segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma nova visita quente

Estava com dor de estomago. Acordara no meio da noite para tomar um chá, uma água mineral com gás, um pepsamar. Qualquer coisa que aliviasse o mal estar. A casa ás escuras, saíra de ponta de pé do quarto para não acordar o companheiro, na ilusão que ele estava ao seu lado dormindo, embora estranhasse o fato de não ouvi-lo ressonar, mas enfim...

Chegou á cozinha e, de repente:

- Olá! Pensou mesmo que eu ia desaparecer?

Apavorada, apressa-se em acender a luz.

Não vê nada, tudo no lugar.

- Querida, não adianta, eu só apareço se quiser, mas eu estou aqui juntinho de você!

Vira-se, olha de novo para os lados, para todos os cantos da casa que consegue ver da cozinha, o que era possível porque a cozinha era americana, estas porcarias que a pessoa faz para ganhar espaço e gordura pelos móveis, estofados, etc.etc.etc.

Não há nada. Pensa para si: “Ta ficando doida porra! Bebe o seu chá, água e o remédio e vai se deitar outra vez”.

- Minha cara, não pense que eu sou irreal, não sou não: to aqui e você vai me ver agora, já que precisa da minha presença física para acreditar.

Vira-se para o lado de onde vem a voz e lá está ele: Lindo! As mesmas calças brancas folgadas, a camisa de linho branca, sandália de pescador, os cabelos em elegante desalinho, e aqueles olhos azuis sem pupilas.

- Tremeu nas bases, mas se arrisca: - Você não tem mais o que fazer não, agora deu para ficar só no meu pé? Vá embora procurar a sua turma, você já me disse que não faço parte dela.

- Ora minha prezada amiga! Não é como você quer. Agora é como eu quero, resolvi que tenho de te ajudar e vou fazê-lo, quer você queira, quer não. Não me interessa o que você acha. Não sou como aquele de lá, que fica ouvindo as suas suplicas, os seus pedidos e não faz nada. Até porque, idiotamente, você pede coisas demais, para os outros é claro, e ele fica confuso na hora de ouvir, pois dá prioridade a quem ele acha que precisa mais de que você.

-Me deixa em paz, você tá vendo que não to bem, meu estomago dói, to preocupada, por favor, vai embora que quero me deitar e ficar quietinha.

- Não vou não, precisamos conversar mais uma vez. Acho que a minha primeira visita não lhe adiantou muito, você insiste em não perceber que continua errada, que, somente seguindo as minhas orientações pode livrar-se de tanto peso que carrega.

- Bom velho, se você quer mesmo me ajudar, aparece outra hora, agora não preciso de sua companhia mesmo.

De repente ela nota que a dor passou, e olhe que nem chegou a tomar o remédio, nem chá e nem nada.

Passa a mão pelo estomago. Olha para a figura que esta á sua frente. Toma um susto da zorra! Ele já lhe aparecia de outra forma. Agora estava vestido todo de jeans claro, tudo azul. Os cabelos tinham mudado de cor, agora ele era completamente moreno, cabelos pretos e lisos cortados bem baixinho na nuca e maior na frente, sapatos tipo mocassim marrom. Detalhe, os cabelos pretos mesclados de prateado. Ele sabia do que ela realmente gostava, pois aparecia como ela idealizava um homem para si. Só os olhos não mudavam. Azuis sem pupilas.

- Viu o que posso fazer? Esta vendo que eu sei de tudo sobre você. Desde os seus desejos mais íntimos. Pense se você encontrasse um homem com esta aparência que estou agora. O que você não faria hein! Eu bem sei, ando pela sua mente, sei de tudo o que você pensa e o que quer, e até o que faria mesmo. Olhe que ia adorar presenciar as cenas. Você sequer consegue esconder o seu desejo.

- Cara! Vá embora, você hoje tá mais inconveniente ainda, além de estar falando muito alto. Daqui a pouco você acorda o companheiro que está dormindo.

-kkkkkkkkkkkkkkkkk! Tá o que? Dormindo? Você é mesmo uma idiota. Vá lá e olhe se ele tá na cama.

Ela se dirige apressada ao quarto. Tenta não acender a luz para não incomodar. Vai para o seu lado da cama e, cuidadosamente, estende a mão para o lado contrário. Não sente nada, parece que não há ninguém ali. Vai até o banheiro, abre a porta e acende a luz pequenina que fica na lateral do grande espelho, a pouca luz clareia um pouco o quarto e ela percebe que não há ninguém na cama. Lembra que quando fora dormir o companheiro ainda não tinha chegado.

Sente uma ferroada no peito. Os olhos se enchem de lágrimas. Volta-se para o espelho e olha-se. Pergunta à sua própria imagem: Por quê?

A resposta vem do lado de fora do banheiro.

Porque você é uma idiota, quer se enganar o tempo inteiro. Ele não quer mais você. Há muito que está em “outras”, só você não percebe, o que é pior, ainda fica pedindo ajuda para este “filha da puta”, que só te sacaneia mesmo.

- Vá embora, por favor, me deixa em paz. Não vê que agora estou pior ainda, pois a dor é na alma?

- Que droga de alma nenhuma. Vamos lá. Pare de chorar. Tome um banho. Se arrume, pegue o carro e vamos para a rua, vou te mostrar muitas coisas, inclusive, que você não deve confiar nem neste sacana e nem em ninguém que com ele anda.

- Vou para lugar nenhum. Quero ficar aqui sozinha. Me deixa em paz pelo amor de Deus!

Sente um empurrão violento e cai sentada no sofá. Ouve um a voz gutural lhe dizer: - Já lhe falei que quando estiver comigo é para, sequer, pensar nele, quiçá falar o seu nome na minha presença. Este solavanco foi só um aviso, posso fazer misérias com você se você insistir em chamar por ele. Ande logo, vá se arrumar, antes que eu me aborreça a sério com você. Minha paciência tem limite.

- Não vou para lugar nenhum. Vá embora.

- Porra! Quer que empurre você outra vez?

Ela olha para o lado, pois a voz que lhe falou agora era uma voz feminina. Não viu nada, somente a voz vinda daquela direção.

- Vá lá amiga, vamos, faça o que to dizendo, você vai se surpreender com o que vou te mostrar e com o que vai acontecer, eu sei, vai ser bom. Vamos, anime-se. Nada de mal vai te acontecer, eu vou tá perto de você e ninguém vai te fazer mal, ninguém mesmo. Coitado daquele que se meter contigo.

De repente ela se vê tomando banho, vestindo o vestido azul de costa nua, sandália e bolsa prateada, enfim, pronta.

Ele aparece com uma calça preta, camisas de listras azuis e brancas, sapatos de camurça preta, Lindo. Os cabelos prateados e aqueles olhos de uma cor tão bela, mas assustadores.

- Poxa! Você quando quer sabe mostrar a mulher que tá aí dentro. Estás linda, maravilhosa. Vais ver hoje como a vida é boa, quanto você merece a felicidade que vai encontrar a partir de hoje.

Dirige-se a ela, coloca a mão ao redor dela e lhe sussurra no ouvido: - Vou me fazer materialmente homem para te amar muito, para lhe dar muito gozo, mas antes tenho de te mostrar umas coisas, que é para você não ter qualquer tipo de arrependimento, nem ficar se culpando de nada.

Pega a chave do carro, abre a garagem, tira o carro e vai embora. O cachorro nem se aproxima dela, fica todo eriçado olhando-a de longe.

- Sim, vou para onde?

-Vá dirigindo, na hora eu te digo.

Ela sai da rua de casa vira à direita e segue. A rua está deserta, mas há muito movimento nos bares. De repente, em frente a um monumental prédio, ele manda que ela pare.

- Pare aqui. Estacione. Vamos sair os dois e vamos ao bar que fica na área da recepção.

Quando entrou no prédio viu que era uma espécie de hotel. Entra e dirige-se para o bar.

- Peça uma bebida. Não tome uísque, beba coisa mais leve porque você tem de estar muito atenta.

Ela pede um campari com soda e fica ali sentada no balcão. Na última cadeira do lado esquerdo há um homem que lhe chama atenção. Parece ser alto, forte. Não vê bem o rosto porque no local onde está a luz é muito fraca. Todavia percebe que os traços são finos. O cabelo prateado lhe aguça a curiosidade. Pensa que já viu aquela figura em algum lugar.

- Que nada! Tô ficando maluca.

-Tá maluca nada. Olhe direito. Veja bem a roupa que ele tá vestido.

De repente ela se dá conta que aquela pessoa é a mesma que tinha saído de casa com ela. Era ele que fora se sentar ali. Estava falando com ela, mas estava lá, distante.

- Você é mesmo um sacana. Sai daqui. Pede a conta e, quando pega a bolsa para pagar, ouve uma voz macia, forte:

Por que não toma outro drink?Eu te ofereço?

Já ia mandar o cara para o “inferno”mesmo, quando nota que quem lhe estar a falar é o homem que estava lá na última cadeira do balcão do bar. Toma um grande susto. O homem, de perto, era mais de que lindo. Um homem mesmo, cabeça tronco e membros. Todavia, não dá a atenção devida, pois o “satan” que lhe acompanhava, com o já demonstrara muitas vezes, pode fazer o que lhe desse na telha, e aquilo ali, com certeza, era mais uma das suas.

- Senhor, a conta!

O empregado lhe diz que aquela bebida estava paga.

- Como? Quem pagou?

-Este senhor que está junto de si.

Ela olha para o lado e vê que o homem que falara consigo, que lhe oferecera outro drink continuava ali, um enorme e lindo sorriso lhe iluminava a face, agora mais bonita ainda. Pensou para si mesmo. - Bom, tenho de pegar neste cara para saber se ele é mesmo real, mas para isto tenho de ficar aqui mais tempo e, por isso mesmo, diz:

- Esta bem, vamos ao drink, mas eu pago agora, diz isto e estende a mão em direção ao desconhecido.

- Jade. As mãos se encontram num aperto inesquecível, daquele que ela gosta de sentir nas pessoas, independente de ser homem ou mulher. - Roberto Barden

Ela não pode conter o riso e o espanto! – Como?

- O homem repete: Roberto Said Barden.

Por que o riso. Meu nome é tão feio assim? Ela continua rindo, mas não consegue desviar os olhos dos daquele homem, que continua a apertar a sua mão.

- Porra, isto é mesmo real! Cadê o “sacana”? Olha discretamente em volta. Não o vê. De repente ouve uma voz bem juntinho de si.

-To aqui. To vendo tudo, não se preocupe. Já lhe disse que a partir de hoje você vai ser feliz. Vou cumprir esta promessa, até para ver se você acredita mais em mim e me da a grande chance que espero, que é entrar, de vez, na sua vida.

O campari chega. A bebida do homem também, “Mojito”. Ela ri de novo. Ele lhe pergunta por que?

- A bebida. Eu adoro isto. Só estou tomando campari para variar um pouco e porque só vou tomar dois mesmo. Se tivesse tomando mojito não ia parar no segundo.

A pergunta de praxe vem:

- O que uma mulher linda como você esta fazendo aqui, sozinha? Qual o motivo de tanta tristeza?

Ela sorri e não responde nada. Apenas olha para ele. Era realmente como se tivesse conhecido aquela pessoa há muito tempo, mas não sabe mesmo de onde.

O homem fala de si, diz que é professor e que esta fazendo um trabalho de investigação sobre etnicidade. Ela sorri outra vez.

- Por que você ri do que falo? Por que este riso tão irônico.

- Coincidências! Simplesmente.

-Coincidências?

-Sim! Coincidências, mas deixe para lá. Tenho de ir mesmo embora.

O campari está chegando ao fim. O homem lhe pede para não ir, ele quer conversar mais. Estava ali há alguns dias e só fazia trabalhar, tinha andado pelos arquivos, pelas ruas, entrevistado pessoas, enfim, fazia o que veio fazer e não conversava com ninguém que não estivesse ligado ao que viera fazer. Ali no apart. só conhecia bons vivants e mulheres bonitas a procura de um parceiro disposto a pagar caro por uma companhia. Agora que aparece uma pessoa tão interessante, que ele lhe impressionara, por que iria deixar que se fosse?

Ela fica a olhar para aquele cidadão que segurava a sua mão e lhe olhava nos olhos. Os olhos pareciam querer arrancar dela os seus pensamentos, sua história, sua alma. E ela pensou.

Isto é arte daquele sacana. Vou embora, ele não vai levar a melhor, o que ele quer é que eu dê um corno no meu “marido”, que desgrace a minha vida toda e pronto, e realmente entre para o seu time.

- Ei! Olhe para aquela mesa lá no final do bar-restaurante. Reconhece alguém?

Ela vira-se e olha discretamente. Tem de se conter mesmo para não dar um grito: Lá estava êle! O companheiro que deveria estar em casa dormindo. Uma mesa com muitas pessoas, para lá de 15, entre homens e mulheres. Todos se divertem, a grande maioria lhe era familiar. Uma parte dos homens sãos pessoas de sua relação pessoal, inclusive, freqüentadores da sua casa, das suas festas, participantes da sua vida. Identifica um a um. Observa as mulheres que estão ali, são também conhecidas suas, algumas mulheres de uns que ali estavam. O seu companheiro estava sentado sozinho, mas havia uma cadeira vazia ao seu lado. Pense como ela estava! A tensão que se apoderou dela, a curiosidade, a raiva, enfim, uma série de sentimentos misturados.

- Ei. O que houve? Você está pálida. Tá sentindo alguma coisa?

- Não, estou bem. Não há nada de errado.

- Eh Eh, olha lá agora, veja que cena. Olhe como você é mesmo imbecil!

Ela olha e vê uma mulher jovem, bonita, saindo do sanitário e se dirigindo para a mesa. Sua alma quase sai pela boca. A moça segue andando. Esta com uma saia muito curta, umas pernas bem bonitas, cabelos longos louros, dando para ser ver que a cor não era natural. Quando chegou junto à mesa parou em frente ao companheiro que logo se apressou em pegar-lhe pela cintura e, na frente de todos, trocaram um grande beijo. Depois ela sentou-se ao seu lado e ele lhe afagava os cabelos, tocava-lhe as pernas, numa grande e calorosa intimidade, tudo muito normal e com as pessoas sem muito ligar para aquilo, pois parecia ser uma pessoa do grupo, integrada que estava.

Fez uma menção de lavantar-se.

- Quieta! O melhor estar por vim. Continue aí com a minha cópia que ela vai te falar muitas coisas ainda. Olhe com muita atenção para este homem que está ao seu lado, porque ele é o seu futuro, é a sua transformação que ele vai te ajudar a fazer, é a sua felicidade que está batendo a sua porta. Ele vai te ajudar em todos os sentidos, ele é meu parceiro e já sabe o que tem de fazer. Ele, também estava a tua espera.
- Ei, Jade. Eu estou aqui. Você esta lívida. O que se passa? Algo tá te incomodando muito, eu sinto. Quer sair daqui, quer ir lá no meu apartamento?, Quer deitar um pouco? A impressão que tenho é que você vai desmaiar.

- Não, não, eu estou bem. Só quero, agora, uma bebida mais forte. Um whisky puro, duplo, talvez.

- Um whisky para a senhora.

Toma de uma só vez. - Mulher! Calma, a voz lhe diz. Já te disse que você tem de ficar sóbria, você ainda tem muito que ver.

De repente vê os seus filhos entrarem pela porta, os três, e se dirigem para a mesa onde esta o seu companheiro. Falam com todos, com a moça que está com ele com muita intimidade. Ela não acredita no que vê. O pior é que as pessoas olham para a sua direção, mas parece não a reconhecerem.

Está com cara de parva, tem a certeza, a sua incredulidade no que vê deve estar estampada no seu rosto.

- Jade, por favor. O que se passa? Você esta tremendo? Há algo errado e você vai me dizer o que é?

- Não Roberto. Não há nada errado, é que você tem “xarás”.

- Tenho mesmo, muitos, aqui mesmo deve ter uns quatro que conheço. Ali, naquela mesa, aquele senhor que está com aquela loura, é um deles. Ele vem muito aqui, hoje não sei o que esta fazendo cá até esta hora. Dizem que ele é casado, e ele costuma sair daqui entre 10-11 horas todos os dias. Tem um apart., o 505, alugado, e quem mora lá é aquela “senhora”.

- Como é?

É isso mesmo. Aliás, como fico aqui sozinho no bar, o empregado fala de todo o mundo e eu fico olhando e ouvindo as estórias.

- Sim, e além desta estória do casamento e daquele Roberto, quais são as outras que você sabe? Olhe que gosto de escrever e fazer estas estórias crescerem. Fala isto tentando ser o mais natural possível, embora por dentro estivesse mesmo num turbilhão de sentimentos e pensamentos.

- Sim, mas não quero falar deles agora. Quero falar de você. Parece que sua cor está voltando, mas pare de olhar para aquele lado, olhe para mim, quero ver bem o seu rosto, quero fixar a sua imagem, nunca mais quero esquecer dela, aliás, não vou esquecer porque ela vai estar comigo sempre, ao vivo e a cores.

- Poxa! ao vivo?

-Sim, você vai ser minha. Escreva. Eu estava te esperando, tenho certeza que é você. Algo me diz, ouço uma voz que fala isto para mim, que tenho de te proteger, ficar com você, te dar amor, te fazer voltar à vida.

- Você o que? Ouve uma voz?

-Sim, ouço, agora mesmo, estava ali sentado no ultimo banco e ouvi: “ Ei! Roberto olhe para aquela mulher que está ali sentada. Vai lá, levanta, fala com ela. É a mulher da sua vida. Vá com força, ela vai precisar de você agora, e por toda a sua vida.Você também não pode mais viver sem ela.

Parecia brincadeira, mas ela se sentia melhor. Apesar de não conseguir disfarçar o que ainda estava sentindo, e nem conseguir desviar o olhar da mesa em que estavam os seus. Relaxou um pouco, preferiu dar mais atenção ao homem que lhe dizia tantas coisas.

- Hahahahaha. Viu porra! Acredita agora que sou poderoso!Você ainda duvida do que posso fazer? Não perca esta chance. Este homem é seu, lhe pertence. Não apareceu antes porque estava amadurecendo. Você não ia gostar dele antes, com certeza, por isso fiquei aguardando o momento certo dele aparecer. Não o deixe escapar.

- Jade. O que você faz na vida?

- O que? Ah, sim, sou historiadora.

- O que? Historiadora?

Sim. Faço o doutorado em História da África.

- Não posso crer!!!. História de que? Da África?

-Sim. História da África! Por quê? É tão estranho assim alguém fazer história da África?

-Claro que não, é só uma agradável surpresa. Uma coincidência muito grande, aliás, o que demonstra que estamos no caminho certo, que o nosso encontro não foi por acaso. Eu sou professor de História da África em Cambridge.

- O que? Onde?É isto mesmo. Em Cambridge. Estamos desenvolvendo um projeto sobre os efeitos do colonialismo nos componentes étnicos dos povos africanos da diáspora. Brasil, Cuba, EEUU, Espanha, Portugal, Bélgica, França, Inglaterra.

- Eu não acredito.

- Por que não? Acha que eu to mentindo?

- Claro que não. O que acho é que isto é por demais coincidente para estar acontecendo.

- Sim, mas você! Onde faz o doutorado?

- Em Lisboa.

-Brincadeira. Estive lá tem umas quatro semanas, fazendo uma palestra no VII Congresso Ibérico de Direito Africano.

- Não pode ser. Não lhe vi lá. Eu estava lá, só faltei um dia, porque fiquei muito gripada. NO dia em que ia ser apresentada a palestra sobre “Direito e etnicidade”. Porra! Então foi mesmo no dia em que você ia falar?

-Exatamente.

- Puta que pariu! Oh. Desculpe.

- Fique a vontade, não me importo com palavrões, aliás, vindo de você isto não parece nada com um palavrão, apenas um maneira de expressão forte e convincente, que demonstra o que você sente.

- Pois é. Mas eu gostava muito de ler este artigo. Vai ser publicado e eu vejo no site.

- Minha querida, eu posso te mostrar agora, é só pegar o meu notebook, ou melhor. Vamos lá em cima e eu te mostro.

A esta altura ela já tava cansada de ver tanta falsidade dos seus. Todos estavam tratando aquela moça como se ela fosse “ela”. Era como se o seu companheiro já estivesse com ela há muito tempo, formavam um “casal” que todos conheciam, e pareciam gostar, até os seus filhos.

Pensou: - Bom, eu agora não perco nada. A minha relação, depois do que estou a presenciar, acabou mesmo, agora só é aceitar e dividir as merdas, e cada um para o seu lado.

-Viu o que lhe disse! Sua vida ia mudar hoje, aqui e agora. Acredite em mim mulher! Eu to disposto mesmo a te ajudar. Chega de falsidades, de enganos, de erros. Já te mostrei o suficiente, embora possa te mostrar muito mais coisas, mas não quero te chocar mais ainda, gosto de você, por incrível que possa parecer vindo de mim, quero seu bem. O seu inferno infernal acabou hoje, agora você começa uma nova fase, de chamas mesmo, todavia são chamas que não vão te queimar, só te proteger. Eu não vou te abandonar nunca, nem eu, e nem ele. Ele, já lhe disse, também esta comigo, foi mais fácil vir para o meu lado, pois na hora em que lhe mostrei você, ele passou a me valorizar e me querer, embora eu só tenha insistido em ficar com ele por sua causa. Escolhi-o para você. Você ainda vai se surpreender muito com este homem.

- Tá bem.

- O que você disse Jade? Tá bem o que?

- Nada não, acho que falei sozinha.

-Vamos?

-O que? Para onde?

-Lá em cima, vou te mostrar a palestra.

-Acho melhor não, vá lá e traga o notebook para cá.

- Imbecil! Vá. Suba com o homem.

-Não. Não quero.

-O que?

- Nada não.

De repente ela olha e já não há ninguém na mesa, todos tinham saído sem ela perceber. Havia uma porta lateral para o estacionamento e ela não viu o povo saindo.

- Ta bem, vamos lá.

- Entram os dois no elevador. Ele aperta o botão 5. Saem do elevador. Assim que dobram a esquerda no corredor, que coisa desagradável! Esta ali o seu companheiro e a loura, ela dentro do apartamento, ele já quase do lado de fora. A porta entreaberta e ela ouve:

- Não vá embora agora não amor! A sacana já deve ta dormindo há muito tempo, não vai dar pela sua falta mesmo.

-Não posso, tenho de ir embora agora, não posso deixar que ela perceba a hora que cheguei e nem posso dormir fora de casa. Tenho que tratar bem aquela mulher até o fim, até ela achar que não suporta mais, mas quero sair de tudo na boa, tem de parecer que é ela, e não eu, quem errou, quem destruiu tudo. Tenho de sair desta estória como vítima.

- Pô amor, ela já tá velha, não te dá o que lhe dou, eu não quero mais esta vida, quero estar com você o tempo inteiro, dormir com você, blá, blá, blá.

Teve vontade de acabar com aquela porra de uma vez. Aparecer. Olhar para os dois, para ele principalmente. Mas ficou quieta aguardando que Roberto, o outro, pegasse a chave. Tinham de passar pela frente do apartamento onde o outro estava. Quase teve uma parada cardíaca, porque quando foi caminhando para aquela direção, o apart. do homem era o de nº 507, portanto, colado ao 505, o seu companheiro virou-se e olhou para quem vinha. Viu a sua expressão mudar. Balança a cabeça, passa a mão nos olhos. Olha de novo! Balbucia: Jade!

Ela pega a mão de Roberto e segue em frente, deixando o companheiro estático ali no corredor.

Roberto abre a porta. Ela olha agora, bem fixamente, para os olhos do seu companheiro e nota que ele está mesmo pálido e que se segura na porta para não cair mesmo.

Já dentro do apartamento ouve sons. - Amor o que você tem? O que aconteceu? Vou chamar um médico. Me ajudem!

Sons de passos, correria, pessoas falando no apartamento do lado. Ela vai até a varanda e tenta ouvir o que se passa. Roberto abre a porta e diz: Parece que o xará teve algum problema cardíaco, estão levando ele de maca. Acho que o homem teve um enfarto.

-O que? Um enfarto. Preciso ir embora.

- Por que Jade. O que há? Quem vai morrer é ele, você não tem nada a ver com esta história, fique calma, o homem já está sendo atendido, a ambulância já tá lá embaixo.

-E a loura, a loura vai com ele?

- Não sei, mas deve ir.

- Não, não, tenho que ir embora agora, preciso ir embora mesmo. Amanhã ou depois eu ligo e agente conversa melhor, mas agora tenho de ir mesmo. Tchau

Sai quase correndo. Desce o elevador. Pega o carro que está estacionado e vai para casa. Vai esperar o telefonema dizendo que algo aconteceu. Chega a casa, abre o portão. O cachorro lhe olha, o pelo continua eriçado. O telefone toca, abre a porta correndo, atende ao telefone.

-Sra. Jade?

- Sim. Eu!

- Senhora Jade a senhora precisa vir urgente ao Hospital Aliança, o seu esposo acaba de dar entrada na nossa UTI. A Senhora precisa vir urgente.

Muda o vestido, afinal precisava parecer menos radiante. Era como estava naquele momento.

Radiante. Não fizera nada, o destino, claro, com a ajuda “dele”, preparara tudo.

Caminha até o portão da garagem sorrindo. Abre o portão, tudo vagarosamente, não quer perder nada daqueles momentos, quer viver todos eles, sorvendo tudo, deliciando-se. Entra no carro tira-o da garagem, pela segunda vez em uma só noite, quase dia. Para, sai do carro, fecha o portão da garagem, entra no carro e segue até o hospital, que era não muito longe da sua casa.

Ao chegar vê a loura fazendo um escândalo na portaria, queria ir para a UTI de qualquer maneira. Não deixaram, não sabe bem por que. Chega á portaria e diz: Onde está o Sr. Roberto Bragança? Sou a esposa dele, vocês ligaram para mim. O que aconteceu? Algum acidente? O que se passa?

-Por aqui senhora. O cardiologista quer lhe falar, já ligamos para o médico dele que esta a caminho.

-Sim, mas onde ele esta? E como esta? Estava mesmo muito calma.

Chegam à UTI

O homem tá lá cheio de aparelhos, todo entubado. Os olhos estão abertos, mas parece que ele não vê nada.

Permitem-lhe entrar na unidade. Antes, porém, lhe dizem que o caso é gravíssimo, que só estão esperando o médico dele chegar para fazer uma operação muito complicada. Recebe a noticia como se ela fosse normal, esperada. Entra na sala e olha em qualquer espanto para o homem que está ali, morrendo, na verdade. Não tem vontade de nada, nem de vê-lo morrer mesmo, nem de vê-lo ressuscitar, pois seria necessário isto, para reverter aquele quadro.

-Viu que sou poderoso?O que você precisou fazer? Nada! Eu lhe disse. Agora você vai ter mais uma surpresa. Só mais uma. Não chore! Fique forte.

Aproxima-se mais da cama e do rosto do companheiro e percebe que ele mexe os olhos. Ele abre os olhos e olha-a fixamente. Ela segura aquele olhar firme e forte. Não tem medo, não tem culpa, não tem arrependimento. Sorri para ele. O seu sorriso é irônico, é como se dissesse: Viu? O de lá de cima, este que você bem acredita, não quer nada mal feito. Ou se acredita nele e segue o caminho da luz, ou então assume o lado ruim, o lado escuro, o seu “eu” próprio, que se insiste em esconder, e no que você é expert.

Ele levanta a mão, procura a dela Ela lhe dá a mão, não tem mesmo qualquer sentimento naquilo, apenas um gesto a mais. Não sente nada naquele momento, a não ser uma vontade imensa de rir, rir muito, mas a situação não permite e ela se contém.

Percebe que ele quer dizer alguma coisa, ele segura forte sua mão, tenta falar. Não consegue. Tenta outra vez. Os aparelhos dão sinal, a luzinha fica quase continua , ele se agita. Os médicos entram lhe empurram. Ele estende a mão, olha na sua direção. Os médicos fazem uma série de procedimentos, ela olha aquilo tudo sem qualquer emoção. Pelo vidro vê que a loura está se despentelhando lá fora. Grita, bate no vidro. Ela está impassível olhando tudo. É uma parafernália.

Os aparelhos voltam à normalidade, os sons demonstram isto. Não sabe o que aconteceu, ressuscitou ou morreu de vez. Vê um daqueles aparelhos e nota que o gráfico agora se alterara, já aparecia fazendo aqueles desenhos que mostram que seu coração bater, que você respira, que você tá vivo.

Continua sem sentir absolutamente nada. Os médicos pedem para ela sair. Mais, de repente:

-Jade

- Ela se volta e os médicos também.

E ele está ali, com a mão estendida, implorando com os olhos que ela não saia. Jade, Jade, Jade. A voz é quase um sussurro.

Os médicos voltam-se para ele, que continua a tentar chamá-la.

Ela se aproxima o quanto pode dele e dos seus lábios. Para chegar bem próxima dele e ouvir o que ele fala tem de colocar o ouvido quase colado à sua boca, o que faz com que ela olhe, diretamente, para o vidro que isola a sala, visualiza a loura, desesperada, e olhando para ela, com raiva, com ódio, afinal ela queria estar ali. Ela apenas sorri para ela e, neste exato momento, ouve:

- Jade, me perdoe. Eu te amo.

Os aparelhos pararam. A loura grita. Ela sorri internamente sorri e sai da sala. Passa pela loura, que lhe ofende: sacana, miserável, meu homem morreu ali, quem devia estar ali com ele era eu.

Ela nem liga, sai dali, vai providenciar coisas, tem de gastar dinheiro com o enterro, avisar aos filhos, amigos, enfim.

Pega o carro no estacionamento e vai para a orla. Precisa respirar. Para em frente ao mar e fica ali por alguns momentos.

- Está vendo. Fiz tudo isto para você. Agora você está livre, em paz, sem culpas. Agora vá e seja como eles, falsa. Ninguém sabe do que realmente aconteceu, nem a loura, porque ela não te viu, e se tivesse visto, não a reconheceria, nem nenhuma pessoa que estava ali lhe viu. Eu lhe tornei invisível para todos. Só queria mesmo era que você visse e tivesse a certeza do quanto você foi e é enganada por todos os que mais você gosta. Só quem percebeu a sua presença foi ele, porque eu também quis que fosse assim, caso contrário de nada adiantaria tanto esforço.

O dia está lindo. Ela sai dali. Sua liberdade, sua vida, sua paz, tudo começara agora

Era uma manhã linda de um dia de verão. O sol brilhava como nunca, enchendo a alma daquela mulher de luz, de esperança, e agora, de mais uma certeza: tinha alguém que lhe esperava, só estava aguardando o seu sinal.