sábado, 8 de maio de 2010

Confissão


Todas as semanas no internato uma obrigação a ser cumprida: Confessar-se. O dia, acredito, era a quinta feira pela tarde. Os padres variavam de acordo com o colégio em que estivesse interna, a lengalenga era a mesma: fila em frente ao confessionário, um cubículo feito de madeira com duas laterais com umas gradezinhas trançadas da própria madeira. Nas laterais, uma tábua para o penitente pecador se ajoelhar e falar dos seus pecados.
Todos os confessionários eram iguais, a mesma estrutura, alguns só tinham um lado para ajoelhar, mas a gradinha era igual. Pela parte de dentro, onde o padre ficava, havia uma cortininha fina nessa grade, uma espécie de tela mais ou menos fina, que, acho, era para que o padre não visse a sua cara, e nem você a dele, também para diminuir a transmissão de vírus, ou ainda, quem sabe, esconder ou dificultar a visão de quem estava do lado de fora, para não se saber o que se estava a fazer ali dentro.
Quando estudei no São Raimundo o padre Capelão e responsável pelas almas do internato, acho que não só pelas almas, era o Padre José de tal, um belo espécime masculino, alto, bonito, com lábios carnudos, uma tentação para alma e corpo daquelas pobres coitadas que não precisavam de um representante de Cristo tão bonito assim. Fiz a minha primeira confissão com ele, porque tinha de fazer a primeira comunhão e a minha alma precisava estar purificada, livre de todos os pecados para receber Deus. Agora pense! Uma criança de oito ou nove anos precisar purificar a alma para receber Deus. O que passaria pela mente do sacana que estabeleceu uma condição desta para que uma criança recebesse Deus?
Admito até a necessidade de um confessor, não aquele do São Raimundo, pois aquilo não era propriamente uma pessoa indicada para perdoar os pecados, ele era uma causa para eles. Não acredito que as internas mais velhas e as próprias freiras não tivessem vontade de ter uma intimidade maior com aquele representante de Deus. Eu, que só tinha oito ou nove anos, achava-o lindo, aliás, ele continuou sendo, pois ainda o vi muitas vezes: Ele ficou famoso, chegou mesmo a ser Professor de Universitário, Reitor de uma Universidade na Bahia; pense as outras com idade suficiente para separar o joio do trigo e escolher bem as espigas.
Enfim, no dia da confissão uma fila enorme se formava nas laterais do confessionário. O padre atendia tanto de um lado quanto de outro, certamente para descansar os ouvidos, não cansar demais um deles.
Quando chegava a sua vez, detalhe: você tinha de estar de véu, não sei por que esta exigência, mas assim era: você se ajoelhava e começava a contar os seus “pecados”. O padre silencioso ficava aguardando você falar, e se você demorava, naturalmente com o pudor de contar seus segredos, ele com aquela voz horrível de padre, aquele “sussurro”, que odeio, aliás, na Bahia tem um político que deve ter sido, ao menos, seminarista, porque ele tem voz de padre, acho que por isso não voto nele, a voz me soa falsa, perguntava o que você tinha feito de errado. Ajoelhada, contrita, tinha que me lembrar o que tinha feito durante a semana que pudesse ser considerado pecado e que merecesse o perdão de Deus, que era comprado com a penitência ordenada pelo confessor.
Ah meu Deus! Eu que não tinha pecados à época rezei tantas Ave-Marias que não posso ouvir mais esta oração, Pai Nosso então! Cruz credo!!!! Fico imaginando quem pecava mesmo o que deveria fazer para se penitenciar. Os meus pecados, aquilo que eu considerava como tal, isto porque as freiras é que diziam que estava errado, eram: porrada nas colegas; xingamentos; esconder coisas; não cumprir as tarefas, pintanças que eram normais a todas as crianças naquela idade, mas que viravam pecado na hora da confissão e da penitência. Hoje acho que aquilo era uma maneira de fazer uma lavagem cerebral nas crianças para que elas tivessem comportamentos adequados e não dessem o mínimo trabalho as freiras.
No dia em que peguei a Rita pelos cabelos e bati a cabeça dela diversas vezes na parede, acho que se alguém não chegasse a tempo eu ia matá-la mesmo, passei a tarde toda na Igreja rezando não sei quantos terços, sem comer, sem beber água, sem fazer xixi, nada. O pecado tinha sido violento, pior seria se soubessem a causa: Bati na sacana porque ela me disse que a irmã Eutália, uma freirinha nova e bonitinha, de quem eu gostava muito até, era mais bonita que o Padre José: Me retei mesmo! Que ousadia daquela filha da puta dizer tamanha barbaridade. Acho que a minha preferência sexual se estabeleceu naquele dia. Se eu tivesse contando a causa, qual você acha que seria a penitência? E o pecado, qual seria: o de ter dado a porrada na colega ou o de “cobiçar o homem alheio”? Sim porque acho que se o mandamento é “Não cobiçar a mulher do próximo” é evidente que “cobiçar o homem da próxima”, lembre-se que as freiras eram esposas de Cristo e que o padre era o representante dele, deriva do mesmo dogma e, portanto, quem assim age peca, peca tanto que merece uma penitência a pão e água durante meses. Hoje, se ainda fosse assim, imagino quanto gente já estaria em reta final, definhando, esperando a morte chegar.
No Salette, o confessor era o capelão. Era um Cônego, não sei bem o que isto significa na hierarquia da Igreja, mas era assim que o chamavam, o Cônego fulano de tal, não lhe recordo o nome, acho que é porque não gostava mesmo dele. Usava uns óculos tão feio que eu achava que ele era um monstro, não sei por que fazia esta associação.
O confessionário ficava no fundo da Igreja e as internas faziam fila na lateral da igreja. A briga era para chegar a primeiro lugar, mesmo havendo aquelas divisões ridículas: primeiro as mais velhas, depois as que estavam em nível escolar mais avançado, depois o ginásio, e, no final a pirralhada, onde eu estava incluída. Só me safei quando comecei a trabalhar na portaria da escola, aí eu tinha alguns privilégios: tomar banho ao meio dia antes de todas; almoçar a comida das freiras, antes de todo mundo, o meu prato saia diretamente da cozinha, e, melhor que tudo, era passar na frente de todos no dia da confissão.
Os pecados continuaram os mesmos, mas ali eu já poderia contar coisas outras, estava mais velha e já tinha, literalmente, despertado para o sexo, o que era um pecado dos diabos, pense uma simples masturbação flagrada pelas freiras, uma merda total, caso até de expulsão. O que elas não sabiam, ou fingiam não saber, era a quantidade de casais que existiam dentro da escola entre as internas. Se contasse ao padre o que fazia abrigada pelas cobertas e pela escuridão do dormitório, certamente a penitência ia durar até hoje, e eu seria uma mulher frustrada, proibida de sentir prazer, como acho que deve ter acontecido a muitas das minhas colegas de internato.
Acreditem, paguei tantos pecados não pecados, que, se hoje peco, estou devidamente perdoada, e ainda tenho muito que pecar, porque a minha conta corrente com Deus, no que tange a penitência, está em crédito.