sábado, 22 de maio de 2010

Vestidos de Crepom


Eram três. Estilos completamente diversos: Uma muito magra, cabelos bem lisos meio tímida e sonsa: outra morena, alta, corpo escultural; a terceira era do mesmo tamanho das outras duas, corpo bem feito, cabelos ondulados. Duas irmãs e uma tia, 20/21, 17/18 e 15 anos.
Lógico que a tia era a chefe do trio e, por ser a irmã da mãe das outras duas, aquela lhe confiava assuas duas filhas, que escondidas do pai, iam para as farras acobertadas pela genitora.
As festas aconteciam sempre sexta feira ou sábado à noite. Algumas vezes eram festas familiares nas casas dos amigos da tia, essas eram boas, mas, boas mesmo, eram as festas no SESC de Nazaré.
O SESC mantinha um salão para eventos num sexto ou sétimo andar de um prédio no centro do bairro de Nazaré, aliás, o prédio faz mesmo uma ilha, porque ele fica solto no meio de algumas encruzilhadas, talvez estrategicamente construído para não incomodar os vizinhos com as festas que eram programadas e já faziam parte do projeto desde a sua construção.
Bom, a preparação para a festa já começava na semana anterior, quando elas eram anunciadas, normalmente, tinha festa de quinze e quinze dias. A Tia, a que sabia de todos esses eventos dava um jeito de avisar às sobrinhas, ia à casa da irmã, deixava recado, etc. Etc. Etc. Isso sem que o pai delas percebesse.
A mãe dizia que elas iam dormir na casa da avó, iam passar o final de semana lá.  O pai concordava, sem qualquer prazer, mas afinal era na casa dos avós, portanto...
Bom, o fato é que a permissão estava dada e precisava-se de roupa decente para ir à festa. Havia de ser uma roupa nova, pois não havia outra maneira: como poderiam chegar a uma festa com roupas batidas, conhecidas pela maioria dos frequentadores. É porque antigamente os grupos que freqüentavam os lugares eram conhecidos uns dos outros, tinha até grupos rivais. As meninas que participavam de um grupo não podiam ter namorados de outro grupo, até porque, quando isto acontecia, era o maior quebra pau. Quebra pau mesmo, a briga era de mão, não tinha este negócio de tiro e nem de quebrar garrafa, a porra era mesmo na mão grande.
O fato é que a roupa tinha que ser arranjada.  A mais nova delas tinha muita roupa, fruto de ofertas de amigas da mãe, roupas semi novas que eram dadas, o que era ótimo, porque ela sempre estava bem vestida, o problema era as outras duas, mas nunca se deixou de ir a festa por isso.
Mas numa dessas festas a roupa das três foi feita mesmo. O milagre da multiplicação aconteceu para as três. É que apareceu uma moda de vestido de "crepom", um pano que parece impermeável e todo enrrugadinho.  A multiplicação explica-se: é que além da novidade do crepom, ele veio acompanhado de um detalhe, as listras.  Fez-se tecido de crepom de listras de todos os tamanhos e cores, desde a listra bem fininha, até listras bem grossas. Que fizeram as três festeiras: Compraram três tipos de listras: Uma bem grossa, em tons claros de verde, rosa, bege; a outra uma listra média, em tons mais fortes, azul escuro, branco e um tom de lilás, e a ultima umas listrinhas muito fininhas, de muitas cores, sendo que prevalecia o amarelo. O modelo? O da moda, um vestid o tipo camisa de homem, com bolsos na frente à altura dos seios, com laterais com um corte arredondado. Os camisões eram largos, e ficavam no joelho, a graça ficava quando se colocava o cinto largo, que não ficava na cintura e sim quase no quadril, e puxava-se o vestido para cima, fazendo com que ele parecesse uma saia e blusa. Quando se puxava o vestido para cima, ele vinha até o meio da coxa, uma mini saia ainda composta, o descomposto ficava por conta da abertura lateral, porque quando o vestido subia com o cinto, também a abertura subia, resultado: deixando aparecer, em alguns movimentos mais bruscos, a calcinha. O certo é que as três descobriram a pólvora durante algum tempo com esses vestidos. Tenho certeza que vocês já adivinharam por quê?
É isso mesmo. Hoje a festa era vestido de listras largas para a tia; media para a irmã mais velha, finas para a menor. Daqui a 15 dias, listra fina para a tia, listra grossa para a irmã mais velha, listra media para a menor. Quinze dias depois, listra media para a tia, listra grossa para a menor, listra fina para a mais velha.
A metamorfose não acabava aí: Os detalhes ainda faziam muitas trocas. Compraram cintos de cores diversas, as cores predominantes nos tecidos, e os cintos eram trocados de acordo com a troca das listras, mas não eram só os cintos, também havia os sapatos, e aí o bicho pegava, os pés tinham de ser ecléticos, variar dos 40-41 número dos pés da tia aos 36-37 o da sobrinha menor, a sobrinha mais velha calçava 38-39. Aí a porra pegava mesmo, porque a tia e a irmã ainda podiam trocar 39 para 40 ainda se arrumava com algodão no bico, caso fosse sapato, mas de 39 para 37, não dava jeito mesmo, embora isto não fosse um grande empecilho, pois mesmo com sapato saindo do pé e o bico cheio de gaze, pano algodão, a festa não deixava de ser curtida.  
Os vestidos também podiam ser usados soltos, sem o cinto, e o foram muitas vezes. As três foram em muitas e muitas festas sempre com a troca de vestidos, até o dia em que, uma virou "batista" e deixou de ir às festas; a outra foi embora para o Rio de Janeiro e a última, a menor delas, arrumou outras parceiras. No entanto, para esta, a troca de roupa não deixou de ser feita, a variedade tornou-se bem maior; é que ela encontrou uma colega que tinha, pense aí: Quatro irmãs mulheres! Com esta amizade a troca passou a ser uma constante, e tinha outros objetivos que não só as roupas! Agora se podia trocar de namorados, o que realmente aconteceu muitas vezes. Tempos bons aqueles!
Tudo isto só foi lembrado porque, numa mesa de restaurante em Portugal, em frente a uma travessa do melhor bacalhau a estilo lagareiro de Lisboa, ali na Mouraria, a menor das três, hoje já tão idosa quanto ás outras duas, viu um cidadão sentado usando uma camisa de crepom com listrinhas fininhas coloridas, que a fizeram voltar ao tempo da irresponsabilidade responsável, das trocas de vestidos, da espera ansiosa da hora do "baile" começar, embora, naquele momento, estava mesmo querendo saber há quanto tempo aquele cidadão tinha aquela camisa, porque há muito tempo, muito mesmo que não via  nada com tecido de crepom, além do mais, o estilo da camisa remontava um outro tempo. O colarinho era fino, as mangas curtas tinham uma dobra do próprio modelo, os bolsos pequeninos também tinham uma preguinh a no meio. A camisa devia ter pertencido ao pai daquele, pois ele, com certeza, não teria idade suficiente para usá-la no tempo em que o "crepom" estava no seu auge, no tempo em que a troca de roupas era mais de que uma simples forma de parecer estar de roupa nova, era sim, uma grande demonstração de solidariedade e união entre pessoas; uma tia e duas sobrinhas e entre amigas.