quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quanta modéstia!


Quem não gosta de receber elogios? Eu os adoro, mesmo sabendo que, muitas vezes, eles são falsos.

Desde criança que recebo muitos elogios: primeiro porque eu era mesmo uma criança linda, tinha cabelos cor de mel, que ficavam mesmo dourados no final de cada cacho. Os olhos bem claros, quase da cor dos cabelos, nariz fino, enfim, era bonita e era uma unanimidade,todos diziam a mesma coisa, Que criança linda!

Fui crescendo, e ao criança linda foram acrescentados outros elogios: menina inteligente, esperta. Ao lado dos elogios, também tinha outras qualidades não tão dignas de elogios assim: traquina, pintona, levada, faladeira, grosseira, sem modos, mas tudo perdoado por força da beleza.

Cresci acostumada a ser chamada de bonita. Na adolescência tornei-me uma adolescente bonita, fui ficando moça e passei a uma moça sensual e bonita. Quando desabrochei mesmo, passei a ser uma mulher bonita, enfim, a beleza fez parte da minha vida até um determinado limite de idade, pois tenho que concordar com uma amiga de Gloria e de Idalina: “a velhice fabrica monstros”.

Dos dezesseis anos para frente os elogios ficaram ousados, pois já tinham outro sentido para quem os fazia, bem como para mim que os recebia: “gostosa”, “colirio”, “avião” "gostosona" "gata" e muitos outros, próprios e impróprios.

Eu aos dezesete
Por força do meu nome recebi alguns apelidos; não eram bem elogios, mas gostava de ouvir quando me chamavam “preciosa”; “mel”, “jóia rara”, também não posso esquecer dos mais carinhosos e vindo de poucos: “fôfa”; “mera”; “melada”.

De um determinado momento da minha vida para frente comecei a receber elogios por força do trabalho: que funcionária exemplar! quanta responsabilidade; ela não é só bonita, este último, em particular, era bem o que eu gostava de saber, pois quem fazia o comentário não o fazia diretamente a mim. Fui elogiada por todos os chefes com quem trabalhei, embora, alguns deles, tenham querido ultrapassar o marco entre o elogio à trabalhadora e à mulher. Não nego que isto também me agradava muito.O problema de ser uma excelente funcionária foi a exploração pela qual passei durante o período em que trabalhei na empresa privada, e não só, pois, se um trabalho tivesse um grau de dificuldade maior, sobrava para mim, isto em termos de trabalhos administrativos, que era o que eu fazia. Se o trabalho requeria muita atenção, a exemplo dos mapas de faturamento, a responsabilidade era minha. Mapas de medição, relatórios de diretoria, contratos, e muitos outros trabalhos chatos, mas que não podiam ter enganos, e tudo feito na pressa.

Passei a ser: inteligente, responsável, organizada, atenta.

Há uma qualidade que tenho que não sei bem se as pessoas consideram como um elogio dizê-lo a quem a tem : que é ser gozadora. Gosto mesmo de gozar em todos os sentidos falando. Não posso deixar de apreciar o rídiculo e comentá-lo. Não posso deixar de criticar, com uma boa dose de “riso”, a minha própria vida, acho mesmo uma qualidade naqueles que fazem crítica da sua própria situação, fazendo com que estórias que poderiam ser muito tristes virem coisas hilariantes, acho esta minha qualidade fantástica. Realmente entendo como um elogio quando alguém me diz que sou gozadora, que não pode ser confudido com cinismo.

No entanto, apesar de receber elogios em muitos momentos da minha vida, afinal consegui orgulhosamente: passar no vestibular para Direito; ser advogada; passar em vários concursos públicos; passar, outra vez, no vestibular, desta feita para história, ser historiadora; trabalhar numa  empresa multinacional, aprender inglês, tentar falar francês,ser mestre em história e, para muitos, o mais importante, para mim a sobrevivência: ser Juíza, os que gostava, aliás, ainda gosto, de receber, apesar de hoje em dia estar ficando cada dia mais raro, são aqueles que me são dirigidos pelo só fato de ser mulher, e, como alguns dizem: poderosa.

Recebi esses elogios em diversas situações mesmo, as mais variadas possíveis: quando estava fazendo o curso preparatório, que foi realizado pelo TRT, para os Juízes que estavam tomando posse no momento, um dos professores um dia me disse: “ Dra. A sra. devia ser artista, e não Juíza”. O homem era muito tímido e sério, e eu não percebi muito bem o que ele quis dizer com isso, se queria me dizer que eu era bonita, ou se eu era burra, afinal ele estava a me avaliar. Algum tempo depois percebi, perfeitamente, que aquilo foi mesmo um elogio, pois, encontrando o dito em outro local, e já depois de alguns meses, ele me disse: “a Dra. engordou um pouco”. Bom, a partir daí creio que foi um elogio, o que acham vocês? Fui ou não elogiada? Acham que alguém ia notar que engordei se não tivesse mesmo me olhado antes, e bem? Acredito que não, até porque eu tinha engordado, se muito, uns dois quilos. Só quem lhe olhou atentamente perceberia uma zorra desta, isto estando eu a falar de homem, porque mulher diria somente para sacanear, e o comentário seria sarcástico e cretino: Você tá bem mais gorda não?

De outra feita, fui a inauguração da nova sede do TRT em Itabuna- Bahia, e depois da inauguração fui à parte menos protocolar dessas festas, aquela dos “comes e bebes”. Estava eu vestida adequadamente como convém a uma solenidade dessa, e pior ainda, quando você vai mesmo como Juíza. Calça comprida bege, blusa de listras bege e marron, bolsa e sapatos marrons. Penso que a festa era numa churrascaria, já não me lembro de muitos detalhes. Bom todos que participaram da inauguração, de presidente do TRT à funcionario de secretaria, estavam lá. Havia música ao vivo com palco e tudo. Estava lá um senhor, tipo peão de boiadeiro, imagine que o homem estava de chapéu, bota e cinto. Não estava mal vestido, pois tudo demonstrava ser de grande qualidade, mas não para a ocasião. O fato é que ele estava lá porque conhecia alguém importante na Junta do Trabalho, que era uma mulher e que, pelo que percebi, tava bem interessada no cidadão, que insistia em estar junto de mim. Mudei de lugar diversas vezes, primeiro porque percebi o interesse da mulher, segundo porque o cara era chato mesmo, terceiro por não querer nada mesmo com ninguém, estava muito bem servida na época. Música para lá, dança aqui, dança acolá, risos, brincadeiras, havia muitas pessoas do Tribunal, claro um evento deste “de gratis”, muitas comparecências... O certo é que, lá para tantas, eu tive que ficar até tarde porque a tinha de aguardar a minha carona para voltar ao hotel, eu ouço o meu nome, e de repente percebo muito espantada: alguém estava dedicando a música a seguir á Dra. Esmeralda, e o cantor estava dizendo exatamente isto: Vocês não vão adivinhar qual foi a música, tenho certeza!, Mas eu lhes digo: “Cavalgada”. Não era de estranhar, quem andava com aquela indumentária não poderia pensar em coisa melhor, entretanto, mesmo não gostando da escolha, tampouco da palhaçada, gostei do elogio. O homem queria mesmo era me dizer que eu poderia ser a sua “égua” de estimação, uma “égua que lhe daria muito prazer”, enfim, recebi um grande elogio, meio “cavalar” mas pensem na letra da música e percebam o que estou a dizer.

Pois não é que já fui chamada de muitas coisas: deliciosa, gostosa, gata, boazuda, algumas outras qualidades ditas em momentos de alcova, que não interessam no momento, mas nada se compara ao que você ouve quando passa perto de uma obra, de um jogo de futebol de praia ou em frente a oficinas . Menino é sensacional! Recomendo a todas as mulheres. Aí você se sente mesmo imensa, grande, sensacional.

Uma vez estava eu andando, cumprindo uma promessa de ir a pé até o Bonfim, não sei pagando o que, mas sei que estava andando para tal. Sai de minha casa em Piatã, andei toda a Paralela, entrei na Eduardo Magalhães, continuei andando até alcançar o Largo do Tanque. No caminho, muitas piadas, muitas ofertas de companhia. Entretanto, ali, descendo a rua do lado direito para alcançar o viaduto dos motoristas, quando vou passando à frente de uma oficina, só ouvi um espécie de chiado e depois: “que filé”. Não nego não! Acho que queria mesmo ser o filé que aquele homem queria provar, comer, sei lá o que. O som daquela expressão mostrava tudo o quanto o mecânico queria me dizer. “ Eu era mesmo o máximo naquele momento, a melhor qualidade de carne que ele podia conhecer era o que eu representava para êle.” Cheguei a ter a sensação do homem quase babando de prazer só em olhar a carne. Fiquei mesmo feliz, até porque já não era mais nenhuma menina, talvez, como menina nunca entendesse a intensidade daquele elogio. Ri muito, ri tanto, e achei tão bom, que tive de parar e agradecer ao senhor. Hilariante e sensacional, at the same time.

Um outro que adorei ouvir: Vinha eu saindo do comboio em Lisboa, no Cais Sodré, quando um senhor que estava parado na estação terminal e vinha caminhando na minha direçãol me olhou e disse, simplesmente: “Que mulher linda!”, eu já tava na casa dos cinquentinha.

De outra feita, estava eu chegando em uma cidade do nordeste, e havia uma pessoa a nos esperar no aeroporto, estavamos eu e meu companheiro na época; me lembro que estava com um vestido azul de malha, bem ligado ao corpo, sandália alta, enfim, estava bem arrumada. Acabamos de pegar as malas e vamos nos dirigindo á saida do portão de desembarque para alcançar o saguão; quando a porta se abriu e eu visualisei a pessoa que nos esperava, vi a expressão do cidadão ao me olhar, percebi pelos seus lábios o comentário que ele não conseguiu controlar: “puta que pariu”! Confesso que fiquei maravilhada, nunca um “puta que pariu” me deu tanto prazer em ser percebido. Aquela expressão foi a coisa mais sentida que o homem pode usar naquele instante. Ele não saberia expressar de outra maneira o que ele tava vendo, a surpresa de me vir tão bem e bonita, a expressão era a do inacreditável, do fantástico, do fenomenal. Adorei, quanto melhor, quando chegamos junto ao cidadão e ele disse: “Quando a porta se abriu e eu vi você, pensei que era uma artista de cinema”. Realmente eu estava em um dia de glória, pois quando a esposa deste cidadão chegou ao pé de mim, logo depois e já num bar , ela me disse:” Estava louca para te ver, pois me disseram que você estava linda, que a roupa era linda, que você estava chamando atenção no aeroporto”. É mole ou quer mais? Tava nos quarenta e poucos.

O vestido de que falo devia ficar muito bem em mim, pois, fui a um aniversário de uma amiga irmã em um bar em Salvador, e quando cheguei, senti que algumas pessoas me olhavam, mas não dei muito bola, pois o meu cabelo é um cartão de visita da porra, e sempre acho que ele é que chama atenção, portanto, continuei andando, mas, quando cheguei na mesa para onde me dirigia e onde a minha amiga-irmã e convidados estavam, ela levantou-se e disse para o meu companheiro: Homem tome cuidado com esta mulher, ela esta linda!. Acho que tinha de acreditar mesmo.

Em Lisboa, passando em frente a uma obra na Ajuda, perto do Arquivo Histórico do Ultramar ouvi um pedreiro dizer: “Que traço!”, não entendi nada. Depois perguntei a um amigo, que por acaso era empreiteiro, o que era isto, ele devia saber de que se tratava. Quando fiz esta pergunta o homem desatou a rir muito, e disse-me: “o que o pedreiro te disse foi que tu eras uma mulher bonita, com tudo no lugar, perfeita, com o traço certinho”. Olhe ai! Os cinquenta na cabeça e, infelizmente, “no corpo”também, mas ainda dando para o gasto, ao que parece.

Uma vez passei por um grupo de jovens, jovens mesmo, entre os 19- 25 anos, e ouvi um deles dizer: Rapaz “uma coroa desta eu como”. Não nego que não gostei do coroa, mas o “eu como” me deu a certeza de que eu tava para lá de bem.

Aos cinquenta e três anos dei uma recauchutada boa, tirei o excesso da barriga que se acumulou com o tempo e a cerveja, nada que não me deixasse receber alguns dos elogios anteriores, que aconteceram em período que antecederam a ela, mas o fato é que, fiquei bem. Ouvi isto de mulheres e de homens, dos meus filhos, de amigos, mas nada se comparou a um comentário de um vizinho: “O que era bom ficou melhor”. É bom mesmo, inclusive, saber que você é notada, olhada, admirada, por quem você nem imagina que seja. Um grande amigo ao me vir disse-me “Você está viçosa”. Olhe velho, isto tudo é para lá de bom.

No ano passado ou antepassado, cheguei em Salvador indo de Lisboa, cá estava frio e eu estava de jeans, botas de cano alto, blusa por dentro da calça, casaco, cachecol, enfim, toda aquela parafernália de inverno. O meu filho e meu neto estavam a me esperar no aeroporto. Quando eles chegaram junto a mim, o meu filho disse-me, “minha mãe a sra tá bonita com esta roupa”, ao que o meu neto de nove anos disse: “ pois é mesmo verdade;, minha vó você ta linda”. Já estava eu com os 56. É bom ou não é? Duas gerações a me dizer uma coisa só. É sinal de que ainda dou para o gasto.

Há ainda aqueles elogios calados que são feitos somente com os olhos, pois as situações não permitem que nada se diga. Há outros que um o aperto de mão completa o olhar que insiste em não ser furtivo. Sim, eu recebi muitos, mas muitos elogios assim. Continuo, não na frequência de antes, recebendo-os.

Durante a minha vida ouvi mesmo muitas coisas, desde os falsos “você não muda nada”,como se eu fosse cega e não visse a minha cara com as rugas do tempo querendo se espalhar, sem o menor respeito pela minha pessoa, entrando porta adentro e se mostrando depois por fora, até um com o qual vou finalizar esta minha apoteótica e nada modesta auto promoção, afinal esta última é a alma do negócio.Estava eu em um bailarico da terceira idade, aqui em Lisboa tem muitos, e fui convidada para dançar por um dos frequentadores, um senhor de muito mais de meia idade, e ele a me fazer muitas perguntas, afinal sou brasileira e, estando num baile desses, é como se tivesse um cartão de visita na testa: “disponível”. O velho começou a me fazer “n” perguntas, e terminou por me dizer que não entendia como uma mulher como eu podia estar sozinha aqui em Lisboa. Sacanamente perguntei o que ele queria dizer com uma mulher assim como eu, e ele me responde olhando mesmo para mim, chegando mesmo a se afastar para me olhar inteira: “ESTUPENDA”. Senti o impacto da palavra: Me senti enorme, cheia de peito, grande, extraordinária, algo de muito diferente mesmo, uma coisa nada comum. É isto mesmo: acho que, de agora em diante, a palavra que mais pode dizer de mim é esta : E S T U P E N D A. Quanta modéstia!