segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Transportando vida


Quase dois meses após a chegada, as malas ainda estão por desfazer. Parece que querem ficar prontas para a próxima partida, não gostam de ficar paradas, gostam do movimento  dos aeroportos, adoram ser jogadas nas bagageiras dos aviões, dos autocarros, dos trens. Se ficam ali no canto do quarto  começam a envelhecer, empoeirar-se, sentem faltam do manuseio das mãos dos carregadores, mesmo sabendo que são maltratadas, que são jogadas de um lado para outro como se não carregassem a vida de alguém, as suas lembranças, sonhos e realizações.

sábado, 17 de setembro de 2011

Dias opacos

São quatro e trinta da manhã. O dia vem surgindo lento, parece não querer sair da letargia que a noite lhe proporciona. Não quer despertar do seu sono tranquilo, ele dorme mais de oito horas, talvez, por isso mesmo, esteja ele hoje muito cansado, e, portanto  demorando mais para trazer a sua luz.

O sol não aparece. A noite trouxe a chuva e deixou as suas marcas: está escuro, nuvens  densas impedem que o dia venha com toda a sua força para esquentar o que ela esfriou.

A chuva continua a cair e a impedir que o dia acorde como deve de ser.

Tudo isto parece ratificar o seu estado de espírito; o universo parece querer lhe  mostrar o que lhe vai na alma, a dor que lhe invade o peito. Parece que os seus dias são sempre sombrios, não se aquecem. Também, como iria aquecê-los?  Para que o dia amanheça e o sol apareça e esquente a terra é necessario  que as nuvens  se afastem, que não tenha chuva, enfim que os obstáculos sejam afastados a fim de que os seus raios cheguem  esplendorosos, quentes, iluminando tudo, definindo as cores. Ela,entretanto, não consegue remover os obstáculos: os seus dias continuam sendo sombrios, mórbidos, sem luz.  Olha para os lados; paredes brancas parecem querer lhe dizer algo, algo que ela não entende, afinal paredes não falam, talvez escutem, todavia,  falar não falam.

O dia continua lutando para afastar os obstáculos, para eliminar os elementos  que  querem lhe deixar opaco; ela, ao contrário do dia, não tem forças para isto, parece ter se acostumado a viver  atrás de nuvens que lhe condicionaram a luminosidade. 

Não é feliz, bem sabe que não o é; a sua felicidade depende da felicidade de outrens. Ela jamais será feliz enquanto  outras pessoas, a quem quer bem, não o sejam. Ela bem que tenta mostrar um pouco de  brilho, para  tentar, não sabe se o faz, enganar as pessoas, a fim de que com ela não se preocupem e tentem encontrar os seus rumos, sem que a sua vida possa interferir em nada. Não quer dividir os seus problemas, as suas preocupações, as suas angústias e frustrações, sabe que se assim fizer, poderá impedir que alguém brilhe, que o sol apareça para aquela pessoa todos os dias, e ela sabe que não tem o direito de impedir isto.


Segue o seu caminho sozinha, um caminho que para muitos é de brilho, de vitórias, de conquistas e mais conquistas, mas ela sabe o quanto padece  para demonstrar um brilho que ela, seguramente, não tem, porque o universo conspirou contra si e lhe fez  assim, dissimulada, sem poder se mostrar como realmente é no seu interior.

Se para o público ela brilha e é forte, para si ela é opaca e frágil. É exigente consigo própria e,talvez, por isso mesmo, não consiga, ou pensa que não consegue, afastar os obstáculos para poder sair desta névoa que lhe consome  os dias, as noites, a sua própria existência.

Ah se eles soubessem dos seus  reais sentimentos, das suas reais intenções, dos seus medos! Não,mas eles nao podem saber, ninguém  vai penetrar neste mundo opaco interior que é o seu, ela não quer e nem tem o direito de fazer pessoas infelizes. Ela quer o brilho  para todos, quer  ver as pessoas felizes, quer que todos estejam e sejam iluminados; possivelmente tem algumas restrições em relação a alguns que ajudaram a sua vida á perder a cor, a ser sempre cinza,mas, ainda assim, quer que também estes brilhem, se recuperem.

Um dia, talvez, alguém  possa realmente notar o que lhe vai na alma, pode ser que alguém que tenha recebido muita energia e luz do sol, seja capaz de lhe retirar da neblina em que se encontra, alguém que lhe ensine que os dias  podem ser  frios,  mas eles não são motivos para fazer alguém se tornar tão opaco; alguém que possa lhe tirar desta angústia, desta solidão acentuada em que vive, preocupando-se em não demonstrar para quem ama tudo o que vai na alma, apenas e simplesmente porque os quer felizes, e por entender que não tem o direito de os fazer sofrer.

Sim, um dia quem sabe! Ela poderá realmente mostrar todo o seu brilho, não este que as pessoas pensam que ela tem, mas aquele que ela realmente terá, quando todas as as névoas forem afastadas, não só as da sua própria vida, mas da vida das pessoas a quem ama e que quer ver bem.

Retira força de si própria, remoe a  sua  própria vida para ver se consegue, ao menos, um lampejo que seja, para, como se fosse um feixe de luz entrando por uma fresta da janela da alma, lhe dizer que tudo é possivel, que ela poderá encontrar este alguém ou algo, que lhe possa ajudar a colorir os seus  cinzentos dias, e que ela possa sentir toda a quentura do sol, lhe dando vida, energia, lhe fazendo “viçosa” e feliz.

Que este dia chegue logo! O tempo está passando muito rápido e, qualquer dia, ela nem mesmo conseguirá  ver a beleza que é um dia de muito sol, o que, ainda, lhe reconforta a alma, pois, nestes dias, tem a tênue esperança de que tudo, de um momento para o outro, como num passe de mágica, possa mudar e permitir que ela se mostre sem qualquer máscara, sendo apenas ELA.




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma obra em casa


Era só uma pintura dos muros do lado de fora da casa
Precisamos de:
2 latas de tinta;
40 lixas: 20 de 80 e 20de 120;
Uma lata de massa corrida;
Uma lata de massa acrílica.
- Sim doutora só isso.
- E a mão- de- obra?
O homem fica calado, faz conta mentalmente, depois de alguns minutos de dedos para lá, fala consigo próprio, movimentos de cabeça, olhares ao derredor:
- Vou botar quatro homens aqui dentro. Cada homem custa R$ 70,00 dia.
A mulher faz a conta, quatro homens a 70,00 por dia; terá de desembolsar 280,00 dia.
- Em quantos dias o senhor acaba o trabalho?
- Em quatro dias?
- Não, não meu senhor, isto tá muito caro, então vou pintar a parte exterior da casa e vou pagar R$ 1.120,00?   
 - É mesmo doutora, tá muito caro. Quanto a senhora paga?
- Não vou dar preço no seu trabalho, mas não posso concordar com este valor.
De novo o homem para, pensa, faz contas, olha mais uma vez o que terá de fazer.
- 850,00 e não se fala mais nisto.
Acerto acertado e o dia do começo dos trabalhos era o seguinte, quarta feira, com a promessa de que e em quatro dias tudo ficaria pronto.
Os trabalhadores chegam no dia seguinte: Um menino, que de tão pequeno foi apelidado de “pingo de gente”, um outro, que tinha certamente problemas chamado “Seu Jorge”, e um outro, que se achava o sabichão, de nome Ricardo. O quarto não apareceu, ao menos na quarta feira.
Os trabalhos começam e um primeiro aborrecimento: os trabalhadores são para lá de desorganizados, começam a fazer um trabalho aqui, depois mudam para acolá, esquecem o que estavam fazendo. Ela a tudo presencia, ainda calada, mas já com a vontade de “bater num deles”
A madeira do telhado é toda lixada, o pobre do “pingo de gente”, por ser menor e mais leve,  é quem fica com a pior parte do trabalho. Ele tem de subir nos andaimes e lixar toda a madeira. O trabalho é feito no primeiro dia, não sem muito aborrecimento em razão da desorganização. Se o verniz cair no chão, tem de ser imediatamente removido para não grudar. Tudo isto se  fala na teoria e todos concordam, mas o resultado pratico é uma merda,  o chão  é manchado de  verniz.
Aborrecida, ajuda na limpeza do chão, latas de solvente são gastas com a operação. Os operários não têm pena.
Enquanto  o “pingo de gente” e o “Seu Jorge”  fazem o serviço de verniz, dois bodosos e lesos; são capazes de ficar olhando para você e enquanto isto  o recipiente  vira, cai no chão, o pincel pinga, enfim, uma baboseira, o Ricardo  arma o andaime do lado de fora e começa a pintar os muros.
Na sexta feira, já se nota que o serviço não vai ser entregue  no dia combinado e, talvez por isso, e também pelo madeira do telhado da varanda ter ficado tão bonito, um novo acerto é feito, mesmo correndo o risco de  esganar um dos operários, eles são lerdos, não tem qualquer  compaixão pelo material, desorganizados, sujos  e mal educados.
Um novo acerto é feito, a casa merecia um tratamento rejuvenescedor total. Seria toda pintada, inclusive com a escada raspada e envernizada, tudo no valor total de R$ 1.500,00.  Lisa de material: Duas latas de tinta, massa acrílica, mais lixas, muito mais lixas mesmo. Uma profusão delas.
Vai comprar o material, queria uma tinta linda, brilhosa, que deixasse a casa  luminosa. 
- Quero tinta para interior.
Foi fazer a compra com o irmão, um sujeito que tem a mão muito segura: - Você vai comprar esta por que? Esta daqui faz o mesmo efeito, e é uma tinta muito boa.
- Não  rapaz, quero uma tinta boa mesmo.
Compra as tintas recomendadas pelo irmão, mas sabe que vai utilizá-la do lado de fora, porque dentro ela vai usar a que quer mesmo, 250,00 a lata.
 Leva o material pedido.
- Doutora, a tinta está errada, eu pedi branco neve e esta é branco gelo.
- Puta que pariu, que droga, e agora? Você já abriu a lata, não vai poder trocar.
Procura a nota fiscal e pede a cunhada para ir até a loja, chega lá e explica o que aconteceu, claro que houve um começo de stress, porque a “mocinha”   diz que  não ia trocar sem a nota fiscal.
Um rapaz que esta dentro do balcão diz que isto não é problema porque a nota fiscal fica arquivada na memória do computador, pede o nome  do comprador e  verifica a nota, onde esta descriminada a compra efetivada: lixas 120, lixas 80, massa corrida, verniz, e duas latas de tinta  branco neve... Erro da loja que fez a entrega errada, erro do comprador que não observou no momento em que a tinta foi colocada carro: uma era areia e a outra  bege, nenhuma delas branca, seja neve ou gelo. Eles trocam uma das latas, a outra, que foi aberta também seria trocada, mas o  “mestre”  se antecipou e fez a troca, não se sabe como. Aproveita que foi com a cunhada e compra a tinta de R$250,00a lata, para pintar o interior, no que realmente acertou, porque a sala ficou mesmo muito bonita, ganhou uma luminosidade sensacional.
Tudo comprado, volta  para casa. Material pedido todo entregue, a obra continua.
Os quartos estão precisando de retoque  de uma nata de cimento, a parede rachou:  fazem uma massa leve e  aplicam-na, sujam os quartos todo.  Ela, atenta, manda limpar. A  limpeza não fica boa, ela espera que o serviço ali acabe e, à noite, sozinha,  limpa tudo, passa não sei quantas vezes o pano, e agradece ter trazido de Portugal aquela ferramenta que todas as casas devia, ter: o esfregão de micro fibra. Os quartos dormem mais ou menos arrumados.
Dia seguinte, processo de lixagem  dos lugares retocados. Uma poeirada danada. Depois uma camada de massa corrida. Secada a massa, nova lixada, sujeira pura, a casa fica coberta de poeira branca, ela tosse, o nariz  coça, a boca esta seca. 
Para que diabo inventou isto? Sabe que é necessário, mas já esta mesmo muito estressada. Não gosta de gente, quanto pior desconhecidos, porcos, que falam alto.
Bom, mas já tinha começado e ali não podia mais parar, no ponto em que as coisas estavam só indo pra frente, não ha mais como retroceder.
Tem de ir até a rua, e quando volta os “pseudo pintores” já fizeram estrago: derramaram verniz no chão de cerâmica ocre; não cobriram o chão e há muitas marcas de tinta branca na sala. Olha desesperada para aquilo,  manda que limpem imediatamente. Eles pedem mais panos. Ela já pegou todos os panos disponíveis, mas não o suficiente para os pintores, que simplesmente, deixam os panos ficarem grudados, sujos, resultando que no dia seguinte não servem para nada.
- Onde esta o solvente? Tem de jogar aqui onde o verniz caiu.
- Acabou.
-Acabou? Vocês estão bebendo solvente, já lá se foram duas latas.
- Acabou sim.
Sai e vai comprar outra lata de solvente, traz a lata e manda que limpem o chão onde o verniz caiu.  Serviço que foi feito, embora muito mal feito, o chão fica grudando, e ela tem de terminar o serviço lavando o local com sabão.
Está chegando no seu limite.  Armam o andaime  na parte de cima, quem continua responsável pela raspagem das madeiras e o envernizamento dela é o “pingo de gente” que  descendo as escadas da casa, com uma escada de metal numa mão, e o recipiente de verniz na outra, deixa este ultimo cair: mais prejuízo, mas sujeira, mais grudação, mais aborrecimento, mais raiva, mais esforço físico para limpar tudo.  A parede branca em baixo da escada está toda respingada de verniz, resultado: trabalho na hora de raspar para aplicar a tinta branca.
O dia acaba, o serviço não anda, parece estar estacionado.
Ricardo acaba a sala, que se mais bem pintada teria ficado muito mais linda.
Necessita-se de um eletricista para  mudar as lâmpadas da cozinha: Aparece um tal de “grilo”. O grilo é um senhor que pensa ser um galã, é limpo, baixinho, tem um bigodinho branco que demonstra o seu passar pelos anos. Chega cheio de moral, dá a lista de material. Saem os dois; ela e o “grilo” para efetivar a compra. Ele vai de bicicleta, ela vai a pé: compram tudo,  e a surpresa:  A senhora leva o material porque eu vou ter de ir ali, daqui a pouco volto.
Ela ri, então ela ia aguentar levar aquilo tudo, mas, para sua surpresa, tudo é leve.  Leva tudo para casa e começa a esperar o Sr. Grilo, com o andaime armado na cozinha. O desgraçado não aparece, e, o andaime tem de ser retirado.
O eletricista só volta no dia seguinte, e quando chega quer o andaime seja rearmado na cozinha. Ela diz que não vai mandar desarmar o andaime, que já estava do lado de fora, que agora ele vai fazer o serviço com uma escada. O homem não gosta da idéia, mas tem de admitir que ele foi errado, se tivesse voltado no dia anterior, como prometera, tudo já estava pronto.
O serviço é feito, e depois de longos doze meses, a cozinha volta a se iluminar. O serviço do  “grilo” termina, foi tudo rápido, e ele recebe, por apenas  uma ou uma hora e meia de trabalho, R$ 50,00, imagine se isto vira moda, um trabalhador não especializado, apenas um curioso, ganhando por hora quase 50 reais, o que equivaleria a  12.000,00 de salário mensal. Ela pensa: acho que vou me especializar em alguma coisa técnica e lembra do seu salário.
 No dia seguinte aparece um outro “pintor”. É cheio de bossa, de moral, todo tirado. O nome é Alex, tem olhos azuis.  Ela não gosta da aparência do homem, quanto pior por ser ele do lugarejo onde vive, melhor seria alguém de outro lugar.
O homem, no primeiro dia, faz o serviço do quarto quieto, calado, mas no dia seguinte já esta cheio de intimidades, tão cheio que a mulher vem bater na porta da casa para procurá-lo. Ela se aborrece, então alguém que não conhece vem bater na sua porta para procurar um desconhecido, que só estava ali por força de um trabalho. Chama o mestre de obra, e  queixa-se, diz que não quer mais o cara ali na casa. Mais stress, mais aborrecimentos. Este também é muito bodoso, e não limpa o que suja, segundo os outros, ele diz que este trabalho não é para ele, que só faz pintar.
O dia acaba, ela já esta mais de que arrependida de ter começado a obra, mas não dá para parar no estagio em que a pintura está.
São os mesmos profissionais que aparecem no dia seguinte, portanto, mais sujeira, mais confusão, mais aborrecimentos. Livrou-se apenas de um, o Sr. Jorge,  este não vai melar mais nada, mas ainda tem os outros dois, o Alex e o  pingo de gente, r raspada.
Dá uma bronca em todo mundo, mas eles são cínicos, parecem não ligar, porque, ato contínuo, mais sujeira, mais derrame de material.
O homem dá uma parede por pintada, ela reclama, diz que não está boa, o mestre manda o cara pintar de novo, e ela ouve ele dizer “De novo”!
- Sim, de novo, você não fez o correto, a parede tá toda manchada.
O homem recomeça o trabalho zangado, ela também esta p. da vida.
Chega o sábado, dia em que tudo deveria estar terminado, mas isto não acontece, e o pessoal trabalha somente até o meio-dia, estão apressados porque querem receber o dinheiro da semana trabalhada.
A varanda de frente não esta acabada, e assim vai ficar até o final de semana, tem de esperar pela boa vontade do pessoal.
O que fazer?  Temos de esperar a segunda feira, pois acreditem, os homens não aparecem para trabalhar, nem segunda e nem terça e tudo fica como está, a única coisa que não fica como está é a raiva da dona da obra que, se pudesse, com certeza  colocava todos para fora, e se fosse ela dona de uma empresa, seria uma despedida coletiva por justa causa.
Um conselho: quando tiver de fazer uma pintura na casa, saia dela, contrate uma empresa e só volte quando a tudo estiver pronto, ainda que seja mais caro. 

sábado, 3 de setembro de 2011

Mais um anônimo (a)

Parece que estou me especializando em incomodar anônimos! Sim porque recebi “ameaças” de um anônimo, ou anônima, não sei, porque, como anônimo que é, não podemos identificar o sexo.

Não publiquei o comentário, exatamente, porque não assinado, não identificado, não conhecido, além do palavreado não ser condizente com os leitores do blog.

É evidente que um escritor tem leitores e que estes são anônimos, teria muita graça que um autor conhecesse todos os que o lêem, mas há uma grande diferença entre o leitor anônimo, e o anonimato de alguém que se diz identificado pelo autor, mas não tem a coragem de sair do seu próprio anonimato.

Diz o anônimo (a) que vai me processar porque estou expondo a vida dos outros, que eu não tenho direito de fazê-lo. Mas como posso saber quem vai me processar? De quem falei?A quem pertence à estória?

O escritor cria, se os fatos narrados têm correspondência com a vida de alguém é uma mera coincidência; aliás, a partir de agora, e isto agradeço ao anônimo (a), vou colocar no final do post esta advertência: “qualquer semelhança é mera coincidência”, para evitar que anônimos tomem para si o que ali se contem e se julguem ofendidos, como se fosse possível alguém ofender anônimos.

 O engraçado disto tudo é que o anônimo (a) que se diz identificado, que se diz ofendido, que ameaça um processo e que termina por ofender, literalmente, a escritora, é que esta se identificando para os leitores, embora o escritor não o (a) conheça, ainda que se identificasse mesmo, que tivesse a coragem de fazê-lo, continuaria desconhecido, porque fora da realidade de sua vida.

Se alguém identificou-se com o que estava descrito no texto, certamente deve ter passado por uma situação similar, talvez por isso a revolta, a agressividade, as baixas palavras. O escritor não se importa, não vai valorizar anônimos, eles não têm coragem, são covardes, e no mundo da ficção (muitas vezes tão real que é confundido com a vida de cada um) só há lugar para covardes, exatamente, na própria ficção, aliás, neste gênero literário há uma grande quantidade de heróis, mas há uma enorme quantidade de “bandidos”; eles são sempre mais numerosos, porque desejam o mal, e o mal é bem mais fácil de ser executado.

Todavia, como o anônimo (a) esta fazendo uma ameaça, que não será publicada no post para preservação dos outros leitores, há que se ter em mente, se a ameaça for cumprida, que o texto não cita qualquer nome e, portanto, ainda que possa qualquer pessoa com ele identificar-se, não existe possibilidade de ser cumprida a tal ameaça. Bom, mas anônimo não deve saber disto, não deve ter sido preparado (a) para entender e comportar-se diante deste entendimento.  Todavia, não cabe ao escritor ameaçado fazer ponderações aqui, se a ameaça do anônimo (a) for cumprida, quando ele for conhecido, porque terá de identificar-se, uma vez que numa relação há que se ter duas partes completamente identificadas, além da exigência da existência de provas suficientes para que o julgador possa, realmente, estabelecer o nexo necessário ao reconhecimento de uma exposição particular da vida de alguém, aí sim, os argumentos serão utilizados com a lógica necessária. 

Quando isto acontecer, tanto o escritor como os seus demais leitores, saberão de quem se trata e ele “spont sua” estará expondo a sua própria história sem a interferência de quem quer que seja.

Bom, mas já perdi tempo demais falando do nada, porque um ser que se diz estar neste mundo, neste dos que “são e estão”, não pode esconder-se atrás do anonimato. Se usa este artifício para ameaçar, ofender, mostrar a que veio e o que realmente é, é porque, na realidade, é um “nada”, e, como nada que é, deve recolher-se à sua própria insignificância, desassociando-se da importância que pensa ter, que o (a) leva a pensar poder ser o personagem de uma estória (ficcional) escrita para alertar pessoas que tem comportamentos parecidos, para que tenham cuidado; a vida pode nos pregar peças, algumas cômicas, outras dramáticas, mas que deixam marcas que podem tatuar as almas, deixando cicatrizes mal curadas que “condicionam”, para sempre, todo um ser.

Cuidado anônimo (a), você pode ter estas cicatrizes, procure se tratar com urgência, para que as suas tatuagens não sejam divididas com os outros, que não têm culpa das suas angústias, frustrações, dramas, recalques.

Quando tiver tempo, já que é um leitor(a) do blog, leia “anônimo” vai te fazer bem e você poderá encontrar-se no “nihil” que é ser “anônimo”.

Um belo dia de sol

Acordou. A cachorra de nome interessante, afinal é muito “chic” ter uma animal de raça, está ao seu lado. Contrariamente ao chique da cadela, ela dorme no chão da sala, não que não tenha quartos decentes onde está, mas porque a sala é mais fresca e, além de tudo, por estar sozinha naquela imensa casa feita para abrigar muitos e com amor,dorme sozinha e ali para perceber os ruídos não habituais da noite.
O fato é que a “golden retriever”, presença que lhe foi imposta por outros menos “impostos”, está ali ao seu lado aflita para sair para fazer as suas necessidades. Ela, a cachorra, é mais educada de que algumas pessoas que conhece.
Levanta, abre a porta, já tinha visto pelos vidros canelados das janelas sala que o dia está lindo, apesar de que, se não estivesse, não faria qualquer diferença, porquanto os seus últimos dias têm sido sombrios e feios, porque quando se não está bem na alma, nem mesmo um brilhante dia faz qualquer diferença.
O certo, entretanto, é que se surpreendeu mesmo, o dia está radiante; não há nuvens no céu que está de um azul límpido. O sol brilha em todos os lados, não ha sequer sombras, a não ser a da sua casa sobre a relva verde que cresce e se mostra fresca no jardim. As onze horas ainda não acordaram, esperam o seu horário, mas os vasos  foram pintados, gentilmente, pelo pintor que, delicadamente, depois de pintar tantos grandes espaços, resolveu colorir os caqueiros.
A cadela procura o seu sanitário na grama, tem quase que um lugar especifico para as suas necessidades. 
A “golden retriever” que agora já não pode ser pedante, está deitada do seu lado direito, ela é mesmo linda, mas anda triste; como ela, sente saudades dos “seus”.
Pelo reflexo da tela do note book vê os seus cabelos que o sol dá reflexos dourados. Percebe-se ali, vê que não é mesmo mais nenhuma menina. As marcas do tempo se exteriorizam a cada dia com mais vibração, com mais fortaleza e são fortalecidas pelo que lhe vai ao interior, mas a casa está linda.  Ela gosta do que vê, apesar dos zeros da direita da conta bancária terem aumentado sensivelmente, acha que valeu a pena. Tá tudo limpo, como ela gosta. Limpo e lindo ao mesmo tempo.
Os cavalos marinhos pendurados na parede brilham, foram lavados e vaselinizados. A palmeira esta afastada do muro, porque o chão foi lavado. A obra da casa vizinha sujou tudo de cimento, e o vaso foi retirado do seu lugar habitual.
O peixe de acrílico continua no seu lugar vai ser lavado, mais uma vez; hoje ainda tá cheio de poeira da obra.  O sol esquenta. Os pássaros cantam, a pitangueira é um chamariz e eles vêm abortar as flores que não se transformaram em pitangas que, tanto a dona da casa, como eles gostam.  Alguma coisa acontece com a goiabeira, mas alguém já garantiu que ela se recupera.
As borboletas, do outro lado da parede, armam seu vôo sem bater as asas; são lindas! Ninguém acredita que são feitas de conchas do mar.
Realmente a casa brilha. O sol esquenta o ombro dolorido, mas a vontade de descrever o belo é maior de que a dor provocada pelo movimento da digitação do texto.
Bêbados, acreditem, passam pela porta. As vozes denunciam o estado etílico. São apenas 5:45 horas da amanhã. Um deles fala espanhol, normal neste lugar.
Um momento de extrema paz, tudo calmo, o dia ainda não começou em sua efervescência. Ainda não há som de “arrocha” nas casas e nem nos carros, é tão cedo que nem o carro de lixo passou.
Um bem-te-vi, (será que se escreve assim) enorme, com o seu papo amarelo dá um vôo rasante na varanda. Daqui a pouco ele vai voltar para comer a comida da cara, aliás, acabou de fazê-lo: A comida é de cachorro, mas agrada a pássaros, principalmente os maiores.
A mesa coberta com um “pano” africano harmoniza-se com o ambiente. A claridade do sol faz refletir o dourado que forma a sua diversidade.
O dia vai acordando, o caminhão do lixo vai passando levando a sujeira, não toda, porque ele só limpa o exterior, a sujeira interior tem de ser levada de outra maneira, talvez o sol possa fazer isto, queimando com os seus raios fortes, com a sua quentura, tanta coisa ruim que passa no interior de cada um.As mudas de manjericão, de coentros, alface, couve, hortelã sobreviveram à poeira e a falta de água, o caseiro preguiçoso deixa de molhar, mas elas parecem ser fortes e resistem. Hoje serão relocadas. A hortelã e o manjericão (basilico) trarão  Portugal até a casa, as sementes foram compradas lá.
Realmente, o dia está lindo, vai permanecer assim. Levanta-se. Vai curtir a sua casa, é a única coisa que lhe resta curtir mesmo. Fica satisfeita com os resultados da iniciativa de reavivar as cores. As portas brilham com o novo verniz. O branco das paredes ganhou mais luminosidade, a tinta foi especial, e, por isso mesmo, bem cara, mas o resultado é “esplendoroso”. A escada, envernizada, fica maravilhosa, embora a sua utilidade já não é mesmo tão necessária, afinal, o quarto de cima, o que seria sinônimo de aconchego, de cumplicidade, de “amor” perdeu a sua finalidade, mas, de qualquer maneira, tudo foi refeito, repintado, coisas retiradas e jogadas fora, como se isto fosse suficiente para apagar um passado, que hoje, com este dia maravilhoso, deveria voltar só um pouco, para harmonizar-se com o que o sol e o céu azul já começaram a fazer.
É tudo isto seria perfeito se tudo estivesse no lugar. Filho feliz, ela feliz, família feliz. Tem fé, esperança. Quem sabe um dia o criador lembre que, nem sol e nem céu, nem uma bela casa, são suficientes para amenizar almas, é preciso mais, muito mais, inclusive, e o mais importante: AMOR.          

terça-feira, 9 de agosto de 2011

" O trem va vai mãe"

Era assim que o meu irmão Luciano, com dois ou três anos, ao ouvir o apito do trem, dizia para minha mãe: “o trem va vai mãe”, isto em todos os dias, pela manhã, ao meio dia e no final da tarde.
Eu, por minha vez, quando pequena, gostava muito de andar de trem e de morar próximo a linha do trem, isto porque para mim era uma alegria ver o trem passando trazendo e levando pessoas. Gostava também de andar de trem, aliás, para mim, à época, um meio de transporte fantástico, porque com ele e através dele, eu conseguia deixar o colégio interno e ir para a minha casa que ficava no interior. Por ele também chegávamos, eu e a minha família, até Alagoinhas, outro interior da Bahia, onde moravam familiares da minha mãe e do meu avô materno, para passar alguns dias de férias na casa de tia Margarida.
Outra tia, que na verdade era casada com um primo do meu pai, mas a distância da idade era tamanha que a gente chamava a todos de tio, tinha uma casa em Dias D´Avila, aliás, era muito “chic” ter casa em Dias D´Avila, onde um rio do qual não me lembro o nome, acho que Imbassaí, era um grande balneário para famílias abastadas de Salvador, por incrível que pareça, alguns espanhóis parentes do meu pai tinham casa nesta região, e para onde íamos como parentes que éramos.
Tia Dalva e tio Celestino tinham uma casa próxima ao rio das pedrinhas e as terras da propriedade deles terminavam, exatamente, na linha do trem.  Eu achava o máximo ver o trem passar, seja se estivesse em casa, seja se estivesse no rio. Se estivéssemos no rio, tínhamos de sair de dentro da água enquanto o trem passava pela frágil ponte, nunca soube o motivo deste cuidado, se de medo da ponte cair ou se tinha algum reflexo mesmo na água em que nos banhávamos; sei lá, o certo é que quando ouvíamos o apito era uma correria da zorra, todos saindo da água correndo.
Lembro-me que já com uns dez ou onze anos, talvez menos, viajando para Alagoinhas com todos da família, minha mãe distribuiu comida para todos que estavam próximos aos nossos assentos, inclusive para um rapaz que os amigos chamavam de “La Barca”. Acho, hoje, que o apelido era por causa da música, “La Barca”. Adorava comprar milho assado, pamonha de milho, frutas, tudo pela janela do trem, onde os vendedores arriscavam-se a não receber o dinheiro pelo produto, porque o trem podia partir antes do pagamento
Já adulta, na faculdade e com uns dezoito anos, pegava o trem suburbano para chegar à casa de minha avó que morava em Praia Grande, adorava a viagem, embora o trem fosse por demais desconfortável: bancos de madeira que faziam doer a “bunda”, porque as tiras machucavam a carne, mas era fantástico ir margeando o mar. Ficava com um friozinho danado quando o trem passava pela ponte de ferro que fica em Plataforma, ficava olhando, nos espaços entre os dormentes, a água funda e suja pela janela, não nego que tinha um receio danado de cair naquela água, porque odeio água suja, pois ela não nos deixa ver a profundidade.
Agora, com 57 anos, mais uma vez, o trem me faz viajar, sonhar, me transportar para um mundo diferente. Quando tomo o comboio, como é chamado o trem em Portugal, no Cais Sodré, ou em Santa Apolônia, ou ainda, na Estação Oriente, parece que estou entrando num sonho, não que o comboio tenha nada a ver com o trem que tomava na minha infância e adolescência, mas pela sensação que ele me proporciona, parece que me transporto para um mundo outro, diferente, de sonhos mesmo, fico me imaginando a morar naquela via, pois uma grande parte dela fica, literalmente, defronte do mar, que passa pela janela do trem.
Estoril-Cascais
O comboio que sai do Cais Sodré para Cascais segue, na grande maioria do caminho, margeando o mar.  Quando sai do Cais do Sodré, a gente vê o Rio Tejo e vai passando por diversos lugares; Santos; Alcântara; Belém; Algés; Cruz Quebrada; Caxias, Paço d`Arcos, o Tejo vai encontrando o mar: Santo Amaro de Oeiras;  Oeiras; Carcavelos; Paredes; São João do Estoril;  São Pedro do Estoril;  Estoril; Monte Estoril  e Cascais, tudo isto passando e a gente vendo o mar à nossa esquerda. Uma maravilha, uma viagem que recomendo a tantos quantos visitarem Portugal. Não deixem de fazer este passeio, mesmo que só tenha tempo de ir e voltar, mas não deixem de ir.
Cascais
Se tiver um tempo, vá até o final da linha: Cascais. Desça e siga até a vila, veja o mar, olhe como é linda a Baía de Cascais. Desça a rua calçada à sua direta e coma um pastel de bacalhau.  Continue andando, passe pela frente do Hotel Baía, suba a ladeira até o forte, siga até o jardim, atravesse-o todo e saia pelo castelo. Veja que maravilha de paisagem que esta à sua frente. Agradeça a Deus por lhe permitir ver tanta beleza e agradeça ao homem por ter lhe dado este meio de transporte que lhe faz viver sonhos como este que agora esta vivendo. Não esqueça esta visão, não precisa, sequer, tirar fotos, tanta beleza fica na nossa memória e um só pedaço de mar azul, límpido, um horizonte é suficiente para reavivar a sua memória e fazer você, sem o trem, se transportar para esta beleza que a natureza criou para nosso deleite.
Boa viagem de volta, de trem, e de muito sonho.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Dr.Cinquentinha

A primeira vez que fui para aquelas plagas, o fiz por dever profissional, até porque ir para aquela cidade do interior, no extremo sul da Bahia, por prazer era impossível: primeiro a distância, segundo a rima não muito rica do nome já deixa antever o que ela é mesmo, uma cidade feia, limitada com outras tantas cidades feias e violentas: Eunapólis, Teixeira de Freitas, e ainda muito próxima aos Estados de Espírito Santo e Minas Gerais, que despejam milhares de pessoas por este interior da Bahia, umas boas, outras muito más.
Bom, mas não comecei isto para falar da cidade e nem das suas fronteiras, nem mesmo, do povo. Estou fazendo o texto para falar de uma grande figura que conheci neste lugar tão esquisito, que faz a gente duvidar que abrigue uma pessoa como esta de quem estou a falar. Ela vive ali, curtindo e sendo feliz. Somente por isto já se vê que estou a falar de uma pessoa para lá de especial.

Inconfundível, diria eu, especialmente diferente, singular e plural ao mesmo tempo, singular pela sua própria inconfundibilidade, plural pela sua grande alma, que aceita a todos e tudo com uma naturalidade invejável.  

Não vê ele defeitos nas pessoas, esses são virtudes mal encaradas, motivo de muitas gozações, de muitos risos, mas de nenhuma crítica. As pessoas são aceitas como elas são, e elas chegam e saem da sua vida dessa maneira, embora todos os que conheci, e que não saíram da sua vida, apenas se afastaram, tenham por esta figura um grande e imenso carinho.

Mas, deixem-me dizer-lhes como conheci este “ser” especial: fui convocada para trabalhar na cidade da rima rica.  Estava acabando de assumir um cargo importante na minha terra, muito importante para muitos; para mim, uma profissão com um pouco mais de responsabilidade de que as demais, porque você trabalhava a vida dos outros, não como o faz o médico, mas de uma outra forma que pode deixar muitas marcas, pois você pode acabar com a vida de uma das partes envolvidas na relação, que também podem acabar com a sua.

Mas isto também não interessa! O fato é que fui trabalhar naquela cidade de muitas ladeiras e de hotéis com portas curtas, isto é; portas que não chegam até o chão, resultando que fica um vão entre a porta e o chão,  e às vezes, também, na parte de cima, o que dá para perceber o movimento do quarto e ouvir tudo o que se passa, seja no corredor, seja nos demais quartos, seja na recepção; enfim, participa-se de tudo, uma hospedaria mesmo, em que os hóspedes terminam ficando tão íntimos que, mesmo sem conhecer um ao outro, podem contar toda a vida de cada um a outrem. Imaginem que beleza!

A viagem de Salvador para a cidade da rima rica dura 12 horas, num belo ônibus leito, do qual um dia tive saudade quando, em 1990, fui pela primeira vez a Europa num avião mínimo, com espaços mínimos, que as minhas pernas chegaram praticamente dobradas, sem condição de esticar, afinal foram 12 horas de vôo. Ainda não tínhamos avião direito para Lisboa saindo daqui de Salvador, para irmos para o exterior tínhamos de pegar a conexão em Rio de Janeiro ou São Paulo, por isso tantas horas de vôo e esperas em aeroportos.

Cheguei cansada, como é obvio, às 07h00min da manhã e o trabalho começava as 08h30min, portanto, só foi o tempo de me instalar no meu quarto conjugado com os demais hóspedes e ir para o trabalho. Estava ansiosa por um motivo, eu ia fazer uma série de audiências de impedimento, porque o advogado era filho da Juíza titular, ou seja; eu ia passar um dia quase todo fazendo audiências com um só advogado de um dos lados da mesa, prenúncio de um dia chato, com muitos aborrecimentos. Deixem-me dizer que não só o rapaz era parente da Juíza, como, também, a diretora de secretaria o era. Uma família que trabalhava unida... Pois é eu peguei, de cara, este abacaxi. Para rimar com a cidade deveria dizer “abacaxu”. 

Dentre as inúmeras audiências da pauta havia algumas contra a Prefeitura local e contra o Banco do Estado da Bahia, que ainda existia. Não gostava de fazer audiências de bancos, nunca gostei, os advogados só faltam se matar, um para tirar do banco e o outro para não permitir que se tire: horas extras intrabalhadas em muitas ocasiões, muitas vezes comprovadas por inúmeras testemunhas sem qualquer ética, moralidade, dignidade, cidadania, pois mentiam escancaradamente sem que a pobre julgadora pudesse, ao menos, declarar esta falta de verdade.

Em Salvador, quando disse a alguns colegas que ia para aquela cidade, todos, sem exceção, me falaram do “Cinquentinha”, era este o seu apelido dentro da comunidade forense, isto porque qualquer proposta de acordo, fosse o processo de grande, ou de pequeno valor, a proposta era a mesma, “pago cinquentinha”. Achei engraçado, embora considerando uma falta de respeito para com o próprio magistrado, porque entendia a proposta, se o valor da causa fosse grande, um deboche, aliás, continuo achando. Ninguém me disse como ele era, quem era, só me deram esta dica.

Comecei as audiências e, logo de início, havia uma em que a reclamada era a Prefeitura local. Respondendo ao pregão entram as partes acompanhadas dos seus respectivos patronos; e aí me vem a figura: cabelos encaracolados de um castanho bem claro, uma cara sorridente, um rosto peculiar, um corpo pequeno e com um desvio para um dos lados, que embora de direita, seguia, relativamente, uma esquerda, acredito que um pouco festiva, pois, muito burguesa, ligada a muitos luxos e sabores, que não posso acreditar que esta tendência pudesse ou possa, um dia, vir a ser radical. Viajar para Cuba ou para a Rússia não faz de ninguém um grande  socialista, ou comunista, ou ainda,  um seguidor do marxismo, enfim, mas isto não vem ao caso.

A audiência começa e eu pergunto: Há alguma possibilidade de acordo? Há sim doutora, responde aquela figura com uma voz “colossal”, nada condizente com a sua aparência, quero dizer, a gente espera uma voz menos postada, menos grossa: “cinquentinha”.  Apesar de achar mesmo a proposta debochada, não pude deixar de rir, porque naquele momento fui oficialmente apresentada ao Dr. “Cinquentinha”, o amigo de todos, um homem feliz, com muitas estórias e muito carinho e atenção pelos nossos pares, de quem se fez amigo de tantos quantos por lá passaram.

Fiz audiência até tarde, muitas mesmo, e, por isso mesmo, não tive condição de sair para almoçar, ou seja; quando sai da sala da audiência, lá pelas quatro horas da tarde, não havia mais lugar para comer, resultado, comi frutas e pão com queijo e pronto.

Estava cansada e fui para o hotel fazer as decisões, muitos processos de banco conclusos, uma “merda” colossal, mas que jeito! Quem tá na chuva tem de se molhar, e eu me molhei muito, pela grande responsabilidade que tive em todo o tempo em que exerci a profissão que “escolhi”; escolha feita por necessidade, ou não, mas escolha.

No dia seguinte, já familiarizada com o “Cinquentinha”, já não estranhei as propostas de acordo, embora tivesse lhe dito que aquilo era uma brincadeira, e ele me convidou para almoçar na casa dele. Em principio disse não, até porque achava mesmo um inconveniente fazer isto, por todos os motivos possíveis, inclusive o de ir para a casa de um advogado militante, aquilo não ia soar bem, embora uma boa parte dos colegas que por ali passaram me dissesse que o melhor mesmo era ser amigo do doutor e comer na casa dele, porque a “Mariquinha” era uma cozinheira de mão cheia, e eu não ia encontrar um lugar melhor para almoçar; depois eu nunca sabia o horário que a audiência terminaria, portanto, não poderia acertar almoço na casa de pessoa alguma. Quanto ao segundo motivo isto foi resolvido pelo próprio “Cinquentinha, que me disse que a hora que eu saísse da audiência poderia ir  almoçar, porque a Mariquinha estava a me esperar, sem qualquer problema.

Não tive muita saída e fui almoçar na casa do “Dr. Cinquentinha”, agradeço imenso a gentileza repetida em muitas oportunidades. Mariquinha realmente era uma grande cozinheira, aliada a isto estava a grande qualidade de ser uma espécie de gerente da casa do doutor; ela cuidava de tudo acompanhada dos seus ajudantes de ordens; os dois filhos dela. Quando a conheci  era apenas uma, que tinha o apelido de deputada, o outro, que era homem e nasceu bem depois, certamente, era o deputado, quiçá senador; vereador é que não seria: o cargo não tem élan para que o seu portador freqüente a casa.

Quando conheci o “Dr. Cinquentinha” ele estava descasado, acho eu, tinha a recém separado da mãe de sua filha; ele estava sozinho, mas nem tanto assim, porque tinha “as mineirinhas boas demais” que sempre estavam dispostas a lhe fazer companhia, além disto tinha ali a sua família, todos bem posicionados. Eram de lá e lá se estabeleceram, embora a família tenha esticado os braços alcançando o Rio de Janeiro, onde o próprio Dr. estudou e Minas Gerais, onde uma de suas irmãs morava lou ainda mora. Todos pareciam muito felizes e grandes “viventes”, andavam de bem com a vida, gozadores naturais dela e dos outros. Muitos sobrinhos triplicaram o clã, um deles, que bem me lembro, trabalhou comigo; um outro, conhecido por “nariz de cera”, era muito ligado ao tio, e eu morria de rir ao conferir porque era assim chamado, é que o nariz era bem grande.

Foi na casa do “Cinquentinha” que comi, pela primeira vez, “javali”,  acho eu que foi esteo bicho, preparado a duas mãos; a dele e a da Mariquinha; ele, claro, o “gourmet” fazia o tempero com vinho, etc., e ela é que ficava responsável pelo “assar” o bicho, que tinha de ir para o forno com a” vinha d´alho” e pelo tempo proporcional à quantidade de quilos da carne. Já não me lembro a proporção, mas sei que assim era.

Comi muitas e diferentes comidas na casa do "Cinquentinha", temperadas ou não por ele, mas sempre com a participação providencial da Mariquinhas. Lembro-me de uma lagosta à “não sei quem”, parece-me que a "fidel castro",  que, diziam ser uma maravilha, eu não comia porque nao gosto da bicha. Degustei queijos, bebi bons vinhos, com a musica ambiente escolhida pelo Dr. que, diga-se de passagem, tem excelente bom gosto. Não admira as tantas namoradas que conheci, seja grande, seja pequena, mineirinha ou não, todas pareciam apaixonadas pelo galã, que sabia realmente agradar uma mulher.

Foi com ele, e por ele, que conheci muitos lugares no extremo sul da Bahia: Prado, Canavieirasou Caravelas, já não lembro, Cumuruxatiba, carinhosamente chamada pelo clã de “cumuru”, Carnaíva. Estive inúmeras vezes em Porto Seguro, imagine que até conheci Teixeira de Freitas, não sei bem para que e nem o motivo, mas sei que lá estive em companhia do Dr., com  o qual o pior lugar ficava bonito, contagiado com a sua alegria, a sua risada, a sua vontade de viver e de ser feliz. Com ele a gente vê a beleza onde ela, em princípio, não existe.

Cumuru, entretanto, de todos os lugares que estive, foi o especial, estive lá várias vezes: fui com filhos, com amigos, com o companheiro, com irmãos, aquele é um lugar abençoado, até porque, tem o Dr. Cinquentinho como filho natural. A família domina o pedaço e é muito bom ver todos eles reunidos, mesmo quando isto contrariava uma rainha com a qual ele conviveu por certo tempo e com quem, também, teve um filho.

Tive grandes momentos na companhaia do “Cinquentinha”, estive em uma das mais belas comemorações do seu aniversário, que é um evento seja em Cumuru, seja onde ele resolve festejar. Tenho muitas saudades, e vou fazer força para, este ano, no dia 06 de setembro, estar onde ele estiver para comemorar e agradecer os bons e grandes momentos que compartilhamos, nós e as nossas famílias.

Continuo tendo noticias do “Cinquentinha”, que agora toca piano, comprou um para a sua casa, e tem um tocador particular para um “happy hour”. Podre de chic! Agora tive o prazer de descobrir que ele é um seguidor do blog, pelo que agradeço, registrando, entretanto, que o começo deste texto já estava no prelo quando descobri mais um seguidor, e que para minha surpresa era ele.

Obrigada amigo, agradeço cada minuto de prazer que proporcionou a mim e aos meus, bem como a sua admiração, o seu respeito para comigo. Continue feliz distribuindo simpatia e conquistando amigos, com o seu riso franco, aberto; com o seu riso contínuo que parece não querer parar, certamente para contagiar quem esteja do seu lado e que, por mais triste que venha a estar, possa sorrir também. Um grande abraço e obrigada por me permitir conhecê-lo.  

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Quer uma prova?


No ano de 1867 foi publicado em Lisboa o Código Civil Português que,em 1869, através do Decreto de 18 de novembro, teve a sua aplicação estendida ao ultramar. O art. 8º do decreto que determinou a extensão declarava que, na aplicação do Código, deveriam ser respeitados os usos e costumes dos baneanes, bathiás, parses, mouros, gentios e indígenas.
Bom, necessariamente, para a observação dos usos e costumes dos povos acima nomeados, os julgadores, aqueles que deveriam aplicá-los, teriam de conhecê-los, o que se tornou, talvez, o maior problema da distribuição da justiça nas colônias portuguesas, pois, apesar de inúmeras vezes ordenada a codificação dos costumes dos “indígenas”, ela não aconteceu, não só pela diversidade das etnias existentes nas colônias, como, também, pelo próprio descaso das autoridades no cumprimento de tais determinações, embora algumas tentativas tenham sido feitas, a exemplo do Código Cafreal do Districto de Inhambane (1852) anterior ao Código Civil; Código de Milandos Inhambenses (1889) e outras tentativias, que não foram avante.
Entretanto, não foi determinada, somente, a aplicação do Código Civil, também o Código Penal deveria ter aplicação no Ultramar, ou seja; aos colonizados (nativos), que à época, na sua grande maioria, eram escravos, porquanto ainda não havia sido abolida a escravidão o que só ocorreu, definitivamente, em 1878, quando foi extinta a condição de “libertos”, pois, apesar da lei extintiva da escravidão datar de 1869, os escravos, que a partir dessa lei eram tidos como libertos, deveriam continuar trabalhando para os seus ex proprietários até o ano de 1878, quando deixariam de ser considerados como tais, e, portanto, ascendiam a condição de cidadãos portugueses com os direitos e garantias estabelecidos na Constituição e demais leis (Código Civil Português) e outras leis ordinárias.
Todavia, os dirigentes portugueses, apercebendo-se de que em 1878 todos os libertos galgariam a condição de cidadão português, embora, como outros, não pudessem votar, devido às restrições: econômicas (havia um limite de renda para que a pessoa fosse considerada apta a exercer seu direito de cidadania); de gênero (as mulheres não votavam); sociais (os vadios, os que sofreram condenações, os libertos); transformaram, através da lei, esses libertos em serviçais, aqueles que eram obrigados a contratar os seus serviços, sob pena de serem considerados “vadios” e, nesta qualidade, serem condenados ao trabalho compelido.
É decididamente o controle que agora tinha de ser exercido em relação aos nativos, que já não eram mais escravos, que fez com que os portugueses tivessem um maior contato com os mesmos e necessitassem de um maior conhecimento dos seus usos e costumes e criassem uma legislação especial para, a pretexto de trazê-los para a civilização, cumprindo a missão civilizacional, obrigação de toda a potência colonizadora( Conferência de Berlim - 1885), afastá-los dos seus “bárbaros” costumes, aqueles que atentavam contra moral.
E foi assim que os portugueses tomaram para si a distribuição da justiça (administrador-juiz), mui particularmente, no que se refere à punição dos atos considerados como infrações penais, porque, no direito civil, nas questões que envolvessem direitos de família, sucessão, propriedade, os usos e costumes em que as partes fossem indígenas, deveriam ser observados os usos e costumes indígenas, desde que não contrariassem os princípios da humanidade e da moralidade.
Desta maneira é que afastou-se a justiça penal “indígena”, aquela que era aplicada pela autoridade tradicional.Tal justiça era centrada na “reparação do dano causado”, ou seja, o agente deveria indenizar a vitima, ou a família desta, pelo prejuízo que causou, mas para chegar a este ponto, o da indenização, havia todo um ritual, ou seja, um processo que deveria ser seguido para que, em havendo dúvida da autoria do crime, ou para apreciar a causa dele, e os motivos que determinaram a conduta do individuo, ela fosse afastada e o criminoso(s) considerado, ou não, culpado.
 Para se chegar ao veredicto final, ou seja, considerar, ou não, o agente do crime como culpado ou inocente, utilizava-se diversas provas, incluindo a testemunhal, a confissão, mas, quando o fato era negado, havia uma prova a que o acusado era submetido. Esta prova judicial consistia em que, o acusado, para provar a sua inocência, tinha de tomar uma beberagem feita com folhas de uma planta, que era tóxica, (pau de feiticeiro). Caso ele tomasse tal beberagem e nada acontecesse, seria considerado inocente; se viesse a morrer por força da ingestão da bebida era culpado, e a sua família tinha de pagar a indenização cabível.
Havia muitas implicações em relação a esta beberagem, porque, ela admitia uma manipulação pelo responsável pelo fabrico da bebida, que não tinha uma fórmula fixa. Desta maneira, dependendo da quantidade das folhas, da água, enfim, da dosagem utilizada, o acusado poderia mesmo vir a falecer, ou vomitar a bebida, casos em que era considerado culpado. Ou seja, a prova podia ser manipulada, portanto, era uma prova falha, que somente a tradição pode explicar. Esta prova não é, ao contrário do que Ayres de Ornellas acreditava, inerente ao “direito africano”, pois  considerada como o “Juízo de Deus”  a “ordália” sempre foi utilizada para determinar a culpa ou inocência do acusado por meio de elementos da natureza, ou seja, podiam ser utilizadas as plantas (beberagens), a água, o fogo, a fim que o acusado provasse a sua inocência na Europa medieval; recordem-se dos duelos, do andar sobre o fogo, dentre outras provas existentes.
É evidente que a prova do “muave”, como era conhecido o tal juramento nas colônias portuguesas, foi proibida pelos colonizadores, mas, apesar da proibição, ela continuou a ser praticada entre os indígenas, que, agora, utilizavam cães ou galinhas como seus representantes na sua realização, ou seja; a beberagem era dada à galinha, que era trazida pelo acusado, ou acusados, se a galinha bebesse o muave e nada acontecesse, o acusado era inocentado, se, ao contrário ela morresse, a culpa estava mais de que comprovada. Ayres de Ornellas (1901.51-52) discorrendo sobre raças e línguas indígenas em Moçambique em memória apresentada no Congresso Colonial  Nacional em diz:
“[...] a do muave (nome genérico para indicar a prova por meio do emprego de substância venenosa) é que parece ser mais especialmente de invenção africana. Muave é a forma aportuguesada de mwai, nome de uma árvore, cuja casaca reduzida a povo é dada a beber com água. Frei João dos Santos, Gramitto, trazem curiosas descrições d´esta prova, hoje muito em desuso pelo alargamento da influência européia. Mesmo os macuas contentaram-se muitas vezes em da o muave a um cão representando o seu dono. Este tem a decisão a favor se o animal  escapa; É mais simples e mais inoffensivo.[...] É também facto que o effeito do muave depende  muito da maneira como é preparado e o preparador é também meio feiticeiro e facilmente peitado por este”. Raças e Línguas Indígenas em Moçambique- Memória apresentada ao Congresso Colonial Nacional, Lisboa,A Liberal, 1901 pp.51-52
Contudo, não se deixou de aplicar o “muave” aos seres humanos, pois a fiscalização dos portugueses não era tamanha que tal proibição fosse mesmo levada a efeito. A imensidão do território, povoações sem quaisquer autoridades, falta efetiva de pessoal, eram as causas desta pouca, ou, em alguns sítos, quase nenhuma fiscalização, e nesses espaços o poder tradicional e, consequentemente, os costumes, eram observados, não sendo, entretanto, somente nos territórios mais afastados que isto ocorria, como demonstra o julgamento dos indígenas – réus – o chefe Vahiua e o advinho de nome Mevenha, por este último lhe ter morto um irmão com feitiço. O indígena Mevenha, que foi procurado por Vahiua para pagar a indenização pela morte do irmão, não cedeu diante do pedido solicitado pelo chefe e propôs que ele tomasse o “muave” para provar a sua inocência. O chefe não queria que ele tomasse o “muave”, pois queria os panos como indenização, mas o Mevenha insistiu e foi pedir a um terceiro, de nome Acubo, que também foi réu no processo, que fizesse o “muave”, o que foi feito, sendo que o Mevenha tomou o mesmo e veio a falecer, o que para os indígenas significava a sua culpa.
O julgamento foi feito pelo Tribunal Privativo dos Indígenas em outubro de 1928 e o crime foi praticado em setembro do mesmo ano
 “[...] Considerando os usos e costumes indígenas, o estado atrazado de civilização em que ainda se encontram os réus, e, por conseqüência, a sua ignorância do mal que praticavam conclue-se que não houve  por parte de nenhum dos argüidos a intenção de matar, tanto mais que o “muave” foi encomendado e tomado voluntariamente pelo Mavenha, mas apenas inconsideração dos réus aliada á sua ignorância, cometendo assim o crime de homicídio involuntário previsto e punido pelo artigo trezentos e sessenta e oito do Codigo Penal, pelo que condeno o réu Vahiua na pena de seis meses de prisão correcional, e o réu Acubo com dezoito meses de igual pena nos termos do parágrafo primeiro do artigo décimo segundo do Regulamento dos Tribunais Privativos dos Indigenas, de onze de novembro de mil novecentos e vinte e sete, que serão cumpridas em Maracotera. Maracotera, vinte e quatro de outubro de mil novecentos e vinte e oito. O Chefe do Conselho(as) João de Faria.[...].” AHM-FDSNI- Tribunal Privativo dos Indigenas -  Cx1586, Anos 1928-129.
  Mesmo após a independência e, na atualidade, a prova do “muave” para confirmação de inocência é aplicada. É uma prova a que o acusado que se diz inocente se submete voluntariamente, está tão convicto da sua inocência que acredita que, mesmo sabendo que a bebida pode ser mortífera, não terá efeito algum, pois a proteção divina, do sobrenatural vai falar por si. Observe-se que o julgador, no caso, não faz qualquer julgamento, que é ditado pelo resultado da prova, ele é um mero portador do resultado da prova, declara a sentença, que, no caso de ter considerado o acusado como culpado, obrigará a família do condenado a pagar a indenização correspondente à vitima, ou à sua família.  
  E você: é inocente ou culpado? Quer fazer a prova do “muave”? 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Uma presente de São João

São João  preparou uma surpresa, desta feita, agradável.

Recebe um telefonema de alguém muito especial dizendo que chegaria a Lisboa no dia 24, onde passaria um dia e meio.

Primeiro uma reação ruim, porque era estranha aquela sensação de alguém, que  fora tão intimo,  ligar para dizer que passaria um dia e  meio  na cidade, onde, outrora, passaram dias, viajaram muito, curtiram muito, foram imensamente felizes, e agora,  isto:  vou passar um dia e meio aí, e estou com um amigo.

Passou os dias pensando nisto, achando inclusive uma coisa  mesmo muito estranha por tantos outros aspectos ainda.  Estava fora do Brasil e, por ironia, o destino lhe prepara esta. Vai ser visitada por  uma pessoa que, tempos atrás, era o seu parceiro de visitas a outrem. Se isto acontecesse há algum tempo atrás, certamente, o outro, com quem ele viajava, seria ela.

Bom, mais o fato é que o dia chegou.  Ele chegou tarde, e a metade do dia, que ele passaria em Lisboa, foi-se, sem que ela o tivesse visto, recebera, apenas um lacônico telefonema: Chegamos agora, estamos no Hotel Mundial e vamos procurar algum lugar para jantar.

Nem se arriscou a oferecer-se para ir ter com eles, pois, se quisessem  a companhia dela  o telefonema seria diferente. Pensou consigo: eles querem  aproveitar Lisboa, á noite, sozinhos, portanto...

E mais uma vez a sensação esquisita,- Uma dorzinha no peito,  pois, as vezes ainda  achava que tinha ligações fortes com aquele homem e o “nao estar” numa situação destas ainda lhe machucava.

O dia seguinte chega, ela que  esperava o telefonema, que não vinha,  já estava ansiosa, a amiga, mais ainda, porque tinha preparado uma pequena recepção para eles, não sem razão, porque: primeiro, pelo tempo que moram juntas a amiga já conhecia todos da sua familia, logicamente, com exceção do seu filho que aqui ja viera, por ouvir falar, e agora conheceria ele, que chegava para uma visita relâmpago,  também era um velho conhecido dela, porque já fizera, inclusive, parte da familia; segundo porque gostava mesmo de mostrar onde ela ficava aqui em Lisboa.

Cansada de esperar, pediu o número do hotel e ligou, falou com ele, que atendeu e disse que estavam saindo para ir a alguns lugares  que o amigo queria rever e conhecer.  Frustação! Espanto! E se deu conta, mais uma vez, não se vinha a Lisboa por causa dela ou por ela, e sim por Lisboa, apenas, porque se por ela fosse, evidentemente, que àquela altura estariam juntos.

- Tá bem, mas eu pensava que vocês queriam a minha companhia neste tour.

- Bom, nós achávamos que íamos lhe incomodar, mas se você pode,  ficamos aqui e aguardamos.
Embora cheia de receios, porque agora ela era que achava que estava incomodando, pois parecia a si que eles queriam estar sós naquela  esticada em Lisboa, foi para o Hotel.

O coração aos pulos, realmente, aquele homem conseguia mexer consigo de uma maneira para lá  de intensa.

Quando estava pedindo que o chamassem pelo telefone na recepção do hotel,  ele aparece e não só ele; havia  mais três amigos.

Tomou susto, não sabia que havia mais dois, achava que era só ele e o cardio particular, e começou a preocupar-se, agora, com a amiga que se preparou apenas para receber dois.

Procurou um momento em que eles não notassem ligou para ela e, pedindo desculpas, disse que a quantidade de gente era maior e falou o número de pessoas. A amiga, como sempre, não se importou, - E que venham eles -.  Depois do telefonema ficou a vontade, sabia que a amiga providenciaria tudo, e foi fazer o passeio por Lisboa, aquele de turistas mesmo.

Primeira parada: Elevador de Santa Justa;: ficam ali conversando na “bicha” esperando o elevador, e neste momentos é que se percebe o quanto  o sistema é inviavel. Uma fila imensa de pessoas para  subir, e o ticket é pago dentro do elevador, onde só existe uma funcionária para cobrar, fazer o elevador funcionar; enfim, não se explica. No entanto, tudo isto fica para trás quando se chega no alto, embora também tenham feito  outra coisa errada, é que no alto do elevador, onde se vê o  Tejo e metade de Lisboa (centro)  e mais o outro lado; tinha um bar, que foi retirado. Havia música e brasileira, era muito bom tomar algumas cervejas, ainda que para lá de cara, com aquele visual. A vista é magnifica, você se encanta mesmo.

Daí saíram pelas ruínas do Carmo de onde alcançaram o Chiado. Passaram por Pessoa, que continua sentado ali esperando que os seus admiradores lhe rendam homenagens, o que, sem dúvida alguma, foi feito.

Dali desceram  junto à praça Camões, uma das ruas  que dá no Cais Sodré. Ali embaixo foram ao Mercado da Ribeira, de onde saíram e tomaram uma Ginja, atendidos por um brasileiro. Na garrafeira, alguns bons vinhos.

Tomaram o elétrico e foram para a Torre de Belém: Imponente, linda, cheia de história daqui e de lá, das colônias, continuando com a sua  missão de mostrar o caminho correto a quem entra em Lisboa pelo Tejo.

Depois, uma caminhada até o Monumento dos Navegadores,  ainda em Belém, mas já na praça onde fica  o mosteiro dos Jerônimos; aqui, uma parada estratégica para um xixi,  chops, conversa fiada;  mais brasileiros servindo, e ela se sente feliz, lembrando que aquele momento,  há algum tempo, era a sua própria vida, que parecia voltar  com pessoas novas, mas o velho “casal” parecia ter renascido, estavam juntos, felizes, e com os amigos dele, o que ele tanto gostava.

Ele voltou ao hotel para pegar as encomendas que trouxera para ela, os outros entraram nos Jerônimos; Que coisa fantástica, ali se tem a sensação que se é muito pequeno. Aquilo é de uma grandiosidade tão intensa que a pessoa se sente mínima.  Fica-se o tempo inteiro a perguntar como o homem conseguiu fazer tudo aquilo, num tempo em que não havia qualquer tecnologia, isto é, igual a de hoje. Arcos perfeitos,  sustentação perfeita, claustros enormes, azulejos trabalhados no refeitório,  madeira trabalhada na sala do côro, granito e mármore esculpidos com detalhes que fazem com que se pense que se esta em um sonho, que aquilo não é real. Os questionamentos são inevitáveis: Como eles conseguiram isto? Quantas pessoas devem ter morrido nesta obra? Quanto tempo se levou para concluir esa  obra?, Enfim.

Mas a amiga ta esperando e eles precisam ir até a casa, já são duas horas da tarde e eles saem do Jerônimos e seguem para  a casa dela, em Carnaxide.

Alegria total, a amiga esta feliz, tal qual ela. Em principio quatro homens, de uma vez só, naquela casa, já era motivo de uma grande festa, porque ali não entra homem normalmente, a não ser o “encanador”, o Sr. Armando, que agora ja lá não tem o que fazer, porque a máquina de lavar louça já não faz mais parte do mobiliário, o homem do gás, da energia, da água, enfim. Depois era o  “homem” que estava ali em carne e osso, e a prova viva de que já tivera um companheiro, que não fora um  “marido virtual” como alguns pensavam.

Divertiram-se a valer, lembranças de outros amigos, casos; tudo enfim lembrava o seu antigamente com aquele homem. As pessoas notavam a sua felicidade e até faziam comentários sobre “os dois”, não muito bem aceitos por ele.

O queijo da serra da estrela fez sucesso absoluto. O Cartuxa mais ainda, aliás, recomenda-se; torradas, presunto, tudo artigo de primeira e de Portugal. Comeram, beberam, conversaram, mas tinham de ir. Ainda iriam até a Expo.

Foi o que fizeram, pegaram o taxi e foram para a expo, uma parte moderna e linda de Lisboa, onde se pode ver a grandeza da Ponte Vasco da Gama, o aquário, a estrutura arquitetônica da estação de comboio, autocarro, metro, uma grandiosidade da engenharia portuguesa. 

Ali sentaram no Senhor peixe, comeram  ameijoas, camarão, tomaram imperiais e mais conversa fiada. Não havia compromissos, a não ser o de voltar ao hotel, o que fizeram um pouco mais tarde, porque eles queriam  ir ao fado. Ela deixou-os e foi  para casa mudar de roupa, entretanto, no caminho, parou, parou para  beber mais uma taça, quase tomou uma garrafa de vinho sozinha. Para variar, chorou, pelas lembranças, pelo dia, pela saudade, aquilo era êfemero e fulgaz, e estava saindo, mais uma vez, sem que ela quisesse, das suas mãos.

Um telefonema lhe tira  deste momento de tristeza, era ele, que dizia que os planos tinham  mudado, que ela viesse para o hotel de onde sairiam para jantar, eles estavam cansados e queriam dormir.

Chegou ao hotel e foi até o oitavo andar,e mais uma boa e agradável surpresa.  Ali tem um restaurante de onde se pode ver toda a praça do Martim Moniz, e muitos outros lugares de Lisboa, ficou encantada.

Saíram do hotel e foram até as Portas de Santo Antão, mais piadas, mais risos, mais alegria.Comeram bacalhau atendidos por um brasileiro, tomaram vinho branco, sorriram. mas a hora era chegada, e ela tinha de se despedir, não havia outro maneira:  triste, mas  conformada, ela o fez, e, mais uma vez, sozinha, retorna  para casa.

No caminho se questiona: Será que isto foi um sonho?

Na manhã do dia seguinte o mesmo questionamento: Isto foi um sonho?

Se não tiver sido, agradece aos personagens dele: Carlos,Carlinhos, Juarez, Miraldo e Vera:

 MUITO OBRIGADA!