sábado, 19 de fevereiro de 2011

Solidão compartilhada

A casa é grande o que lhe dá a verdadeira noção da sua solidão. Para que uma casa tão grande assim? Ela não pretende dormir em cada quarto, sozinha, a cada noite, revezando entre eles os seus segredos, as suas tristezas.

Já não entra no seu próprio quarto, ele é a própria solidão, uma solidão compartilhada pelo quadro da parede, que, ironicamente, mostra um casal beijando-se, um beijo de amor. O quadro é de Abelleira, amigo dela. Tem medo, o autor do quadro é falecido e ela lembra que pode morrer também, talvez mais rápido, por causa da sua solidão.

Entra no banheiro do seu quarto, vai limpá-lo. Se sente estranha, a porta do box está mais leve, tão leve que, como ela, está descontrolada; resultado, corre no trilho e o puxador é quebrado, quebra exatamente em um lugar onde não tem recuperação. O pequeno puxador quer lhe dizer alguma coisa, também ele quer dizer que está sentindo uma imensa tristeza, está só, não é utilizado, ninguém mais usa o banheiro e ele perdeu a sua função.

Tudo seco, árido, o banheiro não tem mais uso, aquilo que outrora era disputado por tantos perdeu o seu papel, o seu status. Agora ele, também, é um recordante, vive de recordar, olha para a solitária figura que quer limpar o que está oco, limpo exatamente pela falta de uso, e pede silenciosamente: “ao menos dê uma descarga, deixe a água correr pelas minhas entranhas, deixe lubrificar os canos,  me deixe desaguar em algum lugar. Obedece: dá descarga, a água abunda, o som entrando goela abaixo do vaso sanitário dá a sensação que os canos lhe agradecem.

Abre a torneira da pia, a água sai fininha no começo, depois um jato mais forte, mas é preciso algum tempo para que a torneira perceba que foi aberta, que precisa cumprir a sua obrigação: deixar a água rolar, bem verdade que para nada, a não ser para desenferrujar um pouco, lubrificar os canos. Fica olhando água cair e entrar pelo ralo, tem a sensação que estão engolindo os seus sonhos.

Sai dali, vai até o o que deveria ser um gabinete, abre a porta do guarda-roupa, a solidão ainda é mais assustadora, o armário está cheio de roupas em desuso, roupas que não lhe pertencem, na verdade não pertencem mais a ninguém, apenas ficam ali esperando que algum “dono” venha buscar e retire o passado do seu presente.

Segura o choro, fecha as portas do guarda-roupa. Antes, porém, vê um terno azul de linho e lembra que quem o usava ficava bem naquela roupa. Olha, ainda, um pouco as camisas “lacoste” de listras, são lindas, mas não tem utilidade alguma, apodrecem dentro das gavetas. Uma caixa plástica transparente mostra o seu conteúdo: ali tem gravatas e meias, certamente as gravatas já não seriam usadas, pelo tempo já caíram de moda. As meias por sua vez, devem estar rasgando. O tempo é cruel, o salitre também, mas ela não se atreve a abrir a caixa, com certeza choraria mais.

Olha o frigobar, que, também, mostra as marcas do desuso e do tempo: esta todo enferrujando, com certeza, não deve mais funcionar, mas ali nada é tirado. Tudo fica ali como está. Só vai ao quarto mesmo para limpá-lo, nada mais, não aguentaria.

Fecha a porta do passado atrás de si, desce as escadas rumo ao presente, sabendo que não é bem assim, a casa fala a toda hora, lembra o que ela quer esquecer. Esta encurralada dentro dela, os seus sonhos foram congelados em seus cômodos. Os sonhos não seguiram os seus rumos, pararam no meio e o acordar lhe dá sensação de que nunca existiram, é como se uma névoa sempre estivesse ali pairando encobrindo tudo.

Nada mais existe, continua como uma estranha dentro da casa que não é mais a “sua casa”, até porque nunca a queria assim. Foi uma casa de dois, portanto nunca será a “sua casa”, tudo lhe mostra isto.

Está perdida entre as paredes procurando o mínimo de identidade com a sua própria vida. Não, não existe nada, tudo o que ali está é um passado que insiste em ser presente, um presente que ela quer que seja o próprio passado voltando, sabendo da certeza da impossibilidade.

Precisa sair dali, quer sair dali, mas não tem para onde ir, tem de se conformar, tem de tentar esquecer ali dentro das paredes que não a deixam viver, a sua vida atual é limitada pelas sobras do que um dia, naquela casa, se chamou felicidade.