terça-feira, 12 de outubro de 2010

Uma estrela chamada "Lucy"

Gosto muito de Recife. Acho uma cidade linda, mesmo a Boa Viagem com os seus monumentais prédios, uma Av. Atlântica nordestina, me encanta, pois, como tenho verdadeira paixão pelo mar, queria mesmo era ter uma cobertura num daqueles magnificos prédios á beira mar.

Aprendi, entretanto, a gostar de Recife, por causa de uma grande amiga que para lá se mudou: "Lucy". Lucy morava no Engenho Velho da Federação e tinha três filhas, que eram amigas da minha irmã mais nova, penso que estudavam na mesma escola.

Além deste fato, de ser mãe de colegas da minha irmã mais nova, havia um outro motivo de começar a crescer, em mim, uma vontade imensa de conhecer aquela mulher. É que meu pai trabalhava com ela num Hotel que ficava na Vitória. Ela trabalhava no escritório, ele trabalhava como uma espécie de vigia, até hoje não entendi esta colocação, pois meu pai não tinha qualquer vocação para isto, mas a aposentadoria de um salário mínimo faz isto com as pessoas, eles têm de trabalhar em qualquer atividade outra para sobreviver. Acho que meu pai se apaixonou por “D. Lucy”, era assim que ele a chamava, falava tanto dela que eu disse, vou conhecer esta cidadã.

E foi o que fiz, comecei a frequentar a sua casa. Ela morava no fundo da casa de Dora, numa casa que era pequena, mas impecavelmente limpa. Ela dormia no quarto da frente e as suas filhas no quarto do fundo. Tudo muito pequeno, mas arrumado e limpo. Lembro-me que ia para lá no sábado no final da tarde para ouvir música, tomar cerveja, pois Lucy tinha tudo em casa.

Saíamos, não muitas vezes, mas cheguei a ir em “boites” com ela, tenho até fotografias disto. Ficamos ligadas, fazíamos confidências uma a outra. Eu já tinha me casado e estava separada do pai de Fábio, ela tinha se separado do pai das filhas. Apesar da diferença da idade, que não era assim tão grande, tínhamos coisas em comum, portanto, conversávamos muito.

Lucy conheceu Giba e então foi morar em Recife. Pronto. Com Lucy no Recife eu comecei a ir lá muitas vezes. Ela estava radiante e feliz. Morava na Boa Viagem; da sua casa até a praia era somente atravessar umas quatro ruas. Estava chic, pois. Lembro-me da primeira vez que estive em sua casa e que ela fez questão de que lá ficássemos. Eu, Carlos, Fabio, Idalina e Tininho. Ficamos todos sem problemas. Uma felicidade total tanto para eles, quanto para nós.

Depois fui muitas vezes sozinha ao Recife, e quando ia só, era lá que ficava, pois quando ia com o Carlos ficávamos em Hotel.

Adorava estar com Lucy, minha amiga e cúmplice. Nunca vi uma pessoa com tamanha alegria de viver e de fazer com que os outros sentissem, também, esta alegria. Íamos para muitos lugares no Recife, no Estado de Pernambuco em geral, inclusive, num restaurante-casa de show, onde vi e ouvi, algumas vezes, o Adilson Ramos, um cantor pernambucano de quem gosto muito. Uma vez que ele cantou ali estavamos eu e a Leticia, e eu me esbaldei de dançar.

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Lucy era gozadora e juntas não deixavámos passar nada. Ríamos muito as duas. Ela sempre trabalhando e muito feliz por morar onde morava, por estar onde estava. Suas filhas, sua grande preocupação, já grandes e maiores estavam dispersas, uma delas morou algum tempo com ela no Recife, depois foi a vez de uma outra, mas duas ficaram em Salvador e uma delas tinha ido morar nos Estados Unidos.

Vendo a sua aflição por tanta distância, uma vez, por ela estar muito chorosa, arrumei uma maneira de ela ir aos Estados Unidos, e ela foi.

Lucy acompanhava minha vida, falava-mo-nos sempre e eu sempre que podia, quando tudo corria mal para mim em Salvador, quando as coisas estavam insuportáveis, eu pegava a mala e lá me ia para Recife, muitas vezes levei Fabio comigo.

Numa destas idas para a casa dela, eu tinha me programado para passar uns dez dias. Ao fim do quinto dia, sem mais nem aquela, me deu uma aflição da porra, e eu disse a ela que ia embora, claro que ela não gostou da idéia, afinal eu era uma boa companheira para os dois, tanto para ela quanto para o Giba, que nesta altura estava trabalhando fora de Recife e só chegava no final de semana. Decisão irreversível, voltei para Salvador numa sexta feira: resultado, tinha de fazer uma prova no sábado. É que eu não sabia que tinha sido aprovada na primeira fase do concurso para Juiz do Trabalho, só soube quando cheguei em casa e vi a chamada para a segunda prova. Até hoje agradeço a Deus ter vindo embora naquela sexta, cinco dias antes da data prevista.

Quando contei isto a Lucy ela me pediu desculpas por ter insistido tanto para eu ficar. Fiz a prova e fui aprovada, passando para a terceira fase. Vibramos, eu,ela e a torcida do Bahia.

Passei no concurso e quando lhe informei do que tinha acontecido, quando fiz as últimas provas, Lucy morreu de dar risada, e disse que algumas coisas só aconteciam mesmo comigo.

Bom o fato é que minha vida esteve ligada à de Lucy por muito tempo. Com o concurso as minhas visitas diminuíram muito, embora eu tenha triplicado, quase, as viagens a Recife, porque Carlos se fez amigo de um cidadão, que tinha uma casa de praia, para onde nós íamos, mas sempre que pude fui a casa de Lucy e nos comunicávamos. Ela ciumenta com esta nova amizade, mas entendendo as minhas razões para não estar com ela.

Um dia, porém, chego á casa de Lucy e ela me diz que esta com um problema no estômago, acho. Fiquei preocupada, mas não achei que o caso era tão grave. Desta dor do estômago, a que se segue um tratamento sério, veio o diagnóstico fatal, Lucy tinha câncer,tinha de fazer um tratamento que não era coberto pelo seu plano de saúde. Com a ajuda de amigos entramos com uma ação e conseguimos a liminar para o tratamento. Agradeço imenso ao Alexandre por isto. O tratamento não adiantou. Recorremos a tudo, inclusive ao “espiritismo”, mas nada adiantou e a minha amiga se foi.

Perdi a amiga, mas o universo ganhou uma estrela de 1ª grandeza, que tenho certeza, brilha iluminando a nós, suas filhas e seus amigos. Que você esteja muito feliz amiga, e com aquele sorriso maroto distribuindo luz por todo o lugar onde você passa.