sábado, 29 de maio de 2010

Não se marca compromisso na segunda quinta-feira do ano

A roupa já está separada desde a noite anterior, na cadeira, ao lado da cama a calça ou bermuda branca, camiseta branca, tênis, a pochette ou sei lá o que, de preferência branco, com a carteira de identidade, algum dinheiro e, se tiver, o cartão da assistência médica.
Acorde cedo, afinal pode estar longe do local onde tudo vai acontecer. Banho tomado, garrafinha de uísque dentro do saco, siga para onde os baianos estão concentrados neste dia.
Cidade baixa.  08h00min horas da manhã, frente da Igreja da Conceição da Praia. O movimento ainda é fraco, mas já se vê que o branco predomina. Grupos vestidos com camiseta igual com dizeres que lembram porque se está ali, saúdam o homenageado.
Atravesse a rua, va até o Mercado Modelo, entre cheiros e aromas, o da feijoada. Sente-se, peça um prato de feijoada, prato este que pode dar para um, dois, ou mais pessoas, é somente para não se perder o vicio. Uma cerveja em lata, não se olha as panelas e nem para o chão, e nem mesmo ao redor quando se está comendo: não é recomendável! Tira o gosto do feijão e a vontade de comer.
Retorne para frente da Igreja, já está cheia, as baianas, todas lindas com as suas vestes brancas e turbantes bem ajeitados, equilibram os seus jarros de flores. Sons de batuques por todos os lados, sons que se confundem com tantos outros das barracas armadas ao redor da igreja.
De repente não ha mais nenhum espaço sem ser ocupado, mas ainda vem gente de todos os lados. Do elevador Lacerda, do lado da ladeira da montanha, do terminal da França, do contorno, da ladeira da preguiça.  O branco predomina, a cor da pureza, embora muitos impuros estejam por debaixo dele.
Fogos pipocam, foguetes anunciam que a hora é chegada. Procura-se um lugar para ver o cortejo passar. A emoção vai tomando conta de tudo e de todos. O arrepio é inevitável, o choro latente. As baianas enfileram-se, botam os seus jarros na cabeça. Os chales, as saias rodadas se roçam umas nas outras, procuram acomodar-se ao espaço, sem brigas, confusões. Vai sempre caber mais um.
Os políticos chegam. Já não se espera por mais ninguém. Os foguetes repicam com mais intensidade, os pelos se eriçam mais ainda. Já não se segura mais as lágrimas, elas pululam, uma profusão delas escorrem pelas faces. A emoção toma conta de tudo, por um momento, efetivamente, todos são irmãos, todos estão unidos, todos esperam que a festa que está começando seja o que é, efetivamente, a maior demonstração de fé da Bahia. Começa a procissão do Sr. Bonfim, que, diga-se de passagem, não tem andor, não tem imagem de qualquer santo, também não é necessário. O Sr. do Bonfim está em cada um de nós baianos, nós já sabemos quem ele é e o que faz por nós e por tantos quantos estejam, ou não, presentes na sua festa, sejam, ou não, baianos. Dizem até que Cristo nasceu na Bahia, nós baianos, no dia da lavagem do Bonfim, reafi rmamos a nossa convicção nesta verdade.
A caminhada começa. As baianas na frente abrindo o cortejo, há um silêncio respeitoso, ouvem-se os passos no asfalto, mas este silêncio é por segundos, porque o som dos filhos de Ghandi já está ali,e eles vêm de branco e azul. Visto de longe parece uma onda se desfazendo, mostrando toda a sua espuma branca. O povo postado nas laterais das ruas por onde o cortejo vai passar, aguarda, evidentemente que, a grande maioria, já está com uma latinha de cerveja na mão. Os mais sofisticados, tomam uísque. É festa, o álcool ajuda na alegria, é como se fosse necessário brindar em todo o percurso, porque em cada lugar que o cortejo passa há alguém agradecendo uma "graça" ou solicitando uma, ambas merecem brindes.
Alguns não bebem nada e, silenciosamente, levam a mão ao peito e depois estendem-na em direção ao céu. ´É um agradecimento calado, mas eloqüente. Você se emociona em ver tanta fé.
Mas o momento não é nostálgico, é de pura alegria.  Os políticos passam. Nos últimos 4 anos o prefeito de Salvador é "evangélico", mas tem de se render e fazer esta passeata, o público não perdoria a sua ausência e as urnas podem revelar surpresas. Resultado: o homem tem de ir e sorrindo, nada de cara feia. O Representante do Governador, deputados federais e estaduais, velhos políticos (Pires)¸enfim, todos ali, juntos, não há partidos naquele instante, embora em ano de política, como o atual (2010), alguns candidatos e recandidatos tenham formado grupos camisetados e com as suas devidas charangas, o que foi ótimo: deu mais som à festa e a caminhada, que às vezes é penosa, assim ficou mais leve.
 Temos um bofe e a sua trupe passando, é "Leo Crat" acho que se escreve assim, Um misto de travesti e de vereador, não consigo saber quando um ou outro entra em cena, mas fazer o que? Salvador a, ou o, elegeu. Não contou com meu voto, mas a vontade do povo falou mais alto.
Já passamos pela Praça dos Correios, a Deodoro da Fonseca, estamos chegando ao Mercado do Ouro, os sons se confundem todos, não se sabe o que ou quem está tocando o que. Mas o corpo não para de balançar, os pés se arrastam no asfalto tentando acompanhar o som, difícil. Este ano Carlinhos Brown nos decepcionou e não saiu com o seu grupo, ainda tive a esperança de vê-lo sair da sua toca logo ali depois do Ministério da Fazenda.
Um bom som passa, se afasta! Corra atrás para acompanhá-lo. Já não se vê as baianas, elas já estão muito lá na frente, algumas, que se atrasaram, continuam a sua caminhada, mas já distribuem entre os "sortudos" á água santa de seus jarros.
Os turistas olham tudo atônitos, não acreditam no que vêem. Os baianos sabem o que significa um pouco desta água, até mesmo respingos delas, para o ano que está começando. É mesmo uma questão de fé, como o é a visita à Igreja do Bonfim na primeira e na última sexta feira do ano. Baiano é assim, agradece no final do ano o que pediu, e alcançou, no começo. Acredite que é verdade, quando se compra um carro novo aqui em Salvador o primeiro local onde é levado é no Bonfim, o carro tem ser abençoado. A relação Sr do Bonfim e baiano é forte, comporta todos os sentimentos.
Uma confusão, gente batendo em gente. Saia de baixo, desvie, não dê a menor atenção, é normal. Algum filho da puta que não acredita no Senhor do Bonfim e gosta de criar problemas.
No Mercado do Peixe, com certeza, você vai encontrar alguns amigos. Você pode até tê-los visto ontem à noite, mas rapaz, o abraço de hoje é como se vocês não se vissem há anos. É um abraço da fé, da confirmação da amizade. Tome uma, é assim que baiano fala em relação á beber uma bebida com alguém. Não dê muito tempo, porque senão você realmente se afasta do cortejo.
Do seu lado uma Kombi, sabe o que é Kombi não sabe? A daqui é uma Kombi trio, Pense aí! Um cara vai dentro dela com as portas laterais abertas, uma aparelhagem de som e ele com uma guitarra  mandando ver.  Música ao vivo mesmo, a qualidade do som não é das melhores, mas o efeito é maravilhoso.
A Kombi passa e você continua se mexendo ainda, mas já vem outro som, este também ao vivo. O que será? De onde vêm estes acordes? Só ha uma carroça puxada por um cavalo se aproximando. Pois é, em cima dela, há um microfone e uma aparelhagem de som, e uma senhora vem cantando. É muita imaginação e coragem. Continue a balançar o seu esqueleto, faz bem. Beba água para não desidratar. O calor tá intenso, o suor escorre, mas o que em outro momento lhe daria uma sensação de nojo, parece agora ser de regojizo, pois você vai abraçar alguém que está tão suado quanto você, às vezes até mais. O abraço é intenso mesmo, e os suores se fundem: deve ser assim que a gente se impregna do outro aqui em Salvador no dia da lavagem. Deve ser por isso que não esquecemos quem encontramos neste dia, no meu caso "Isa" "Renato", "Neri", "Dorico", "Carlos Alfredo", muitos outros. Também encontramos antigos paqueras, que não vemos há anos e, regojize-se: "Você não mudou nada, a pessoa lembra até do seu nome". Porra velho! É bom demais, mesmo que você saiba que é uma deslavada mentira.
Um cara passa, certamente pagando alguma promessa, distribuindo fitinhas do Sr. do Bonfim, coloque a sua logo no braço, peça a alguém para te ajudar a amarrá-la no pulso esquerdo. Quando a pessoa tiver dando os nós, em número de três, vá fazendo os seus pedidos. Quando a fita cair do seu braço os pedidos serão atendidos. Cuidado que a fita pode ser de um material (sintético) difícil de partir. Não se avexe, um dia ela cai e o desejo, o pedido, acontece. Tenha fé, mas lembre-se que os sonhos têm de ser possíveis, não adianta pedir o impossível, nem Senhor do Bonfim pode ajudar quando queremos o impossível. 
Chegamos à Calçada, aceleramos o passo, alcançamos os "Mares", continuamos na nossa caminhada. Alguém grita seu nome, você ouve, mas tem muita gente e você não consegue identificar de onde veio o chamado. Se você for com alguém para o Bonfim, tente ficar junto, não se afaste muito, se isto acontecer só na colina se reencontrará. Quem freqüenta há muito a festa tem os seus macetes. Quando se perde do outro fica parado estrategicamente em um lugar esperando que o outro passe, às vezes dá certo, outras vezes só mesmo lá em cima.
Alguém lhe pega pelas costas, lhe carrega, você fica assustado, mas sabe que é alguém que te conhece. Mais abraços, mais um amigo, mais uma troca de suor e impregnação da amizade. Um outro (a) te olhe muito, chega mesmo a te acompanhar com o próprio corpo, você esta passando e a pessoa virando para te olhar. Você fica na dúvida se conhece ou não a pessoa, na dúvida não pare, mas que é bom é, Você foi notado (a) por alguém bem interessante.
 Esta chegando a Roma, esta bem próximo da Colina Sagrada.  Se quiser ver a lavagem perto da escadaria da igreja se apresse, caso contrário, quando você lá chegar já acabou tudo. 
Eu já não me esforço mais para chegar junto com as baianas, a emoção não me permite mais isto, fico tão arrepiada, choro tanto, que termino por ficar com a pressão baixa. Deixo isto para quem não conhece e que precisa pedir ao Senhor do Bonfim muitas coisas. Os meus pedidos, uma grande parte deles, já foram atendidos.Lógico que dei uma contribuição efetiva para que eles se realizassem, mas o dedinho do Sr. do Bonfim foi providencial.
Chegue à Colina, as escadarias já foram lavadas, as baianas já despejaram os seus vasos. A escadaria está cheirosa, só ela mesma.
Os outros cheiros, uma profusão deles, podem lhe dar mal estar, desde o suor forte dos participantes menos cuidados, ao dos banheiros químicos armados em muitos lugares. Fritura de acarajé, churrasquinho de gato, cerveja, peixe frito, muitos aromas que terminam por lhe dar um pouco de náusea, nada que lhe afaste da cerveja.
Pronto! Agora você vai parar um pouco. Tomar uma fresca, descansar. Sim! Estamos na frente do hospital Sagrada Família. Você, de um determinado ângulo, vê o mar, tanto de um lado quanto de outro. É incrível a beleza desta terra, ser soteropolitano é mesmo um privilégio, nascer na terra do Senhor do Bonfim é uma benção. Ter a oportunidade de olhar Salvador do alto da Sagrada Família é ser membro de um banquete celestial. Baiano tem de agradecer todos os dias, pela manhã, tarde, noite.
Tome uma cerveja bem gelada, arrisque-se num churrasquinho de gato. Veja as pessoas que estão no local. A intelectualidade não tem sexo, deve ser por isso que vai tanta "bicha" para ali. Não se preocupe, fique o tempo suficiente para que não fiquem muito bêbados e percam a noção e comecem a pensar que todos que ali estão são "alternativos", "liberados", sei lá mais o que.
Você está entre muitas pessoas conhecidas, suas e do mundo. Dê muitos abraços, o seu copo nunca estará vazio, todos querem brindar o reencontro com você. Se não reencontro, querem te agradar. Comigo é assim.
Quatro horas da tarde! Você começa a sentir fome, o churrasquinho só alivia e retarda um pouco a voracidade, mas é um lenitivo. Você precisa comer. Aí rapaz, vem outra grande parte da história: Você deixa a frente da Sagrada família, passa pela lateral do prédio, não se esquecendo de olhar bem para a esquerda para ver a Baía de Todos os Santos cá do alto. Nem vou te dizer até onde a vista alcança, você tem de vim ver isto ao vivo e a cores.
Mesmo com fome, com a barriga dando voltas, fique um pouco olhando esta maravilha, depois, ainda se balançando com os sons dos botecos e dos carros com fundo aberto, arrisque até um "aroxa" com alguém.(Marcus Oliva, Ticiano, Babú, ou quem estiver por perto). Tenho que te dizer que "arroxa ou arrocha" não sei bem, é um tipo de dança que temos aqui nesta terra de tantos sons.
Agora você vai virar à direta, depois, mais um pouquinho, à direita novamente. Tem muita gente esperando um lugar para entrar em um dos restaurantes do local. Não desista: é imperdível! Vagou uma mesa, entre: não chore! Apenas agradeça. Deus te privilegiou mesmo e o que você tá vendo não é uma miragem, é real, existe,é Salvador. Você vai pedir, se gostar, caranguejo, é uma especialidade deles. Feijoada de feijão verde, siri bóia. Coma tudo, não perca a oportunidade. Você vai agüentar, mas não perca de vista a "vista", mas se perca nela.
É outra coisa que não dá para descrever, só vendo, sentindo, percebendo, apreendendo. Só posso te dizer uma coisa. O Sr. do Bonfim permitiu que você chegasse até aqui, portanto, agradeça a ele cada momento vivido deste dia, que será inesquecível para você. Você jamais será o mesmo depois de tantas bênçãos recebidas.
No próximo ano, volte. Nós, baianos e o Sr. do Bonfim, estaremos aqui lhe aguardando para dividir, mais uma vez com você, toda esta felicidade que é ser baiano, ter a companhia do Sr. do Bonfim, ser soteropolitano!    

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