sábado, 15 de março de 2014

O Desabrochar da Flor do Deserto

A flor do deserto, mais uma vez, desabrochou. Desta vez ela foi para lá de generosa, porquanto  estão brotando, em um só momento, treze delas num único ramo. Estou feliz,  mas isto não apaga  a sensação desértica da minha vida. Queria florescer como esta planta conhecida por flor do deserto.  Acho que o nome deve ter sido colocado pela aparência, pois o seu caule é grosso, as folhas também; deve ser para aguentar as intempéries do seu local de origem, mas o fato é que ela, mesmo em poucas vezes no ano, não sei se apenas uma ou duas vezes, floresce.  Não floresce ela de qualquer maneira, ela se amostra linda, a sua cor não tem comparações, acho que a cor é grená, mas é tão lindo, tão encarnado, que a gente fica na dúvida de que cor é mesmo.
Pois é, queria florescer como a flor que florescer, mas tá difícil, porque, se ela, planta, tem a mim para, ainda que ela seja do deserto, ser molhada, ter a terra ao seu redor revolvida para que ela possa respirar melhor e crescer mais, colocar veneno nas pragas que a atacam, eu não tenho nada, estou sempre só, ninguém me rega, ninguém me revolve. Há muito que ninguém coloca um basta nos venenos que foram colocados na minha alma, que vai morrendo um pouco a cada dia, perdendo o brilho, a cor, que era resplandecente. Agora vivo no opaco. Parei com tudo, não quero escrever exatamente porque o escrito sai um lamento. Não quero ouvir músicas porque elas me trazem recordações que não quero ter.  Agora mesmo  ouço  Nana Cayme numa música em que ela fala do tempo e do vento.  A música é linda, a letra também, mas ela me reporta à minha própria vida, ao meu tempo, ao quanto fico sem jeito quando ele passa sorrindo e me deixando chorar, porque ele, como bem diz a musica, sabe passar, mas eu não sei. Ah como queria eu  que o tempo,  ou voltasse, ou  então passasse bem depressa para que o que tiver de chegar chegue mais rápido.
O que tiver de chegar! Será melhor ou pior do que o momento que passo?  Estou inútil, pois nem mesmo o que mais gosto de fazer na vida, que é ler, estou conseguindo. Não tenho concentração, a cabeça fervilha de questionamentos que não  recebem respostas, nem minhas e nem de ninguém, porque são perguntas silenciosas que faço  a Deus. Sim, a Deus, como se ele pudesse responder alguma coisa.
Um telefonema e tudo rui, até os pensamentos que começam a tomar uma forma. Vou embora, vou deixar tudo para trás, vou procurar sonhos. Que sonhos?  Acham vocês que alguém pode sonhar aos sessenta?  Dor na perna, dor no pé, dor no ombro, herança maldita de uma família artrosiada, ou artritiosa: não sei, só sei dos efeitos . Penso em minha mãe:  Será que vou ficar igual a ela?  Respondo a mim mesmo, querendo um consolo: “não você não vai ficar assim, você foi sempre ativa, você faz yoga, você  anda.”  Não isto não me consola. Minha mãe andava para  cacete, não como eu, mas andava. Subia uma ladeira imensa  se quisesse sair de casa e ir a rua, e olhe que ela gostava de rua, pois  ela frequentava a igreja, adorava ir a médicos, por sinal fez muitos amigos nas filas  dos consultórios: brancos, pretos, até estrangeiros, ela era assim, quanto pior: e ainda os levava  todos para almoçar lá em casa, caso  eles tivessem que ficar mais tempo na fila.  Pois é, eu não  fico em filas, não  subo escadas,  mas faço yoga e  ando uma hora dia. Será que isto vai resolver alguma coisa? Acho que não, o calcanhar está aqui para me mostrar isto.
Fico então pensando em que velhice vou ter: sozinha, chata, frustrada, mal humorada. Este é um futuro que quero reverter, mas está difícil, difícil mesmo. Nem a esperança da flor do deserto  me faz mudar  o pensamento.
Olho em volta, estou sozinha, não tenho nem mesmo a quem me queixar. Todo tem compromissos, nos quais não estou incluída. Promessas! Para que as quero? Não, não as quero, até porque elas não serão cumpridas, a gente vê que elas não se realizarão. Se acontecerem elas serão efêmeras como a orquídea lilás linda e delicada que floresceu a semana passada e agora  desapareceu, deixando apenas uma marca da sua passagem. Será que ela foi feliz nesta momentânea aparição?  Será que ela não precisa ser feliz, que ela se contenta com  a beleza que ela  permite que alguém aprecie? O fato é que ela  floresceu, viveu  três ou quatro dias e simplesmente murchou.  Seria bom que  as coisas fossem efêmeras assim como a orquídea
que aqui floresceu. Se  as coisas ruins fossem efêmeras não estaria eu aqui agora  traduzindo a minha dor em palavras para ver se diminui a pressão, não a pressão do corpo, esta só diminui agora com remédio, mas a da alma, que está mesmo a ponto de explodir.
Penso mais uma vez,  será que ninguém consegue ver os sinais? Eles estão aí, se mostrando a todo momento e ninguém  olha, ninguém vê, ninguém ajuda. Todos preocupados consigo mesmo. Um com a casa que precisa será terminada, outro em enganar e deixar de pagar o que deve, outro com um caso extraconjugal, muitos com a aparência tão somente, alguns  com a responsabilidade de ter assumido mais do que devia e não pode dar conta. Pois é, ninguém tem tempo, e o deserto do que necessita aumenta, está completamente árido, não adianta chover, nem mesmo a chuva  é suficiente para  deter o processe de desertificação.  É a pessoa não vai florescer mais, embora esteja procurando uma maneira de fazê-lo.
Mudei a música. Quem sabe sem entender direito a letra isto fique melhor, mas é um engano, porque coloco Michel Boublé e ele canta:  "You`ll never find another love like mine". Digo a mim mesmo: Really it is true: he will never find another love like mine, someone who loves him like  I do.  But its not important for anyone, because  noone  will read it, then  anyone wont know how my love is great and  deep.
Vou continuar olhando a minha flor do deserto, agora ouvindo Luis Miguel a cantar “La puerta se cerrou detras de ti”, esperando que amanhã uma porta se abra e que  mais uma flor do deserto desabroche, e com  ela a  esperança de que também possa florescer.