sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A não se repetir

Está tentando fazer um balanço de 2016, entretanto, não consegue colocar no papel as emoções tantas, sofridas e vividas nesse ano que passou.
Está sozinha, o que não é uma grande novidade, mas o fato é que está e fica sozinha, parece que estar mesmo condenada a viver só no meio de tantos, tantos que passaram pela sua vida no ano findo, inúmeros,  nunca tantos estiveram tão próximo de si, mas nada aliviou a sua solidão, que  não é sequer percebida. Todos pensam que ela está bem, que ela gosta  da vida que leva: Que engano! Eles não sabem de suas angústias, de suas dores, de suas aflições.

Viajou mais uma vez, não foi sozinha, mas é como se fosse, porque  não adianta estar com  ninguém, quando nada se compartilha, a não ser desencantos e decepções, que na verdade não são compartilhadas, é que de tão intensas não poderiam ser escondidas e as pessoas percebem, até quem nada tinha de ligação com ela, a exemplo do guia  da cidade andina, onde uma coisa boa e linda aconteceu, pois viu, literalmente da janela do quarto, as montanhas  cobertas de neve, era a foto folhinha de alguns anos atrás se reproduzindo á sua frente com toda a intensidade e brilho. Os tons cinzas, azuis e a generosidade do branco trazendo a si os sonhos sonhados de outrora, ora em realização.
Viu a sua amada terra lusitana, não como desejava, mas lá esteve: andou pelas ruas´, entrou nas velhas conhecidas “tascas”, chegou mesmo a conhecer novas, mas a solidão lhe ameaçava a todo momento. Estava só, sem querer estar só, pois quando se está só porque é assim que se quer, tudo é extraordinário, mas ela não queria estar só, queria ter alguém para compartilhar  a sua alegria de retornar á Lisboa, mas nem isto conseguiu, e o resultado foi mesmo aquele, solidão amarga, chorosa, uma saudade imensa  de tempos outros em que  rodopiava por Lsiboa, pelos seus cantos, pelas suas encostas, pelas suas ruelas, pelas suas escadarias, que sempre  lhe faziam pensar que não chegaria ao topo, e se chegasse, teria de ser levada, pois não conseguiria, mas sempre conseguiu.
Cozido quinta feira não lhe alegrou, pelo contrário, lhe entristeceu. Mão de vaca na terça, outra dose de nostalgia, de lembranças, de lágrimas rolando e se misturando  ao caldo da comida, talvez para acrescentar mais um pouco de sal.
Um ano a mais, em que não fez nada do que queria, do que se programou. Um ano de saudades, e muitas lembranças.  Sua mãe se foi, aliviando a dor  própria e de tantos outros, inclusive a dela, que nunca escondeu o desejo de que tudo acontecesse mais rápido, porque nunca entendeu, nem entenderá jamais,  para que  viver sofrendo na morbidez inútil de uma vida sem movimento, sem perspectivas, uma vida dependente.
Não só a sua mãe, mas também pessoas muito ligadas à si, partiram sem dizerem adeus e sem que ela pudesse ter tido tempo de lhes dizer o quanto elas foram amadas, queridas, não olvidados. Queria fazer-lhes entender que a sua distância era melhor para todos, pois costumava, aliás, costuma, dizer coisas que as pessoas, por mais amigas que sejam, não gostam de ouvir, por isso ela sempre se afasta, para que as pessoas  vivam as suas próprias vidas, sem as suas criticas, o que não significa que ela as esqueça em momento algum, ou tenha diminuído o seu amor e a sua admiração por cada uma deles.
Viu pessoas se aproximarem, pessoas que ela jamais imaginara que algum dia estariam tão próximas de si, aprendeu a ver as coisas boas  de alguns,  coisas que ficaram nubladas por tanto tempo e que, apenas um gesto, fez com que  as nuvens se fossem e ela pudesse ver,com mais clareza, como as pessoas realmente são e como  ficam escondidas atrás das suas nebulososas, porque não querem mesmo ser conhecidas. Agradece a estas a oportunidade.
Leu livros, Ah como gostaria de ter lido muito mais! Se viu protagonista em um deles. Nada como ser uma personagem  no livro de outrem, ver-se pelos olhos do outro. É engraçado e chocante ao mesmo tempo, entretanto, não deixa de ser bom, porque  de repente  você se descobre importante, tão importante que  vira personagem de uma ficção.
Escreveu muito, coisas boas e coisas ruins, coisas engraçadas; não escreveu coisas tristes, está se policiando muito  para não fazê-lo. Afinal de contas,  um escritor  deve fazer com que o seu público, seja ele de uma pessoa, seja de centenas e milhares delas, sinta prazer , fique feliz, sorria diante das coisas que escreve, mas infelizmente nem sempre  consegue não falar de coisas tristes.
Viu cenas, fatos que serão a história que será ensinada nas escolas doravante. Viu personagens que serão tidas como heróis, mas  viu muitos que serão encarados como bandidos, aliás, o que são mesmo. Presenciou a queda  de muitos, e ainda espera presenciar mais e mais, viu  a decadência das instituições e, com  muita tristeza, viu a Constituição da República ser recortada para  que acertos fossem realizados, para diminuir a penalidade de alguns, para beneficiar tantos que passaram por cima dela, tudo com a justificativa de que  a interpretação  dela tem de se adaptar à realidade atual. Até entende que deva ser assim, mas isto não significa contrariar a própria letra da lei, desvirtuá-la tanto  que a interpretação vira uma nova regra, um novo enunciado,   um novo paradigma.
Bom mesmo foi ter convivido por alguns dias com a uma de suas netas e ver a reaproximação de uma família( seu filho, irmãos e pai). Ver também o crescimento profissional dos filhos foi importante, espera em Deus que as coisas continuem assim para eles.
Na sua vida pessoal nada  aconteceu, apenas uma solidão infinita que continua lhe machucando muito, mas esta foi uma opção, e ela vai seguir até a hora em que o seu coração e a razão estejam juntos  falando a mesma língua, e ela possa dar um basta em tudo, um basta definitivo, para que não exista qualquer chance de um retorno.

Que 2017 seja melhor em todos os sentidos, embora ele já venha com contornos  tristes, pois logo no inicio  já presenciou uma perda, dolorida e sem lógica, mas como a vida não tem lógica alguma,  vamos em frente.  Que todos  realizem sonhos durante o ano de 2017, e não só nele, mas sempre, pois é sonhando e realizando sonhos que a vida  nos traz felicidade.