sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A herdeira de Garcia D'Ávila



Parece brincadeira; uma semana após  publicar o texto falando sobre a ausência e a possível morte definitiva do Senhor Garcia,  estou sozinha aqui em casa e  ouço algumas batidas fortes na porta; me aborreço porque a porra da porta tem campainha, e não posso entender  por que não  a acionam ao invés de bater na porta naquela violência.
Saio da sala apressada para ver quem era. Abro a porta tão violentamente quanto as batidas que lhe deram.Acreditem: ninguém, nadica de nada, nem um pé de gente, nem um carro, nem cavalo.
Cavalo! Já sei, disse para mim mesmo,  é o Senhor Garcia, entretanto, logo o pensamento passa, porque ele não se daria ao luxo de bater na porta, apenas entraria e pronto.
Volto irritada para dentro, e o susto foi grande.  Estavam sentados no sofá:  o Senhor Garcia, um outro senhor, que identifiquei como sendo o núncio do outro dia, e um menino feio como todos os meninos feios que existem.
O Senhor Garcia deu a maior gargalhada quando viu a minha reação. Eu estava mesmo apavorada, então o desgraçado estava ali se sentando com mais duas pessoas e eu não vira passar por mim. Desta vez não tive qualquer reação física. Todas as vezes que o senhor Garcia aparecia eu ficava arrepiada, trêmula, na verdade: com medo, mas, desta vez, eu não sentira nada e ele estava ali, sentadinho. Só me assustei bastante.
- Por que não fostes ao hospital[1] como pedi?
- Senhor Garcia, o senhor não iria entender o motivo, mas não foi possível sair daqui:  a viagem, como o senhor sabe, é longa, eu não tenho cavalo, etc. Parei de falar, porque me dei conta que estava falando e justificando como se estivesse no tempo dele. Disse para mim mesmo: “estás ficando maluca mulher, tu nem andas a cavalo kkkkkkkk!”
- Não sabes o esforço que estou a fazer para estar aqui. Sinto que estou a morrer e preciso ter forças para modificar o testamento que fiz anteriormente  beneficiando  aos padres do São Bento, eles não me deixaram em paz, tive de sair da minha  casa e ir para o hospital[2] para ver se eles me deixavam mais tranquilo, mas,  agora tenho de refazer o testamento  e,  como quero deixar-te algo, precisas dar-me o teu nome completo, e outras informações que possam identificar-te com facilidade. 
Trouxe o meu amigo para testemunhar isto. Este menino é meu Este é meu neto, Francisco, ele é que será o herdeiro de tudo o quanto construí, este filho da mãe, feio como todos os feios, que parece ter sido cagado ao invés de parido, mas não tenho outro herdeiro, portanto, ele é que, de mão beijada, vai receber tudo, entretanto, quero dar-te algo.
-Oh seu Garcia deixa isto de lado! Não vos preocupeis com isto.
- Todavia eu quero, portanto....
Neste exato momento me transportei para Lisboa, e me vi questionando o “portanto” dos portugueses. Eles falam, falam falam, e no final dizem: portanto, e eu fico a esperar a complementação, que nunca vem. O portanto, pois, é justificado antes, eu digo tudo o que quero e depois falo, portanto, kkkkk, é uma maneira bem engraçada de finalizar uma oratória., todavia, eu achava que isto era uma coisa mais moderna, e vem ali o senhor Garcia a me dizer exatamente a  palavra ”portanto”, mas com uma finalização mesmo:  vais ser  minha “herdeira”,  porque quero, portanto.... (ou seja) não há mais questionamentos e pronto, é o que quero.
Fiquei imaginando o que o senhor Garcia poderia deixar para mim.
Quase lendo o meu pensamento, ele disse-me:
- Deixar-te-ei este local em que vives.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk . Como é que é Senhor Garcia, vai deixar-me a minha própria casa?
- Sim, para que não venhas a ter problemas. Construístes ilegalmente nas minhas terras, todos sabem que estas terras são minhas, e para que os demais herdeiros não te possam tirar-te daqui, vou deixar-te estas terras
Eu não conseguia parar de rir mesmo, então vou ter direito ao que já é meu. Puta merda, o homem era doido mesmo, e eu mais de que ele que ainda lhe dava ouvidos.
-Senhor Garcia o que significa estas terras, além desta casa?
- Tudo, de Arembepe até a margem direita do Jacuípe.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, realmente não pude conter o riso. Pensei nos Figueredo, donos de muitas terras em Arembepe, nas minhas vizinhas laterais, Solange e Eliana, nos vizinhos do fundo, nos da frente, no Mar Aberto, em Colo, em Vu, em Duinha, Chris:. Kkkkk, tudo meu. Eu iria despejar todos das minhas terras.  A aldeia dos hippies, hoje tombada, enfim tudo em Arembepe agora, por vontade do Senhor Garcia, era meu. Eu que tive tanto trabalho para conseguir escriturar minha casa. Hilário mesmo!
Então   vi que o Senhor Garcia começou a ficar muito vermelho e muito aborrecido com a minha risada, e sem mais delongas levantou-se e saiu, deixando-me, mais uma vez, abruptamente e com a certeza de que ele não voltaria mais nunca. Ele ia morrer mesmo de uma vez e pronto, e eu ficaria sem as novidades, ou melhor, eu já não poderia conversar com ele, agora na minha vez de contar-lhe os acontecimentos “post mortem”.

BIBLIOGRAFIA
CALMON, Pedro.  História da Casa da Torre. Uma Dinastia de Pioneiros. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 3ª. Ed. 1983
MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto, O Feudo – A Casa da Torre de Garcia D’Ávila, da Conquista dos Sertões à Independência do Brasil.  RJ, 19ª ed   2000 (recurso eletrônico) acesso em 25.10,2019
RUSSEL -WOOD, A.J.R, Fidalgos e Filantropos. A Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755. Trad.  Sergio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981  



[1][1] A Santa Casa de Misericórdia foi fundada em Lisboa em 1498 e a “filial da Bahia era a mais importante do Brasil colonial (....)  A irmandade. Recrutava os seus membros dentre cidadãos eloquentes, fossem os aristocratas da terra, comerciantes ou artesãos proeminentes. RUSSEL-WOOD (1981:XIV-XV).  A Casa de Misericórdia de Lisboa em 1516 editou o Compromisso de Lisboa finalidades, espirituais e corporais, dentre os corporais estavam: resgatar cativos e visitar prisioneiros: tratar dos doentes; vestir os nus; alimentar famintos, dar de beber aos sedentos; abrigar os viajantes e pobres;  sepultar os mortos.(RUSSEL WOOD, 1981: 14-15). Obviamente o Senhor Garcia era membro da Santa Casa de Misericórdia, por seu um homem bom da cidade, rico, grande proprietário e poderia estar, como esteve internado na Instituição onde faleceu.   
[2] Segundo os autores que escreveram sobre Garcia D’Ávila, a exemplo de Pedro Calmon, Bandeira, dentre outros, Garcia D`Ávila foi tão incomodado pelos padres do São Bento, que para se livrar deste assédio foi para a Santa Casa de Misericórdia. “Envelhecera o grande lidador. Roçava os noventa anos, quando, importunado pelos frades bentos que queriam lhes deixasse parte dos bens, fugiu para a hospedaria do hospital da Misericórdia, e aí, a 18 de maio de 1609, ditou o testamento a Francisco de Oliveira, servindo de testemunhas o desembargador Baltazar Ferraz, o licenciado Gonçalo Homem de Almeida, irmão do lente de Coimbra, o cristão novo Antônio Homem, queimado pela Inquisição em 1624, o tabelião, ancestral( quem isso imaginaria na primeira década do século XVII!). da Casa que ombreará, em ambição e poder, com a Casa da Torre” (1983:34).   “Os monges que receberam de Catarina Álvares a doação da ermida de Nossa Senhora da Graça, bem como de uma vasta área ao redor e eram grandes proprietários de grandes extensões de terra na zona do rio Jaguaribe, nas imediações de Santo Amaro de Ipitanga e Itapoá, passaram, entretanto, a submeter Garcia D’Ávila já bastante enfermo nos últimos anos de sua vida, a crescente pressões a fim de força-lo a fazer mais  doações ao Mosteiro de São Bento (...) E o cerco dos beneditinos chegou a tal ponto que o poderoso Garcia D’Ávila, sentindo-se por eles coagido e impedido de dispor livremente dos seus bens, teve de ir “fugindo” de casa para  o hospital da Santa Casa de Misericórdia, a fim de que pudesse agir conforme sua consciência mandava. A indignação contra tal procedimento ele não escondeu. Manifestou-a, reiteradas vezes, ao ditar em 18 de maio de 1609 seu testamento(...) (2000:96-197)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Psicografando! Será?

Monsarraz - Alentejo Pt.

Era muito estranho, desde a última vez em que o Núncio do senhor Garcia esteve aqui em casa, não mais tive qualquer notícia dele. Ficava me perguntando: Será que ele morreu de uma vez? Sim, porque ele  no tempo certo, e segundo a historia oficial, o senhor Garcia falecera no mês de maio; assim, como o Núncio aqui esteve em maio, me dizendo que o senhor Garcia queria falar comigo lá no hospital da Santa Casa,  penso eu definitivamente ele se foi e que  não mais vai aparecer.
Também, se apareceu não conseguiu me encontrar, estive viajando por quase um mês inteiro, e ele com exceção de só uma vez no trem em Lisboa indo para Cascais, ele só me aparecia lá m casa em Arembepe.
Em Portugal pensei muitas vezes nele, mas nada aconteceu. Um dia indo para a casa da Vera lá em Oeiras, vi uma loja com um anuncio de leitura de TARÔ. Me interessei e entrei na loja, e marquei a consulta com a taralóga para o dia seguinte; No dia  da consulta cheguei e lá havia uma senhora bem bonita, não sei porque, não entendo bem, estava ela toda de preto,  vestia uma roupa que eu não conseguia definir muito bem, parecia uma dama antiga  vestindo preto, um odelo de roupa de pessoas de outro século, no de saraus, de castelos, enfim, a mulher era bem diferente.
Pediu-me que dissesse a minha data de nascimento e a hora do meu nascimento, disse-lhe, daí ela já me falou uma série de coisas, inclusive que eu tinha uma mediunidade extraordinária e que eu tinha capacidade de cura pelas mãos.  Como é a quarta ou quinta vez que ouço isto, penso que daqui para frente vou tentar desenvolver isto. Entretanto, isto não foi o interessante da minha consulta.  Ela continuou e acabou de me dizer algumas coisas que via nas cartas, umas boas e outras más, e perguntou-me se eu queria saber alguma coisa especifica: falei-lhe que queria publicar um livro, e seu eu conseguir isto.
Antes de abrir o baralho ela me perguntou sobre o que seria o livro que eu queria publicar.  Falei que era sobre a história da Bahia no período colonial, bem lá nos primórdios do descobrimento e colonização.  Também falei mais ou menos como seria a metodologia que iria aplicar.  Dito isto ela jogou as cartas e me disse claramente: “sim você vai publicar o livro, mas quem será o autor?”  Obviamente que serei eu, respondi.  Aí ela argumentou: “Você!!!!! E o espirito que lhe informa  os fatos, os acontecimentos?”  Fiquei olhando para a mulher, devo ter feito uma cara completamente idiota, porque ela  falou:  “Se estás a psicografar O autor do livro é o espirito e não você”.
Minha cara deve ter piorado mais ainda: “Que espirito o que?  Ninguém me aparece não, eu criei este personagem(espiritual) embora ele realmente tivesse existido e sido tão importante na história da Bahia, mas nunca o vi, e os fatos que narro são frutos de pesquisa minuciosa, leituras, etc.”.
E ela insiste: “Estás enganada,  este homem sobre o qual escreve, é que lhe conta  a sua própria história, e portanto você é somente um conduto, um elo de ligação dele, entre o mundo dos espíritos  e a terra.”
Não pude deixar de rir, estava achando aquilo bem engraçado. Então eu faço força e o Senhor Garcia acha bonito. Imaginei a cara dele rindo de mim, e me provando que ele era o poderoso mesmo, mas eu tinha a certeza absoluta que a taróloga  entrou numa wiber  que  eu não entendia, ou não queria entender, até porque aquilo não era mesmo verdade.  O Senhor Garcia, apesar de um personagem que eu não posso dizer fictício, tivesse existido mesmo, eu não   me vejo vendo-o em sua forma etérea e a ouvir ele descrevendo os fatos.

Com a afirmação de que conseguiria publicar o livro, com grandes novidades que provocariam polemicas, pois  eu falaria de coisas que o Senhor Garcia sabia, e só ele sabia, e nada disso poderia ser comprovado através de documentos, o que significaria uma série de questionamentos e poucas respostas para eles, deixei o local  e saí  ladeira acima, voltando para casa da  Vera e pensando  em tudo aquilo que ouvira.
A esta altura eu já estava mesmo querendo que, o que a mulher falou, se tornasse realidade.  Já pensou eu falar diretamente com o senhor Garcia e ter informações de, minimamente, sessenta e poucos anos de história da Bahia, e não só dela? Saber de fatos e acontecimentos   que somente eu, euzinha, saberia, contados pelo próprio senhor da Torre.  Ah! Seria bom demais!
Voltei de Portugal e estou aqui, mas nada acontece, o Senhor Garcia não aparece, e acho que não vai mais aparecer, MORREU, literalmente morreu e levou o seu espirito que vagava  por suas  terras e invadindo o que ele achava ser ainda seu, a exemplo da minha casa, onde ele chegava sem qualquer cerimônia.
Estava realmente com saudade de exercitar a minha imaginação e conversar mais com o Senhor da Torre, mas parece que não vai ser ainda hoje, vou ter de aguardar às ordens do dito senhor, ou então, ir em alguma sessão espírita para ver se o trago de volta.
            

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Muito cristalino





Acordei, tudo claro, mas a claridade era muito diferente, um claro muito alvo. As paredes brancas pareciam querer sair do lugar, pareciam ter movimento. O branco delas parecia iluminado. Estranhei aquela claridade, pois não é que todas as manhãs  a rotina era igualzinha: saia do quarto, ia até o fundo da casa, pegava a roupa da andada, vestia a roupa, vinha calçar o tênis, fazia o alongamento fajuto e lá me ia caminhar, sem nunca ter notado este brilho, esta iluminação, este branco tão branco.
Na caminhada, me parecia que o verde das folhas das árvores era mais verde, o azul do céu mais azul, as cores todas que se mostravam eram mais nítidas. E as pessoas: Ah as pessoas! estas pareciam que estavam   coradas, a pele viçosa, os dentes mais brancos. Até o homem de cor foveira que levava o seu cachorro lindo, sim o cachorro era lindo, todo branco como tudo que é branco, de uma luminosidade sem precedentes, parecia que tinha passado algum tipo de óleo no corpo, porque ele também brilhava.
Pensei comigo: será que sonhei com alguma coisa boa? Tive sexo esta noite? Sorri deste pensamento, pois sexo para mim já virou artigo de primeira, não é acessível kkkkkk. Bom se não sonhei com nada bom, se não tive sexo; por que esta visão tão fantástica de tudo e todos?
Não conseguia responder a estas perguntas, e fui tentando fazer um exercício de memória: O que fiz nestes últimos dias? Quais as notícias boas que tive nessa última semana? Quem eu encontrei? Ia tentando lembrar-me de tudo, pois realmente queria uma justificativa para tanta luz, tanta claridade, tanto brilho. Eu realmente estava impressionada com tanta nitidez das coisas, dos bichos, das pessoas.
Pensei e repensei, mas não encontrava mesmo uma resposta para isto. Dei as minhas cinco costumeiras voltas, cumprimentando as minhas amigas domésticas, que como eu, acordam cedo para chegarem ao trabalho a tempo de servir o café da manhã dos patrões. Bem verdade que não faço isto, até porque o patrão daqui toma o seu iogurte e come a banana, quando muito, e, aliás, eu não tenho mesmo nenhuma vontade de fazer nada para ninguém, quanto pior pela manhã.
Vi a negona: a ela parecia mais negona hoje. Fiquei olhando para a pele daquela mulher, feia como todas as feias, não porque era negra, mas porque ela era feia mesmo, Vi com mais nitidez as pernas tortas, o beiço grande, o nariz esparrachado no meio da cara, Tudo isto emoldurado por um cabelo  destes que você emenda no seu próprio e fica aquela cabeleira enorme, mas que você percebe nitidamente que  não é natural. Recordei do dia em que a negona, ainda não tão nítida, mas sem poder esconder a sua feiura, falou comigo com a voz tenebrosa que tem: a miséria fala alto  demais, ouço tudo que ela fala no telefone quando está sentada na cadeira sem uma perna lá na porta da maloca onde ela reside. Ah tenho que dizer que ela é segurança e que trabalha à noite: quando esta é a razão de encontrá-la todas as manhãs, quando está chegando do trabalho.  Pois bem, a negona vira para mim um certo dia e me diz algo referente à idade, dizendo que “que a gente (eu e ela) não nos trocamos por nenhuma dessas meninas”. Dei risada para cacete.  E ela continuava a falar, “eu, com 45 não me troco mesmo por nenhuma menina desta”, eu só fazia rir e então lhe disse: Venha cá, quantos anos você acha que tenho? Relutante ela disse: uns cinquenta e cinco!  Ri mais ainda, e quando falei em 65 anos, a negona disse que não acreditava de maneira alguma, e se eu tivesse mesmo esta idade, ela queria chegar nela assim como eu. Não parei de rir hora nenhuma depois desta conversa, pois não podia imaginar aquela senhora com a minha idade. A mulher já era toda desengonçada aos 45, imagina com mais vinte anos nas costas?  Continuei rindo muito ao lembrar disto, e então vi uma outra amiga que com um riso lindo me do bom dia todos as manhãs. Sempre achei que ela tinha uma barriga enorme para o tamanho dela, mas hoje, especialmente hoje, me pareceu que a barriga era maior do que a de antes, uma bola toda fortinha, mas uma bola grande, o que de nenhum maneira apagou  ou apaga o belo sorriso e a felicidade do bom dia daquela moça desconhecida que me brinda com o seu sorriso todas as manhãs.
Bom, continuei andando e já na última volta, continuo me questionando de qual o motivo de tudo aquilo? Passei a mão no rosto, sabia que não estava de óculos, pois não vou andar de óculos, e, nesta passada de mão no rosto foi que lembrei: o motivo de tanta nitidez, abestada, é a operação de catarata que você fez.
Acreditem, é real, e olhe que eu só fiz em um olho, estou esperando grana para fazer o outro: a claridade, a nitidez, a iluminação são completamente diferentes. Sorri, fui para casa e já me acostumei com esta claridade e nitidez, que eu achava que vinha da alma, mas que era apenas o cristalino do meu olho  direito que voltou a ter as suas funções normais; mas bem que eu gostaria que outros fossem os motivos: talvez um dia, quem sabe!.   

terça-feira, 18 de junho de 2019

Emoção igual -Mais uma vez de volta


Estou excitadíssima, o dia da viagem está chegando e eu já não sei controlar a minha ansiedade, misto dela com emoção. Depois de mais de um ano estou voltando à Portugal. É simplesmente fantástico. Estou idealizando cada passo. A Vera hoje mora em Oeiras e, por isto, tenho o privilégio de pegar o Comboio que sempre me levou a Cascais, antes entrava trava no comboio pelo simples prazer de ir de Lisboa a Cascais pela linha, como eles chamam o caminho de ferro que liga as duas cidades. Agora, obrigatoriamente, para chegar em casa, tenho de fazê-lo, mas o faço com um prazer enorme. Alie-se a isto a possibilidade de ver o Alentejo, Sinto até frio na espinha, dá um arrepio danado.
Casa do Alentejo -Lisboa
Primeiro de tudo é chegar na estação do Cais do Sodré, tomar umas imperiais ali em um dos quiosques ou um bar. Pena que o antigo restaurante fechou, ali onde eu conheci uma senhora português, que, apesar dos seus setenta e lá vai anos, ainda era uma garçonete, ou melhor, uma empregada de mesa.  Gostava de ver aquela senhora a andar pelas mesas servindo um e outro. Não entendia direito porque naquela idade ainda o fazia, mas acredito que depois de tanto tempo ali na lida, ela não tinha muito o que fazer em casa. A velhota foi com os meus cornos, aliás, no dia em que conseguiu falar comigo, olhe que ela tentava, disse-me: Que ficava olhando para mim ali sozinha, tomando meus whiskies, pagando a minha conta, e saindo para voltar no outro dia.
Torre de Belem
Uma vez disse-me que me admirava porque eu era uma brasileira diferente. Segundo ela dificilmente uma brasileira estaria ali sozinha e pagava as suas próprias contas. Não entrei em muitos detalhes, não ia dar corda para ela falar mal de brasileira, mas, dali em diante, ela parecia que me esperava. Se passasse alguns dias sem lá ir, muitas perguntas: A menina está bem? Aconteceu alguma coisa?
Sim, tenho saudades disto e de tantas outras coisas. Do português bigodudo, que tinha olhar do homem do fado da Amália, era engraçado, todas as vezes que o encontrava vinha-me à cabeça a figura do fadista da Amália Rodrigues. Ah como lembro-me da Mouraria!  não somente por causa do fado, mas porque ali vivi momentos intensos de felicidade. Vi a reinauguração da praça Martim Moniz ao lado do meu querido alentejano. Quantas e quantas vezes atravessei aquela praça: inúmeras.  Como era bom entrar na Rua da Palma, talvez procurando exatamente o fadista  da Amália, mas, se nunca o encontrei, a Rua me presenteou com uma outra figura, esta  mais real e palpável, que entrou no meu coração e nele se grudou e parece-me que para sempre, porque por mais que a distância seja oceânica, o mar não consegue apagar tantas lembranças, tantas coisas boas vividas com tanta intensidade.
Praça Martim Moniz
Élvas

Ah Nossa Senhora da Saúde! A igrejinha pequenina ponto de referência para tantos encontros e tantas observações. No ano passado quando lá estive, tomei tanto vinho ouvindo a Raquel, salvo engano, Tavares, cantando Roberto Carlos, que já sai grogue dali, ainda fui para o Zé da Mouraria. É verdade que não comi o bacalhau, já não tinha mais, a Vera esqueceu de fazer a reserva esclarecendo que queríamos o bacalhau, mas, ainda assim, provei do dito cujo, pois diante de tantas queixas e de tantos pedidos ao  empregado de mesa para me dar alguma sobre de algum prato, acreditem que foi verdade, um gentil e alegre brasileiro que estava ao meu lado, deu-me um porção do dele. Agradeci imenso,
Pois é, lembro-me de tantas coisas que aconteceram em Portugal: Uma vez estava eu passando pela frente da estação de ferro do cais do Sodré e a florista disse: “pois não é que a puta está linda hoje”. Primeiro achei estranho que aquele comentário fosse feito sobre mim e para mim, mas foi sim, não havia qualquer pessoa(mulher) passando à frente da florista. Estava eu toda de azul, e o azul cai-me bem, sei disso. Só não sabia que a mulher me observava e que achava que eu era “puta”, mas vá lá: valeu o elogio, kkkkkk.
De outra feita, recordo-me que andava pela serra de Carnaxide, onde a Vera morava na época e eu também ,pois morava com ela, e um carro parou; eu, solicita, porque sempre que estava ali a caminhar(exercício) dava informações sobre o Hospital Santa Maria, parei e esperei ao homem abrir o vidro do carro, pois não é que o desgraçado perguntou-me – “Estas a serviço?. Puta merda! Quando, em alguns segundos a ficha caiu, quase viro mesmo uma rameira: mandei o homem a porra e outros impropérios mais. Acreditem que foi verdade mesmo.
Mais as coisas não pararam por aí. Uma vez tomei um taxi, e não sei porque  a conversa com o taxista chegou a um ponto em que eu falei algo, tipo: “Não, eu já passei da idade de fazer muitas coisas, acho que o senhor estava a falar em festas, procurando uma maneira de me dizer alguma piada, com certeza, E o sacana me vem com esta: “ Que velha o que, a menina ainda dá muitas voltas”.  Não sei bem o que ele quis dizer com as “muitas voltas            , mas certamente significava alguma sacanagem.
Sim, mas estou mesmo com saudades, muitas, mesmo sabendo da curiosidade dos lusitanos e do que eles pensam a respeito das brasileiras.  Eu tirei de letra, mas é muito chato, entretanto isto não retira e nem arrefece a minha paixão por esse país, cheio de lugares, lugarejos, lugarezinhos, onde você entra e sai pela mesma rua onde entrou. Todos lhe reservando uma surpresa, uma emoção diferente.
Coimbra
Grandes cidades como Braga, Coimbra, Guimarães, Viana do Castelo, somente depois que comecei a estudar Garcia D’Ávila e em consequência a história da Bahia, vim entender a minha atração por Viana do Castelo. Pois não é que o Caramuru era de lá? Aliás, tantos e tantos portugueses que para cá vieram, e não só para cá, quanto para África, Índia, alhures, saiam de Viana, não porque de lá fossem, mas porque era um centro de navegação, onde se aprendia a navegar, continuam a fazer navios por lá.
Agora quero ir em Rates, vou fazer de tudo para lá ir.  Já fiquei sacaneada, pois vi que aconteceu, ou vai acontecer uma grande homenagem à Thomé de Souza que de lá era, e as datas não coincidem. Uma pena, pois gostaria muito de participar dessa homenagem. Aliás, será que o Senhor da Torre não me aparecia por lá? Seria bem engraçado! Será que ele me confirmaria que o Thomé de Sousa era mesmo seu pai?  Pois o Garcia D´Ávila também era de lá, tanto que inspirou-se em uma torre de Rates, para fazer a sua em Tatuapara. É o que dizem os historiadores que estudam o Senhor
Igreja em Rates
da Torre.
Sim, gostaria muito de fazer muitas coisas em Portugal, uma delas, com certeza ainda farei, desde que a Vera me suporte, embora agora esteja mais difícil, a casa ficou mais pequenina, passarei uns três meses pesquisando a Bahia colonial, mas aquela dos primórdios mesmo, não sei o que vou encontrar, porque  documentos do século XVI e a respeito do que que quero são escassos, mas ainda assim tentarei. Quero falar dos governadores e das suas devassas, entendendo como devassas uma inspeção que deveria ser feita quando eles retornavam a Lisboa, ou melhor, deixavam de ser governadores e eram substituídos. Normalmente estas devassas eram feitas por quem estava chegando. Vamos ver o que achamos. Preciso de tempo e dinheiro para fazer esta pesquisa, morarei por algum tempo na Torre do Tombo e no AHU, mas sei que vai valer a pena, e, como os meus sonhos, de uma maneira ou de outra, se tornam realidade, sei que farei isto.
Ai, enquanto faço esta pesquisa, e como não sou de ferro, outras paragens: vou conhecer mais lugares, lugarejos, lugarzinhos. Oxalá tenha um motorista particular, se não tiver, sem problema, transporte público é o eu não falta, e irei andar por aquele país e ter mais emoções, mais aprendizado, mais espaço no meu coração para o amor.
Tejo
Até breve, meu querido Pais. Até muito breve amado Tejo, vista a seu pijama de prata para me esperar e vamos, nós dois, olhar a nossa querida Lisboa, e quem sabe, oxalá ainda possa cantar, em alguma noite nos bons arraiais da cidade. “Um craveiro, numa água furtada, cheira bem, cheira a Lisboa, uma rosa a florir na tapada, cheira bem, cheira a Lisboa..., cheira bem, cheira a Lisboa, cheiram bem, porque são de Lisboa, Lisboa tem cheiro de flores e de mar”
Saudades!     

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Garcia D'Ávila XXII -Um núncio nada amistoso


Chovera a noite toda. A Rua da Gloria estava, mais uma vez, alagada. Olhei do portão e a rua parecia um rio, peixinhos passavam pela água barrenta, a água já estava a meio palmo do portão. Da minha casa   A rampa da garagem já estava toda coberta de água. Uma lástima. A rua estava deserta, evidentemente que ninguém podia sair das suas casas. Pensei na pobre da Christiani, certamente a casa dela já tinha alagado, fica na parte mais baixa da rua e a menor chuva enche tudo.  De repente pareceu-me ver alguns cavalos entrando na rua, digo para mim mesmo,” que coisa estranha. A rua toda alagada e gente andando (nadando) a cavalo !” Deduzi que os cavalos poderiam passar pela água, então alguém estava vindo ajudar os que não podiam sair de casa.
Fecho o portão e entro em casa, que continua toda fechada. Os vidros embaçados, pois a junção da chuva e do salitre não é boa.  Fico deitada na sala e pego um livro para ler. Não podia fazer absolutamente nada, nem mesmo ficar na varanda, pois a chuva forte de açoite molhava tudo. Mal começo a minha leitura, o tratado sobre o Brasil de  Frei Vicente do Salvador ouço batidas fortes no portão. Pensei logo em Christiani, e sequer lembrei da chuva e sai correndo para abrir o portão. Surpresa!  Três  homens montados em cavalos  estavam à minha porta. Tomo um baita susto. Até porque eles eram muito estranhos, vestidos com roupas diferentes, chapéus diferentes, e não pareciam estar molhados.
- Quem são vocês?
Um deles, tirando o chapéu responde:
-Sou Manoel Pereira Gago,  procurador da Casa da Torre e amigo  de Garcia D`Ávila.
- Quem?
Não acreditei no que ouvia. Outro  morto para me sacanear. Assim eu não aguento, falei para mim mesma. Esta casa vai virar um anexo de Tatuapara, ou da Igreja da Sé, onde Garcia DÁvila foi enterrado.
Pensei em fechar o portão dar meia volta e entrar em casa outra vez. Mas de que adiantaria? O tal do Manoel Pereira Gago entraria de qualquer forma, ele, os outros dois homens, seus cavalos,  todos  eram espíritos e passariam pelo muro, portão, enfim, entrariam de qualquer maneira, ai resolvi rapidamente  enfrentar a situação.  A chuva, entretanto, continuava, eu me molhando toda, tinha que voltar para a varanda. Os homens continuavam como se aquele temporal não estivesse acontecendo. Por outro lado, era muito interessante não tratar mal o Senhor  Gago, afinal ele poderia ser uma grande fonte de informações, caso o senhor Garcia não aparecesse mais. O homem era procurador da Casa da Torre e foi o tutor do neto do Garcia D´ávila, além de tutor virou sogro, enfim, aquele senhor era um poço sem fundo de conhecimento sobre os Garcia D´Ávila.
- Sim, Senhor Manoel. O sr disse que é amigo do Senhor Garcia D´Ávila. Onde ele está? Faz tempo que não aparece.
- Exatamente por este motivo que aqui estou. O Garcia está muito doente, está lá no Hospital da Misericórdia e pediu-me par te vim buscar.
- Me buscar? Para que? Para levar-me onde?
- Ah minha jovem, ainda não tenho o dom da adivinhação. Apenas sou amigo dele, e lhe quero fazer o que pode ser a sua última vontade.
-Senti um calafrio no corpo. Puta merda. O senhor Garcia não podia fazer isto comigo. Será mesmo que ele deixaria de me fazer visitas? Será que iria aceitar a sua morte mesmo, e não mais viria conversar comigo? Quem então iria me falar de coisas da Bahia colonial, de acontecimentos histórico importantes?  De coisas pitorescas? Acho que fiquei tão atônita, que o homem perguntou-me:
-Estas pálida, Sentes-te bem? E de um salto desceu do cavalo e eu senti sua mão forte a pegar no meu braço, para evitar que eu caísse.
-Estou bem sim. Mas o que aconteceu com o Se Garcia?
- O Garcia  está muito fraco e  para não ficar aqui em Tatuapara aguentando, inclusive a pressão dos padres beneditinos, foi ter à Misericórdia e  pede que a menina vá lá ter. consigo
- Como vou sair desta, penso eu? O Senhor não está a ver como está a rua, não posso sair daqui agora.
- Que tem a rua?
-Não vês que a rua está alagada?
-Alagada? Estás a brincar?
Meu Deus! O que faço agora.  Como me sair desta?
- Infelizmente não vos posso acompanhar. Diga ao senhor Garcia que assim que a água baixar vou ter com ele, todavia, hoje é impossível.
O Senhor Manoel Pereira Gago, que de gago não tinha nada, quase vociferou;   achei que ia me bater, mas  montou no cavalo e partiu com os seus dois acompanhantes. Acho que o Senhor Garcia mandou que ele me tratasse bem
Voltei para dentro de casa, e de imediato fui procurar ver no computador  quem era este homem que se dizia amigo de Garcia D´Ávila, e na verdade, o que estava acontecendo mesmo com o Senhor Garcia.
Coloco no google o nome – MANOEL PEREIRZ GAGO, descubro uma série de coisas: uma delas, a mais importante: é que fora escolhido pelo Garcia D´Ávila como tutor do seu neto. Fiquei realmente desesperada. Então o senhor Garcia, quase como uma despedida, mandava me avisar da sua morte e do seu desejo de falar comigo, talvez pela última vez? Entretanto, como as coisas estavam eu não podia sair de casa. Este último pensamento me deixou incrédula. Estás doida mulher? Então ias fazer o que? Ir na Santa Casa de Misericórdia? Ias lá procurar por GARCIA D’ÁVILA ? As pessoas iam te levar diretamente para uma casa de “loucos”. O pior é que pensei mesmo nisto. O que eu poderia fazer? Nada, então decidi ficar na sala lendo mais coisas sobre o Pereira Gago e a sua amizade com o Garcia D´Ávila.
Evidentemente que eu sabia que o Pereira Gago fora  nomeado tutor de Francisco  Garcia D´Ávila, só não sabia o seu nome completo, e fui para os livros de testamento  do São Bento e tentar tirar mais informações; por outro lado, já ia pensando na perspectiva de que o senhor Garcia me deixasse e também falasse do seu neto, Francisco Dias D´Ávila, o filho de Isabel com um dos filhos do velho Caramuru, o que uniu as duas famílias das mais poderosas da Bahia..
Intrigada mesmo com a aparição de outro personagem histórico, queria logo saber por que o homem fora escolhido e a ligação entre os dois, Garcia e o Gago. Também me fazia espécie que tudo isto estava acontecendo no dia 20 de maio, segundo historiadores, o dia da morte do Garcia D`Ávila há quatrocentos e setenta anos atrás.
Dizia para mim mesma: A minha ligação com este homem é mesmo muito forte. Será que ele era meu parente mesmo, afinal ele tinha Garcia, meu pai tinha Garcia, toda a minha família galega tinha Garcia, eu e meus irmãos não o tínhamos por erro de cartório.
Achei o testamento[1] e recomeço a lê-lo com toda a atenção possível, já o lera antes, mas agora com o recado da morte próxima do Senhor da Torre e da visita do seu amigo e tutor do neto, tinha de fazê-lo criteriosamente. Certamente as entrelinhas do documento ia me mostrar alguma coisa, que não percebera antes. O que mais me intrigava mesmo, era o fato do de que o que fora escolhido tutor era das bandas de Porto Seguro. 
Não, o testamento não acrescentara muita coisa, mas relembrei o quanto o senhor Garcia estava aborrecido com os Padres do São Bento. Segundo ele os padres fizeram com que ele assinasse  uma doação de muitas terras para eles, mas, em disposição de última vontade ele anulou todas as doações feitas, fez  o seu neto seu maior herdeiro.
Fiquei mesmo preocupada, o fato do Senhor Garcia morrer não me incomodava muito, ele já estava morto mesmo, mas a perspectiva de não vê-lo mais, pois se acaso ele aceitasse a morte nesse momento, todos os meus planos iam para o beléleu, entretanto, nisto tudo havia uma esperança, a de que, caso o Sr da Torre não aparecesse mais, o Sr Pereira Gago podia, muito bem substituí-lo, e aí seria ótimo, porque o a lacuna deixada pelo Senhor da Torre seria preenchida, e não só, agora eu saberia do Francisco Dias D’Ávila, o neto, sobre o qual o Senhor Garcia sempre se recusou a falar.
Com esta esperança fico aguardando  nova visita, seja de um, seja de outro. fico aguardando um peguei no sono.






[1] Livro II Tombo do Mosteiro de São Bento, p 284


domingo, 14 de abril de 2019

Como teria sido?


Acordei cedo e fui andar, claro que sonhei muito, este é o meu momento de sonhar, o sonho, entretanto, e quase sempre o mesmo, arrumar dinheiro para colocar todos da minha família bem, inclusive a mim, e mais algumas pessoas ao meu derredor. Gosto de sonhar isto, fico rica porque tiro na loteria, divido o dinheiro, enfim faço planos. Há dias que o sonho é mais modesto e fico pensando quando o TRT vai pagar as minhas diferenças e o que vai dar para fazer com ela.  Gosto mesmo destes momentos, mas tenho de voltar para casa e aí os sonhos acabam e eu vejo a minha realidade.
Estou lavando os banheiros da casa, porque, para variar, estavam aqui ontem algumas pessoas que usaram os dois banheiros e eu os tenho de lavar, caso contrário o xixi de cachaça impregna e aí é duro para tirar este odor horrível de xixi. Neste exato momento recordo-me dos meus quatorze quinze anos, cheios de revolta, mas também cheios de esperanças. Morava em uma baixada no Engenho Velho da Federação, não gostava daquele lugar, realmente não gostava, principalmente em dias de chuva e nos finais de semana. Nos dias de chuva porque era terrível descer a escadaria com a enxurrada, nos finais de semana porque tinha de ficar dentro de casa, não se tinha dinheiro para nada.  Ficávamos em casa procurando passar o tempo com nada, aguardando meu pai chegar bêbado junto com os seus amigos mais bêbados de que ele, quando não já estavam lá em casa desde muito cedo.
Porra! Por que diabos vou lembrar disto.  Não seria melhor lembrar de alguma coisa boa?  Namorados foi o que veio à mente.  Aí me perguntei: O que teria sido a minha vida se eu tivesse me casado com o meu primeiro namorado? Kkkkkkkkkkk. Meu Deus, o que seria minha vida? Certamente estaria lavando o banheiro único da casa mínima, com certeza no Engenho velho da federação ou adjacências. Será que teria me formado? Penso que sim, porque eu nunca gostei daquela vida. Todavia seria um horror mesmo. Graças a Deus a coisa acabou como começou, nem senti, nem vou falar em desgaste de relacionamento, nem deu tempo. Quando percebi, aos quatorze ou quinze, já nem me lembro, o quão obtuso era o rapaz, lento de raciocínio e outros defeitos imperdoáveis, acabou-se. Lembrar que o rapaz era bem bonitinho, um corpo sarado devido ao football, mas além do raciocínio lento, tinha um outro defeito, este mais aparente, tinha dente de ouro: kkkkkkkkkkkk, gente namorei um rapaz que tinha dente de ouro!  Tá doida mulher! Como teve coragem?  Fiquei pensando nisto, e ai lembrei que não era só ele que tinha um dente de ouro, a família dele inteira tinha, pai, mãe e irmã.  Seria isso um sinal de riqueza e eu não percebi?  Jejus é mais!. Sim, e ainda estaria ligada à contravenção. Vixe Maria!
Continuei limpando coisas: lavando panelas, pratos, copos, arrumando coisas, colocando outras nos seus devidos lugares, enfim, (domesticando) ou para que fique claro, fazendo os serviços domésticos. Limpando o fogão lembrei de um grande e, efetivamente, ´primeiro amor. Lindo, alto, bonito, disputado. Eu o conheci em uma festa de Sto. Antônio, nessas novenas que se rezam nas casas. Era a noite dos jovens e lá fui eu e minha irmã, Minha mãe nos deixou ir, porque todos do grupo jovem iam e era na casa de um pai de santokkkkkk, viu que sempre estive ligada.  Sim, lá conheci este belo exemplar de macho.Que sensações meu Deus, como é bom se saber poderosa, como é bom despertar o desejo do outro. Apesar de não termos feito sexo, afinal  havia respeito à algumas  normas àquela época, foi quem me despertou, literalmente para ele. Os amassos, os beijos calorosos, as pegadas dali e daqui. A excitação sentida em todos os poros e além deles! Ah como foi bom! Todavia, o safado além de lindo era muito descarado e mulherengo. Namoramos um bom tempo, aliás hoje diria eu que ficamos durante uns três ou quatro anos. Era o titular da área, como viajava muito e sem termos maiores compromissos, ele fazia a parte dele e eu a minha, mas quando ele chegava em salvador acabavam-se todos os namoros, afastados todos os pretendentes.  Sim, mas isto agora não vem ao caso e eu pergunto: Como teria sido a minha vida caso tivesse casado com este homem?  Resposta imediata: estaríamos separados, com certeza em um par de anos, eu não ia aguentar a safadeza do sem vergonha, ia ficar muito desengonçada com os chifres que iam nascer. Se se tivesse ficado, entretanto, hoje estaria viúva e recebendo uma pensão como esposa de um policial rodoviário. Puta merda, que lembrança.
Continuo na minha lida. Apesar da chuva tenho de molhar algumas plantas que ficam na área coberta. Vou adiante na minha volta ao passado e lembro de um cidadão que tinha 36,37 anos, enquanto eu só tinha 16 ou 17.  O homem ensandeceu por minha pessoa, eu não tinha grande afinidade, mas ia levando este namoro adiante, acho que por muita comodidade. Afinal este, à época, senhor, tinha carro, estudava no mesmo colégio que eu, e nos dava carona todas as noites em que ia par aula, sim porque como trabalhava de turno em Mataripe, não ia para a aula todos os dias. Ah Meu Deus! O que teria sido a minha vida com este senhor. Primeiro a diferença de idade ia ser um empecilho sempre. Eu cheia de sonhos, ele cheios de realizações já alcançadas e sem   querer muita coisa do futuro, a não ser ter uma esposa “linda”, que seria eu, filhos, uma casa (que já tinha) e vive aquela vidinha  até a aposentadoria. Olhe que este cidadão nem sequer bebia. Era um velho novo mesmo, muito responsável, muito amoroso, mas eu não ia suportar essa vidinha. Eu queria muito, queria ser doutora, trabalhar, viajar, viver. Certamente, seria mais um caso de separação rápida. Tão rápida que aconteceu antes mesmo do casamento, pois quando do  ele chamou meu pai e minha mãe para mostrar a casa que tinha comprado em um conjunto para funcionários da Petrobras em Stiep, casa com “suíte” e tudo, eu falei para mim mesmo, tá na hora de sair dessa história, e foi o que fiz. Acabei com o negócio todo.  Quem mais teria eu para lembrar?
 Ninguém, pois o que veio depois disto foi um casamento fracassado, e um outro que sempre anda na corda bamba. Realizei todos os meus sonhos, sem dúvida que os realizei todos. Os que ainda tenho   vou realiza-los, ah disto tenho certeza. Mas fico aqui lavando meus banheiros, fazendo minhas comidas (dos outros) minhas costuras, arrumando casa, escrevendo e     sonhando com muitas coisas. E aí percebo: fugi de tanta coisa, e hoje vejo que muito do que fugi está presente aqui na minha vida hoje.  Livrei-me dos bêbados de meu pai, hoje tenho os bêbados de Carlos.  Livrei-me do velho novo, tenho agora um novo velho ao meu pé.  Afastei os serviços domésticos durante muito tempo, agora é o que faço e o que me levou a escrever este texto kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Destino é destino filha, não se muda não, podemos até transformá-lo, mas, no fim dá no mesmo. Pois é, uma advogada, juíza aposentada, mestre e doutora em história, passa os seus dias entre as costuras, as atividades domésticas, e a cozinha.  Nadei, nadei e morri na praia.  








segunda-feira, 1 de abril de 2019

Garcia D´Ávila XXI - Os Antunes do Matoim


Desde ontem que venho chamando pelo Senhor Garcia, afinal de contas queria parabeniza-lo pelos 470 anos de Salvador da Bahia de Todos os Santos, sim, é assim que a Salvador planejada em Portugal por Luís Dias, projeto aprovado pelo Rei, era identificada. Afinal de contas o homem ajudou a fundar a cidade, povoá -la, fazê-la crescer. Naturalmente que não o fez por amor ao Rei, evidentemente que não,  o que o Garcia D´Ávila sempre quis, aliás, morreu com o mesmo pensamento, era enriquecer, empoderar-se mesmo, ficar cheio de dinheiro. Ser, como foi, o Senhor da Torre, fundando uma das casas mais antigas, poderosas e ricas da Bahia,  A CASA DA TORRE.


Chamei muito, mas o miserável não aparecia de maneira alguma. Comecei a pensar na morte do Senhor Garcia, afinal de contas da última vez que ele apareceu estava bem alquebrado, chegou mesmo a cair.  Fiquei me perguntando: O homem vai morrer em 1609, se bem me lembro, da última vez que ele esteve aqui,  no dia que disse-me que ia me contar uma novidade, para ele já estávamos(ele claro) em 1604, ou seja  daquele momento ele só teria mais 5 anos de vida, muito pouco tempo, E o que iria acontecer quando chegasse o momento da sua morte?  Sei que vocês podem estar dizendo que eu to ficando doida, talvez até esteja, pois não é muito normal alguém ficar dialogando com um espirito que apareceu do nada e me conta coisas da nossa Bahia colonial. As vezes fico na dúvida: Será eu é ele mesmo que me conta ou eu leio estas coisas?  Bom, mas o certo é que andava mesmo preocupada com o ano de 1609. E se ele desaparecesse de vez?  Eu, pessoalmente, achava que isto iria acontecer. E digo isto porque, depois de 1609 o que teria o Senhor Garcia para me contar? Nada. Ele faleceu e ia se recolher na sua alcova da morte para sempre. Sua missão para comigo estava cumprida, me dera muitas dicas e me contara coisas que os livros de história não contam,

Bom, como o Senhor Garcia não me ouviu até este momento, resolvia, sozinha  falar de Salvador e da sua fundação, bem verdade que já fiz isto, acho que no primeiro texto e também quando  falei de Caramuru, mas a história se renova sempre, uma descoberta de um documento novo, um marco que é encontrado, uma nova evidencia de algum acontecimento, uma ruína aqui, enfim.
Desta vez calhou que passaram um documentário sobre Salvador, e não é que neste documentário apareceu uma novidade, novidade mesmo sobre a história de Salvador.  Um fazendeiro encontrou um marco da cidade em suas terras. A fazenda dele fica em Candeias, e o marco que mostram na televisão tinha a inscrição do Tombo. Fiquei entusiasmada, que maravilha de descoberta para a nossa história, que bom que este fazendeiro chamou as pessoas certas para entregar esta preciosidade. No mais, para mim, nada do que o repórter trouxe de informação foi novidade, mas isto é para mim, porque eu tenho certeza que muitos dos que viram este documentário não sabiam de alguns dos fatos trazidos pela reportagem.

Só um historiador, e assim mesmo que se dedique à investigação, sabe que existe o Arquivo Histórico do Ultramar o AHU. Uma preciosidade, espero que o governo português procure preservar este arquivo. Nele temos, não interessa que a história oficial contada apenas por uma das partes envolvidas, uma fonte inesgotável de conhecimento da história do Brasil, em particular da Bahia, aqui onde tudo começou. Somo, a Bahia, o berço da civilização brasileira. Sim, porque somos uma civilização, não adianta ninguém querer tirar este nosso lugar no mundo.
 
E lá vou eu escrevendo e nada do Senhor da Torre aparecer.

O documentário continua, e, aliás outro fato que eu não sabia, que o Tome de Souza está enterrado (restos mortais) estão em uma igreja, igreja esta que fica em uma propriedade privada, em um sitio chamado Vila Franca de Xira, que fica pertinho de Lisboa. Se tivesse eu sabido antes já tinha dado um jeito de pedir autorização ao proprietário para ir neste espaço.  Achava que os restos mortais do Tomé de Sousa estavam em Rates, lugar do seu nascimento e também do nascimento do Garcia D´Ávila.

Aqui tenho de fazer um aparte.  A importância de Tomé de Souza para a nossa cidade e para o nosso país como um todo merecia que os seus restos mortais estivessem aqui – NO BRASIL, - especificamente na cidade do Salvador, mais especificamente, ou na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, ou na Conceição da Praia ou na Catedral Basílica.  Seria o lógico, e não em uma Igreja caído aos pedaços, numa propriedade privada em Vila Franca de Xira, acho que vou escrever para o Ministro da Cultura a este respeito.

Enquanto escrevo sobre a informação que tive ontem, não percebi que o Senhor Garcia estava instalado no meu sofá. Ele olhava-me teclando as teclas da “madeira preta”, como ele denominava o meu computador e parecia intrigado com aquilo.

Levantei a vista e lá estava ele olhando-me e sua cara parecia mais um ponto de Interrogação

-Olá Senhor Garcia, não vi o senhor chegar.

-Claro que não, quando estas em frente a este pedaço de madeira preta, não vez ninguém, não falas com ninguém, parece que não existe mais nada além disto.

Sorri, mas, imediatamente, parei de teclar e olhei diretamente para o Senhor Garcia – Sabes que dia é hoje?

- Um dia como outro qualquer. Só não entendi até agora porque me chamavas tanto. Desde ontem que tenho a sensação que estás a me chamar.

-Chamei sim senhor Garcia, queria muito falar com o senhor e lhe dar parabéns.

-Parabéns! Por que Parabéns. Não é meu aniversário.

- Não é o do senhor, mas é aniversario da Cidade de Salvador da Bahia

- Que dia é hoje mesmo?

-Dia 29 de março

Me escusei de dizer o ano, se eu o fizesse as coisas começariam a desandar desde ali. O Senhor Garcia ia me chamar de louca, bruxa, qualquer coisa do gênero. Acho que desta vez ele me denunciava mesmo. Então eu ia dizer que estamos em 2019 a um homem que só viveu até 1609?

- E mesmo, há 60 anos chegamos nesta terra. Não tinha aqui absolutamente nada. Já fizemos tantas e tantas coisas, já temos hospitais, igrejas, mosteiros. Eu tenho lá minha Torre em Tatuapara, meus rebanhos, minhas terras. A terra produz açúcar, já temos o porto para escoar a produção de açúcar, há muitos ricos nesta cidade, homens de bem compõe a Câmara, conseguimos “civilizar” muitos indígenas.

Quando o senhor Garcia falou em “civilizar indígenas” não pude deixar de rir. O que seria para o Senhor da Torre “civilizar”?  Escravizar indígenas, fazer aldeamentos, obrigar os pobres coitados a seguir a fé católica, seria isto o sinônimo de civilizar do Senhor Garcia? Não questionei nada, somente ri e fiquei pensando no que ele estaria pensando.  Uma coisa é certa, se eu contestasse esta “civilização” ele por certo iria embora e eu ficaria sem informações e eu precisava saber a quem pertencia estas terras onde o tal marco fora encontrado. Por que em Candeias é que estava este marco?

Engenho Matoim - foto encontrada arquivo Iphan
- Senhor Garcia, a quem pertencia as terras do Recôncavo?

Terras do Recôncavo? Que terras, para que lado?

-Pros lados do Matoim

-Jorge Antunes. Tem um engenho muito bem montado por lá.  A propriedade “era composta de um engenho, casa grande e da Igreja de Nossa Senhora do Rosário;”[1]

É mesmo? Me fale mais deste senhor?

-Qual o seu interesse nele?

-Ora senhor Garcia, eu me interesso pela história da Bahia colonial, e se este homem foi  importante na  nossa história, quero saber de detalhes.

-Quem é importante nesta cidade é o Governador Geral, os Juízes, eu, os homens bons, os padres.

- Que é isto senhor Garcia, cada pessoa que contribuiu com a formação desta cidade é importante. Aliás, o Sr. Antunes é um senhor de engenho, é um homem respeitado, Vá lá e me fala deste Antunes.

- A família chegou nestas bandas com o governador Mem de Sá; aliás, vieram na mesma nau. O patriarca da família, HEITOR ANTUNES, era um cristão novo, que aproveitou a chance de se livrar da Inquisição, que e perseguia os judeus na Europa, para vim para o Brasil, ele era mercador e era casado com a Sra  Ana Rodrigues. Heitor Antunes morreu em 1576, mas já estava instalado no Engenho Matoim. O Engenho continuou sendo levado pelos sua esposa e filhos.

- Mas Matoim não fica perto de São Francisco do Conde?

- São Francisco do Conde! Não sei do que falas. Não estas a referir-se a Sergipe do Conde?

- Deve ser Senhor Garcia, deve ser.

- Se estas a falar  de Sergipe  do Conde, estas a falar do  Engenho de Mem de Sá- Bom quando chegamos  aqui tínhamos um plano para a fundação da cidade, que tinha limites pequenos, depois estes limites começaram a se expandir,  por ordem do Rei, expressa no regulamento trazido por nós, em que  Sua Majestade  mandava que o governador percorresse uma área de 6 léguas além da costa, a fim de encontrar um sitio para fundar a cidade. E isto foi realmente feito. O sitio escolhido era pequeno, mas como todo o percurso indicado foi feito, foram colocados marcos para indicar que a terra pertencia a Portugal. Um bem da coroa, mas não me consta que este marco tenha ficado em terras que depois pertenceria ao Mem de Sá.
- Mas não poderia ficar em Matoim: no Engenho dos Antunes?
- Não sei, nunca ouvi falar nada parecido.
Ao que parece o senhor Garcia não vai me contar qualquer coisa nova que mereça ser publicada, e não questionei mais nada, entretanto o Senhor Garcia parece não querer parar de falar dos Antunes e me disse:
- Sabes que o Heitor Antunes, mesmo morto foi denunciado à Inquisição?
-Não, não sabia.
- Admiras-me que não saiba, ficas a fuçar a vida de todos nesta madeira preta.
Pois é, Quando o Heitor Furtado foi para o Recôncavo em 1592 recebeu muitas denuncias a respeito das praticas judaicas pela família de Heitor Antunes, como ele estava morto, a sua família pagou o parto. A Ana, esposa  do Heitor fez a sua confissão em 1 de fevereiro de 1592, foi condenado por Heitor Furtado e mandada para Lisboa onde, apesar de “ condenada a ser  “relaxada ao braço secular” (morte na fogueira), após anos de cárcere morreu na prisão e foi queimada em efigie  por sentença de 09 de maio de 1604, a qual amaldiçoa  a sua memória e ordena que seus ossos sejam desenterrados e feitos em pó” ANTT, II. Proc. 11618[2].
- Pôxa Senhor Garcia esse Heitor Furtado era mesmo muito ruim
- Todavia não foi só a Sra Ana que foi condenada pela Inquisição. Também sua filha de nome Leonor, que também “foi enviada para Lisboa encarcerada e processada,  Sentenciada em 1603, a sair  no auto público, abjurar em forma e a cárcere e habito com fogos, perpetuamente, sem remissão. ANTT, II, proc.10716 “ [3] Além desta filha, também a outra de nome Beatriz que também, à semelhança de sua irmã, foi condenada a habito perpetuo desenhado com fogos sem remissão.[4]
- Quanta maldade deste homem! Dizimar uma família assim.
- Quem manda eles continuarem com a pratica judaizantes?  A função do visitador é realmente sta, condenar aqueles que não seguem a fé católica.
- Mas senhor Garcia, o marido e pai destas senhoras era um homem de respeito nesta cidade. Lembre-se que era tão importante que foi coletor do imposto do açúcar, o seu engenho foi objeto de muitas citações em diversos   livros sobre a Bahia, a exemplo do Tratado de Gabriel Soares,
O velho Garcia D´Ávila fechou a cara, eu bem sabia que ele ia se aborrecer, ele realmente não gostava que se desse  valor a quem merecia este valor, era prepotente mesmo e só ficava satisfeito se eu falasse exclusivamente dele, de suas posses, de sua importância. Como sempre, olhou-me com a cara feia e foi-se, sem, mais uma vez me contar a novidade que ele me disse, na outra visita, que tinha para me contar.   


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[1] Informações que podem ser encontradas no site do Iphan. De acordo com o mesmo site o Engenho  foi destruído pelos holandeses e reconstruído pela família Rocha Pita no século XVIII . Em 1973 o Estado da Bahia desapropriou  a propriedade para fazer parte do Centro Industrial de Aratu.
[2] VAINFAS, Ronaldo  Santo Oficio da Inquisição de Lisboa – Confissões da Bahia,São Paulo. Cia das Letras, 1997, pg281-282
[3] Idem, p 288
[4] Ibdem p 275.