tentei mudar o assunto, tentando, mais uma vez colocar o filho dele na história; eu não entendia aquela resistência do senhor da Torre em relação ao Francisco, mas era mesmo muito difícil entrar naquele assunto. Eu pensava, se eu não entrar  na família dele, o fim das minhas conversas com ele está próximo, afinal ele morreu em 1609 e ai eu não teria mais o que comentar com ele, dele próprio, da vida dele em si, embora, em sendo ele um espirito, tinha quase certeza que ele sabia de tudo, pois espíritos  podem estar aqui e ali e saber o que acontece muito tempo após a morte física, pelo menos é assim que acho.
-Sr. Garcia, o senhor sabe que o senhor teve um bisneto que teve o seu nome – Garcia D´Ávila.

-Por que insistes em falar de coisas que eu não presenciei, eu só tenho um filho, que chama Francisco e que ainda é muito novo para que eu possa ter a ilusão de que terei um neto, aliás, com a cara que tem, acho muito difícil mesmo ele arrumar uma mulher que tenha a coragem de ter um filho com ele
.
Sr. Garcia o senhor é muito atroz, ele é sangue do seu sangue.

- Queria eu não fora, mas vamos parar de falar dele. Que mais tens de novidades a meu respeito, se forem iguais ao do Nóbrega por favor não fales. Todavia tenho algumas coisas para falar de Nóbrega, que não era tão santinho como  se passava, então não foi ele mesmo que, quando  o os caetés mataram e comeram o  Bispo do Brasil o do Brasil,  com toda a raiva referiu-se aos indígenas: “Não sei como se sofre a geração portuguesa, que entre todas as nações  é a mais temida e obedecida, estar por toda esta costa sofrendo e quase sujeitando-se ao mais vil e triste gentio do mundo”. [2]  Pois é, quem defende índios não devia falar deles assim. E o que ele me diz quando fez com que o Governador Mem de Sá usasse[3] a força para fazer com que os índios se ajuntassem em aldeias grandes e igrejas para ouvirem a palavra de Deus? Que disse ele quando o Governador, ao saber que os índios continuavam a fazer os seus rituais, quando estavam afastados das missões, que ele ia mandar queimar as suas habitações?  Enfim, onde estava Nóbrega quando tantas e tantas aldeias foram dizimadas no Governo de Duarte da Costa?   Ora faça-me uma garapa!

É o Sr Garcia estava mesmo irritado!,E então eu falei: melhor ficarmos por aqui hoje Sr. Garcia, as coisas estão acontecendo rapidamente no Brasil, e se eu não me atualizar a história passa por cima de mim, agora vou ver o noticiário para saber quantos serão presos por corrupção agora, quantos ainda exploram a mão de obra (escrava), quantos ainda invadem as reservas indígenas na atualidade. Pelo que o Sr pode ver herdamos uma infinidade de defeitos dos colonizadores, os piores deles:  a corrupção, os desvios de verbas, o alto custo dos impostos, a exploração de mão de obra, enfim. Até mais ver.

Embora insatisfeito o Senhor da Torre foi-se, e eu fui ver o noticiário informando que o Ministério Público solicitou trezentos e não sei quantos anos de prisão para Eduardo Cunha e oitenta e poucos para o outro antigo presidente da Câmara. Será?
 







[1] Acta Universitatis Conimbrigensis - Cartas do Brasil e Mais escritos do Padre Manoel da Nóbrega(opera omnia) com introdução e notas históricas e críticas de Serafim Leite, Coimbra, por ordem da Universidade, 1955.
[2] HEMMING Jonh, Ouro Vermelho, A Conquista dos Índios brasileiros, tradução Carlos Eugenio Marcondes de Moura, SP, Editora da Universidade de São Paulo, 2007, pg 172. Para quem quiser se aprofundar no estudo da vida dos indígenas no período colonial, este livro é de extrema importância.
[3] Idem pg 173.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

"Amores Nefandos" - Confissões e Delações na Primeira Visitação do Santo Oficio da Inquisição na Bahia - 1591

Continuo andando em Salvador com os olhos de ver, olhos que jamais pretendo que deixem de ver, já falei antes,  que os meus olhos agora não só enxergam e olham, eles vêm, sentem, recriam, estão a serviço da memória, do conhecimento, da reconstrução. Quanto tempo perdi sem usar os meus olhos de ver, e com eles é que estou na Cidade Alta ali pelas bandas da Paço Municipal; à minha frente está a Câmara, do lado esquerdo, estando eu de costas para o prédio da Câmara, está o Palácio do governo do outro lado a Rua da Misericórdia que vai dar na Sé, e após no Terreiro de Jesus.  Estou, efetivamente no centro da cidade.  Descendo a rua vou parar um pouco antes da porta de Santa Luzia, (São Bento) que limita a cidade pelo Norte, se sigo pela direita, alcanço o Terreiro de Jesus, Pelourinho e a porta Sul da cidade, a porta de Santa Catarina (Carmo).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Um bom programa para o Carnaval



Alcântara no domingo
Lisboa está fria. É inverno, mas nada que impeça você de andar pelas suas ruas, entrar nos seus restaurantes, ir até o Tejo, atravessar até Cacilhas.  O frio é menor que em todos os outros lugares da Europa, não se impressione, pois, com as noticias da televisão e venha sem medo até Lisboa, não ha qualquer problema.  Verá uma Lisboa diferente, mais sisuda, mas encantadoramente bonita, com muitos carrinhos de “castanha” largando o seu fumacê pelas calçadas, fazendo você ter a ilusão que vai se esquentar um pouquinho mais Prove a castanha assada, você pode gostar, eu não gosto.
A roupa: a roupa a usar é aquela que você poderia usar em um dia frio em qualquer capital do sul do Brasil: É verdade.  Mesmo quem é muito friorento anda bem aqui com a temperatura a 10 graus.  A semana passada encaramos uns 6 graus, mas ainda assim, você sai na rua. O que não é bom é a chuva, mas não esta chovendo neste inverno.
Parque das Nações
Umas luvas, um cachecol não vão fazer falta e ainda lhe dá um toque elegante, chique mesmo.
Bom agora vamos a ela: você já ta todo quentinho, portanto lá vamos nós. Ah sim! Há uma novidade, carnaval aqui não é mais feriado. O Governo da austeridade ficou mesmo muito austero e os pobres portugueses vão trabalhar no carnaval.
Se você chegar aqui agora você vai pegar uma boa leva de “saldos”, liquidação para nós. Olhe que é bom mesmo, a gente fica boba de ver como as coisas diminuem de preço, é mesmo uma “liquidação” unas “rebajas” como se diria em Espanha.  Bom se veio com a intenção de gastar dinheiro  em roupas, sapatos etc., vá fundo, até mesmo nas lojas caras, aquelas  das grandes grifes: Gucci(novíssima aqui em Lisboa) fica na Liberdade para variar, lá que é  a rua das grandes marcas, Armani, Loui Vuitton, Tous, Ermenegildo Zenga,  Dolce Gabana, tantas e tantas outras, também fazem  liquidação, claro que  a liquidação aqui é para gente  “grande”, mas  dá para encarar uma “carteirinha”, quem sabe, uma gravata, uma  blusa. Fico doida é pelas bolsas, mas hoje mesmo passei na Gucci e lá havia uma que custava, apenas, (não estava em saldos)  quatro mil e poucos euros. Já viu que não dá para mim não é?Todavia olhei, vi, gostei, pronto. Entretanto, ha coisa mais acessíveis, que, diga-se de passagem, não compro, pois se não dá para a Lui Vuitton também não compro nada. Não acredite nisto! É só um desabafo idiota. Ah, você também pode ir ao El Corte Ingles, logo ali em São Sebastião, é so pegar o metrô linha azul e você chega lá.
Bom se você não gosta das compras, suba a Liberdade mesmo assim, é bom, faz bem à saúde e aos olhos.
Se você tem pouco tempo para passar em Lisboa, ao invés de ir para a Liberdade vá ao Chiado, aquilo lá é bonito de inverno à verão, no inverno há o chiquê dos cafés e "chávenas" de chá. Acredite que eles falam assim mesmo. Gosto de ver “as modas” por ali, a gente vê de tudo, de pessoas impecáveis, como diria a minha amiga Vera, a jovens desarrumados com as cuecas aparecendo, com roupas sobrepostas e que, no final, não resolvem ou não aquecem nada, mas eles se acham e vão desfilando a sua coragem de enfrentar o frio chamando atenção da pior maneira possível. 
De umas voltas por ali, tome um porto na “Brasileira” e depois um café ai mesmo, é bom, não vai se arrepender.
Se pretende viajar por Portugal te digo que há mais frio no interior, mas também, fora a Serra da Estrela, dá para encarar, falo da Serra da Estrela porque neva mesmo, o que ocorre em outros locais de Portugal, mas lá é o mais comentado.
Capelinha em Fátima
Bom mas se vai viajar para o Norte tenho algumas recomendações a fazer.  Se for muito fervoroso, católico praticante ou finge ser, ou quer ser, ou ta precisando de força, acho que Portugal é o lugar correto.  Nunca vi pais com tanta Igreja,  eu tenho quase certeza que existe mais igrejas aqui de que no Brasil, há lugares que só numa mesma praça tem três, uma de frente para a outra, deve ser para fazer concorrência,  lembrem-se que havia várias ordens (dominicanos, jesuítas,vicentinos e outros bichos mais). Saia de Lisboa e vá direito para Fátima, o Santuário mais importante e conhecido de Portugal, pelo menos é o que parece: é aquele da aparição da Virgem aos três pastores. Tão lembrados nê? Vá lá, apesar da exploração de todos os lados, vale a pena até para a constatação de que a religião e o dinheiro ainda não se desvincularam, o poder da Igreja já diminuiu muito, mas ainda demora muito para que  as finanças deixem de fazer parte  de suas metas. Comece, como eu, pelo ridículo da compra das velas a para queimá-las em seguida. Já viu coisa mais idiota? Mas faça, custa dinheiro, mas vale à pena, faça pela sua fé,se é que você é crédulo. Eu faço acreditando ou não, pois sou uma crente de araque, dias to pedindo tudo aos santos e acreditando neles, dias até os mando para aquele lugar, pois meus pedidos devem logo ser atendidos. Isto é o que eu acho. Se eles demoram mando todos para a porra. Eles já me conhecem e até aceitam, pois não é que os “danados” às vezes tiram a cera do ouvido e me atendem!!!  Bom, o certo é que já fui várias vezes a Fátima e há um pedido pendente, que eu renovo a cada vez que vou lá e queimo as porras das velas: quanto maior mais cara é lógico. Além das velas você pode comprar qualquer coisa em Fátima, tudo com o motivo da aparição, tudo mesmo.  Não vi por lá nenhuma casa de venda de coisas eróticas, mas não duvido que tenha e que se arrume algum objeto mostrando alguma coisa relacionada com aparição, sei lá o que, uma calcinha com os dizeres – lembrança de Fátima - ou “estive aqui com uma seta – para e em Fátima”, ou ainda uma vela bem grande com alguma frase, sabe-se lá; o povo tem imaginação!  Eu falo assim porque tenho isenção, Nossa Senhora de Fátima me permite que eu diga estas coisas sem que isto seja qualquer ofensa à sua dignidade, sua santidade, seu poder.  Não falo dele e sim da Igreja e da exploração da Virgem, nada mais.
Bom, veja Fátima, não se demore muito porque a pobre coitada tem de ouvir muita gente, mesmo que o Santuário esteja vazio. Você pode não acreditar, aquilo enche mesmo, tanto a parte visível, aquela que você possivelmente tá vendo agora onde fica a capela, como no subterrâneo, tão grande quanto esta parte; a escadaria que leva até estas capelas subterrâneas fica lá no fundo, há  três ou quatro capelas, uma delas somente  para confissão, você não vai acreditar no tamanho daquilo tudo. Não se esqueça de, convenientemente, colocar uma moedinha nos cofres espalhados pelo santuário, faz parte. Afinal, como poderia tudo aquilo ser mantido não fosse à caridade dos fiéis?
Leiria
Bom chega de Fátima: saia dai e vá para Leiria, Se surpreenda: vou ser breve porque não quero me alongar muito em Leiria, eu fiquei surpresa mesmo. Se der para almoçar aí vá até a Adega do Caçador e coma “dobrada", se for o dia, se não for coma qualquer coisa, vai ser bom da mesma maneira. Veja as pessoas que trabalham no local e reze para que você chegue à idade delas  fazendo o que elas fazem. Não deixe de tomar o “caldo verde”, o melhor, até agora, que tomei em Portugal. Eu adoro caldo verde, acho que é a melhor sopa que aqui servem, mas gosto não se discute, e você pode não aprovar, mas recomendo.
Mosteiro da Batalha - Lateral
Se você estiver de carro e não for alongar a viagem, volte por outro caminho e não esqueça, to te pedindo, não deixe de ir, pelo amor de Deus,s em Batalha. É imperdível, não pela cidade em si, mas pelo que lá se contém. O Mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, que ficou conhecido como Mosteiro de Batalha.  Não perca um detalhe. Ele foi considerado uma das sete maravilhas de Portugal, e mesmo que assim não fosse, ninguém que chegue tão próximo pode deixar de chegar, ao menos, até a porta deste Mosteiro.  Chegue à porta principal e fique olhando os detalhes, não chegue muito tarde, tem de chegar com a luz do dia ainda. Eu sei que você jamais se arrependerá de ter parado. O Mosteiro foi mandado construir em honra a Santa Vitoria por Dom João I, tendo em vista a vitoria na batalha de Aljubarrota, sei que isto talvez não interesse, mas é bom saber. O Mosteiro passou por três séculos para ser construído, de acordo com as informações dos livros, o inicio das obras se deu em 1386 e alcançou 1517, passou por vários reinados.  Se encante, não se esqueça de olhar os detalhes, desde os muros que cercam o mosteiro até as suas colunas, não perca nada, você não vai ver isto em muitos outros lugares. Segundo os entendidos é estilo gótico tardio que também ficou conhecido como “manuelino” o mesmo que pode ser observado nos Jerônimos, aquele mosteiro que fica em Belém.
Porta Principal
Interior do Mosteiro
Olhe tudo mesmo com muita atenção e depois siga em frente, ou voltando para Lisboa, ou indo,   novamente para Leiria, e daí ganhar o mundo através  do norte de Portugal. Todavia, isto fica para uma próxima viagem. Tenho que guardar coisas para um  novo encontro para despertar em em você, que me atura, o desejo de conhecer este lindo país com tanta história, que é ligada à nossa, que é PORTUGAL.