quarta-feira, 19 de maio de 2010

SOFISMAR


Quisera eu ser um sofista. Será que esta palavra existe mesmo? Quem sofisma é um sofista ou sofismador?
Pois é, de acordo com os dicionários não filosóficos, porque estes têm um conceito muito mais atrativo para sofista; sofismar é enganar por meio de sofisma: Ficamos na mesma, pois continuamos a sofismar sem saber mesmo o que é.
No momento estou tentando sofismar, vocês perceberão isto até o final do texto. Estou dizendo que estou tentando porque para ser sofista você precisa ser muito bom; conhecedor de mil coisas e ser muito, mas muito, inteligente, com uma capacidade argumentativa das melhores, ou daquelas que um ser normal não pode alcançar. Daí já se vê que eu só posso tentar ser sofista, pois, não sou detentora de nenhuma destas capacidades inerentes ao sofista.
Quando você inventa uma mentira e quer que ela se torne uma realidade crível para outrem, você tem de ser um bom sofista, sim, porque esta capacidade de enganar muitos, só é peculiar ao sofista, mas preste bem atenção: já disse que não é qualquer um que tem esta capacidade, porque além das qualidades que já falei acima, um sofista tem que ter uma memória gigante. Lá vou eu, de novo, ladeira abaixo com esta idéia de ser um sofista. A minha memória é mínima, muito curta, pequenina, talvez porque não sofisme e, portanto, não tenho que estar sempre pensando no que falar para não contrariar o que já disse antes.
 É preciso não confundir mentiroso com sofista, este último pode ser comparado a um grande filósofo, um mentiroso nunca; talvez um mentiroso chegue próximo a um cafajeste, um sofista nunca será assim qualificado, pois ele é um sábio.
Até pela etimologia da palavra os adjetivos não podem se confundir.  O sofisma vem do grego sóphisma;  Veja bem a diferença, mentira vem do latim mentiri, esta coisa latina dos latinos, que italianizam tudo na origem, como se o latim só tivessem gerado o próprio italiano. Viu, parece que acabei de sofismar sem querer mesmo, pois quero que latinos signifique latim, o que não é real, mas o que quero dizer, e tenho certeza que vocês sabem, é que as línguas latinas derivam do latim, não estou a me referir aos que, para os americanos, nascem na América Latina, inclusive no Brasil, pode ter certeza que, depois da Califórnia, que tem latino para cacete, todo mundo é latino, não interessa de onde veio: Se hablas español, ou o nosso querido e unitário português de americano do sul, é latino e ponto final, Olhe aí! Os americanos do norte sofismaram e impregnaram o mundo de latinos, pobres coitados subdesenvolvidos que não tem pátria, são apenas, latinos. O pior é que esses próprios que são chamados de latinos acreditam que o são, da maneira que os donos do mundo etnizaram-nos.
Pois sim: já se sabe que sofismar não é para qualquer cafajeste mentiroso. Sofismar é de uma dignidade tremenda, pois a partir de um pensamento que se sabe errado, argumenta-se tanto, até com argumentos completamente verdadeiros, que este pensamento errado passa a ser uma realidade verdadeira. Gostou? Viu que não é para qualquer um? Você tem ser culto, um grande e bom argumentador, para convencer todos, ou melhor, uma grande maioria, daquilo que é certo, o correto, mesmo tendo a certeza de que tudo começou errado.
Acho que em política temos muitos sofistas, embora muitos não possam assim ser qualificados, são apenas cafajestes, mentirosos e aproveitadores, nunca chegarão a sofistas, não tem capacidade de enganar tantos, deixam transparecer o que são e, por isso mesmo, mostram que não tem qualquer aptidão para sofismar, têm para mentir em determinados momentos para proveito próprio, mas não tem a grandeza do sofista que a partir de um pensamento errôneo, modifica a realidade de muitos, que passam a acreditar nele como o gênio, o salvador, o correto.
O sofista sabe usar os signos, tem uma grande intimidade com a semiótica; sabe usar o significante e o significado, também é um hermeneuta, sabe interpretar, sabe dizer, tem um discurso, pois este é o que lhe traz a alguma coisa que o sofista quer introduzir na sua verdade. O sofista usa a palavra como ninguém, ele precisa mais dela de qualquer outro pensador, porque ele quer que seu pensamento, traduzido em palavras, entre no intelecto do outro e passe a ser, também, a sua própria palavra, torne-se, pois, uma verdade.
Antigamente, e coloque aí antigamente mesmo, cerca de 450 a.C, os sofistas eram professores, mestres na arte do bem falar; eram, na realidade, educadores profissionais e não pensadores, e contribuíam para o pensar livremente, para a capacidade de argumentação, fazendo críticas ao que existia e propondo alternativas,[1] mas já não se faz sofista como antigamente; mas reparem bem, eram eles educadores profissionais, portanto, pagos.
Como eram pagos, deduz-se, que recebiam pagamento da classe dirigente da cidade por onde distribuíam o saber, o que significa que a argumentação deveria ser influenciada pelas "verdades" dos pagantes. O ensino dos sofistas concentrava-se na "arte de persuadir, independentemente da validade das razões adotadas."[2] Esta arte era denominada retórica.
De acordo com Maria Amelia (2010), "os sofistas revelaram que quem domina a palavra é poderoso" [3] Não tenham dúvidas disto, lembrem-se da campanha de Obama e também do mot: "We can": Yes! We can.  We can em nome de uma verdade que se estabeleceu para os americanos, acabar com todos os outros seres humanos, sem dó nem piedade, se, de acordo com os seus princípios, a paz estiver ameaçada. Em razão de um sofisma, podemos jogar uma bomba nuclear e acabar com toda uma população, e hoje, impedir que outrem desenvolva os seus sistemas de defesa, para que possa impedir que o seu sistema invada o meu e acabe com ele. É sofisma ou não o "We can"?
Este é um grande sofisma de um grande sofista, realmente um brilhante argumentador, um comunicador de primeira linha, embora com receptores pré-dispostos a aceitarem as suas argumentações. Apesar de grande argumentador ele foi mesmo ajudado por um contexto em que as pessoas queriam acreditar que eles realmente podiam: e aí está. We can! E o que será que vai mais acontecer em torno deste we can?
Pois é, temos sofistas grandes. O mundo teve vários deles, seja para o bem, seja para o mal. As verdades deles se tornaram de muitos, exatamente pela capacidade de argumentação que eles tinham e têm. A palavra na boca do sofista é uma arma mais poderosa de que uma arma nuclear, de que o medo dela, porque através da palavra o sofista pode lhe convencer de que "matar em nome da humanidade" é um ato de grande solidariedade.
Um sofista consegue, e olhe que é difícil, convencer outros sofistas. Ainda podemos continuar falando do criador do "We can". Pois não é que o homem recebeu o Nobel da Paz. Vá à porra! O que fez o afro descendente em favor da paz no curto interregno entre ser eleito presidente do EEUU e receber tal prêmio? Terá sido por ter se tornado o primeiro afro descendente a ser presidente dos Estados Unidos? Isto contribuiu para a paz mundial em que? Quantos deixaram de morrer com isto? Quantos deixaram de passar fome por causa disto? Quantos soldados americanos deixaram de morrer no Iraque, no Afeganistão, etc., etc.? Aliás, quantas famílias americanas deixaram de chorar os seus jovens filhos mortos? Não se tem respostas, e olhe que nada desta perguntas são produtos de sofismas. São fatos e não pensamentos, portanto, não podem ser sofismas.
Bem, vou parar por aqui, falar de sofistas é ruim porque nos leva a indignação, e corre-se o risco de falar de muita gente e, também de esquecer muitos, o que seria uma grande injustiça com aquele que se especializou em argumentar o erro, em transformar grandes enganos em verdades incontestáveis, que levam milhões a, reafirmando o erro, protagonizarem fatos que deprimem, arrasam, e que desumanizam o "ser humano".
Ainda assim, queria ser uma sofista, queria ter a capacidade argumentativa de convencer pela palavra, de saber utilizá-la para o bem, de fazer com que as pessoas ficassem melhores e olhassem mais umas para as outras e deixassem de acreditar naquelas que podem fabricar o "não ser", mesmo que tivesse de começar a argumentação por força de uma idéia errônea, de uma falsidade, de um "sofisma".  
E você, quer ser um sofista? Comece por raciocinar logicamente para poder reconhecer quando um deles está a sofismar.     




[1] Maria Amélia Carreira das Neves. "Retórica". Semiótica Lingüística e Hermenêutica do Texto Jurídico, Lisboa,Instituto Piaget, 2010, p. 231,
[2] Nicola Abbagnano. História da Filosofi, Vol I.Lisboa, Editorial Presença,1976 p.99-100
[3] Ob cit. p 231