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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Mito ou Realidade? As minas de Gabriel Soares


Estou em casa sozinha preparando, mais uma vez a ceia do final do ano.
 Lembro-me que, no ano passado, o senhor Garcia me apareceu sem mais nem aquela exatamente nessa mesma situação. Pensei comigo mesmo: Seria tão bom se aquele velho chato me aparecesse com alguma novidade da Bahia quinhentista! Sabia, entretanto, que isto seria quase impossível, até porque, da última vez que o senhor Garcia apareceu, foi quando me disse que ia reformar o seu testamento para me colocar nele como beneficiária. Lembram que ia me dar Arembepe? Penso que ele ficou muito aborrecido com a minha reação, ou então, ele se deu por morto mesmo, e se foi para o seu lugar no infinito e aceitou a sua morte e deixou o seu espírito descansar.
Continuei nos meus afazeres, mas, de repente, um calafrio imenso, os pelos eriçados e sentindo a presença de alguém ou alguma coisa estranha na casa.
- Bons dias! 
De imediato reconheci a voz do Senhor da Torre. Fiquei excitada e ao mesmo tempo apreensiva. Certamente o senhor Garcia não tinha qualquer problema em aparecer onde quer que fosse, bastava querer, mas fiquei inclinada a perguntar-lhe como me achou.
Eu tinha me mudado de casa e já estava mesmo achando que este era um dos motivos do desparecimento do Senhor Garcia. Olhe que tem horas que me acho louca mesmo, tenho de concordar com as pessoas que me acham assim e sem qualquer vergonha verbalizam este pensamento, e é bem assim eu me sinto em relação a esta estória com o Senhor da Torre.
=Bom dia Senhor Garcia, quanto tempo?
-Diga-me lá: por que não avisaste que mudaste de direção? Estivemos em tua casa em Arembepe algumas vezes e demos com os burros n´àgua.
Sorri com a expressão, e disse: Oh senhor Garcia eu não sei como encontrá-lo, aliás, da última vez que o senhor esteve comigo, disseste-me que estava no hospital da Misericórdia. Passei lá outro dia, no dia 04 de dezembro e até fiquei inclinada a entrar.
Pelourinho
Igreja da Misericórdia
Fiquei atônita, incrédula com o que acabei de falar, então eu iria entrar na Misericórdia para ver o senhor Garcia em pleno dia de Santa Bárbara e em pleno ano de 2019? Endoidei de vez, este homem conseguia me tirar do prumo mesmo.
- E ainda estou, disse-me ele, mas, como vês, vivo.
- Felizmente , felizmente. O que tem de novo para me contar? Antes, porém, esclareça-me em que ano estamos.
-Como em que ano estamos? Estas de borla comigo?
-Claro que não, mas preciso saber para tentar me localizar, inclusive no pedaço da madeira preta.
-Estamos em 1609. 
- 1609, quem é o governador?
Extas mesmo de borla comigo, então não sabes quem é o governador?
- Diogo Siqueira
E Francisco de Souza.?
- Também, é que mais uma vez o Rei dividiu o governo do Brasil, ficando aqui na Bahia o Diogo e, no Rio de Janeiro, o Francisco de Sousa
- Francisco de Sousa? Aquele que era um aficionado por minas?
Pelourinho
-Sim, ele mesmo, sabes que ele   tanto chafurdou na Corte, que terminou por ser nomeado para Governador do Sul, governo com sede no Rio e janeiro e ainda conseguiu a promessa de receber o título de nobreza ligado às Minas.
- No Rio de Janeiro?
-Sim, por que o espanto?
Ora, se ele tinha interesse em encontrar as minas que foram identificadas por João Coelho de Sousa, irmão de Gabriel Soares de Sousa deveria ficar perto do Nordeste, especificamente aqui em Salvador da Baia, ou em Sergipe, nunca no Rio de Janeiro.
- O importante para ele era estar aqui, não importa qual o lugar, até porque, também em São Paulo há perspectiva da existência de metais, não só lá como alderredor.
Sim, e ele em encontrou tais Minas?
Neste momento o Senhor Garcia deu uma larga risada. – Não ele não encontrou.
Agora quem ria era eu, mas ria por dentro, até porque o senhor Garcia não poderia saber se o Francisco tinha ou não encontrado tais minas, afinal ele falecera em maio de 1609. Francisco havia retornado ao Brasil em janeiro daquele ano e ido para o Rio de Janeiro, e pouco era o contato de ambos, bem como as notícias. Possivelmente, o Senhor da Torre não saberia do que acontecera entre janeiro e maio de 1609 com relação às minas.
- Mas diga-me lá Senhor da Torre, quem era mesmo João Coelho de Sousa
- Já disse-lhe: era irmão de Gabriel Soares de Sousa, este eu conheci muito bem, porque era um rico dono de engenho aqui mesmo na Bahia
“Gabriel Soares de Sousa, nascido em Portugal cerca de 1540 emigrara para a Bahia no fim da década de 1560. Durante uma permanência de dezoito anos na Bahia tornara-se um bem-sucedido plantador de cana e participou do conselho municipal em 1580. Seu irmão João Coelho de Sousa, descobriu depósitos minerais no interior da capitania, morreu antes de poder explorar essa mina, mas deixou a Gabriel um mapa que lhe indicava a localização. Em 1584 Gabriel foi à Corte com uma petição para a concessão dessa e quaisquer novas descobertas. Recebeu-a em 1590, ganhando a patente de Governador e Capitão-mor da Conquista e Minas do Rio São Francisco. Regressou à Bahia com 360 homens, comandou uma expedição ao vale superior do Rio Salitre na cabeceira do São Francisco. Morreu na viagem de regresso e foi enterrado no mosteiro beneditino da Bahia sob uma lápide com a inscrição “aqui jaz um pecador” (...) (RUSSEL WOOD 1939: 55-56).[1]
Como sempre, notei que o homem não estava gostando da conversa, que girava em torno de uma obra que não era dele. Ele adorava falar de si e das suas proezas. Gostava de endeusar-se, de falar da sua Tatuapara e da defesa que esta representava para a cidade do Salvador.  Falar de uma figura importante como era o Gabriel Soares[2] era muito para ele, acontece que não dava para mudar o assunto, e quando insisti mais um pouco, ele, como sempre, deu as costas e foi-se, sem saber o que eu tinha de falar para ele sobre estas minas e  da importância que teria o seu neto Francisco Dias D´Ávila para encontra-las.  Foi bom até, porque ele não iria acreditar mesmo que Francisco chegaria a tanto, todavia ele vai saber, porque eu tenho certeza que o Senhor Garcia, morrendo ou não efetivamente em maio de 1609, não deixará de aparecer para mim e eu terei a oportunidade de contar-lhe tudo o que o seu neto representou para a nossa Bahia, perenizando o nome dos GARCIA D´ÁVILA.[3]. 







[1] RUSSELL-WOOD, A.J.R. Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755(trad. De Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981, Coleção Temas Brasileiros, 20.
[2] Gabriel Soares de Sousa escreveu o Tratado Descriptivo do Brasil, (1587) uma das grandes fontes para o conhecimento da Bahia Colonial, pode ser encontrado na Biblioteca Digital do Senado Federal.
[3]  Ver.  O feudo: a Casa da Torre de Garcia d'Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Bandeira, Luiz Alberto Moniz. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 2000: 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Garcia D´Ávila XVII -Diogo Alvares Correa - Caramuru



Estava na lancha do amigo Juarez e, na volta do passeio pela Baía de Todos os Santos, para mim a mais linda de todas, pois é nela que posso passear de lancha e ver lugares maravilhosos em companhias agradáveis, paramos para um estimulante banho no Porto da Barra. ´É fantástico ver aquele pedacinho lindo de Salvador do mar.   Lindo de viver! Pena que nem todos possam admirar e ter esta sensação que tenho agora.  Fico olhando aquela beleza toda e penso nos portugueses. Porra! Num momento deste por que tenho de pensar nos portugueses? O racional responde imediatamente: Porque eles é que descobriram, povoaram e viveram neste espaço por muito tempo.
É tem lógica o meu pensamento, tenho de lembrar deles mesmo e da sorte que eles tiveram de encontrar um lugar tão maravilhoso como este. Deixo-me levar pelos pensamentos e lembro de quando pequena na escola primária ouvia falar de Caramuru. Sim, Caramuru – Diogo Alvares Correa, o naufrago que conseguiu dominar os indígenas com o fogo. Será isso mesmo, pergunto-me?  Já nem lembro direito, mas seis que ele fez fogo e os índios acharam que ele era um feiticeiro.
Fico tentando me lembrar qual foi mesmo a história que me contaram no primário, e, de repente: O Senhor da Torre! Sim, ele, ele poderá me contar muito sobre o Caramuru, afinal ele conviveu com ele e sua filha desposou um de seus netos, portanto eles eram quase parentes, faiam parte de uma família.
Disse para mim mesmo: Amanhã vou chamar o Sr. Garcia, e se ele não aparecer, eu vou no Castelo da Torre para ver se encontro com ele. Sei que ele é de veneta, só aparece quando quer, mas estou muito curiosa, e então vou insistir.
Nem bem tinha acabado de pensar nisto quando vejo o Sr Garcia refestelado no banco da lancha, quase sentado no colo de Carlos: tomei um susto da zorra, embora soubesse que só eu poderia vê-lo, todavia, o senhor Garcia me deixava para lá de inquieta, e naquele espaço, mais ainda.
Ele, de onde estava, quase à minha frente me olhava de uma maneira bem estranha certamente porque eu estava de biquíni e com uma saída de praia completamente transparente que deixava ver as minhas formas, embora não esplendorosas, mas ainda com formas.
-Não tens vergonha de andar nua assim?
Como responder ao senhor Garcia, as pessoas ali iam achar que eu estava maluca. O certo era fingir que não o estava vendo, muito menos o excitando.
-Não estas a ouvir-me? Já gritou o senhor Garcia, visivelmente aborrecido. Fiquei olhando fixamente para o lugar onde ele estava; Fiquei tão séria, que Carlos achou que eu estava olhando para ele e também perguntou? -O que é? Por que está olhando fixamente assim para mim?
Puta merda! Que situação. Se eu respondesse a Carlos, certamente o senhor Garcia ia achar que eu estava respondendo a ele, se eu respondesse ao senhor Garcia, Carlos ia achar que a resposta era para ele, que dilema miserável. Resolvi não responder a ninguém.
O Senhor Garcia levantou-se e veio sentar junto de mim. Agora é que a porra vai pegar, pensei eu, ele vai querer me sacanear e eu vou ter de ficar aqui quietinha, sem qualquer reação.
-Vocês sabiam que isto aqui chamava-se Vila do Pereira?
-Todos olharam para mim. Pois é, aqui, viveu Caramuru com as suas mulheres indígenas.
-Vila do Pereira! alguém perguntou. Não seria Vila Velha?
- Sim, mas antes era a Vila do Pereira, e assim era chamada porque o primeiro donatário da capitania  Francisco Pereira Coutinho criou a Vila que tomou o seu nome- Vila do Pereira, bem aqui na ladeira da Barra.
O senhor Garcia olhava-me atento, parecia querer dizer-me alguma coisa, mas ficava só a me olhar. Talvez porque não visse as outras pessoas, ou talvez porque estivesse mais interessado pelo que estava vendo por baixo da minha saída de praia, sei lá, mas ele estava quieto, mas isto durou muito pouco, porque de repente ele levanta-se fica bem em frente a mim e diz:
Não sabes de nada sobre o Diogo. Sabes como ele chegou aqui?
- Dei risada e disse, certamente chegou em uma nau: não tenho a menor dúvida. O  Senhor Garcia não gostou muito da brincadeira e chegando perto de mim sussurrou:
-Se vais brincar e procurar graça vou embora e não digo-te mais nada.
 Eu, sinceramente, estava curiosíssima, mas naquele momento preferia que ele fosse embora mesmo. Mas não podia perder aquela oportunidade e aí fiquei séria e quieta, procurando ser o mais natural possível para os demais que estavam na lancha.
- [...] foi este Diogo Álvares Correa, natural de Vianna pessoa nobre, e de linhagem conhecida na Provincia de Entre Douro, e Minho. Era moço, e o desejo que levava a outros muitos sujeitos da sua qualidade naquele tempo a sahir de suas pátrias, e buscar nas novas Capitanias do Reyno alguma aventura, o arrastando para a Índia em companhia de um tio seu, que em certa Náo fazia para la a sua derrota. Outros dizem , que esta viagem era para a Capitania de S.Vicente no mesmo Brasil [...].[...] mas ou fosse para esta ou aquella, a sua Náo se veyo meter na grande boca da Enseada da Bahia, afastada de ventos contrários, onde sobrevindo-lhe outra tempestade, deo com ella, quebrados os mastros e perdido o rumo nos baixos, que ficão a Leste da sua barra, a que  o  Gentio chamava Mairaguiguig; em fronte donde se mete no mar o Rio Vermelho, humma lagoa distante da ponta que dizer do Padrão[1] . Aqui tiveram todos com a perda da Náo, lastimoso naufrágio, do qual os que se livrarão com vida não escaparão de serem presos do bárbaro Gentio Tupynambá, que habitava aquela Costa, e ali acudiu fazendo pilhagem, não só no que a despedaçada Náo lançava às prayas muito melhor dos miseráveis naufragados, que recolhidos ás suas estocadas, lhes foram servindo de gostoso manjar por repetido dias[...][2]
Impaciente perguntei: Sr Garcia, onde o Caramuru entra nesta história.
O Senhor da Torre me deu uma olhada que me fez gelar! O homem tinha mesmo o poder de me deixar trêmula. O pior é que eu tinha de falar com ele sem que ninguém percebesse, pois ninguém acreditaria que estava falando com um morto ali na lancha, o fato é que todos estavam estranhando o meu comportamento. Carlos chegou a me perguntar:  O que foi que você disse, não entendi.
- Quem é este que ousa interromper-me e desviar a tua atenção de mim?
- Meu marido senhor Garcia! meu marido.
-Como é? ´
É isto mesmo Sr Garcia, o Senhor sempre disse que não acreditava que fosse casada, mas, efetivamente sou, e é este o meu esposo.
Tive a impressão que ele ia desaparecer depois da cara que fez, mas ao contrário, ficou ali a me olhar de uma maneira muito especial e a se chegar mais e mais a mim. A impressão que tive é que ele ia atravessar o meu corpo, passar por dentro de mim, tal a proximidade que ele impôs. 
--Se quiser continuo a história.
A voz do Senhor Garcia soou diferente, parecia querer seduzir-me, estava macia, sem qualquer conotação de agressividade. Uma luz se acendeu e eu entendi a jogada daquele malandro: Se ele continuasse a falar sobre Caramuru eu iria dar atenção total a ele e Carlos ia ficar lá entretido com os amigos e me deixaria quieta, e efetivamente foi o que ocorreu. Vi o riso cínico do Senhor Garcia ao recomeçar a narrativa.
- [...] Menos Diogo Alvares Correa, que com a sua sorte, ou a sua viveza, ou tudo junto, com superior destino, lhe administrou para uso meyos oportunos. Era moço, esperto, ágil e de entendimento claro, e vendo aquella gente muy ocupada na colleta dos vários despojos da perdida Náo, introduzido com elles os ajudava a comboyar para onde via eles as hião acomodando e assim começou a fortuna a traçar a sorte de Diogo Alvares[...] (JABOATAM: 1858; 37)
- Sim senhor Garcia, mas onde está o momento em que os indígenas começaram a respeitar o Diogo e o alcunharam de Caramuru?
-Estás muito apressada: calma, chegaremos lá. Eu não estou com nenhuma pressa de sair daqui, e tenho muita coisa a dizer-te sobre o Caramuru.
Esta última frase me deixou apreensiva e só confirmou o pensamento que tive antes: o Sr. Garcia estava jogando e sabia que sairia vencedor, porquanto tinha certeza que a minha curiosidade histórica era maior que qualquer coisa.
- Bom, dentre as coisas que foram resgatadas do naufrágio, estavam armas e pólvora e o Diogo [...] já mais alentado do primeiro susto, teve advertência para recolher entre os despojos algumas armas de fogo, barriz de pólvora e cunhetes de balas, tudo prevençoens já de sua astúcia e já de humm presagioso e  vindouro futuro. Havendo já recolhido o Gentio ás suas Estâncias, tudo o que do naufrágio entendeo lhes poder servir, e eles também  mais  sossegados nas suas cabanas, tratou Diogo Alvares de preparar algumas daquelas armas, carrega humma, faz tiro com ella e acerta presa(seria uma ave ), dá com ella em terra, que meninos e mulheres se punhão a fugir, e os  mayores em espanto e admiração de verem e ouvirem humma tal coisa, e especialmente  o damno, o estrago que causarão as balas sem serem vistas. (JABOATAM; 1858:37).
A história era bem interessante mesmo, eu estava ansiosa para chegar  ao CARAMURU, mas o senhor Garcia parecia mesmo não ter nenhuma pressa, ficava contando  detalhes do naufrágio, dos indígenas, das pedras do Rio Vermelho, coisas que naquela momento não me interessavam muito, o que eu queria mesmo saber como foi que os indígenas, depois desta história começaram a chamar o Diogo de Caramuru.
O diabo do homem estava me sacaneando, fazendo suspense. Olhava para Carlos cinicamente, postava-se a minha frente galantemente, parecia querer que eu fizesse alguma comparação entre ele e Carlos; como se isto fosse possível. Ele todo cheio de roupas esquisitas, estatura não muito alta, bigode grosso, barba. Carlos de sunga, nu da cintura para cima. Kkkkkkk ri interiormente, pois até isto me fazia temer a reação do velho senhor da Torre.
Neste exato momento deu-se um movimento brusco na lancha causado por uma marola feita por outra lancha que passava muito próximo e  velozmente, todos se desequilibraram inclusive o Senhor Garcia que, desequilibrado, teve o seu corpo projetado pra fora da lancha; cheguei a dar um grito, que ninguém entendeu, e, embora soubesse que nada aconteceria ao Sr. da Torre, fiquei olhando ele nadar até  a praia, de onde gesticulava,  possivelmente dizendo impropérios, tenho certeza.  Uma pena, embora providencial, o que aconteceu. O que resta é esperar que o homem esqueça o que aconteceu e retorne para acabar de me contar a história de Diogo Alvares  Correa, como ele se tornou  o CARAMURU,  e toda a sua importância para o  Brasil e para o povo brasileiro.







[1] Ponta do Padrão onde localiza-se o Farol da Barra
[2]  JABOATAM, Frei Antonio de Santa Maria, Novo Orbe Serafico brasílico ou Crhonica dos Frades Menores da Provincia da Bahia, Lisboa 1761, Reimpresso por Ordem do Instituto Histórico e Geográfico brasileiro, Rio de Janeiro, Typographia Maximiliano Gomes Ribeiro 1858. O português é original. Segundo o que consta da introdução, o Frei Jaboatam escreveu sobre Caramuru, com base em manuscrito que encontrou no Convento de São Francisco.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Garcia D´Ávila XVI -Conversado sobre TOMACAÚNA - O garanhão do sertão.


Estava doida para ver o Sr. Garcia, Chamei-lhe algumas vezes, mas o desgraçado so aparece quando quer mesmo. Fiz concentração, pedi ajuda aos espíritos de luz, enfim, mas nada de nada. O miserável debochava de mim mesmo, porque tenho certeza que ele estava vendo a minha aflição para entrar em contato com ele, bem ali, juntinho de mim, e sem se fazer perceber, ria de mim.
Estudando, como sempre, o período  colonial na Bahia, logo no seu inicio e exatamente num de extrema importância, que foi a época da visitação do Santo Officio ao Brasil, o que ocorreu entre 1591 – 159, deparei com um nome que me chamou muito a atenção: TOMACAUNA e eu queria muito saber do senhor Garcia quem realmente foi o Sr. DOMINGOS FERNANDES NOBRE.
Dito senhor era um  mameluco nascido em Pernambuco, filho de índia com um branco. Casou-se com uma branca, viveu muito tempo entre os índios, e por isso mesmo, recebeu a alcunha de Tomacaúna, de acordo com (VAINFAS.1995;76) era um homem corpulento, predador de índios e homem  de confiança de Fernão  Cabral.[1]

terça-feira, 15 de maio de 2018

- Noticia da divisão - Garcia D´Ávila XIII


Rio Jacuípe - Ba
Eu não acreditava no que via! O que vou fazer? A casa cheia de gente e ele ali, circulando no meio do povo, se batendo em um, empurrando outro, gritando com  alguns, até mesmo mandando embora as pessoas. Atônita  via a cena toda, logico que sabia  que ninguém o via,  nem sentia qualquer das suas agressões, mas, ainda assim, ficava preocupada: E se tivesse alguém ali que tivesse a mesma capacidade que eu, esta de ver almas do outro mundo, aliás, com o Sr. Garcia era do outro mundo literalmente.
Empurrando gente e se batendo em todos ele chega cerca de mim:
-Que diabos de tanta gente é esta nesta casa hoje?
-São meus amigos Sr. Garcia, estou comemorando o meu nascimento.
-Atreve-te a fazer uma festa nas minhas terras e não me pedes autorização, ou melhor, nem convidou-me !
-Sr. Garcia não tenho tempo agora para estar discutindo com o senhor, são meus amigos e familiares e quero que o senhor os respeite, por favor, melhor: vá embora porque não tenho como vos dar qualquer atenção.
-Mera o que está acontecendo? Você está lívida. Tá se sentindo bem? Pergunta-me a minha irmã.
- Tá tudo bem sim! Estou apenas preocupada que tudo corra bem, veio muito gente e sabes bem que sempre acho que a comida e a bebida não vão var, mas qualquer coisa mando alguém comprar mais bebida e dou um jeito de fazer mais alguma coisa rápida, tenho camarão já tratado na frezzer e tem macarrão, faço uma massa com molho de camarão.
-Claro que vai dar, mas não me parece que seja isto, estás pálida e parece que andas a falar sozinha.
Kkkkkkk, eu falando sozinha. O riso era puro nervoso, porque realmente estava a falar com o Sr. Garcia, o meu querido e indiscreto visitante invisível.
De repente, no meio deste papo com a minha irmã, olho para o outro lado da sala e vejo o Sr Garcia quase batendo em um amigo meu, um negro. Saio correndo e chego a tempo de segurar o braço do Sr Garcia no ar. O meu gesto não passou desapercebido e todos estavam a olhar na minha direção, eu  com a mão no ar tentando segurar algo que ninguém via.
- O que há com você Esmeralda, tá doida? O que você viu?
- Tive a impressão que o relógio da parede ia cair em sua cabeça, respondi meio sem graça ao Mario.
- Mulher! O relógio está tão longe de mim, precisaria  sair dali voando para me alcançar.
-Me desculpe, mas tive mesmo esta impressão, acho que lhe assustei.
O desgraçado do Garcia D´Àvila olhava para mim e fazia muitos gestos e gritava querendo saber como um negro estava ali na minha casa circulando daquela maneira, como se tivesse alma, fosse realmente gente. Como eu poderia naquele momento dizer ao Sr. Garcia que o meu amigo era livre, que não havia, ao menos, aparentemente, escravidão, que ela havia acabado em quase todo o mundo, inclusive na África portuguesa.
-Bote ele para fora daqui, falava o Sr. Garcia aos berros no meu ouvido, onde já se viu uma coisa desta, você consegue transgredir todas as normas e recomendações.
-Sr. Garcia, por favor, vá embora, volte outra hora, não estás a ver que não posso vos dar qualquer atenção?
- Pois, vim disposto a conversar consigo a respeito dos primeiros dias da fundação de Salvador, mas parece que isto não é mais importante, mas não vou sair daqui não, estas terras são minhas, estas pessoas que aqui estão são invasores, e o que vou fazer é chamar meus homens e botar todos para fora daqui.
-Sr D Ávila vou vos fazer uma proposta, o Sr. fica aqui ao pé de mim e vai falando, mas eu não posso parar e ficar dando atenção só a si.
- Não, não e não. Vou botar todos para fora, quem não sair por bem sai na força.
Tinha que arrumar um fato para contar a ele a fim de que  se aborrecesse e fosse  embora, mas o que poderia eu fazer? Lembrar de que fato que ele não gostaria que fosse lembrado?  Fiquei monitorando o Sr. da Torre e pensando num fato que realmente chamasse tanto a atenção dele, que ele tivesse que tomar uma atitude longe dali de casa, mas teria que ser uma coisa bem relevante.
- Sr. Garcia o senhor sabe o que está acontecendo em Salvador? O Governador que fora nomeado para substituir Mem de Sá foi aprisionado e morto por hungenotes a caminho do Brasil.[1]
- O que me dizes?  Como sabes disto?
Como sei ou como soube não vem ao caso, mas a sua presença em Salvador é mais de que necessária, e ao invés do senhor estar lá para ajudar no que for preciso, está aqui perturbando  a minha festa.
O Sr. Garcia não era nenhum idiota, e percebeu perfeitamente qual a minha intenção, ao invés de ir embora deu uma grande  gargalhada e disse-me:  O gaja, estas a pensar que sou parvo! Então se uma coisa desta tivesse acontecido eu já não saberia? O governador já teria mandado algum emissário a Tatuapara.
Pensei comigo mesma: esta não colou mesmo, até porque, realmente, não haveria como  o próprio governo geral saber disto, afinal as coisas estavam acontecendo, ou acabaram de acontecer para eles, que só ficariam sabendo tempos depois, quando uma nova frota chegasse ao  Brasil.  Esqueci completamente  da época, quanto pior, como ele sempre se colocava em 1591, era capaz de ele me chamar de doidivanas mesmo e até me dar uma coça, ele era bem capaz disto, mas, para minha surpresa, apesar dele não cair na estória, caiu no ano, o que já foi um alivio.
- Senhor Garcia, o senhor não esta achando estranho que o novo governador geral esteja demorando de chegar. O Mem de Sá já pediu há muito um substituto, e pelo que sei o Rei nomeou (1570) o Sr.  Luis Fernando de Vasconcelos, que saiu de Lisboa com “sete ou oito navios, trazendo consigo  o padre Ignacio e Azevedo e mais sessenta e tantos jesuítas”[2]   
- Quando digo-te que és uma bruxa! Como podes saber disto? O Mem de Sá está lá, estamos  em 1571 e não há qualquer notícia  de nada. Sabemos da nomeação e da saída da frota em dezembro do ano passado, estamos aguardando.
- Ah Sr. Garcia, vais aguardar bem, porque eles foram mesmo aprisionados pelos hungenotes[3], nesta altura, já viraram comida de peixe.
- Como ousas falar assim?
- Porra! Vi que o plano não ia funcionar, a raiva dele estava, como sempre, virando para meu lado, eu tinha de agir rápido pois não ia ficar nada engraçado eu andar correndo na casa fugindo do miserável, com todas aquelas pessoas a me chamar de louca, pois ninguém entenderia nada. Decidi então que ia ao banheiro, iria na parte superior da casa e, com certeza, ele me seguiria, lá tentaria ouvir ele falar alguma estória que ele disse que viera para contar e  também, pedir, implorar até, para que ele fosse embora, e foi o que fiz. Subindo as escadas, ouvia, perfeitamente, as botas do Sr. da Torre fazendo barulho na madeira, cheguei no quarto e ouvi ele falar:


O Beijo - Roberto Abeleira
- Por que nunca me trouxestes aqui? Por que fico sempre no andar debaixo?
Ora Senhor D´Ávila o senhor entra aqui e vai a qualquer lugar sem me pedir qualquer licença, por que eu iria me preocupar em traze-lo aqui?
-Bem bonito este aposento, quem é o pintor deste quadro, não conheço.
-AH senhor Garcia este quadro foi pintado por um grande amigo, Roberto Abeleira?
-´E um pintor espanhol?
-Raízes espanholas, filho de espanhóis radicados na Bahia?
-Onde ele mora? Nunca ouvi falar dele.
-Não se preocupe senhor Garcia, vamos conversar a respeito da fundação de Salvador. Não era disto que o senhor queria falar?
- Não, não quero mais. Quero que me digas como sabes da morte do sucessor de Mem de Sá?
-Já vos disse que através dos meus livros.
- Bom se sabes tanto, diga-me lá; Se o Luís de Vasconcelos morreu, quem virá suceder o Mem de Sá, ele não está nada bem.
Quem virá é o Luiz de Brito e Almeida, e vai chegar em 1572.
- O Mem de Sá vai continuar aqui como governador? Ele não vai suportar. Está muito mais preocupado em tomar conta das suas posses e deixar os seus herdeiros bem, ele está rico, tem um Engenho mais bonito da Bahia,  que fica no Recôncavo, passou a ser conhecido como  “Sergipe do Conde”, dizem que era o maior do Brasil com 250 pessoas de serviço, além deste possuía um outro em Ilhéus, muitas cabeças de gado no Rio Joanes.[4]
- É isto mesmo que o senhor ouviu. E tenho mais uma novidade que o senhor não vai gostar.  Vamos ter, a partir do próximo ano, 1572 dois governos gerais.
- Estás doida, jamais o rei faria isto.
- Vai fazer sim.  Um  governo do Norte e um Governo do Sul  este com sede no Rio de Janeiro 
- Digo mais, o que terá sede no Rio de Janeiro vai ter como governador o Antonio de Salema?
-Antonio de que?  Nunca ouvi falar deste senhor
_ Pois é, mas será ele que virá e vai ficar sediado no Rio de Janeiro, enquanto o Luís de Brito ficara aqui na Bahia responsável pelo Governo do Norte, que abrangerá a Bahia e as capitanias além de Pernambuco.
- O Rei não fará isto
Vai fazer sim Sr. Garcia, e no preâmbulo da Carta Régia de 17 de dezembro 1572, Dom Sebastião, justifica que esta divisão é necessária porque as terras da Costa do Brasil são tão grandes e tão distantes umas das outras, e já tendo muitas povoações, não poderiam ser governadas por um único governador.
-Diabos! Se o Rei fizer isto retira-nos muito poder, introduz outros governantes, aumenta as despesas, será que não pensou nisto?
Disse para mim mesma: acertei na mosca, ele tá ficando irritado e vai se picar e me deixar em paz, mas, ainda assim, arrisquei:-Sr Garcia, o Rei tem razão, como é que o Mem de Sá, ou qualquer outro que o venha substituir, pode comandar  uma terra deste tamanho? É quase impossível, O Sr. bem sabe que a capitania de São Vicente[5] está prosperando, sabes o Sr. que Bras Cubas está sertão adentro procurando ouro, já tendo algum sucesso, a de Pernambuco  também prospera; O Rio de Janeiró está se organizando após  a expulsão dos franceses. A cada dia é mais necessária a presença de mais e mais pessoas para povoar estas novas terras e povoações,  precisa-se de gente para adentrar aos sertões à procura e ouro, portanto, nada mais correto de que  haver esta divisão para que a coroa possa controlar melhor as suas terras, cobrar os seus impostos, descobrir riquezas, procurar e achar o ouro que tanto quer.
- Não, não gosto disto, isto retira de nós, que fundamos esta cidade, e que temos todo direito de explorar e descobrir o ouro que almejamos,  o direito de livremente fazê-lo. Não são estes almofadinhas[6] do reino que virão para cá tomar o que é nosso.
-kkkkkkkkk, não pude deixar de rir. O que deixou o senhor Garcia furioso, e ele partiu para cima de mim. Preparei-me para outra pera, mas ele parece que lembrou da merda que fizera anteriormente e parou bem junto a mim e disse-me: Ai de si se nada disto for verdade! Aí de si! E com esta ameaça desceu as escadas batendo a bota fazendo um barulho infernal.
Aff! sentei na cama e me recompus, pensei: O que o Sr. Garcia faria se eu dissesse a ele que o Luís de Brito
[...] iria distinguir-se no exercício do cargo, dentre outras coisas, dedicar esforços em atacar  e submeter os índios das terras do Rio Real, localizadas ao norte da baía e em fundar nessa região a Vila de Santa Luzia. Porque o abastado proprietário Garcia de Ávila, que possuía vastas extensões de terras na região, não conseguisse pelos seus próprios meios levar a cabo tal iniciativa, decidiu Luís de Brito ocupar aquela parte do Brasil muito rica em madeira de tinta[...][7]
Apesar do calafrio, me recompus e voltei à minha festa, felizmente as pessoas não notaram a minha breve ausência, que para mim, tinha sido uma eternidade.



[1] FLEIUSS, Max,  História Administrativa do Brasil,  2ª. Ed.  SP, Melhoramentos, 1922,  pp28
[2] Idem, pg 38.
[3] Hungenotes: nome dado aos protestantes franceses que seguiam o calvinismo, secs. XVI e XVII
[4] RICUPERO, Rodrigo, “Governo Geral e a formação da elite colonial baiana no século XVI”  in Modos de Governar, Ideias e Práticas Políticas no Império Português Séculos XVI à XIX, BICALHO, Maria Fernanda e FERLINI, Vera Lúcia Amaral,  SP, Alameda, 2005, p.123
[5] São Vicente  atual São Paulo.
[6] O Sr. Antonio Salema e Luís de Brito, ambos prestaram serviços a Coroa Portuguesa, o primeiro era Conselheiro na  Santa Casa de Misericórdia, o segundo como Desembargador  na Casa de Suplicação, bem como na capitania de Pernambuco( Ver. Felipe Nunes de Carvalho -  Do  Descobrimento  à União Ibérica  in O Império Luso Brasileiro 1500-1620) in Nova História da Expansão Portuguesa, Vol VI   Coord. Harold Johson e Maria Beatriz Nizza da Silva pg. 166-169.
[7] Idem, p 168