sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Agradando o Estômago e o Espírito em Lisboa

Não pense que só tem bacalhau nesta terra. Aqui há uma variedade de pratos típicos que vocês nem vão acreditar, para quem gosta de peixe e frutos do mar então, realmente é de babar e satisfazer o mais requintado paladar.

Se você vier a Lisboa, tenho algumas recomendações, nada de sofisticado e nem de coisas caras, também posso indicar-lhe isto, mas acho que, quem vem aqui deve comer mesmo os pratos típicos portugueses, os pratos do dia a dia que eles comem, tanto em casa, quanto em restaurantes (tascas).

Primeiramente, uma advertência: não estranhe quando entrar em um restaurante e vir uma sala mínima, com mesas coladas umas às outras. Isto aqui é normal, há restaurantes, como o do Sr. Davi, que para a última pessoa da fila sair, aquele que estiver sentado junto à parede, tem de incomodar todos os outros clientes que estão sentados nas mesas anteriores. Não se acanhe se isto acontecer com você, aqui isto é normalíssimo e não há qualquer stress. Todos levantam na boa e ainda lhe cumprimentam, alguns até pedem desculpas, não sei bem por quê.

Há muitos pratos que são servidos em quase todos os restaurantes em dias específicos da semana; por exemplo: na segunda feira é costume servirem em muitos deles – Bacalhau com grãos- que é o bacalhau cozido com grão de bico, cebola, alho e claro, muito azeite, que neste prato, é colocado na hora que se come e em temperatura ambiente.

Aqui tem uma estória de pratos de verão e pratos de inverno: a exemplo de mocotó, que aqui chama - se mão de vaca. Sem dúvida que é feito de uma maneira completamente diferente do nosso, pois só se coloca mesmo a mão de vaca e chouriço cortado em rodelas, mas este prato só é servido durante o inverno, no verão ele desaparece por completo, você só come mão de vaca, no verão, se fizer em casa, ou então, comprar, como eu faço, a que vem enlatada, que quebra um galho retado. Normalmente é servida nos restaurantes dia de quarta feira, disputando o cozido à portuguesa, em algumas tascas servido neste dia.

O dia efetivo do cozido, em muitos, mas muitos restaurantes mesmo, é a quinta feira. Engraçado, se bem me lembro, na Bahia também é assim: pelo menos no “Mini Cacique” eu comia cozido na quinta-feira. Na minha casa, normalmente, era nesse dia, mas nada que obstasse que ele também fosse servido no domingo.

Quanto ao cozido, tenho de lhe dar uma indicação: se você realmente quer comer um belo cozido à portuguesa, primeiro prepare-se psicologicamente, porque ele é muito diferente do nosso, mas tão gostoso quanto, depois vá ao Sr. Davi. O nome do restaurante é "A Merendinha do Arco" e fica exatamente depois que você atravessa o Arco que fica no Rossio, não há como errar. A tasca fica em frente ao ANIMATOGRAFO - no qual não recomendo você entrar depois de comer o cozido, mas se quiser ver um pouco de sexo explícito de péssima qualidade, e com uma grande maioria de pessoas não muito privilegiadas pela natureza, tanto quem é expectador, quanto quem se apresenta, vá em frente, é só atravessar a rua.

Tasca do Sr. Davi-Petiscos
Bom, voltemos ao cozido. Não fique chateado se tiver de esperar um pouco. Aguarde mesmo, aproveite e dirija-se até ao balcão e diga ao Sr. Davi, ou ao filho dele de nome Felipe, que você é meu amigo, mas fale assim: “sou amigo da Esmeralda”. Tenho certeza que você será hiper bem tratado, não que seja necessário ser meu amigo para que isto aconteça, mas terá uma atenção especial. O Sr. Davi pode lhe oferecer uns petiscos: torresmo, peixinho frito, peixe de escabeche, queijo e muitas outras coisas:, coma tudo! Tenho certeza que vai gostar.

Para acompanhar o cozido peça o vinho da casa, é bom e barato, não gaste dinheiro com os mais finos, deixe para outra ocasião. Se você não gosta de cozido, o que eu duvido, pode pedir qualquer coisa lá no seu Davi, tudo ali é bom, quem faz a comida é a esposa dele, que você pode ver em plena atividade na parte de cima do restaurante- um mezanino, onde funciona a cozinha.

Peça a Seu Davi uma patanisca para experimentar - uma espécie de fritada de bacalhau - que é mesmo uma maravilha.

Quando acabar de comer peça um”Gardhu” da casa, não espere whisky, o que vai tomar é uma bagaceira. É mesmo este o nome: “bagaceira”, uma cachaça típica de Portugal, forte para cacete, mas quem é do Brasil não precisa se preocupar com isto, pois temos mais fortes.

Se você gostar de marisco, não deixe de ir numa marisqueira, tem várias em Lisboa. Os mariscos, na sua grande maioria, são vendidos a quilo. Você pode comer sapateira – um caragueijão imenso, lagostins – eu não como porque não gosto, mas é uma lagosta pequena, o intermediário entre o nosso pitu e a nossa lagosta. As lagostas são imensas e você pode escolher no viveiro a que vai querer, isto também acontece com peixes, você pode escolher o que quiser na montra (vitrine). Mexilhões, navalheiras, canivetes, ameijoas, berbigão. Várias espécies de búzios. Tem nome de marisco que não acaba mais.

Eu não como mariscos, a não ser as navajas, que aqui se chama canivete, e as ameijoas, estas últimas aprendi a comer aqui em Lisboa, as primeiras comi em Espanha. É como se fosse lambretas pequeninas cozidas com muito alho, coentros, azeite e manteiga. Rapaz! Não nego não, é mesmo de arrombar. Mas tem um detalhe em relação a essas ameijoas: o nome do prato que você vai pedir é “ameijoas à bulhão pato”, e eu recomendo que você atravesse o Tejo e vá comer lá em Cacilhas, no restaurante que fica exatamente na saída do cais dos barcos, onde você desembarca mesmo, não dá para errar- "O Farol" é o nome dele, ainda aí você pode comer uma outra coisa que, também, aprendi a gostar aqui, até porque nunca vi isto em Salvador- Chocos, é este mesmo o nome, é um molusco, parente próximo da lula. Peça ele grelhado, tenho certeza que você nunca vai esquecer do bendito, mas você pode optar pelo polvo à lagareiro, neste mesmo restaurante. Nem vou dizer como é para não estragar a surpresa.

Bom, mas eu ainda não falei no bacalhau. Você pode comer bacalhau em qualquer tasca em Lisboa, vai ser bom: Pode ir ao “Baleal” que fica na Rua da Madalena, pode pedir em seu Davi, pode ir a Belém nos restaurantes que ficam em frente ao jardim, enfim, você pode comer bacalhau sem susto em Lisboa, em qualquer lugar, mas meu amigo não deixe de ir ao “Zé da Mouraria”, na sexta feira, e pedir o bacalhau á lagareiro, olhe que você vai ficar extasiado, primeiro pelo tamanho do prato, segundo pela qualidade dele. O bacalhau é assado na brasa, fica se desfazendo, quero dizer, você vai tirando ele do prato em lascas. Vem acompanhado de batas assadas e grão de bico cozido e nadando no azeite. É qualquer coisa de extraordinário. O Restaurante “Zé da Mouraria” fica na Mouraria, lógico, você entra na Rua do Capelão, uma rua que fica atrás do Centro Comercial da Mouraria, que fica na Praça Martim Moniz, mesma praça onde está o Hotel Mundial. Na entrada da rua tem uma estátua com um violão em homenagem ao Fado, dobre a primeira à direita, pronto, você chegou, o restaurante fica no lado direito em frente a um banco de madeira, colocado do lado de fora, para que as pessoas esperem a sua vez. Detalhe: tem de ir á pé, na rua não trafega carros. Recomendo que faça reserva, o negócio é bom e concorrido mesmo. Delicie-se.

Se, depois disto, ainda quiser comer bacalhau, se não se fartou, em outro dia vá até o Parque das Nações no restaurante que fica na alameda dos restaurantes e que se chama Sabores do Atlântico. Lá peça “Couvada de bacalhau”. Surpresa, não vou dizer como é de maneira alguma, sou vou lhe garantir que é bom a mais não poder. Acompanhe o bicho com um vinho do Alentejo, qualquer deles, mas se a grana tiver curta, tome o “Monte Velho” sem susto, ele também é de lá da região.

Para quem gosta de doces, o português não passa sem uma sobremesa, há bolos de bolacha, mousse de chocolate, que é melhor ser misturado com o cheirinho (cachaça) e, não estranhem, eles comem arroz doce como desert. Não sei como alguém pode comer arroz doce como sobremesa, principalmente depois de ter comido cozido, mas aqui é assim. Tem uma zorra que se chama “Molotov”, acho mesmo que é um. Não gosto da aparência e, com certeza não deverei gostar do sabor, nunca me arvorei a provar, mas o povo gosta muito e come bem, aliás, eles são realmente fanáticos por doces.

Eu poderia ficar aqui muito tempo falando de comidas e restaurantes, mas estas indicações são suficientes para que você possa saborear um pouco da grande culinária de Portugal, onde você ainda pode comer: Galinha de cabidela (molho pardo, mas com arroz já dentro); feijoada de chocos; caldeirada de peixe: açorda de camarão ou de marisco; mariscada; arroz de marisco (paella menos seca); arroz de pato; arroz de polvo; carne de porco alentejana (uma mistura de carne de porco com mariscos) Chanfana (acho que é assim que escreve – borrego no vinho); carne de porco preto; Leitão de Bairrada; leitão de Negrais; entremeadas grelhadas. Têm muito, mais muito mais coisas mesmo, mas fico por aqui esperando que você se delicie e me diga se gostou das recomendações.

Se quiserem, entretanto, petiscar apenas, sente em qualquer tasca da Rua das Portas de Santo Antão e peça: salada de orelha de porco, salada de ovas, salada de polvo, panados de porco no pão, pastel de bacalhau, chamuça, moelas estufadas. Se quiser comer um sanduiche típico de Lisboa, vá até a Estação do Rossio e veja um restaurante que se chama Gare aloguma coisa e, sem susto, peça uma bifana ou um prego.

Se, entretanto, você for ficar aqui por muito tempo e tiver saudades da comida do Brasil, vá comer uma feijoada e tomar a melhor caipirinha do mundo no “Uai”, veja o nome do restaurante que não é nenhuma coincidência. A feijoada é preta, o dono do restaurante branco e português, mas um profundo conhecedor de cachaça, principalmente do interior de Minas Gerais, a exemplo de Divinópolis. Fica no Cais, na Rua da Ponte Pedonal, é este o nome, não posso fazer nada. Se você estiver a pé em Lisboa, pegue o comboio e solte na estação de Santos, quando sair da estação já vai dar de cara com a rua do restaurante que fica lá no cantinho à sua esquerda, não dá para errar por causa da tal da ponte pedonal, que é assim chamada porque é só para pedestres, gostou ou quer mais? Você também pode ir comer um churrasco, não igual aos do Brasil, evidentemente, mas para quem tá longe daí é a melhor coisa que pode acontecer em termos de comer carne, “picanha”, é ir até lá. Fica no Parque das Nações e chama-se Búfalo Grill.

Mojito
Se você comer este churrasco no domingo, e depois tiver pachorra de andar e continuar ali pelo parque das Nações, e ainda tiver um lugarzinho para uma bebida, vá até o “Cuba Libre”. Lá você pede um Mojito, mas peça para ele ser feito pelo Zé, o caboverdiano que ali trabalha, que é inconfundível, porque esta sempre de boné, não há outro. Você pode pedir muitas outras bebidas, caipirinha, caipiroska, cerveja, etc. Veja a brasileirada se distraindo como pode em Lisboa. Morra de rir com tudo que você vai ver e presenciar e ouça as músicas que vão te fazer lembrar de nossa terra, algumas, coitadas completamente assassinadas pelos cantores, mas isto pouca importa, o bom é estar lá. Olhe o Tejo, fique inebriado com tanta beleza e agradeça a Deus a oportunidade.
O Zé do Cuba Libre

O Tejo visto do Cubra Libre
           
      BOM

 APETITE