terça-feira, 18 de junho de 2019

Emoção igual -Mais uma vez de volta


Estou excitadíssima, o dia da viagem está chegando e eu já não sei controlar a minha ansiedade, misto dela com emoção. Depois de mais de um ano estou voltando à Portugal. É simplesmente fantástico. Estou idealizando cada passo. A Vera hoje mora em Oeiras e, por isto, tenho o privilégio de pegar o Comboio que sempre me levou a Cascais, antes entrava trava no comboio pelo simples prazer de ir de Lisboa a Cascais pela linha, como eles chamam o caminho de ferro que liga as duas cidades. Agora, obrigatoriamente, para chegar em casa, tenho de fazê-lo, mas o faço com um prazer enorme. Alie-se a isto a possibilidade de ver o Alentejo, Sinto até frio na espinha, dá um arrepio danado.
Casa do Alentejo -Lisboa
Primeiro de tudo é chegar na estação do Cais do Sodré, tomar umas imperiais ali em um dos quiosques ou um bar. Pena que o antigo restaurante fechou, ali onde eu conheci uma senhora português, que, apesar dos seus setenta e lá vai anos, ainda era uma garçonete, ou melhor, uma empregada de mesa.  Gostava de ver aquela senhora a andar pelas mesas servindo um e outro. Não entendia direito porque naquela idade ainda o fazia, mas acredito que depois de tanto tempo ali na lida, ela não tinha muito o que fazer em casa. A velhota foi com os meus cornos, aliás, no dia em que conseguiu falar comigo, olhe que ela tentava, disse-me: Que ficava olhando para mim ali sozinha, tomando meus whiskies, pagando a minha conta, e saindo para voltar no outro dia.
Torre de Belem
Uma vez disse-me que me admirava porque eu era uma brasileira diferente. Segundo ela dificilmente uma brasileira estaria ali sozinha e pagava as suas próprias contas. Não entrei em muitos detalhes, não ia dar corda para ela falar mal de brasileira, mas, dali em diante, ela parecia que me esperava. Se passasse alguns dias sem lá ir, muitas perguntas: A menina está bem? Aconteceu alguma coisa?
Sim, tenho saudades disto e de tantas outras coisas. Do português bigodudo, que tinha olhar do homem do fado da Amália, era engraçado, todas as vezes que o encontrava vinha-me à cabeça a figura do fadista da Amália Rodrigues. Ah como lembro-me da Mouraria!  não somente por causa do fado, mas porque ali vivi momentos intensos de felicidade. Vi a reinauguração da praça Martim Moniz ao lado do meu querido alentejano. Quantas e quantas vezes atravessei aquela praça: inúmeras.  Como era bom entrar na Rua da Palma, talvez procurando exatamente o fadista  da Amália, mas, se nunca o encontrei, a Rua me presenteou com uma outra figura, esta  mais real e palpável, que entrou no meu coração e nele se grudou e parece-me que para sempre, porque por mais que a distância seja oceânica, o mar não consegue apagar tantas lembranças, tantas coisas boas vividas com tanta intensidade.
Praça Martim Moniz
Élvas

Ah Nossa Senhora da Saúde! A igrejinha pequenina ponto de referência para tantos encontros e tantas observações. No ano passado quando lá estive, tomei tanto vinho ouvindo a Raquel, salvo engano, Tavares, cantando Roberto Carlos, que já sai grogue dali, ainda fui para o Zé da Mouraria. É verdade que não comi o bacalhau, já não tinha mais, a Vera esqueceu de fazer a reserva esclarecendo que queríamos o bacalhau, mas, ainda assim, provei do dito cujo, pois diante de tantas queixas e de tantos pedidos ao  empregado de mesa para me dar alguma sobre de algum prato, acreditem que foi verdade, um gentil e alegre brasileiro que estava ao meu lado, deu-me um porção do dele. Agradeci imenso,
Pois é, lembro-me de tantas coisas que aconteceram em Portugal: Uma vez estava eu passando pela frente da estação de ferro do cais do Sodré e a florista disse: “pois não é que a puta está linda hoje”. Primeiro achei estranho que aquele comentário fosse feito sobre mim e para mim, mas foi sim, não havia qualquer pessoa(mulher) passando à frente da florista. Estava eu toda de azul, e o azul cai-me bem, sei disso. Só não sabia que a mulher me observava e que achava que eu era “puta”, mas vá lá: valeu o elogio, kkkkkk.
De outra feita, recordo-me que andava pela serra de Carnaxide, onde a Vera morava na época e eu também ,pois morava com ela, e um carro parou; eu, solicita, porque sempre que estava ali a caminhar(exercício) dava informações sobre o Hospital Santa Maria, parei e esperei ao homem abrir o vidro do carro, pois não é que o desgraçado perguntou-me – “Estas a serviço?. Puta merda! Quando, em alguns segundos a ficha caiu, quase viro mesmo uma rameira: mandei o homem a porra e outros impropérios mais. Acreditem que foi verdade mesmo.
Mais as coisas não pararam por aí. Uma vez tomei um taxi, e não sei porque  a conversa com o taxista chegou a um ponto em que eu falei algo, tipo: “Não, eu já passei da idade de fazer muitas coisas, acho que o senhor estava a falar em festas, procurando uma maneira de me dizer alguma piada, com certeza, E o sacana me vem com esta: “ Que velha o que, a menina ainda dá muitas voltas”.  Não sei bem o que ele quis dizer com as “muitas voltas            , mas certamente significava alguma sacanagem.
Sim, mas estou mesmo com saudades, muitas, mesmo sabendo da curiosidade dos lusitanos e do que eles pensam a respeito das brasileiras.  Eu tirei de letra, mas é muito chato, entretanto isto não retira e nem arrefece a minha paixão por esse país, cheio de lugares, lugarejos, lugarezinhos, onde você entra e sai pela mesma rua onde entrou. Todos lhe reservando uma surpresa, uma emoção diferente.
Coimbra
Grandes cidades como Braga, Coimbra, Guimarães, Viana do Castelo, somente depois que comecei a estudar Garcia D’Ávila e em consequência a história da Bahia, vim entender a minha atração por Viana do Castelo. Pois não é que o Caramuru era de lá? Aliás, tantos e tantos portugueses que para cá vieram, e não só para cá, quanto para África, Índia, alhures, saiam de Viana, não porque de lá fossem, mas porque era um centro de navegação, onde se aprendia a navegar, continuam a fazer navios por lá.
Agora quero ir em Rates, vou fazer de tudo para lá ir.  Já fiquei sacaneada, pois vi que aconteceu, ou vai acontecer uma grande homenagem à Thomé de Souza que de lá era, e as datas não coincidem. Uma pena, pois gostaria muito de participar dessa homenagem. Aliás, será que o Senhor da Torre não me aparecia por lá? Seria bem engraçado! Será que ele me confirmaria que o Thomé de Sousa era mesmo seu pai?  Pois o Garcia D´Ávila também era de lá, tanto que inspirou-se em uma torre de Rates, para fazer a sua em Tatuapara. É o que dizem os historiadores que estudam o Senhor
Igreja em Rates
da Torre.
Sim, gostaria muito de fazer muitas coisas em Portugal, uma delas, com certeza ainda farei, desde que a Vera me suporte, embora agora esteja mais difícil, a casa ficou mais pequenina, passarei uns três meses pesquisando a Bahia colonial, mas aquela dos primórdios mesmo, não sei o que vou encontrar, porque  documentos do século XVI e a respeito do que que quero são escassos, mas ainda assim tentarei. Quero falar dos governadores e das suas devassas, entendendo como devassas uma inspeção que deveria ser feita quando eles retornavam a Lisboa, ou melhor, deixavam de ser governadores e eram substituídos. Normalmente estas devassas eram feitas por quem estava chegando. Vamos ver o que achamos. Preciso de tempo e dinheiro para fazer esta pesquisa, morarei por algum tempo na Torre do Tombo e no AHU, mas sei que vai valer a pena, e, como os meus sonhos, de uma maneira ou de outra, se tornam realidade, sei que farei isto.
Ai, enquanto faço esta pesquisa, e como não sou de ferro, outras paragens: vou conhecer mais lugares, lugarejos, lugarzinhos. Oxalá tenha um motorista particular, se não tiver, sem problema, transporte público é o eu não falta, e irei andar por aquele país e ter mais emoções, mais aprendizado, mais espaço no meu coração para o amor.
Tejo
Até breve, meu querido Pais. Até muito breve amado Tejo, vista a seu pijama de prata para me esperar e vamos, nós dois, olhar a nossa querida Lisboa, e quem sabe, oxalá ainda possa cantar, em alguma noite nos bons arraiais da cidade. “Um craveiro, numa água furtada, cheira bem, cheira a Lisboa, uma rosa a florir na tapada, cheira bem, cheira a Lisboa..., cheira bem, cheira a Lisboa, cheiram bem, porque são de Lisboa, Lisboa tem cheiro de flores e de mar”
Saudades!     

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