quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Rua da Imperatriz e os cabelos da menina


Era linda, uma menina de chamar atenção. Os cabelos longos cor de mel. Começavam castanhos claros para acabarem dourados nas pontas. Sua mãe enrrolava- os em cachos, que caiam dourados até o meio das costas. De vez em quando fazia um cacho maior reunindo todo o cabelo do lado direito e colocava um laço. O laço era enorme e, como de costume, combinava com a roupa que estava vestida. Quando ia para a escola com este penteado, o laço era sempre azul marinho.
Sempre teve cabelo muito cheio, o que era um grande problema, pois pelo fio ser muito fino quando não estava preso, ou com os cachos feitos, virava uma juba.
Desembaraçar esse cabelo era problema para um ano e mais seis meses. Todos os dias pela manhã a mesma novela.
A novela tinha muitos personagens, não sé ela e a sua mãe. Primeiro eram os personagens da própria família que se fartavam todos os dias de ouvirem os gritos da mãe com raiva, e os gritos da filha com dor, porque como ela berrava para não pentear os cabelos a mãe lhe batia com o pente de osso que usava para desembaraçá-los.
Era flocklore na Rua onde morava, Rua da Imperatriz, uma rua que fica na cidade baixa, em Salvador, e que liga a Baixa do Bonfim à Boa Viagem.
Tinha uma vizinha que lhe chamava despertador, dizia ela que só acordava quando a menina passava gritando, pois muitas vezes era levada para a escola ainda a pentear os cabelos, sua mãe não tinha qualquer escrúpulo nesse sentido. A porrada comia solta, seja em casa, seja no caminho. Elas seguiam, as duas, uma na frente, claro que ela, e a outra atrás terminando de fazer ou os cachos, ou as tranças. Todo dia a mesma rotina; não se cansavam, ela de apanhar e a sua mãe de bater, os da rua, de ver a cena e, muitas vezes, quando a coisa tava muito grossa, oferecerem-se para acabar o serviço e levá-la à escola, o que era um grande alivio: pior para a senhora que só acordava quando ela passava gritando, nesses dias, com certeza, chegava atrasada ao trabalho.
O pior de tudo é que sua mãe não lhe queria cortar os cabelos, no que tinha muita razão: quando comportados, isto é; penteados, os cabelos eram lindos mesmo. Com eles e com o seu belo rosto, conseguiu sempre ser a rainha da primavera, rainha do milho, anjo nas procissões, baliza nas paradas em que a escola participava, enfim, tudo o que a beleza pode proporcionar naquela idade, e olhe que ela nem precisava vender os votos, alguém o fazia por ela.
Quando esteve interna o cabelo continuou a lhe dar problemas; primeiro pegou piolho, pense aí, um cabelo quase mel, da cor da lêndea, cheio delas e dos seus filhos, uma droga, as freiras endoidaram, mas não lhe cortaram o cabelo. Depois era o próprio cuidado com o cabelo, ela não tinha nenhum, não conseguia sequer penteá-los até o fim, não tinha força e o seu braço não alcançava, resultado estava sempre incomodando alguém para lhe tratar o cabelo. Lavá-los era outra novela, não conseguia tirar todo o sabão, que era de coco, naquele tempo não havia o luxo do shampoo, esfregava-se a barra do sabão nos cabelos, e depois enxágüe: Desembaraçante: que palavra era esta? O negócio era no braço mesmo, tinha de ser desembaraçado era no pente, na tora, o que lhe trazia mais e mais problemas, porque era dolorido o processo.
Continuou com o seu cabelo, e quanto mais ia crescendo também ele ia enchendo mais e mais, cada vez ficando mais seco e, consequentemente, volumoso; não havia maneira de amansar o bicho, ou tava preso de rabo de cavalo, ou tava solto e a juba era mesmo imensa; por causa dela teve a sua transferência da escola entregue a sua mãe, pois, um dia quando estava limpando o jardim da infância, um trabalhinho destes que só a ela era dado, porque ela ali perdia horas a fio limpando os brinquedos, as canecas, os pratos, enfim, tudo o que estava dentro das salas onde funcionava o jardim, a irmã responsável pela área, uma velha gorda e feia, lhe disse que ela estava parecendo uma leoa, e ela, prontamente: e a senhora UMA VACA! E a vaca agiu como tal: fez queixa a superiora da escola, que como rocha que era e já cheia de ouvir muitas e muitas queixas contra a garota, aguardou o final do ano e, quando a sua mãe lhe veio buscar para o natal, já encontrou a sua transferência pronta, sem qualquer direito à argumentação.
Não pensem vocês que a história do cabelo acabou: ele ainda continua cheio, perdendo a sua cor de mel, que agora já anda falsificada pelas tintas naturais não naturais, e ainda dando muito que falar a quem não tem, mas é uma marca registrada da sua portadora, que, mesmo de longe, é reconhecida por ele, que também já lhe valeu alcunhas várias, de hippie à louca.
Ela continua com os seus cabelos, muitas vezes, revoltadíssimos, mas que não lha impediram de viver e conseguir todas as suas vitórias. Cabelo que ajudou a lhe fazer uma mulher atraente e que, exatamente por tê-los, saber-se “diferente”.