segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desencontro marcado

Estava ela sentada olhando o tempo que, naquele dia, parecia querer prolongar a ansiedade daquela espera.

Sabia, com certeza, que tudo ia acontecer conforme previsto, mas tudo era muito novo e diferente, o que lhe trazia certa insegurança.

Como seria ele? Ou seria ela? Será que estava na mesma ansiedade sua? Será que estaria preocupada e elucubrando coisas que não valia a pena pensar agora, quando a decisão estava tomada e que o momento se aproximava?

Sim, passaram-se 18 longos meses em intermináveis conversas na net. Se falavam todos os dias. Os assuntos eram variados, mas sempre divertidos. Pareciam ter feito um pacto silencioso de não falar de tristezas, noticias bombásticas, angústias.

Chegava a casa, todos os dias, vinda do trabalho por volta das oito da noite e começava a cuidar do que tinha de ser feito, tudo muito apressadamente, porque as dez o encontro estava marcado e ela tinha de estar ali, na frente da telinha. Aquilo era mesmo um vício, bom, na verdade, mas um vício. Vicio, como se sabe, não dá trégua, portanto não tinha folga em domingos ou feriados, nestes dias até conversavam mais um pouco e podia não ser no horário habitual.

Durante um ano e seis meses falaram de quase tudo o que fosse possível de ser falado e feito e vivido por pessoas normais. Viagens eram conteúdos obrigatórios. Filmes, shows, músicas, livros. Frank Sinatra, Michel Boublè, Santana, Gloria Stefan, Cesaria Évora, Dulce Pontes, Amália Rodrigues, Bethania, Gal, Caetano. Nunca falaram do impossível, nada que não pudesse ser alcançado, palpável. Nunca se preocuparam em perguntar se eram casados, se eram mulheres, o que faziam. Foram, aos poucos, pelas conversas, tirando, cada um, as suas conclusões, que nunca foram, como jamais seriam, nas circunstâncias, definitivas. A história deste encontro, como tantas outras, poderia ser mudada a qualquer momento. O pior, entretanto, neste instante, era a incerteza do que iria encontrar. Um homem? Novo? Velho? Um menino? Uma mulher? Como seria?

Escusaram de enviar fotos ou de usar a câmara, usavam apenas as palavras, às vezes coloridas querendo sublinhar uma frase, chamar atenção, nada, além disto. Nenhum símbolo outro, nada de pieguices, nada de demonstrações de afetos, enfim, não eram ridículos.

Sentada no ponto de encontro, em frente a uma tulipa com cerveja, que não era bebida, foi pedida simplesmente para que não a incomodassem enquanto estivesse ali naquela longa espera. Esperava tentando segurar a ansiedade. Tinha chegado muito cedo, já começava a pensar, mas era ilusão pura, chegara dentro do horário e da maneira já prevista.

Ninguém disse como estaria, nenhum sinal. Sabiam, sem dizer nada, que no momento em que se vissem, ou melhor, que estivessem no mesmo lugar, reconhecer-se-iam.

O nome? Qual seria o nome real? Será que era este mesmo? Por que nunca disseram o primeiro nome? Por que sempre se trataram pelo apelido? O que estavam tentando esconder?

Pelas deduções, pensava que era um homem maduro, não velho, mas maduro, alto, com cabelos grisalhos e que gostava de ler, idealizou um professor universitário, com muito senso de humor.

“Poxa! Mas por que esta idéia fixa de conhecer um ao outro? Por que não deixar aquilo como estava? Será que não seria melhor manter esta familiaridade internáutica apenas? Se fosse uma mulher? O que faria? Como reagiria, pois já se sabia quase apaixonada, afinal naqueles meses todos alguém tinha fisgado a sua alma, o seu espírito, pior que isto, a sua imaginação”

Não se lembra de como surgiu a idéia deste encontro. Todavia sabia que ele teria de acontecer a qualquer momento. Quanto mais a hora se aproximava mais ficava ansiosa, mais dúvidas, mais perguntas, mais incertezas.

Para que aquilo? Por que não deixar as coisas como estavam? Era tão bom aquele encontro diário, era tão boa a certeza de que não estava só. Era tão bom ter com quem falar somente de coisas boas, como se a vida fosse feita só delas.

O seu copo, cheio de cerveja intocada ali na sua frente, era apenas um companheiro: precisava estar completamente sóbria, pois não queria perder nada daquele acontecimento.

Na mesa ao lado chega uma senhora, gorda, velha. Com certeza não é esta pessoa, ela não tem cara de que tem amigo na internet. A senhora senta-se e pede uma bebida e um café. Fica ali olhando para os lados como se esperasse alguém. Ela se desespera. “Meu Deus, faça com que não seja esta pessoa”.

Pensava para si “Já me arrependi de estar aqui. To ficando muito ansiosa. Que idiotice ter marcado isto”

Na mesa ao lado o celular toca, a senhora atende e diz onde está. Minutos depois um senhor velho e gordo aparece, senta-se, fala um pouco com a senhora e os dois vão embora. “Ufa, escapei desta”, pensa ela.

Uns dez minutos depois, outro sobressalto: Chega uma loura oxigenada, alta, enorme, com um notebook e alguns livros na mão. O coração para: “Puta que pariu! Isto não pode acontecer. Eu não ia me enganar tanto. Será? Olhe a sacanagem Deus, não faz isto comigo”.

A loura senta-se, por coincidência, na mesa ao lado e abre o computador, coloca os livros em cima da mesa. Não esta com cara de que procura ninguém, felizmente, mas, mesmo assim, ela fica olhando de soslaio as suas reações. A mulher liga o lap e escreve algo, está falando com alguém. Definitivamente, não é ela. Alivio!

Só faltam 8 minutos. O seu coração tá na boca, ta com vontade de se picar dali, não esperar mais nada, depois fala que teve dor de barriga, que ficou nervosa, sei lá o que, mas vai embora dali, vai sair daquela situação angustiante.

De repente entra um homem no restaurante. É um homem sem qualquer atributo, apenas é um homem. Esta bem vestido, mas nada que chame atenção. É baixo, tem bigode e traz uma sacola pequena na mão.

Ela pensa: “Não, não é esta pessoa. Um presentinho, inho mesmo, era o que comportaria naquela sacolinha, inha.” Não, a pessoa a quem esperava não compraria um presente para si, não sabia quem era ela, se homem ou mulher, nunca deixara transparecer o seu sexo nas suas conversas. Falar de comida, hoje em dia, não é coisa de mulher e todos sabem, portanto... Filmes românticos, um livro com uma historia mais sensível. Não isto não leva ninguém a determinar o sexo de outrem, assim, não compraria um presente, a não ser que fosse uma garrafa de vinho, sim vinho. Certamente, tanto ela quanto a outra pessoa, poderiam se dar de presente, aliás, falaram muitas vezes de vinhos, principalmente, portugueses do Alentejo.

Não, definitivamente não era quem esperava, até porque aquele homem parecia "habitué" naquele espaço. Entrou sentou-se numa mesa de canto junto a parede, tirou o jornal do sobretudo e ficou aguardando que o empregado lhe trouxesse a bebida que, sequer, pedira.

Mais cinco minutos de prolongada espera. Uma moça chega apressada e olha para todos os lados. Parece aflita. Olha o relógio, vai até o balcão do bar, fala algo com o garçom, que olha diretamente para ela, que tem um sobressalto: Será que aquela moça esta perguntando algo sobre mim ao garçom? “Não, certamente que não, é muito jovem para ter aquele tipo de relacionamento que ela tinha com a pessoa a quem esperava”. O garçom fala qualquer coisa e a moça sai correndo do restaurante. “Graças a Deus” diz ela para si; “escapei de mais uma”

O restaurante começa a encher, tá ficando difícil ver e analisar as pessoas que entram e saem. Por que tinha de marcar ali? Ali era um local onde as pessoas marcavam encontros apressados, tipo encontrar para ir a algum lugar, tomar o comboio, tomar o autocarro, tomar o barco para o outro lado. Não, não deveria ter marcado ali, aquilo era muito movimentado. Estava se perdendo no meio daquela gente toda que entrava saia, trocava beijos, abraços, cumprimentos.

Começa a se desesperar mesmo. “E agora? O que faço? Só faltam dois minutos, já pegaram todas as cadeiras da minha mesa, só resta uma, que é, espero, da pessoa a quem espero”

Oito horas. Nada. “Não vem, e se vem, não é nada pontual: Oito horas é oito horas, não oito e hum e nem sete e cinqüenta e nove”. Joga, discretamente, o líquido do copo no chão e pede outra cerveja ao empregado. Apesar da decepção, ainda tinha esperança de que alguém apareceria. Ficaria ali mais uns dez minutos, daria um voto de confiança.

Quando o garçom volta com outra tulipa de cerveja, alguém entra no bar-restaurante: “É ele, tenho certeza” diz ela. Um homem alto, cabelos grisalhos, muito bem vestido, de óculos, vem em sua direção. O seu coração para, aquilo era bom demais para ser verdade, tinha idealizado aquele homem. Será? As pernas tremem embaixo da mesa. Não consegue nem levantar o copo, não quer que ninguém perceba que esta visivelmente transtornada, como se fosse possível esconder a tremedeira. O homem chega perto dela e diz: - “Boa tarde. Posso sentar aqui, a senhora esta sozinha e eu estou esperando alguém, que, pelo visto, ainda não chegou, ou então não me esperou”. Esta estática, não diz nada, nem concorda, mas o homem senta-se.

Por alguns momentos nada é dito. Ficam ali os dois, ele de um lado e ela do outro. Ela tenta controlar-se. Acalma-se. Fica a espera que ele tome a iniciativa de dizer alguma coisa. Nada. Os minutos se arrastam. Ninguém diz nada. Ela olha para o homem que continua impassível sentado á sua frente. Nota que ele toma um uísque. Aguarda mais uns 10 minutos, já são oito e vinte. Se não é aquele homem, não vai esperar mais nada. “O que faço? Pergunto a ele se está esperando alguém. Pergunta idiota, é claro que está: ele já disse. E se ele não for a pessoa e lhe perguntar o que ela tem com isso?” Fica queta a observá-lo sem que ele note. Sente que ele a observa também, esta lhe estudando, querendo saber o que ela faz ali sozinha? O que fazer? Que atitude tomar?

Não toma nenhuma. Acaba com a cerveja e levanta para ir embora. O homem também acaba o seu uísque, e parece que, também, vai embora, pois chama o garçom para pagar a conta. Levanta veste o casaco, o homem faz o mesmo. Uma vozinha dentro dela manda que ela pergunte se ele espera alguém. Outra voz lhe diz. Idiota, não pergunte o que é obvio? Vá logo direto ao assunto.

Resolve não perguntar nada. Pega a bolsa e sai. É seguida pelo homem até a porta; dali, um segue para direita o outro para a esquerda. Ainda se vira para olhar para onde ele se encaminha, e com surpresa vê que ele também estava fazendo o mesmo em relação a si, todavia, decide: “Se ele não falou nada é porque não quis, vou embora. Isto para por aqui”.

Chega à casa aflita, decepcionada e cheia de incertezas maiores de que as anteriores. Não janta, não tem tranqüilidade nenhuma, só espera que dê a hora de costume para poder entrar no mensager e saber o que aconteceu. Por que não aconteceu, aliás? Dez horas da noite, entra no mensager, a pessoa já está lá.

- Olá! O que se passou, estava eu, até agora, onde combinamos te esperando?

- Eu também, cheguei atrasado, mas dei um tempo, tomei até um uísque, sentei-me à mesa de uma senhora muito interessante que bebia uma cerveja, aliás, pedi para que ela me deixasse sentar à mesa com ela, porque não havia outro lugar, mas sentei muito preocupado, porque como estava te esperando, você poderia chegar e ir embora achando que não havia ninguém ali sozinho a esperar por outrem.

Ela atônita diz: - Como é? Você é aquele senhor de cabelo branco, de óculos, de sobretudo, que chegou as 08h10min e pediu para sentar-se à mesa em que estava uma pessoa alta, de cabelos ondulados, de óculos, e roupa marrom.

- Sim, era eu.

- Pois é, e a senhora era eu.



Lisboa, 8.11.2010